A Cortesã
12 A Primeira Vez
Notas iniciais
Um amor pode ser alimentado de diversas formas, seja espiritual ou material, ou mesmo no pleno desejo de o obter.
A Vivenda York ficara vazia com a partida do pai e do filho, deixando a senhora York numa solidão apenas suportada pela presença de Charlotte, a quem encarecidamente continuou o trabalho do filho ao ensina-la a ler e escrever. Nem o facto de Ana estar melhor fizera Richard levá-la com eles.
Os meses teriam decorrido um atrás do outro, sem nenhuma data previsível para a volta dos mesmos. A criada sentira como nunca o quanto se tinha apaixonado, relembrando cada aula partilhada, no roçar dos dedos suaves contra os seus, no olhar azul ternurento, na forma como os lábios rosados se moviam para a corrigir e no sorriso orgulhoso quando acertava em algo.
Como esquecer?
O inverno chegou com o vento frio e chuva constante. Edmond o jovem que costumava acompanhar James na caça, era o único com quem a moça conversava sobre o filho dos patrões.
— A senhora Ana gosta de mim — Comentou Charlotte junto a fogueira improvisada do lado de fora onde a maioria dos empregados se reuniam para jantar, conversar nas diferentes línguas africanas, envoltos em cobertores.
— Claro que gosta mas não te tomaria como mulher do seu filho, deverias tirar isso da cabeça! — Tão escuro como a noite, o jovem pareceu vomitar farpas ao pronunciar tais palavras de forma a machucar a amiga. — Envolve-te com os teus. Não tarda terá um mulato a correr pelas ruas sem um sobrenome do pai.
— Blasfémia! — Acusou-o sem esconder a indignação. Levantando-se da roda e partindo para o quarto dentro da casa, junto ao da senhora York.
Charlotte sabia como as bocas maldosas a ofendiam pelas costas devido a aproximação à James durante a estadia deste na Vivenda, tal como a forma privilegiada do tratamento dado pela senhora Ana. Ainda assim, nada era mais dolorido que as saudades esmagadoras.
Foi numa noite onde flocos de neve despencavam do céu cobrindo toda Hempshire, em que as palavras de Edmond se tornariam comprovadas de certa forma. A bela negra despertou de seu sono ao ouvir soluços vindos do quarto de sua senhora e tomada pelo susto, correu para a amparar. O quarto estava iluminado pela lareira cheia de vida e a mãe de James lia uma carta sentada na poltrona branca.
— Elizabeth realizou o seu noivado na semana passada. James conta a tristeza pela minha falta e diz que o pai a confinou de volta para a Igreja até a data do casamento. Sequer a mandou para que a visse — Ana choramingou de forma cortante, se perguntava o que teria feito para merecer tal castigo. — Existe essa Cortesã Francesa que o acompanha para todos os lados. As vozes contam da sua beleza estonteante e de como agrada os demais. Tem a juventude já não mais existente em meu corpo.
— Cortesã? — Estava junto as pernas longas e alvas de sua senhora, observando o rosto belo sendo abraçado por uma solidão sem fim de suas próprias lágrimas.
— Mulheres boémias, feitas para substituir as senhoras dos homens casados. Prostitutas de luxo. — explicou com certa mágoa. Sorriu ao ver a criada levar as mãos a boca admirada pelas palavras ditas. Acariciou a cabeça coberta pelo lenço. — James manda lembranças para ti. Não há nenhuma carta onde não vos recorde. Diga-me meu bem, terá sentimentos pelo meu filho?
A moça baixou o rosto, engolindo em seco tão alto que a garganta ardeu. As bochechas arderam e o coração não sossegou dentro do peito.
— Por que a pergunta, senhora? — Esquivou tão depressa quanto os ratos quando apareciam na cozinha, e as cozinheiras se punham a persegui-los.
— És uma rapariga linda e inteligente, de coração nobre. A vida no entanto não é um conto de fadas, por isso peço-lhe para ignorar qualquer sentimento permeado em vosso coração. James é ainda jovem e cheio de emoções, a vida o reserva mil amores por vir e a sociedade é algo destruidor. Uma relação contigo pode eliminar quaisquer oportunidades do meu filho progredir na vida da qual poderá se arrepender mais tarde e culpa-la. Poupem sofrimento.
Charlotte se afastou da carícia, os olhos cheios de lágrimas se levantando para longe de sua senhora. O coração se partiu em mil pedaços.
— Não perceberás agora, és muito nova e cheia de sonhos. O amor é uma fábula, querida. Procura a segurança, antes. Um jovem como Edmond compartilha de mais em comum com a vossa pessoa, por favor, pense nisso.
Mas a criada nunca pensou, pois tais conselhos serviram apenas para confirmar algo da qual já desconfiava. O jovem York nutria sentimentos por sua pessoa, tão fortes quanto os seus, e por isso a mãe se dignara a tomar medidas.
Tal facto se veio a comprovar na ceia de natal, onde Ana comprara um bonito vestido cor púrpura para a sua criada, uma forma de se desculpar pois sentira o quanto Charlotte a evitara depois da última conversa. Esta também mandara preparar um pequeno banquete, montara a árvore de natal e embrulhara presentes por baixo. Iria enviar para os filhos e o marido mais tarde, no entanto queria passar a noite numa falsa alegria e por isso pedira a companhia da jovem.
Lá fora uma chuva de neve acompanhava o ambiente da grande lareira de tijolo na sala de jantar. As duas conversavam enquanto comiam o peru e até se deram ao prazer de degustar de um dos vinhos de Richard York.
Charlotte não estava acostumada a beber, breve seus lábios incharam e os olhos pesaram. Os risos se tornaram constantes junto da sua patroa que lhe contava histórias do seu tempo de glória na Corte. Os segredos das esposas de homens com grandes títulos nobiliárquicos, os amantes, as festas perdidas e toda uma alegria a qual Ana jamais parecera ter algum dia vivido.
Quando James York adentrou na sala, com o longo casaco coberto por flocos e o cabelo ligeiramente molhado, as duas mulheres questionaram a bebida.
— James? — A mãe deste sentiu as pernas estremecerem e se levantou num rompante para o abraçar, os dedos delgados correram pelo rosto esculpido e gracioso daquele a quem mais amava na vida. Lágrimas desceram dos olhos azuis e o beijou na testa enquanto o puxava para um abraço. — James!
— Mãe, não pude deixa-la sozinha neste dia. És minha família — Retirou o casaco, revelando o fato de três peças por baixo e os olhos estavam fixos numa Charlotte tímida, cujos olhos escuros olhavam os próprios pés. — Senhorita Charlotte.
— Senhor York. — Fez uma ligeira vénia sem o encarar e sentiu a voz escorregar. O peito rufava tambores africanos num tom quase audível. — Vos darei minha ausência para que possam se entrosar a vontade.
— Por favor, fique. Faço questão. Eu e minha mãe teremos muito tempo para conversar — Garantiu o jovem York ao se sentar na mesa de frente para a ela, tendo a mãe do seu lado direito.
Quando Charlotte finalmente ergueu os olhos, encontrou o sorriso singelo na cara daquele por quem nutria sentimentos infindáveis, começando a duvidar se ele realmente compartilharia do mesmo.
— Não esperava a vossa visita, meu filho. Na última carta o vosso pai mencionou os exames para aderir a Ordem, visto teres terminado a universidade com honras. — Prontificou-se a servir o peru e as batatas assadas, chamando por uma das criadas para servir mais pão e vinho.
— Não vou aderir a Ordem. Eu vim a Vivenda para ficar — Afirmou James e logo a seguir, Edmond e mais dois ajudantes passaram pelo corredor em frente com vários baús e pertences do mesmo.
Ana engoliu em seco.
— Co-como assim? — Indagou, a tez ficando pálida tal como quando estava doente.— O vosso pai jamais permitirá tal feito. E trarás a vossa noiva para cá?
— Eu cancelei o noivado — A resposta do filho fez com que a mãe pousasse a taça de prata na mesa, mostrando a incredulidade apenas com os gestos.
— Sua irmã não deve se casar antes do irmão mais velho, não é de bom-tom. Richard não deve estar satisfeito com tais decisões — murmurou com a voz baixa, pois bem lá no fundo sabia a razão de tudo aquilo.
— Sou maior de idade, devo seguir minha vida como achar melhor para mim. — James olhou para Charlotte ao dizer tais palavras.
Naquela noite, a inquietação tomou conta de Charlotte, revirando entre os lençóis numa alegria e medo pela presença de James na Vivenda. Quando todos foram dormir, o corpo se ergueu mesmo contra a sua vontade, segurou num candeeiro e seguiu pelo corredor frio e vazio até bater na porta do herdeiro York.
Quando este abriu a porta apenas de roupa interior, houve um momento de silêncio em que duas almas se encontraram de forma apaixonada.
— Perdão, eu… Me perdoe! — A criada não sabia o que tinha ido ali fazer ou dizer, sentia apenas que precisava de o ver para acalmar toda tempestade de seu coração.
— Não vás — Pediu pela segunda vez no mesmo dia, e segurou o seu braço com delicadeza. — Entre.
A negra consentiu com a cabeça, agradecendo pelo calor do quarto amplo. Junto a lareira, alguns livros se espalhavam no chão do tapete, onde James se apressou a sentar e indicar que ficasse junto dele.
— Machado de Assis, Livros e Flores — Apontou para a página aberta e o entregou para ela o ler. Se tal pele não fosse escura teria ficado vermelha como um tomate.
“Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?
Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?”
Lá fora o vento chiou, atirando os flocos de neve para todos os cantos possíveis. Havia uma tensão quase visível pelo momento.
— Certa vez terás perguntado a razão de a ter beijado, Charlotte. Fui sincero na altura com a resposta dada, mas creio então que se tenha transformado mais de que apreço pela sua pessoa. — A voz saiu rouca e firme, e a mão escorregou para agarrar a fria da bela mulher. — Nutro sentimentos mais fortes e verdadeiros que alguma vez pensei sentir. Todo este tempo sem a vossa presença me fez perceber o quanto necessito de lutar para estar do vosso lado. Queria saber se pretendes fazer parte desta luta?
Como resposta ela o beijou quase num desespero, a alegria mesclada ao medo do que poderia advir. Se estavam juntos naquela luta, sairiam vencedores. Ou pelo menos era o que pensavam.
James aprofundou o beijo e soltou um gemido involuntário pela proximidade. Por quanto tempo teria desejado aquilo?
Puxou a toca do cabelo deixando os caracóis caírem pelos ombros abaixo e enterrou os dedos na sua nuca. Charlotte nunca hesitou, deixou seu corpo arder como as labaredas da lareira, sentindo cada toque e descobrindo o próprio corpo através das mãos hábeis do seu amado.
O corpo inteiro foi beijado, de cima abaixo sem exceção. Uma confusão crescente quando a língua invadiu sua feminilidade, a sensação molhada e áspera se revelando algo incrível a qual jamais esperara sentir em toda sua vida. Em nenhum momento questionou sobre o certo e o errado, apenas sabia existir uma ligação ao qual dois seres compartilhavam momentos íntimos, momentos de amor.
O corpo do jovem York era branco como leite e estava todo arrepiado em contraste contra o seu. Deitou-se por cima dela, a beijando nos lábios carnudos e acomodando o membro no centro de suas pernas. Introduziu devagar, sem pressa, sabendo que sua amada nunca antes se deitara com outro homem, e afirmando para si mesmo que ia honrá-la como sua mulher.
A jovem reclamou da dor quando o inusitado rompeu sua pureza, e mordeu os lábios com força, se perguntando se alguma vez iria se acostumar. Prendeu os braços nas costas brancas, arranhando-as em seguida com toda sua força, tentava encontrar o mesmo desejo de antes, da língua atrevida. James a beijou no pescoço e nos seios, provocando sensações desconhecidas, e se afastou o suficiente para que sua mão pudesse escorregar para o botão do prazer. Ainda assim, o corpo masculino movia-se num vai e vem ritmado, intercalando com os gemidos roucos e profundos.
Charlotte sentia o fogo tomar conta do momento, e sorriu para James quando os olhares se cruzaram, os dele tão azuis e límpidos, lhe retribuiu o sorriso antes de estremecer em espasmos contra a sua feminilidade, e desabar com o peso inteiro sobre si.
Era só a primeira vez. Ainda teriam muitos momentos de prazer.
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