A Cortesã
11 Revelação - A verdade
Notas iniciais
Fitzadam Price desceu dos lençóis quentes, espreguiçando o corpo másculo e belo. A pouca luz do quarto iluminava parcialmente e mostrava as sombras bruxuleantes contra a parede coberta por papel decorativo.
— Para onde te diriges a esta altura? — A Cortesã levantou o rosto delicado, limpo e a revelar a verdadeira beleza por trás de toda maquilhagem usada no dia-a-dia. Apoiou a mão no queixo e o cotovelo no colchão, assistindo o homem se vestir.
— Algo incrível tem acontecido nos últimos dias, Lizzie tem se recuperado.— Levantou os braços para vestir a camisa e logo a seguir as calças. Caminhou até a mulher e a beijou profundamente nos lábios volumosos, demorando-se, mostrava o desejo de permanecer ali ao seu lado. — Não terei esquecido os acontecimentos recentes mas a Guarda Real permanece em devida alerta e…
— Não se preocupe, Fitz — Charlotte virou o corpo para o lado, os pensamentos muito distantes para se incomodar com a partida do benfeitor, na verdade era preciso colocar as ideias no lugar.
Umas semanas atrás, após James a ter salvado do intruso, como forma de agradecimento decidira enviar os remédios tradicionais, usados anos antes pela mãe deste. Tivera a certeza do pacote ter sido entregue nas mãos do Duque de MountBatten, no entanto não acreditara uma única vez que o mesmo o usaria.
Lizze tem se recuperado. Ouvira Fitzadam dizer e esboçou um sorriso matreiro no rosto, antes de ronronar um adeus para o marido da mesma. Uma ironia insensata da vida.
Nunca mais vira James desde o dia o qual estivera em seu quarto, pois acordara de manhã com a certeza da ausência não só física tal como sentimental.
O Infante desceu as escadas um tanto apreensivo, pendurou o casaco em cima do ombro e abandonou a casa da sua amante, sendo seguido por quatro Guardas. Montou o cavalo a galope, tendo recebido a mensagem muito antes de desfrutar do belo corpo negro, e preferido usufruir antes de comparecer a presença do Rei.
Foi recebido no salão Real com um estalo. O Irmão era uma visão mais velha e mais gorda de si mesmo, e um bocado careca também. Estava sentado no trono e olhou para os outros dois que se encontravam presentes. A Marquesa e William Harris cujo rosto exibia uma estranha marca em processo de sarar.
— Bando de incompetentes! — Bradou batendo com força no braço da poltrona real. A voz arfava junto dos perdigotos que saltavam entre o farto bigode. — Tanto tempo e nada foi conseguido! Marie Du Rothandberg a inveja máxima fez com que não conseguisse manter uma amizade falsa? E o senhor Harris acha que será digno de um título nobiliárquico quando mal consegue invadir uma casa para roubar uns apontamentos? E o senhor meu caro irmão, mais tempo passas a meio das pernas da prostituta que a tentar descobrir o necessário? MERDA! È assim que retribuem ao vosso Rei?
A Marquesa Du Rothandberg se ajoelhou aos pés do mesmo, numa lamúria sem fim. A belíssima e forte mulher parecia ter entrado em desespero.
— Charlie Dumont os escondeu senhor. As criadas já reviraram toda casa a procura e nada, imagina que o assunto é de igual importância pois inclui o nome de Emília. — Sussurrou em lágrimas, a viúva sabia com toda certeza o que aconteceria se os escritos da prostituta se espalhassem por toda Europa.
— Pois me comparas com a vadia de vossa filha, senhora? EU SOU O REI. Mandarei prende-la e torturá-la se for preciso, já que vocês três não são dignos de minha confiança.
— Que culpa temos se ousaste dormir com homens e preteres as mulheres? — Fitzadam se atreveu, criando um desconforto no salão. Viu William passar a mão no rosto, pela ferida adquirida na fuga da casa da Cortesã.
O Rei Price estreitou os olhos tão azuis cinzas quanto do irmão e sentiu a mão tremer.
— Estarás louco, irmão? Me difamas diante da plebe? Como te atreves? Estará o prazer a toldar-te a memória? — Deixou escapar um riso baixo e nervoso e olhou para o que ainda não tinha falado nada até então, o rosto vermelho pela raiva contida. Mais tarde acertaria contas com Fitzadam.
— Me perdoe a intromissão, majestade. Eis o que acho: O sumiço de Charlie Dumont chamaria atenção desnecessária para nossa Corte, sendo esta uma figura peculiar e com amizade com o Rei da França. — Tossicou para clarear a garganta. — Acredito que uma moeda de troca seria de mais-valia, se descobrirmos algo de importância e o tomarmos, então a mulher estará disposta a negociar, e vossa majestade poderá pedir os manuscritos.
O Rei se recostou mais na cadeira, esticando o copo de prata para o criado servir mais vinho. A mão cheia de anéis e pulseiras tilintavam ao movimento repetitivo do copo a ir para a boca. Deu sinal com a cabeça para William prosseguir.
— Existe entretanto algo ainda por descobrir, desconfiança minha. O meu cunhado James York terá de certeza tido alguma ligação com esta mulher. Não sei em que altura, mas se me permitir uma viagem e algumas moedas para pagar por informações, com certeza lhe trarei algo relevante. — Concluiu cheio de orgulho das próprias palavras, e sorriu para a viúva que o fulminava com o olhar, revelava a raiva por detrás dos olhos escuros por não ter conseguido informações necessárias.
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Anunciaram a chegada de suas alunas e se espantou ao ver apenas Maribelle com um sorriso encantador, e veio abraça-la com todo o carinho possível.
— As lições têm resultado, minha senhora.
— Charlie, por favor. Sente-se — Ocupou um lugar no sofá vitoriano e cedeu espaço para a loira estar ao seu lado. Servindo chá no novo jogo de porcelana adquirido.
— Charlie. — Maribelle repetiu como a coisa mais engraçada do mundo.— Adrian está diferente comigo, temos feito algumas loucuras. — Cobriu a boca com as mãos e abafou o riso envergonhado. Parecia outra jovem, diferente da triste e amedrontada.
— E Irina? Nunca mais regressou desde a primeira lição. — Comentou, o tom revelava pouca preocupação na verdade, pois teria sido difícil olhar para aquela que dormia com James.
— Está preocupada com toda esta situação. Seu noivo não parece muito empolgado para seguir com o noivado, e tem estado muito distante. — Respondeu com certa tristeza, a voz soando baixa o suficiente para ninguém mais ouvir o que contava.
— Perdão, S’nhora. — Edith surgiu de pupilas dilatadas e um quanto nervosa. Antes que pudesse falar, dois guardas entraram para inspecionar a sala e logo em seguida, Elizabeth York entrou. Com o belo olhar azul ordenou que os homens se retirassem, enquanto as duas mulheres se levantaram para a encarar.
A diferença se notava na pele mais rosada, no cabelo mais vibrante por baixo do chapéu rendado e nos lábios avermelhados. Todas se cumprimentaram com vénias curiosas, e se sentaram enquanto a criada ia preparar mais chá.
— Uma surpresa — Charlie quebrou o clima estranho. — A que devo a honra, sirvo presente para lhe afirmar o prazer em vê-la melhor.
— Partilho de mesma satisfação. — Maribelle adiantou.
— Soube das suas lições. Pretendo participar — Mostrou o caderno de capa de couro e a caneta dourada que trazia. — Quero conquistar meu marido, ninguém melhor que você para me ensinar.
A Cortesã abriu a boca e voltou a fechar, os olhos escuros se cruzaram primeiro com a srta. Gilleston e depois com a mulher do Infante.
Suspirou fundo.
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— James? James? Terás escutado uma palavra sequer do que te disse?
O Duque levantou os olhos preguiçosamente, estavam azuis e revelavam certa confusão. Era como se tivesse dormido e despertado sem saber.
— O quê? — Uniu o sobrolho e viu Irina menear a cabeça enquanto tirava a mesa de almoço. Atirando os pratos na pia da cozinha com certa fúria e voltou batendo com as mãos na mesa.
— Estou tão cansada! — Os lábios tremeram. — Não sei o que tem acontecido, nos últimos meses andaste mais afastado, James. Eu não posso viver desta forma!
— O que queres, Irina? — Levantou-se para segurar a sua noiva, encanta-la em seus braços e não sentiu nada para além de um frio glaciar. — Sei ter sido injusto com a tua pessoa todo este tempo. Simplesmente não sei o que fazer. És uma mulher magnífica e mereces o melhor.
— Vamos casar e ter filhos, nos mudamos para o Condado York e..
— Eu não posso.
A sinceridade escapou com uma faca afiada direcionada para o peito da jovem Harris. Esta se afastou dos braços amados e encontrou o rosto sincero do noivo. Pestanejou e se afastou dele, com uma mão na cintura e outra no pescoço.
— Eu.. não quis vos pressionar, senhor meu noivo. Apenas…
— Não é tua culpa. Eu neste momento não consigo prosseguir, preciso de um tempo para colocar as ideias no lugar.
— Conheceste outra mulher? — Os olhos estavam marejados de lágrimas cujo orgulho não deixava cair.
— Uma mulher de sempre, nem com a distância e nem com o tempo. Nunca saiu de minha vida, e, enquanto eu não resolver de uma vez o problema… Não conseguirei seguir em frente.
Irina deixou-se cair ao chão, cobrindo o rosto entre os joelhos e negou qualquer avanço do noivo para a consolar. Queria estar sozinha.
O Duque de Mountbatten abandonou a sua casa, cavalgando apressadamente em direção ao que mais queria. Fazia mais de um mês sem a ver, se debatia numa luta interna e dolorosa. Um dia teriam que pôr fim a aquilo.
— CHARLOTTE! CHARLOTTE!
O céu estava alaranjado se despedindo do sol e pronto para abraçar a lua. James York estava em cima do cavalo inquieto, o peito subia e descia sem parar e o cabelo curto esvoaçava junto do casaco longo.
— Senhor York. — A prostituta tentou esconder admiração, encarando o olhar azul fulminante, tal forma que parecia penetrar a alma e despi-la. — Senhorita Dumont, para si.
— Nos deixemos de jogos idiotas. — Saltou do cavalo, as botas contra a relva esverdeada. — Eu quero a verdade, a verdade!
— Há anos atrás, eu lhe trouxe a verdade e o senhor me repudiou em praça pública.— Fez questão de o lembrar, a voz agora desprovida de ironia e cheia de uma amargura e dor. — Por que deveria lhe dar, quando a renegou?
— *Ainda guardo o vosso primeiro retrato. Quando eras o broto de uma rosa e a inocência exalava dentro desse negrume iluminado que são os seus olhos.
Por que me olhais com tamanha amargura? Não tereis vergonha daquilo em que te tornaste?
O desabrochar da tua rosa por onde todos passam em troca de ouro. E esses espinhos que a contornam e me impedem de a tocar sem verter meu sangue?
Cortesã? Cortesã? Foi essa forma que encontrastes para desfiar o meu coração?
Hoje me ignoras tal como certa vez vos ignorei em praça pública. Repudiei o vosso coração, não esqueço, mas jamais neguei o meu amor pela senhora.
Quantas vezes teria ensaiado para dizer tais palavras? Escrevera e decorara, na esperança de um dia poder fazer o que era certo. Um vislumbre da antiga criada da Vivenda passou no rosto da jovem negra que engoliu em seco após ouvir tais palavras.
Quantas noites mal dormidas? Lágrimas incontáveis e o sufoco da perda? Poderia tudo se render a um único acto?
— Imaginas o quanto eu sofri nesta vida, como te atreves a julgar-me? — murmurou e baixou os olhos apenas para não ver o rosto do homem a quem sempre amou.
— Charlotte.. eu vi. Tu e o meu pai, vocês..
— Ele me estuprou, James. Foi por esse desgosto que vossa mãe morreu. — Revelou num tom cheio de mágoa e frieza. Passara tantos anos a esquecer o episódio destruidor de sua vida. Ignorara a culpa que sentia, o nojo, o desprezo.
— Não posso crer. — Ele se afastou, incrédulo. Os olhos brilharam pela humidade. — Isso é impossível, o meu pai nunca…
— E ele sabia que eu estava grávida de um filho teu quando o fez.
Charlie Dumont tinha o maxilar retesado, mas não conseguiu segurar as lágrimas quando James caiu de joelhos diante dela.
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