A Coroa
1 Regras
Notas iniciais
POV — Pedro SP
Se havia algo que me incomodava mais do que usar uniforme completo, era usar uma coroa. Eu me sentia um pouco... feminino, talvez? Se você é um garoto e diz aos seus amigos que possue uma coroa, com certeza eles não vão pensar que você é poderoso, mas sim que você é gay. Antes de vir para cá, eu nunca havia imaginado que um dia eu usaria uma coroa, nem de verdade, nem de mentira. Eu realmente não queria parecer um viadinho de merda usando uma porra de uma coroa brilhante. Consegue me levar a sério? É claro que não.
Eu vesti meu uniforme e desejei minha vida normal de volta. No 2º ano do Ensino Médio, brigando com os bichos do 1º ano, mostrando pra eles quem é que mandava, saindo com as garotas mais velhas do 3º. Eu tava de boas na minha vida normal de moleque, nada de realeza, nada de princesas. Eu não queria uma princesa, eu queria uma mina diferente, isso sim. Uma que não fosse fã de rosa, de unicórnios, de coisas fofas, de príncipes. Eu queria uma companheira pra zoar comigo, marcar nos memes, pra se foder na vida, pra mim não me foder sozinho. Falando assim eu até pareço aqueles tiozão que nasceram no começo do século. Mas eu acho que nasci na época errada mesmo. Eu vejo as coisas que eram comuns até 2018 e eu gosto. A partir de 2019 já tenho um ódio imenso. Queria ter nascido no começo do século, assim eu não teria chance de ser chamado pra cá.
POV — Lívia SP
Uma mulher simpática se apresentou como minha criada. Me senti constrangida. "Não precisa, querida", falei de modo doce, mas ela sorriu e disse com simpatia "Esse é o meu trabalho". Outra mulher, um pouco mais velha, se apresentou no local sendo uma governanta e ajudadora no quesito "se tornar rainha algum dia". Me chamou para que eu pudesse conhecer melhor a escola e me deu o uniforme para me trocar. Era do meu tamanho, como se tivesse feito sob medida para mim. Então me lembrei que enquanto eu estava no aeroporto de São Paulo, passei num SPA e depois mediram todo o meu corpo.
Fui até o que parecia ser uma escola do século 15 (se existisse escolas nessa época, seriam assim, bem acabadas mesmo) e me encontrei com um monte de príncipes e princesas. Sabia disso por causa das coroas. Fomos até o que parecia ser um auditório e ouvimos o que a mulher que nos trouxe tinha à dizer.
—- Vocês serão os donos dessa nação. Mas não todos vocês com o mesmo poder, é claro. Eu vou explicar como funciona.
"Apenas quem tem entre 15 e 17 anos terá a chance de se tornar rei ou rainha, daqui há 3 anos é claro, tendo no mínimo 18 e no máximo 20. Vocês terão um tratamento especial. Os de 18 e 19 serão os Conselheiros Reais e serão tão importantes quanto os reis e rainhas. No final desses 3 anos, escolheremos os 3 melhores príncipes e as 3 melhores princesas e entregaremos para o povo votar, eles terão a participação deles aqui também. O Rei e a Rainha escolhidos serão obrigados a se casarem. Eles governaram durante 10 anos sem intervalos ou protestos contra. Poderão criar leis e retirar leis, mas apenas com o apoio dos Conselheiros Reais.
Os príncipes e princesas que não se tornarem nem reis, nem rainhas, nem Conselheiros, por conta da idade, farão parte do povo. Eles observarão o povo e tentarão encontrar soluções para seus problemas, levando as mesmas para os Conselheiros Reais que ouvirão e participarão de uma discussão para aceitar ou não a solução dada pelos príncipes e princesas. Depois levarão para o Rei e a Rainha, que decidirão se vão cumprir ou não."
Ela parou e nos observou para ver se estava tudo certo. Eu também observei e todos estavam com a mesma reação que eu, que era mais ou menos "o que essa mulher tá falando?"
O que ela falou sobre o Rei e a Rainha serem obrigados a se casar, me deixou um pouco pior. Ninguém ali pôde escolher participar. Foi um sorteio, bem aleatório, apenas com restrição de idade e de Estado. As restrições gerais eram: ter nascido e vivido toda a vida no mesmo Estado; ter a idade permitida; não estar fora da escola; não estar atrasado na escola; ter se formado no fundamental. Claramente, ainda era uma escolha bem ampla entre muitos jovens. Não é como se tivesse diminuído as chances, pelo menos não as minhas. Mas é claro que o pior ainda não era esse.
—- Daqui há 3 anos, em 2050, todos vocês irão se casar juntos. O Rei e a Rainha serão o foco principal, é claro, e os príncipes e princesas serão como os padrinhos, só que estarão vestidos para casar, mas sem tirar o foco do casal principal. É obrigatório casar com alguém da realeza, e isso não conta com damas de honra e cavalheiros, para participar da política. Ou seja, se vocês se casarem com cavalheiros ou damas de honra, serão rebaixados ao nível deles. É proíbido o amor entre vocês e qualquer outro abaixo do nível de cavalheiro e dama. Se vocês não se decidirem com quem casar e tiver par sobrando, vou apenas juntar. Se não tiver par por algum motivo, você está automaticamente fora. Então pensem antes de decidir casar com alguém de fora, porque você estará levando outro para fora junto contigo. Bom, isso é tudo. -- ela terminou de dizer e saiu, esplêndida, como entrara.
Um pouco assustada, admito que estava. Olhei para o lado e havia muita gente cochichando, ou apenas encarando com a boca aberta. "Ótimo, onde foi que me enfiei?"
POV Esther RO
A mulher saiu dali e deixou uma multidão de pessoas assustadas. Por azar eu estava na idade certa para ser Rainha, 15 anos. Já não bastava eles terem me feito escolher 4 de 5 amigas, tendo que deixar uma sozinha para trás, estavam me obrigando a me casar por casar, sem amor, sem nada. Decidi nem perguntar sobre sexualidade, porque já tinha certeza que eles iriam querer homem com mulher e vice-versa. Porque não restringiram apenas a héteros então? Justo eu, lésbica, estava ali, encuralada. Tinha que achar uma maneira de escapar, mas não havia escapatória. Eu estava condenada a passar o resto da minha vida com um homem qualquer da realeza.
POV Ana Luiza MG
Eu havia sido sorteada como uma princesa. O príncipe de Minas Gerais era, coincidentemente, amigo do meu ex. E é claro que ele levara meu ex como cavalheiro. A gente tinha termina há 5 meses, um relacionamento que durara pouco, apenas 9 meses e meio. Terminamos por uma discussão boba, mas estávamos conversando como amigos há quase 1 mês já. Fiquei contente por saber que ele viria comigo para o castelo, mas ao mesmo tempo, não sabia se queria ficar tão próxima do meu ex. Por sorte o castelo é enorme, quase dá uma cidade inteira.
Sai às pressas do auditório e fui caminhar pelo bosque. Eu nasci em meio a bosques e era apaixonada pela natureza. Enquanto caminhava, pensava em Isaac, o príncipe de Minas Gerais. Eu não teria que me casar com ele, se não quisesse, mas pensei que seria bom para mim conhecê-lo e quem sabe eu não escolha ele só para não ficar sozinha. Afinal, se eu não me casasse com um príncipe, não participaria da política do país. Ia apostar tudo para me tornar rainha e não deixaria isso tudo por falta de compromisso não.
—- Ana. -- me virei e dei de cara com meu ex.
—- Caio?
—- Eu ouvi falar que vocês foram chamados para ouvir regras.
—- Isso é verdade. Regras ridículas por sinal, mas isso não vai me fazer desistir. Eu não estou aqui só por causa do sorteio. Quero me entregar de coração e alma nisso.
—- Então pretende se tornar rainha?
—- Mas é claro. -- ficou um silêncio.
Ele estava usando o uniforme também. Provavelmente, as damas e cavalheiros também haviam escutado regras. Ele notou que eu estava observando seu uniforme e respondeu minha dúvida.
—- Fomos chamados também. Eles nos mostraram a escola. Disseram que vão nos ensinar a se comportar como cavalheiros. Achei isso engraçado.
—- O uniforme caiu bem em você. -- "ele tá um gato", eu pensei.
—- Obrigado. Você ficou linda nesse uniforme.
—- Não acho que tenha combinado.
O uniforme era apenas uma blusa e uma saia. A blusa era branca com algumas listras pretas e a saia era preta com listras brancas. Como estávamos no verão, não usávamos aquelas meias que iam até o joelho, apenas as curtinhas com um sapatinho bem padrão. Era o tipo de uniforme que só ficava bom em garotas magrinhas, sem corpo. No meu caso, eu me achava um pouco gorda, mas o Caio sempre dizia que eu era gostosa.
—- Por que não? Esse é o tipo de uniforme que fica bem em qualquer um.
—- Não concordo. Mas fazer o que. -- eu me levantei ao ver um guarda nos chamando. -- Acho que é agora que as aulas começam.
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