A Coroa
6 Traição
Notas iniciais
POV — Lívia SP
Era domingo e eu não estava nem um pouco afim de levantar. O Brasil é um país católico, em sua maioria, por isso foi construída uma capela onde eramos obrigados à ir nos domingos de manhã. Haviam freiras e um padre. Assistíamos a missa e depois as freiras nos davam aulas de boas maneiras. Era um saco, namoral.
Eu não tinha uma religião formada ainda. Meu pai não ia na igreja e minha mãe era católica, mas não se importava muito em seguir o que a religião dizia. Eu supostamente deveria ter crescido na igreja católica, mas nunca fui batizada, nem cheguei a fazer Crisma, então eu praticamente não era católica, no meu ponto de vista. Não é como se eu não acreditasse em Deus. Talvez eu fosse agnóstica. Não sei direito. Eu não buscava compreender nada, nem através da bíblia, nem através de pesquisas científicas e razão. Eu só estava vivendo sem vontade de ir atrás de um Deus, que eu acreditava que poderia existir, mas eu não queria segui-lo.
Para ir à missa, usávamos um vestido diferente. Era um mais comportado, longo e simples. Pra mim era até melhor usar vestidos simples, eram mais confortáveis também. Não só os príncipes e princesas, mas as damas de honra e os cavalheiros também deveriam ir à capela.
Pensei que fosse ver o garoto da chuva de ontem, mas não o encontrei. Pedro também não compareceu. Eu ainda queria saber quem era ele.
Depois da missa e das aulas de boas maneiras com as freiras, voltei para o meu quarto afim de me vestir com algo mais curto. Um vestido simples de verão, que não passasse dos joelhos mas que também não fosse curto ao ponto de eu me sentir desconfortável sentando na grama. Eu ia andar. Coloquei uma sandália ao invés de um salto. Não fazia muita diferença, ambos machucavam os pés, só que um fazia o calcanhar doer e o outro só causava bolhas. No meio do caminho encontrei Ana Luiza.
—- Ei Ana. Você não foi ontem.
—- Eu estava com um amigo. Mas tenho certeza que falaram muito mal de mim, certo?
—- Sim... mas não se importe.
—- Eu não me importo.
Ela não merecia todas aquelas fofocas. Eu me sentia mal por ela.
—- O que faz aqui? -- ela perguntou.
—- Decidi andar. Sei que você adora andar também, por que não caminhamos juntas?
—- É claro.
POV — Pedro SP
Eu estava à procura da Lívia. Eu me sentia mal por ter quase transado com a Ana Luiza ontem, acabei me deixando levar. Quem eu realmente queria ver era a Lívia. Caminhar com ela, conversar. Talvez dançar na chuva. Fui até o bosque, pensando encontrar ela lá. E encontrei, caminhando com a Ana Luiza. "Droga", não podia deixar a Ana Luiza me ver. Como eu chamaria atenção da Lívia agora?
—- Você está espiando a Lívia? -- uma garota me assustou ao aparecer de repente.
—- Quem é você?
—- Yasmin. Sou dama de honra da princesa Lívia... e você é?
—- Pedro. Mas não conte à Lívia, não quero que ela me odeie... ainda.
—- Ah meu Deus, você é Pedro? Ela tá louca pra te conhecer.
—- Sério? -- me senti enganado por mim mesmo. Se eu tivesse simplesmente contado, seria muito mais fácil.
—- Mas de qualquer maneira, você não pode se esconder por muito tempo.
—- Eu sei. Me ajuda? Preciso falar com a Lívia mas a Ana Luiza não pode me ver.
—- Quem é Ana? Aquela gordinha ali?
—- Ela não é gorda.
Eu não devia estar defendendo ela, mas também não podia deixar isso passar. Ela tinha muito peito, muita bunda e coxa. Mas ela não tinha barriguinha e nem um braço grande. Ela era gostosa... pra caralho.
—- Tanto faz. Você quer a Lívia, certo? Então não defenda a Ana. Não vou com a cara dela.
Ela foi atrás da Ana. Pensei que ela iria começar uma briga ou algo do tipo, mas na verdade, ela foi bem simpática. Ambas. É claro que depois da Ana ter sido simpática comigo ontem, pude perceber que ela não agia do mesmo jeito com a Lívia e muito menos com a Yasmin. Ambas estavam sendo falsas e estava notável. Yasmin sussurrou algo no ouvido de Lívia e depois puxou a Ana, que sorriu de maneira bem falsa. Eu não conseguia acreditar na capacidade das garotas de serem falsas.
—- Você. -- Lívia me encontrou. -- Estava te procurando.
Aquilo tinha feito meu coração acelerar, mais do que quando eu estava na cama com a Ana. Eu tinha certeza que era a Lívia.
—- Você estava? Eu também estava... -- ela me interrompeu.
—- Ana me contou o que você fez com ela ontem.
—- O quê?
—- Você abusou dela.
—- Eu não fiz isso!
—- Ei... fez o quê?
Eu abri os olhos e me deparei com a Lívia, me encarando preocupada. Eu estava sonhando. Eu acabei dormindo enquanto observava as duas caminhando. Agora ambas estavam me encarando desconfiadas. O quanto eu tinha falado?
—- Eu não... fiz. Eu esqueci. -- eu respondi, envergonhado.
Ana Luiza começou a rir. Eu não conseguia mais olhar pra ela sem me lembrar da noite anterior, mas ela agia como se nada tivesse acontecido. Será que tinha sido um sonho também? Será que era sábado, no horário do jantar? Eu estava começando a ficar muito mais confuso.
—- Você estava sonhando. Espero que não tenha sido um pesadelo muito ruim. -- Lívia disse e me ajudou a levantar. -- Quer caminhar com a gente?
Eu acabei aceitando, mas foi muito estranho. Eu fiquei do lado da Lívia, enquanto ouvia ela e a Ana falarem sobre a escola. Caminhamos durante a tarde toda. No final da tarde, Ana Luiza disse que estava cansada e queria ler, então nos despedimos e ela sussurrou no meu ouvido "quem é mais bonita?". Eu não consegui responder a tempo, mas eu olhei direto para Lívia, que nos encarava confusa. Quando voltei a olhar pra Ana Luiza, ela estava sorrindo.
—- Até amanhã, Pedro.
Vadia, fez de propósito. Antes de se virar eu percebi o jeito que ela me olhara, como se tivesse se vingando de algo que eu na realidade não tinha feito. Quando olhei pra Lívia, ela estava ainda mais confusa.
—- Pedro?
—- É. Pedro, de São Paulo.
—- Você é um príncipe? Por que não usa coroa?
—- Acho cafona.
—- Como ela sabia?
—- Eu também não sei.
—- Você... por que faltou todas as aulas? E o jantar?
—- Eu... posso explicar, mas antes, vem comigo. -- eu a puxei em direção a parte fechada do bosque.
Dentro do bosque havia um labirinto. Eu matava aula lá, então já sabia como entrar e sair sem me perder. Ela não parecia confiar em mim, estava meio hesitante. No centro do labirinto tinha uma mesa de piquenique. Me sentei ali e ela sentou na minha frente, me encarando, esperando ansiosa a minha resposta.
—- Eu não queria vir pra cá. Eu tentei fugir de casa, mas não deu certo.
Tentei fugir das aulas, mas reclamaram comigo. Agora eu vou ter que ir. Amanhã vai ser meu primeiro dia. Não te contei porque não queria que você pensasse que eu era um vagabundo. Eu iria te contar amanhã, e hoje eu planejava conhecer melhor você e deixar você conhecer mais de mim, para que não me odiasse amanhã, quando supostamente descobrisse.
—- Por que eu iria achar que você é um vagabundo? Tá mais pra um rebelde que nem a coroa usa. Mas por que se importou com isso?
—- Eu não sei... não faça perguntas que eu não sei responder.
—- Eu estou tentando te entender, Pedro.
—- Eu gostei de dançar contigo ontem. E gostaria de dançar mais com você.
Eu me surpreendi por falar isso para ela e ela também parecia surpresa por ter ouvido isso. Percebi que corou um pouco.
—- Também gostei de dançar contigo. Sabia que tem aula de dança na nossa escola? E os pares são nossos respectivos príncipes... e você me deixou esperando em todas as aulas.
—- É sério? -- eu comecei a imaginar a cena, de todos os pares dançando e ela sozinha, porque eu, idiota, faltei as aulas. -- Eu sinto muito.
Ela riu. Ela riu e abriu um sorriso maravilhoso. Disse que estava tudo bem, que estava só brincando e me convidou a dançar com ela amanhã, na próxima aula de dança. Meu coração acelerou. Eu estava empolgado, animado com a ideia.
—- É claro, vamos dançar amanhã então.
—- Sim. Agora tenho que ir... você pode me mostrar o caminho de volta? -- ela olhou ao redor, perdida com tantas saídas.
—-Claro.
Eu poderia ter dito para ela ficar mais um pouco. Ela não saberia voltar de qualquer maneira. Mas acho que ela tentaria sozinha e acabaria se perdendo. Eu pensei que seria muito melhor eu simplesmente deixá-la ir e ajudá-la a encontrar a saída. Me levantei e a conduzi até fora do labirinto.
—- É aqui que eu mato aula... a primeira vez, eu perdi a hora porque me perdi aqui dentro. -- ela riu.
—- Agora você sabe o caminho de cor.
—- Sim.
Depois que ela foi embora, eu entrei no castelo. Fui pra biblioteca. Ana Luiza tinha dito que me vira no coreto com a Lívia e eu sabia de onde ela observara, da janela da biblioteca.
—- Ana Luiza, precisamos conversar.
—- Claro, sente-se. -- ela deu de ombros, sem tirar os olhos do livro. Era algum conto de mitologia grega.
—- Por que contou a Lívia meu nome?
—- Eu achei que ela soubesse. Vocês passaram um bom tempo no coreto ontem. -- ela olhou para janela em direção ao coreto.
—- Não, ela não sabia. Você fez de propósito, porque eu...
—- Eu não me importo. -- ela olhou pra mim, por cima do livro. -- Fique com ela, já que a acha mais atraente que eu.
Se você é um cara e não está apaixonado, diria, ao olhar para as duas, que Ana era mais bonita. Era uma morena sedutora, de cabelos ondulados e um corpaço. Lívia era mais delicada, embora fosse bem alta. Seu cabelo era um pouco mais ondulado e do mesmo tamanho que o de Ana, mas escondiam facilmente os seios, que não eram tão grandes, nem tão pequenos. Ela era meio reta até, serviria bem como modelo se quisesse. O cabelo não era nem louro nem escuro, era um castanho, que poderia ser considerado sem graça até. Mas pra mim, ela era linda. Seus olhos verdes eram lindos. As ondas de seus cabelos eram perfeitas. E eu estava muito apaixonado por ela.
Ignorei a revolta da Ana. Eu não devia satisfação à ela por dar minha opinião e ela não precisava se preocupar com o fato de ter me entregado, porque isso me aproximou ainda mais da Lívia.
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