A Coroa e o Coração

12 O Baile das Sombras e das Lembranças



​Um ano se passara desde que o silêncio da morte se instalara no palácio. O Reino dos Países Baixos tentava florescer novamente, mas as cicatrizes da guerra ainda eram visíveis. Para honrar a memória de Drake no aniversário de sua partida, o Rei Robert organizou um banquete monumental. O salão principal estava decorado com milhares de tulipas brancas e velas de cera de abelha, criando uma atmosfera que oscilava entre a celebração e a saudade.

​Analis, agora reconhecida por todos como a Princesa Brooke, vestia um traje de seda azul-profundo, a cor favorita de seu falecido marido. Ela aprendera a caminhar com a dor, transformando-a em uma elegância melancólica que cativava a todos.

​Robert, por outro lado, parecia ter recuperado uma vitalidade estranha. Ele vestia suas melhores galas e, durante todo o jantar, seus olhos raramente deixavam Analis. Ele a observava não apenas com o carinho de um sogro, mas com uma intensidade nova, uma proteção que beirava a possessividade.

​Quando a orquestra começou a tocar uma valsa lenta, Robert levantou-se e estendeu a mão para ela.

​— Concede-me esta dança, minha querida? — pediu ele, a voz mais suave do que o habitual. — Drake odiaria ver você sentada enquanto a música toca.

​Analis aceitou, sentindo o calor da mão do rei envolver a sua. No centro do salão, sob o olhar atento da corte, eles começaram a girar. No entanto, algo estava diferente. Robert a segurava com uma firmeza incomum, puxando-a para um pouco mais perto do que o protocolo exigia.

​— Você está deslumbrante esta noite, Analis — sussurrou ele, inclinando a cabeça para perto do ouvido dela. — Às vezes, quando olho para você na luz das velas, sinto como se o tempo estivesse pregando peças no meu coração.

​Analis sorriu tristemente, sentindo um aperto no peito.

​— Sinto falta dele a cada segundo, Majestade.

​— Eu também — disse Robert, mas sua respiração estava pesada. — Mas sinto que, enquanto você estiver aqui, uma parte da luz dele continua viva. Você se tornou o meu porto seguro, Analis. O único motivo pelo qual eu ainda encontro forças para governar.

​Durante a dança, Robert começou a ser excessivamente carinhoso. Ele acariciou o braço dela com o polegar de forma lenta, e seus olhos buscavam os dela com uma urgência que a deixava confusa. De repente, o rei tropeçou levemente, levando a mão ao peito. Seu rosto empalideceu por um segundo, mas ele não soltou Analis.

​— Majestade? O senhor está bem? — perguntou ela, preocupada, tentando parar a dança.

​— É apenas o meu coração, Analis... — ele respondeu, fechando os olhos por um breve momento enquanto recuperava o fôlego. — Ele insiste em bater mais forte do que deveria quando estou ao seu lado. Não se assuste. É apenas a vida querendo me lembrar que ainda sinto as coisas.

​Ele depositou um beijo demorado e terno na mão dela, mantendo o contato visual por mais tempo do que o necessário. Havia um brilho febril em seu olhar. Analis sentiu um calafrio percorrer sua espinha; a linha entre o amor paternal e algo mais profundo e desesperado parecia estar começando a se dissipar na mente do velho rei.

​Robert a conduziu de volta ao trono com uma delicadeza exagerada, recusando-se a soltar sua mão até que ela estivesse sentada. O banquete continuava, mas para Analis, o ar no salão parecia ter ficado subitamente mais pesado.