A Cura
4 Capítulo 4 - A Novela, o Real, e o Guarda-Roupa
Final do Capítulo 3: Alan está quase conseguindo dormir, mas ouve um grito muito alto e agudo de Lúcia:
– Socorro!
Ele levanta correndo, e ouve um barulho de algo enorme caindo ao chão.
Quando entra no quarto, Lúcia está deitada no chão, agonizada, com as pernas presas no guarda roupa, que caiu ao chão. Sem forças para falar, ela aponta o dedo para o ventilador, quase se desprendendo do teto. Ele tenta fazer a maior força possível, mas não consegue levantar o guarda roupa.
- Oh meu Deus! Lúcia! Fique calma, espere aqui, eu vou pedir ajuda. – Diz Alan.
Lúcia não queria ficar sozinha. A cada minuto que passa, sente mais dores nas suas pernas ensanguentadas, esmagadas, presas no guarda-roupa. Se uma ambulância não chegar rápido, ela irá morrer por perda de sangue.
O ventilador está a um passo de se desprender do teto. Este ventilador foi comprado em uma grande loja de produtos do lar, há um ano. Ele é um caso especial, pois era mais barato que os outros ao seu lado. Mas na cabeça de Alan isso não fazia sentido. Como um ventilador com hélice de metal e com um lustre tão bonito, pode ser mais barato que um simples ventilador com uma lâmpada amarela? Ele perguntou a um vendedor da loja, que respondeu: “Esse ventilador chegou aqui faz um bom tempo. Ele é de uma marca suíça e peça única no nosso estoque, mas nunca foi vendido. Segundo a lenda, o homem que inventou este produto estava com ódio de um primo de segundo grau que tentava roubar sua mulher. Ele fez o ventilador, igual a esse, e deu de presente para seu primo, mas na verdade ele tinha intenção de matá-lo. Implantou o ventilador em cima da cama da vítima, mas deixou os parafusos soltos. Na mesma noite, quando seu alvo estava dormindo, ele invadiu sua casa e jogou um livro enorme no ventilador, que rodando, caiu em cima de seu primo e o matou. Não se esqueça de que isso é só uma lenda. Quer levar? Se pagar a vista te dou um desconto de nove por cento.” Alan, por ser escritor, nunca acreditou em lendas, e sabe que a poucas não foram inventadas. Ele levou o ventilador.
Alan ainda não chegou com a ajuda. Não há mais tempo. Lúcia continua olhando para o ventilador, ligado, e clama por ajuda. O ventilador se desprende do teto e cai em direção à sua cabeça. Os lustres se quebram em frações de segundo e os pedaços de vidro invadem seus olhos, boca, e garganta. Em seguida, a hélice do ventilador cai, rodando. Corta parte seu nariz, desfigura seu rosto, arrancando quase toda pele, e cortando seu pescoço e cordas vocais.
Dez segundos depois, Alan chega com paramédicos e dois homens para levantar o guarda-roupa, mas já é tarde de mais. Lúcia está morta. Ele não consegue olhar para a terrível cena no quarto de hóspedes.
Alan liga para Jordana:
- Lúcia morreu.
- O quê? – Diz Jordana em estado de choque – Não entendi direito!
- Lúcia morreu. Venha aqui agora. – Alan desliga o celular.
Jordana chorando, conta para Victor, que dirige o carro até o local do acontecimento. Ela chega para seu primo, e com lágrimas derramando sobre seu rosto, pergunta:
- O que aconteceu?
- Eu estava indo dormir, quando ouvi um barulho e um grito. Cheguei ao quarto de hóspedes e ela estava deitada no chão, e o guarda roupa em cima de suas pernas, que estavam esmagadas e presas. Tentei levantar o móvel com a maior força possível, mas não consegui. Fui correndo pedir por ajuda na rua, e em menos de um minuto voltei ao quarto, e o ventilador tinha caído na direção de seu rosto. Ela já estava morta.
- Minha vida é uma tragédia! Eu preferia estar morta nesse momento.
- Você acha que pra mim também é fácil? Depois daquele dia no helicóptero minha vida mudou completamente.
Os dois se acalmam e Jordana diz:
- Lúcia morreu depois de Luís.
- Como assim? – Pergunta Alan.
- Na minha visão, o helicóptero cortou os dois. Primeiro Luís, depois Lúcia. Agora eles estão mortos.
- Ainda não estou entendendo! Explique-me direito. – Diz Alan, segurando os ombros de sua prima.
Muito triste, chorando e soluçando, Jordana diz:
- Eu não sei o que está acontecendo. É uma terrível coincidência. Na minha visão, o helicóptero estava prestes a atingir a torre, aí a garçonete que me atendeu pulou da janela da torre. Depois o helicóptero virou e sua hélice... – Ela não aguenta de tristeza e para de falar.
- E cortou Luís e Lúcia. É isso que você quer dizer? – Pergunta Alan.
- É... Mas continuou virando e atingiu a torre e jogou muitas pessoas para fora e quebrando todas as janelas.
- E você está dizendo que Luís e Lúcia morreram exatamente na mesma ordem que eles morreriam na torre?
- Isso que percebi. Isso que quero que seja apenas uma coincidência. Mas não importa se é ou se não é, está acabando com minha vida, pois... — As pupilas de Jordana dilatam e ela não aguenta e para de falar novamente.
- Só há uma forma de saber isso. Tenho que saber se a garçonete está viva. Mas não sei se tenho o telefone dela.
- Você pegou o telefone do Paulo no memorial. Talvez ele saiba de alguma coisa.
- Certo, vou ligar para ele.
Alan pega o celular em seu bolso e liga para Paulo:
- Paulo, é você?
- Sim, quem está falando?
- Alan. Você tem contato com a garçonete?
- A Alice, sim, eu ando conversando com ela. Por quê?
- Minha prima morreu e eu achei que a garçonete estivesse morta.
- Não, Alice está viva. Por quê?
- Esqueça, desculpe o incômodo, tchau.
- Certo... Tchau.
O dia surge depois de uma noite terrível. Alice, em sua casa, liga a televisão para ver o jornal e se espanta com a notícia dita pela repórter Maria, do Canal 6: “Nessa última noite, Lúcia Wake Baseggio faleceu após ser atingida por um guarda roupa e um ventilador. Ela é a segunda sobrevivente do acidente na Torre Yin Yang a morrer”. A jovem Alice pega seu celular e liga imediatamente para Paulo, que estava dormindo, mas atende:
- Paulo, eu te acordei?
- Acho que sim.
- Tenho uma notícia horrível para te dar.
- O que aconteceu?
- Está passando no jornal do Canal 6 uma notícia falando que outra sobrevivente do acidente na Torre morreu.
- A prima do Alan?
- Deixe-me ver... Acho que Lúcia Wake.
- Alice, ela é irmã da Jordana, que teve a visão, e tia do garoto que morreu ontem de manhã. Se não fosse a visão, os dois teriam morrido conosco na Torre Yin Yang. Alan me ligou ontem à noite e me contou a notícia. Ah, e ele está doido, achou que você estivesse morta.
- Eu estou ficando com medo dessa história. Tomara que seja uma bela de uma coincidência. E tenho mais duas notícias.
- Posso saber quais?
- A primeira é que eu terminei com o Henrique. Argh! Nem consigo mais falar esse nome. A segunda é que amanhã farei uma Ressonância Nuclear Magnética para ver de onde vêm umas dores que ando sentindo na coluna. Sou muito jovem para isso.
- Naquelas máquinas gigantes?
- Sim, e ainda morro de medo. Por isso você vai me acompanhar!
- Verdade?
- Sim. Lembre-se: onze de Dezembro às quinze horas! Ah, e antes disso vamos almoçar no shopping, porque eu tenho que te perguntar outra coisa que não pode ser pelo telefone. Combinado?
- Está bem.
Diana Myers acaba de gravar o novo capítulo da novela que se passa a noite no Canal 3 (O canal se chama Sistema Televisivo Internacional, que disputa audiência com o Canal 6, que por sinal leva este nome mesmo). A novela se chama Leucócitos do Rancor. Ela atua como a protagonista Lívia, jovem moça bonita e trabalhadora, que recebe maus tratos de todos os colegas de trabalho por não poder andar. Um trecho da cena gravada hoje conta a seguinte história:
Lívia acaba de chegar ao trabalho e se encontra com Luna, sua chefa:
— Oi Luna, tudo bem? – Pergunta Lívia.
- Melhor estava sem sua presença. E faça algo útil hoje – Sugere Luna -, busque um cafezinho para mim.
- Você sabe que essa não é minha função.
- Primeiramente, não me chame de “você”. Chame-me de senhorita, ou melhor, madame. E em segundo, essa não sua função, mas eu quem mando aqui, então me obedeça.
- Você não pode me tratar assim!
- Ou essa mulher é surda ou é burra. Já falei pra me chamar de madame. E outra coisa, se não está satisfeita eu te demito com o maior prazer, mas como sou uma pessoa muito bondosa, não vou te demitir porque sei que morrerás de fome na miséria. Então vá pegar meu cafezinho, me trate com respeito e nunca, nunca mais reclame de nada.
- Está bem, madame. – Lívia se retira e vai pegar o cafezinho.
Voltando a realidade, ao terminar de gravar este capítulo, Diana sai para fazer compras no shopping. A atriz chega ao centro comercial e se depara com dois jornalistas, que a perguntam:
- O que acha das duas mortes de sobreviventes da torre Yin Yang? Você acha que corre perigo
Sem saber de nada, Diana responde com outra pergunta:
- Como assim? Que morte?
- Nos dois últimos dias, duas pessoas que desceram do elevador minutos antes do helicóptero colidir com a torre, assim como você, morreram de estranhos acidentes. – Responde um jornalista.
- Disso eu não sabia...
- E a pior coisa, eles morreram de formas violentas. Um foi partido ao meio por um tobogã em um parque aquático, a outra foi atingida e cortada por um ventilador. Como você acha que vai morrer?
- Hoje eu não estou com brincadeiras. Dê-me licença. – Diz Diana tentando desviar dos repórteres, mas outro chega e faz uma pergunta mudando de assunto:
- Até quando Lívia vai aguentar os maus tratos de Luna em Leucócitos do Rancor?
- Bom, o diretor me permitiu revelar três coisas bombásticas. – Diana começa a falar, mudando seu rosto para uma feliz afeição – No capítulo que gravei hoje, que vai passar semana que vem, Lívia vai deixar de tolerar a falta de educação de Luna e vai pedir demissão. Depois com raiva, a vilã vai matar um dos protagonistas. Pode ser eu, ou os outros três. Já fiquei sabendo também que Luna vai levar um tiro na coluna e deixar de andar. A outra coisa é que ela em uma cadeira de rodas vai matar quinze pessoas de várias formas até o final da novela.
- Você pode morrer na novela semana que vem então. Será que também poderá morrer antes com os outros sobreviventes da torre Yin Yang?
A atriz fecha a cara, se irrita, e sai do meio dos repórteres os empurrando. Na praça de alimentação do centro comercial, ela avista duas pessoas conhecidas. Ela chega perto dessas pessoas e reconhece que são dois sobreviventes da torre. Uma é a garçonete, e o outro é um cliente. Diana chega perto dos dois e pergunta:
- Vocês estavam na torre. É verdade que duas pessoas morreram?
- Diana Myers? Você aqui? – Responde Alice.
- Sim. Responda-me rápido. Duas pessoas morreram depois que desceram da torre conosco ou é pegadinha do Canal 6 para me deixar nervosa?
- É verdade. Essas duas pessoas eram parentes da Jordana, que teve a visão. O garoto que morreu no parque aquático era filho dela. A mulher que foi atingida por um ventilador era sua irmã.
- Era só isso que precisava saber. Tchau. – Diana sai de perto dos dois. Eles continuam conversando.
- Alice, o que você disse no telefone que ia me dizer pessoalmente? – Pergunta Paulo.
- Estava com vergonha de falar... Mas vamos direto ao ponto – Alice suspira -, você quer namorar comigo?
Os dois se levantam da mesa e Paulo responde com um grande beijo. Eles se abraçam e ela lembra que tem hora marcada:
- É... Acho que já está na hora de ir para o hospital.
- Tem certeza que quer fazer essa ressonância?
- Sim. Meu ortopedista que indicou, disse que eu estou muito jovem para ter dores na coluna. E concordo.
- Também concordo. Vamos ao hospital no meu carro. É no da Avenida Central?
- Sim.
Alice e Paulo se levantam de suas cadeiras e vão direto à saída do estabelecimento. Entram no carro e vão direto ao hospital. Enquanto isso, Jordana está com Victor e Alan em sua casa, e ela começa a lembrar de sua visão. Ouve gritos.
- Passou de novo pela minha cabeça. – Diz Jordana.
- O que passou? É algo relacionado à visão? – Pergunta Victor.
- Sim. Ela passou de novo sobre minha cabeça, foi algo muito rápido. Só consegui ouvir gritos, ver a garçonete pulando, e o resto vocês já sabem. – Diz Jordana.
- Espere aí... A garçonete pulou, e logo depois o helicóptero passou? – Pergunta Alan.
- Sim... – Diz Jordana.
- Se for assim, ela foi a terceira a morrer. – Sugere Alan.
- Por quê? – Jordana não intende muito bem o que seu primo quer dizer.
- Quando ela pulou, o helicóptero passou e cortou as pessoas, e Lúcia e Luís. Seguindo a ordem, ela caiu ao chão somente segundos depois. – Explica Alan.
- Exatamente. – Concorda Jordana.
- E você já sabia disso? Por que não nos avisou? Ela corre perigo. – Diz Alan.
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