A Contadora de Histórias

8 Capítulo Sete – Eu cumpri nossa promessa


Notas iniciais
Eu não demorei, não conseguiria demorar para escrever isto. Por mais que meu coração esteja apertado, eu esperei por este momento desde que imaginei esta história. Quase sem leitores e quase completamente desacreditada, eu termino minha primeira história. Considerando que ainda falta o epílogo que pretendo escrever amanhã. Meus agradecimentos a todos que foram meus queridos leitores, e principalmente á Words, porque você não ousou abandonar esta história. Assim como eu, você a amou de tal forma e a viveu com a mesma intensidade. E este é o meu muito obrigada à você ♥ Sem teus comentários e incentivos, eu não teria ânimo para continuar, teria continuado sim, mas sem motivação nenhuma. Sinto que cumpri meu dever como escritora (cof cof, procastinadora), sinto que posso dar mais um passo em direção à uma nova história. Sem esquecer quem começou tudo isso, sem esquecer o quanto Cristal e Leatrice preencheram meus pensamentos. Aqui termino essa história, aguardem o pequeno epílogo de provavelmente amanhã hahaha Meu muito obrigada a todos, e uma ótima leitura ♥ Enjoy >

Leatrice começa a rir e se afastar em direção à floresta. Sua caminhada é calma e serena, sua tranquilidade é quase anormal. Mesmo numa velocidade incrivelmente lenta, sinto que ela está desaparecendo rápido demais. Tão rápido que não consigo acompanhar.

– Filha? – meu pai pergunta ansioso – Podemos ir agora?

– Pai, espero um minuto, já me encontro com vocês! – digo sem olhar em seus olhos. Preciso seguir Leatrice, há algo em meu coração que me diz que essa será minha última chance.

Que será a última vez que verei a Contadora de Histórias.

Corro para a entrada da floresta, meu vestido é surrado pelos galhos que atropelo, meus cachos louros quase se prendem às árvores e sinto minha pele gelar com o vento. Quase aos tropeços, chego em uma área sem altas vegetações, apenas um círculo de grama baixa, algumas flores amarelas e uma pedra no centro.

Uma mulher está sentada na pedra, a mulher que eu procurava. Leatrice me olha rindo, como se estivesse prevendo esse momento há muito tempo.

– Olá, minha pequena – essas palavras tocam meu coração e desabo amassando as flores. – Não me olhe assim, você sabia que este dia chegaria... – permaneço sentada no chão, encarando seu olhar acusador – Não faça essa cara de quem não sabe de nada, Cristal. Você não é assim, você é inteligente. Você sabe que eu não sou real.

A verdade dilacera meu interior, de uma maneira como nunca fez antes. Meu amigo vento se volta contra mim, numa aliança com a verdade. Meus lábios se cortam com os ares gelados e minha lágrimas congelam na maçã do rosto. Não é o ápice do inverno, o clima é agradável, mas o vento nunca esteve tão frio. Tão agressivo.

Como se estivesse me obrigando a acordar deste sonho sem sentido, o vento se uniu a chuva, que se fez lágrima. O céu chorava comigo.

– Por que... – consigo pronunciar algumas palavras – por que você existe...?

– Porque eu sou você – Leatrice levanta da pedra e senta à minha frente, ela põe a mão em meu rosto, como fizera muitas vezes, muitas vezes em que eu estava triste. – E você sabe disto, por isso estamos aqui agora... – ela nota meus soluços intermináveis – Cristal, me olhe – sua fala foi calma, mas soou com uma ordem impaciente. Ela está séria.

– Como você existe? Por que só eu consigo te ver? – algo me diz que já sei estas respostas, o fato de Leatrice não ser real, não me parece surpresa.

– Porque você me criou, Cristal. Você precisava de um apoio, de alguém que te ajudasse num momento de transição tão difícil em sua vida. Você não teria aguentado sem mim – ela parece chorar, mas não vejo suas lágrimas, elas parecem pequenos raios brilhantes, que voam para o céu e desaparecem. – Como você mesma disse anteriormente, as crianças encontram apoio nos pais, os seus lhe abandonaram. Eu fui sua mãe.

– Mãe. Não foi só isto... Você foi muito mais! Tudo o que eu precisava, você foi!

– Você precisava de confiança, precisava acreditar em si mesma e na sua capacidade! – ela segura meu rosto firmemente – Você me criou para poder aguentar toda aquela pressão. Eu sou você! Nada do que eu te ensinei você já não sabia, você só tinha esquecido, Cristal. As histórias, você leu na biblioteca. Sozinha. Assim com as soluções que você encontrava para seus problemas. Meu nome? Você se inspirou na filha da bibliotecária. Minha sabedoria? Ela é sua!

“Mas assim como você me criou, você me deu a capacidade de amar. Me permitiu desfrutar de sua companhia. Me deixou sorrir. Mesmo que seus pais gostassem de você, eles não te ouviam. Ninguém nunca te ouviu, nem você. E você me permitiu contar a você o que você já sabia. Você se permitiu ouvir sua voz.

E a medida que você amadurecia, e notava a familiaridade em minhas palavras e nas histórias que eu contava, você notava o quanto somos parecidas, até na aparência. Pode ser que você pense que conseguiu ser o que é hoje, graças a mim, mas foi graças a você.”

As palavras de Leatrice ecoam em minha mente, e começo a enxergar o tempo que passei com ela da forma que realmente foi. Me vejo lendo livros sozinha na biblioteca, me vejo limpando aquele lugar, cantando e sorrindo, novamente sozinha. Me vejo brincando no balanço minutos atrás, olhando para o céu. Não havia ninguém comigo. Nunca houve. E eu sempre soube disto.

– Você vai desaparecer agora? Não pode simplesmente ignorar o fato que sei toda verdade, e continuar ao meu lado? – digo abraçada à Contadora de Histórias.

– Sempre estive ao seu lado Cristal, sempre estarei – ela me aperta contra seu peito e percebo que não há batimentos cardíacos ali. Percebo que seu corpo está transparente e brilhante, como seu sorriso. Como nosso sorriso.

– Todas as histórias que você me contou... eu criei? – ela confirma com a cabeça – Então quer dizer... que eu sou a Contadora de Histórias?

– Todos somos Contadores de Histórias, Cristal – ela levanta meu rosto para e começa a me entregar seu último ensinamento. – Não há limites para nossa imaginação, ela nos leva às fronteiras do real e imaginável, do possível e impossível. A medida que nossos conhecimentos se apuram, novos caminhos se formam em nossa mente, para que possamos desfrutar da fantasia. Pense, sonhe, repasse e viva. Suas histórias um dia serão contadas, para outros, e sua vida permanecerá na memória. Se assim não se fizer, você cairá no esquecimento. Lembre-se, a sua maior arma contra o mundo, é você mesmo. Faça-se importante, faça-se memorável, conte as histórias dos outros que eles contarão a sua.

– Devo contar sua história? – pergunto aflita, sem saber o que fazer.

– Devendo ou não, você vai contar. Esqueceu quem você é? – começo a chorar com mais intensidade, pois sinto o momento do adeus se aproximar – Você é a Contadora de Histórias!

– Eu sou a Contadora de Histórias! – repito em voz alta, ignorando o barulho intenso da chuva.

– Cristal, me concede meu último pedido? Pode me prometer algo? Como prova de nossa amizade?

– Claro que posso, faria qualquer coisa por você... por nós – consigo esboçar um sorriso sofrido, porém, o sofrimento se transforma em felicidade. Não gostaria que nossa despedida fosse algo devastador. Melhor que seja uma despedida alegre.

– Prometa-me que vai deixar que a chuva lave suas lágrimas e voltará para os seus pais exalando apenas alegria. Prometa-me que vai embora sem ressentimentos, sem dor e sem culpa. Prometa-me que nunca vai se esquecer de mim, mesmo que eu vá desaparecer agora, Prometa-me, que no momento que você me ver pela última vez e virar-se para ir embora, você não vai olhar para trás. Sei que é capaz de fazer tudo isso. Sabe por quê?

– Porque eu sou forte – o brilho de satisfação em seus olhos não tem preço. Seu dever estava cumprido. Agora ela pode ir em paz. Ela viu que eu confio em mim mesma, que sou segura do que digo e faço. Ela sabe que farei o que tiver que ser feito.

Me solto dela e trocamos olhares, vários sentimentos se fazem presentes nesse momento. As lembranças que o tempo nunca levará, se eternizam, unidas ao nosso laço de fidelidade.

– Lembre-se, isto não é um adeus, Cristal – começamos a rir e a frase seguinte é dita num coro feito por nós duas. – Até porque, isto nunca aconteceu.

Sem adeus, sem até logo, sem despedidas. A perda torce meu coração, mas o alívio, a liberdade e alegria me renovam. Eu nunca me senti tão leve.

Mesmo que não consiga vê-la agora, por já ter me virado para ir embora, sei que ela está sorrindo, sei que ela está orgulhosa de nós. Sei que ela está tão radiante como nunca, e desaparecendo aos poucos.

Posso prosseguir de cabeça erguida. Confiante e segura. Mesmo que a chuva esteja levando minhas lágrimas de saudade, mesmo que o clima fosse de um completo velório, eu continuo a caminhar, para longe do que por um bom tempo, foi meu único motivo de felicidade. Pode desaparecer tranquila, Leatrice. Eu cumpri nossa promessa.

Eu não olhei para trás.

Notas finais
Comentários? Críticas? (Estas são as notas finais mais pobres que já vi, mas definitivamente estou sem palavras, sentirei muita saudade disso tudo ♥ )