A Contenda Divina
14 Uma família na floresta
Mariah acorda em um solavanco, ela se sentia sufocada e seus pulmões queimavam como se estivessem em brasas, com dificuldade, ela se vira para tossir e tentar aliviar a queimação em seu peito, com isso, jatos de água cristalina eram expelidos pela sua boca, molhando o chão à sua frente. Se deitando novamente, a garota sente seus olhos arderem com a claridade do céu cheio de nuvens enquanto sua cabeça ainda gira, a única coisa que ela conseguia perceber além da claridade ofuscante das nuvens brancas era o Sol, que parecia já ter baixado um pouco.
Ficando assim por um tempo, ela sente que perdera algo importante de sua memória, era como se um borrão de tinta preta tivesse sido derramado sobre o filme de sua vida, a sensação de ter vivido algo ainda estava lá, mas ela não conseguia resgatar as imagens de sua mente por qualquer motivo que seja.
Com muito esforço, a jovem gira sobre a areia fofa e se coloca de joelhos, limpando da melhor forma possível a sua roupa. Nesse instante, ao passar a mão por seu abdome, ela tem um flash, nele, aparece uma imagem em primeira pessoa em que ela observa um ferimento na base direita de sua barriga, quase que pegando apenas a pele, ela via saindo dele uma imponente e bela flecha dourada com inscritos, mas ela era manchada de um líquido vermelho vibrante assim como a roupa, estranhamente iguais às de Mariah.
Instintivamente a garota tateia o moletom e não percebe nada, levantando o mesmo junto com a camiseta que trazia por baixo, ela expõe sua pele alva puxada para o moreno intocada, sem sequer uma cicatriz. “Só pode ter sido um sonho” ela pensa consigo “se fosse real, eu estaria com um ferimento bem feio”. Pensando dessa maneira, mesmo que confusa, ela se coloca de pé ainda vacilando um pouco e observa o seus arredores: ela ainda estava na praia a qual lembrava ter ido depois de brigar com sua madrasta, ela tinha vindo, pensado na vida e decido que tinha errado, prestes a voltar, começara o borrão que a impedia de ver o que acontecera depois, talvez tenha caído no sono antes de se levantar de fato.
Enquanto fazia o caminho de volta, ainda intrigada, Mariah fazia um esforço mental hercúleo para tentar se lembrar de algum detalhe após o seu blackout. Obviamente, além da cena da flecha, ela não se lembrava de nada. Continuando em seu caminho, ela não tarda em escutar vozes chamando seu nome ao longe, observando bem, podia-se perceber uma voz feminina de alguém de meia idade e duas masculinas, uma bem aguda e outra já grave.
— Pai! Emily! Jonah! – Chama ela.
— Mariah! – Chamam as vozes em resposta cada uma em um tempo ligeiramente diferente.
Não muito tempo depois, o tropel de corpos atravessando ruidosamente as folhagens rasteiras se aproximam. O primeiro a aparecer é Jorge, apontando da direita da garota, enquanto ela corre para abraçá-lo, outros dois corpos aparecem da floresta, Emily e Jonah se mostram com felicidade no olhar e vão atrás da garota que já estava agarrada ao pai, que a apertava contra si, a envolvendo com seus braços.
— Minha filha – exclama ele com a voz embargada – ficamos tão preocupados, onde estava?
— Não sei pai – Mariah responde, sua voz tinha uma tristeza profunda e as lágrimas teimavam em sair de seus olhos, molhando sua bochecha e a roupa de seu pai quase tanto quanto as suas próprias roupas molhadas. Mesmo sem entender o porquê, ela deixa que elas rolem pelo seu rosto enquanto sente o calor de seu pai.
— Minha querida! – Diz Emily enquanto se aproxima, abraçando os dois e beijando o topo molhado da cabeça de Mariah – eu fiquei tão preocupada, me desculpe, eu não devia ter falado aquilo, eu não devia ter me intrometido...
Ela para, as lágrimas também rolavam em seu rosto e ela tentava fazê-las parar fechando o mais forte possível seus olhos vermelhos. Jorge solta uma das mãos da menina e pousa cuidadosamente na nuca da mulher, fazendo-a se aninhar em seu ombro enquanto ele abraça as duas de forma terna, segurando seu próprio choro de alívio.
— Venha Jonah – chama ele vendo o garoto esconder o rosto vermelho nas mãos, ele obedece e acabam todos abraçados em volta da garota. Ela não sabia o porquê, mas sentia uma saudade capaz de cortar seu peito daquele calor humano de sua família, parecia que ela tinha passado dias longe deles.
— Me desculpem – começa ela soluçando enquanto aperta mais ainda seu pai em seus braços – eu não devia ter saído, eu, eu não devia ter me zangado com a Emily, me desculpem, me desculpem de verdade.
— Tá tudo bem, meu amor – diz a mulher, com o nariz vermelho como o de um palhaço e os olhos marejados ainda entornando.
— Sim, – completa o pai – o importante é que estamos todos aqui, você está bem, isso que importa.
Os quatro ficam assim por mais um tempo, escutando a respiração chorosa de cada um se acalmar cada vez mais, a floresta parecia silenciosa como se respeitasse o momento da família, ou eles só estivessem animados demais com o reencontro para prestar atenção em qualquer outro som que não fosse o deles mesmos. O fato é que depois desse tempo de amor mútuo, Jorge chama sua família para voltarem para o acampamento onde Mariah e todos poderiam trocar suas roupas molhadas, ninguém se coloca contra a oferta.
O caminho de volta é rápido, enquanto ainda fungavam um pouco, eles iam conversando sobre o que acabara de acontecer, perguntavam se a garota estava bem, o pai inclusive se oferecera para leva-la nas costas, o que ela aceitou por saudade dos velhos tempos e também apostando que o pai cairia com ela em poucos passos, o que para a surpresa de Mariah não aconteceu.
Assim que chegam, o homem desce a garota e trata de preparar a fogueira junto com o garoto, Mariah por outro lado segue sua madrasta para dentro de uma das barracas para trocar de roupa. Colocar algo quente e seco era, para ela, como abraçar alguém de novo. Suspirado de alívio, ela retorna para perto da fogueia com suas vestes molhadas e as penduram em um varal improvisado que fizeram com algumas cordas, como a mulher já estava sentada ao lado de Jorge, suas roupas já estavam lá estendidas.
Depois de colocar as suas e as estivar o máximo possível, Mariah senta ao lado do seu pai, no lado oposto em que estava Emily, se apoiando com o ombro na altura das costelas de Jorge e apoiando sua cabeça em seu ombro. O homem assava alguns marshmallows presos em um graveto de múltiplos galhos, similar a algum tipo de candelabro não muito robusto, por isso, algumas de suas pontas já se tornavam incandescentes.
— Como é bom ter as duas mulheres da minha vida comigo – declara ele com um ar quase romântico, colocando a mão hora em um dos lados da cabeça de Maria, hora na perna da mulher que o abraçava de lado, sempre alternando a mão que segurava o graveto.
— É tão bom estar aqui com vocês de novo, — diz Mariah, imitando a mulher e abraçando o tronco do homem logo a cima dos braços de Emily – eu tive medo... eu tive medo que... – ela para, sentindo as lágrimas se formarem.
— Nós também querida – ele responde, passando seu braço pelas costas dela e a pressionando contra si – tivemos muito, muito medo, mas agora você está aqui, a salvo, conosco, me sinto muito feliz.
— Sim, meu amor – diz Emily, aproveitando a deixa para acariciar o ombro de Mariah pelas costas do pai – você está aqui, estamos todos juntos.
O homem tira a mão das costas da filha para alcançar um dos galhos do graveto em que havia um marshmallow quase pronto, com o núcleo ainda branco e as laterais tostadas em um dourado opaco. Ele quebra o galho e oferece para ela, que o aceita, mas ainda não morde, esperando ele entregar outro para a mulher e pegar o seu, como sempre fazia.
— Por falar em juntos, – começa a garota, salivando pelo cheiro delicioso do doce – onde está Jonah?
— É verdade, — concorda a mulher – ele não estava aqui com você?
— Ele está logo atrás do carro, — explica o homem, quebrando outro galho – ele disse que ia fazer algo lá e que podia demorar um pouco.
Entendendo a mensagem, eles riem e começam a mordiscar seus espetinhos de marshmellow, mas a demora do irmão faz Mariah ficar incomodada. Como se lesse seus pensamentos, pouco tempo depois Emily chama por seu filho, o primeiro chamado se perde na escuridão, fazendo tanto Mariah quanto Emily ficarem eretas, olhando para a direção do carro.
— Jonah! – Chama novamente a mulher.
— Já vou mamãe! – Grita a outra voz de lá.
E a mulher, relaxada, volta a se encostar ao marido, mas Mariah sente um arrepio passar por sua coluna, ela conhecia bem a voz do irmão, e aquela não era a dele. Suas mãos começam a tremer e à medida que aumentam a frequência da tremura, ela escuta um chacoalhar metálico vindo de algum lugar a frente dela. Aturdida, Mariah olha para suas mãos e nelas, no lugar onde estava o espeto, uma pequena adaga afiada com as mesmas cores do doce estava enfiada em meio às suas palmas, presa pelos seus dedos entrelaçados uns nos outros. Porém, não é apenas isso que chama sua atenção assim que olha para baixo, na base do seu campo de visão, quase que fora das suas vistas, ela percebe algo negro que envolve seus pés, olhando com mais atenção, ela vê que a coisa negra era um liquido que ia aumentando de tamanho como se derramasse de algum lugar, refletindo as chamas dançantes da fogueira.
Por um instante ela fica paralisada, olhando aquela poça que, lentamente se tornava vermelha da medida que se aproximava da borda, aumentava sob seus pés. Uma dor muito forte em sua barriga faz a garota se dobrar, derrubando a adaga que desaparece em meio ao líquido, Mariah mal conseguia respirar por causa da dor, muito menos chamar por ajuda.
Assim que ela dá uma ligeira melhora, a garota se inclina um pouco para trás, se mantendo ainda voltada para frente, ao olhar a palma de sua mão, ela percebe que estava molhada, mas não apenas molhada, lavada de sangue, de seu sangue! Desesperada, a garota tenta puxar o pai que estava logo do seu lado, mas sua mão abraça o ar enquanto ela tenta alcançar o pai, olhando para o lado, ela percebe que ele não estava mais lá, nem ele e nem a mulher.
Se levantando com dificuldade enquanto apoia-se na pedra em que estava sentada com a mão que não apoiava o local do ferimento, ela ensaia um passo na direção do carro, na esperança que os pais estivessem lá. Olhando rapidamente para o ferimento, ela vê, sob a mão, a auréola de sangue manchar a sua blusa de lã.
— Pai – chama ela – pai, me ajuda, eu tô sangrando!
Sem resposta.
Continuando seus curtos passos, ela caminha na direção do veículo, até que escuta passos. Eles não eram pesados e muito menos apressados, pareciam os passos de uma criança, pareciam os passos do seu irmão, mas por algum motivo seu corpo se recusa a continuar a se mover, travando no meio de um passo, com uma perna a frente e outra flexionada logo atrás do tronco. Mariah observa a lateral do veículo, iluminada apenas pela luz fraca da fogueira, os passos pareciam vir de lá.
Ainda atônita, Mariah escutava os passos se aproximarem, sem a mínima pressa, de onde ela estava. Eles não eram muito fortes, mas reverberavam na cabeça da garota de maneira ensurdecedora, cada galho partido, cada folha seca esmagada, soavam como um tiro ao lado do tímpano desprotegido da garota. Depois de longos segundos, a luz vinda de por detrás de si finalmente consegue destacar algo, parecia, à primeira vista, um disco totalmente branco que flutuava ao lado do carro, vindo em direção à garota, depois de algum tempo, o que parecia flutuar se mostrou estar sobre um corpo, vestido de um terno muito branco, que contrastava com a atmosfera escura do lugar. Junto com o som dos passos do jovem de terno que caminhava, Mariah conseguia escutar um leve murmúrio ritmado, uma canção de ninar.
A imagem fantasmagórica gela totalmente o espírito de Mariah, assim que ele chega próximo o bastante para que ela perceba pequenos furos na máscara no lugar da boca e dos olhos, o ser para como se a observasse, inclinando a cabeça levemente de lado. Seu cabelo loiro e bem penteado pende para o lado com o movimento e suas mãos ocultas atrás de si, fazem a garota rezar para todos os deuses de todas as mitologias possíveis para seu corpo descongelar, o que não acontece. Talvez a sua personalidade ateia não ajudasse muito. O garoto permanecia a observando, agora em silêncio, parado como uma estátua de mármore bem esculpida. Mariah, tremendo de medo e de esforço, finamente consegue vender o seu corpo, se lançando para trás e caindo de costas, assustando não apenas ela como o ser branco, que volta a deixar a sua cabeça ereta, mostrando uma de suas mãos, mas deixando a outra ainda oculta. Mariah se arrasta para trás, ainda sentada, na direção da fogueira, enquanto olha fixamente para o garoto.
Nesse instante, ele retoma sua marcha, dessa vez na direção da garota, que engole o desespero como pode. A princípio ele parece andar tão devagar quanto antes, mas depois ele aumenta sua velocidade, caminhando mais rápido para a garota, que agora estava ao lado da fogueira, tentando pegar uma das lascas de madeira para usar como uma tocha. Quando ela sente que pegou uma tora robusta, ela se vira para o garoto de terno e o mundo cai nas trevas ao redor dela.
Era como se a fogueira tivesse se apagado instantaneamente assim que ela puxou a primeira tora que cabia em sua mão, apenas a tocha que ela segurava emitia alguma luz, mas inexplicavelmente tudo ao seu redor estava envolto em trevas, uma escuridão total tão densa que parecia quase sólida. Nada parecia fazer qualquer barulho também, nem animais noturnos, nem os pais de Mariah, nem seu irmão e muito menos o ser sobrenatural mascarado que a perseguia a pouco.
É quando ele salta sobre ela. Sua máscara branca com três pontos ameaçadoramente próxima do rosto de Mariah, sua mão, que apesar de pequena era anormalmente forte, segurava o punho da garota a ponto de a fazer sentir uma dor aguda por todo antebraço, mas não pior que a dor que sentia em seu ferimento na lateral da barriga, ao qual ele se ajoelhava em cima para poder imobilizar o outro braço da garota com a sola do pé apoiado sobre ele na altura do bíceps, ela estava totalmente imobilizada.
— Me solta – balbucia ela como pode, tentando ignorar a dor e a pressão sobre sua barriga que tirava seu ar.
Ele nada diz, apenas ri por detrás da máscara, o que faz sua risada jovial soar abafada e fantasmagórica.
— Pai! – Ela grita, sem resposta – Pai! Socorro! Emily! Me ajudem por...
O garoto coloca mais peso sobre o ferimento, a dor é horrenda a ponto de fazer a garota perder o ar completamente, lagrimas rolam de seu rosto avermelhado e ela tenta respirar com toda a dificuldade do mundo sobre seus pulmões.
— Shhhh – sibila o garoto, colocando a mão oculta com o indicador em riste diante da garota, o dedo, para Mariah, parecia agora uma grande coluna diante de si e o sibilo baixo soava como o vento do inferno, calmo e quente, carregado de morte. Ele continua, cochichando – não os acorde, eles estão dormindo, garota.
Ele força o braço com a tocha da garota para trás de sua cabeça, mesmo tentando lutar contra o movimento, a garota parecia não ter chance, oferecendo apenas uma pequena resistência à força do garoto. Quando o movimento para, o garoto de terno maneia a cabeça para frente, hesitante, Mariah segue o movimento e o que ela vê, a choca.
Com os olhos revirados e opacos, o pai de Mariah estava deitado a menos de dez centímetros virado para o rosto da filha, sua boca, entreaberta, estava manchada de sangue, esse que também descia por ela e por um profundo corte que quase dividia seu pescoço em dois, mostrando suas camadas e formando uma poça escura no chão brilhante à luz da tocha. O coração da garota se quebra nesse momento, seu peito é tomado por uma pressão que ela nunca sentira antes e seus olhos, antes marejados, agora eram tomados de lágrimas, deixando sua visão turva e a fazendo piscar várias vezes para, primeiro acreditar no que via e segundo para conseguir enxergar aquela visão infernal.
— Não... – começa ela, quase que em um sussurro, antes de gritar desesperada – pai!
O garoto se limita a rir em silêncio, com escárnio, antes de levantar o braço da garota ligeiramente, revelando outras duas figuras. Emily estava deitada nas costas do marido, seu rosto travado em uma expressão de terror, com a boca escancarada e os olhos arregalados, fitando a garota já sem vida neles. De suas costas descia uma linha escura que, revelado pela luz da madeira em chamas, vinha de múltiplas perfurações retilíneas por todas as suas costas.
— Não! – Mariah se debatia, sem sucesso.
E logo trás dos dois, escorado em uma das árvores que permeavam a fogueira do acampamento, estava, talvez, a mais aterrorizante e gráfica visão de todas: apoiado na árvore e no chão como se estivesse sentado, estava Jonah, seu suéter, ganho pela avó no natal anterior, tinha passado de bege para vermelho de debaixo do peito até o pescoço, olhando para cima, Mariah nada conseguia ver na penumbra da distância à tocha, se apoiando mais um pouco na esperança de que ele estivesse vivo de alguma forma, ela força um pouco mais a visão, estreitando um pouco os olhos, estes que logo depois se arregalam como se fossem pular das órbitas. Aquilo que ela via naquele momento se gravava fundo em sua memória e nada poderia apagar. Saindo da gola redonda do suéter tricotado a mão pela bondosa mãe de Emily, subia o tronco do pescoço do garoto que Mariah a princípio achou estar escondido pela penumbra da fraca luz que o tronco flamejante emitia, mas a terrível verdade é que o pescoço acabava em cortes ruidosos e repetitivos, molhados de sangue que ainda brotava das artérias em pequenos jatos. Mais a baixo, caprichosamente colocada apoiada nas pequenas mãos do garoto, com fios de cabelo bagunçados disputando espaço a manchas pastosas de plasma que se espalhava, estava a cabeça de olhos fechados e boca entreaberta descansando sobre o colo do garoto.
O grito de Mariah era inaudível para ela mesma, ela se debatia ignorando a dor, ignorando o cansaço, ignorando a força do garoto sobre si, tudo que ela queria é que aquilo fosse um pesadelo, o pior que já tivera, e que agora ela acordasse e se visse de novo no banco de trás do carro do pai, com o garoto decapitado inteiro em seu assento elevado babando enquanto dormia, seu pai e Emily conversando animadamente sobre alguma coisa e o clima agradável das montanhas beijando seu rosto, mas aquilo não acontecia. Seu corpo se encheu de terror, seus olhos derramavam lágrimas e sua garganta ardia com o choro misturado com gritos, sua barriga doía e se aquecia com a pressão no machucado potencializando com a pressão do joelho do garoto enquanto ela balançava desesperadamente o copo para se livrar daquilo, ela só queria que tudo fosse uma grande mentira.
Olhando para ele com os olhos ainda derramando, ela observa a máscara branca vibrar sob a cortina de lágrimas que lavavam seus olhos, como que por pura maldade, trincas começam a se formar no buraco diante da boca, formando um sorriso disforme que ia de quase um lado a outro da máscara. O jovem, ainda observando com atenção a garota que voltava a se debater, gritar e chorar, mostra sua mão até então oculta, nela estava a adaga que Mariah havia deixado cair a pouco, manchada do sangue que deveria ser de seus pais e do seu irmão. Vendo o pequeno aparato, tudo volta à mente da garota, de uma vez, em um turbilhão. Shura, Eyria, a batalha na floresta e a identidade do ser que a imobilizava, Ganância, a encarnação de Athena. Mariah sente um grito forte se formar em seu estômago, subir pelo esôfago até passar, imparável, por sua garganta e invadir sua boca, a forçando a abri-la.
— Não!! – Ela grita, um grito longo, com toda a força de seus pulmões, sentindo seu peito queimar, sentindo a vibração do desespero em sua garganta, sentindo as lágrimas rolando para fora dos seus olhos enquanto a figura a sua frente fica mais e mais desfocada mesmo a pouca distância, Mariah sente seu espírito partido, como se a faca que matara sua família o tivesse dilacerado, a impotência e o desespero se juntam, formando um bolo em seu estômago ferido, projetando seu ar para fora dele em um berro angustiado, de alguém que perdeu tudo. Assim que ela fecha os olhos, tudo desaparece em uma névoa.
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