A Coroa e o Coração
18 O Resgate de Ferro e a Cela de Ouro
A noite na floresta foi subitamente rasgada pelo som de cascos galopando furiosamente e pelo brilho de tochas que serpenteavam entre os pinheiros como serpentes de fogo. Analis, que costurava uma pequena manta de lã à luz de uma única vela, sentiu o chão da cabana vibrar. O instinto de mãe a fez se levantar num salto, a mão pousando protetoramente sobre o ventre já proeminente, onde o fruto daquela noite de pecado e desespero crescia em silêncio.
Ela não teve tempo de fugir. A porta da cabana, o lugar onde ela e Drake haviam jurado amor eterno, foi escancarada com um coice violento. Lorde Vallon entrou primeiro, seguido por seis guardas da elite real, cujas armaduras refletiam a luz das tochas de forma fria e ameaçadora.
— O que é isso? — gritou Analis, recuando até a parede, os olhos arregalados de pavor. — Saiam da minha casa!
— Por ordens diretas de Sua Majestade, o Rei Robert Brooke — declarou Vallon, a voz gélida e oficial — a Princesa deve ser conduzida imediatamente de volta ao Palácio de Verão. O Rei foi informado de sua... condição.
— Eu não vou a lugar nenhum! — Analis pegou uma faca de cozinha sobre a mesa, as mãos tremendo, mas o olhar firme. — Ele me mandou embora! Ele me chamou de lixo! Digam a ele que prefiro morrer nesta floresta a ser prisioneira do seu desprezo novamente!
Os guardas não hesitaram. Sob as ordens implacáveis de Robert, eles avançaram. Analis lutou com a força de uma leoa, gritando e tentando se desvencilhar, mas a força bruta de homens treinados para a guerra era esmagadora. Eles a seguraram pelos braços, imobilizando-a com cuidado para não ferir o ventre, mas sem qualquer delicadeza com sua vontade. Ela foi arrastada para fora, vendo a cabana desaparecer na escuridão enquanto era jogada dentro de uma carruagem blindada, trancada por fora como uma criminosa de Estado.
A viagem de volta foi um pesadelo de solavancos e lágrimas. Quando a carruagem parou no pátio do palácio sob uma chuva torrencial, Analis foi escoltada pelos corredores que um dia governara. Seus pés descalços e sujos de terra pisavam no mármore frio até chegar ao gabinete real. As portas se abriram, revelando Robert de pé diante da lareira. Ele parecia mais forte, revigorado por uma energia sombria e possessiva, mas seus olhos queimavam com uma mistura de triunfo e fúria.
— Deixem-nos — ordenou Robert, sem desviar o olhar dela.
Assim que a porta se fechou, Analis avançou, o rosto molhado de chuva e mágoa, a dignidade sendo sua única arma.
— Como você ousa? — ela sibilou, a voz vibrando de ódio. — Como ousa me caçar como um animal depois de me descartar?
Robert caminhou até ela, parando a centímetros de seu rosto. Ele baixou o olhar para o ventre dela, e sua mão, trêmula de emoção contida, tentou se aproximar da curva da barriga. Analis recuou como se tivesse sido picada por uma víbora.
— Não toque em mim — ela avisou, os dentes cerrados.
— Você pretendia esconder meu filho de mim? — perguntou Robert, a voz baixa e perigosa. — Pretendia deixar o herdeiro deste trono crescer na sujeira, Analis?
— Eu pretendia dar a ele uma vida sem a sua sombra! — gritou ela, batendo no peito da armadura dele. — Uma vida onde ele não fosse um lembrete de "pecado" ou "fraqueza"! Você me expulsou, Robert! Você disse que se sentia um lixo por me tocar!
— Eu mudei de ideia! — Robert segurou os ombros dela com força, os olhos faiscando. — Você carrega o futuro deste reino. A única coisa que sobrou da minha linhagem. Você não sairá mais deste palácio. Será tratada como a Rainha que deveria ser, mas não dará um passo fora destes muros sem a minha permissão.
— Você está me transformando em sua prisioneira? — Analis riu, uma risada amarga e sem alegria. — Acha que pode me forçar a te amar de novo através de grades de ouro?
— Eu não preciso do seu amor, Analis — mentiu Robert, o coração gritando o contrário enquanto ele a encarava com um desespero maníaco. — Eu preciso que você esteja aqui. Eu preciso desse filho. E você ficará aqui, por bem ou por mal, até que essa criança nasça.
Analis olhou para o homem à sua frente e percebeu que a guerra e o luto haviam finalmente quebrado o que restava da sanidade do Rei. Ela estava de volta ao palácio, mas desta vez, o lar que ela amava havia se tornado sua cela mais luxuosa, e o homem que a protegera era agora seu carcereiro.
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