A Coroa e o Coração

13 O Silêncio entre os Tronos



​Após o banquete, o calor excessivo de Robert deu lugar a uma frieza súbita e cortante. Consumido pela culpa de sentir o coração disparar pela mulher de seu falecido filho, o rei impôs a si mesmo uma penitência de silêncio. Ele passou a evitar os jardins nos horários em que Analis caminhava e limitava suas conversas ao estritamente necessário durante as refeições, mantendo os olhos fixos nos pratos de prata.

​Para Analis, aquele afastamento foi como uma segunda viuvez. Ela, que encontrara no sogro o único pilar que a sustentava, sentiu-se subitamente à deriva.

​— Majestade — chamou ela certa noite, no corredor que levava aos aposentos reais, ao notar que Robert tentava desviar o caminho para não cruzá-la. — Fiz algo que o ofendeu?

​Robert parou, de costas para ela. Seus ombros, outrora imponentes, tremiam levemente sob o manto de arminho.

​— De forma alguma, minha filha — respondeu ele, a voz soando gélida, forçada. — Apenas os assuntos de Estado pesam mais do que o habitual. Peço que me dê licença.

​Ele partiu sem olhar para trás. Analis ficou parada na penumbra, sentindo um vazio gelado se instalar onde antes havia o conforto da proteção dele. Nos dias que se seguiram, ela começou a notar detalhes que antes ignorava: sentia falta do som da risada rouca de Robert, do modo como ele a segurava com firmeza e, principalmente, da sensação de segurança que só ele conseguia prover.

​Uma noite, incapaz de dormir, Analis caminhou até a biblioteca. Para sua surpresa, Robert estava lá, sentado diante de uma lareira quase apagada, segurando um retrato de Drake. Ele não percebeu a entrada dela.

​— Perdoe-me, meu filho... — sussurrou o rei para o retrato, a voz carregada de uma agonia dilacerante. — Eu tento lutar, mas cada vez que a vejo, sinto que estou traindo a sua memória e, ao mesmo tempo, encontrando a única razão para ainda querer viver.

​Analis, escondida atrás de uma estante, levou a mão à boca. O coração dela, que ela acreditava estar morto junto com Drake, deu um solavanco doloroso. Ela percebeu que a falta que sentia de Robert não era apenas saudade de um sogro; era o desespero de uma mulher que estava começando a amar o único homem que a valorizara quando o mundo a descartou.

​Ela deu um passo à frente, revelando-se na luz fraca do fogo.

​— Robert... — chamou ela, a voz carregada de uma ternura que a assustou.

​O rei levantou-se num salto, o retrato quase caindo de suas mãos. Seus olhos encontraram os dela, e por um longo momento, o respeito ao falecido e o desejo proibido travaram uma batalha visível em seus semblantes.

​— Você não deveria estar aqui, Analis — disse ele, tentando retomar a frieza, mas falhando miseravelmente quando ela se aproximou mais um passo.

​— Eu não consigo mais ficar sozinha naquela escuridão — confessou ela, as lágrimas brilhando nos olhos. — O senhor me salvou da Inglaterra, me deu um nome... e agora me condena ao silêncio? Eu sinto sua falta, Robert. Mais do que eu deveria.

​O ar na biblioteca ficou denso, carregado de uma eletricidade perigosa. O rei Robert sentiu o peito arder, a dor física de seu coração acelerado misturando-se à necessidade de abraçá-la. O conflito era devastador: amar Analis era a glória e o pecado de um homem que já não tinha nada a perder, exceto a própria alma.