Notas iniciais
Olá, pessoal! Espero que gostem do primeiro capítulo.
Beijos,
Catarina A.

Trimmmm!

O alarme de incêndio soou alto e estridente. Acordei subitamente e um sorriso fraco surgiu em meus lábios. Funcionou, pensei. Ainda faltavam dois períodos para acabar a longa manhã de estudos, mas todos já estavam se levantando e seguindo o procedimento de evacuação.

— Vamos lá, pessoal! Todos em fila única, devagar! — Em meio ao caos, o professor Braga clamava por ordem, sua baixa estatura fazia com que nenhum aluno prestasse atenção em seu pedido. — Isso não é uma simulação! Todos para fora!

Peguei minha bolsa e sai tranquilamente da sala, enquanto ou outros se aglomeravam buscando escapar rapidamente do possível incêndio. Embora eu não considerasse fogo em alguns papéis do banheiro um incêndio preocupante, os outros não sabiam disso.

Nem Pedro sabia dessa vez, fiz questão de manter segredo até o último momento, ele estava me esperando no fim do corredor com um sorriso cúmplice ao descobrir a responsável pelo caos. Apenas com muita dedicação Pedro venceu a multidão querendo sair do prédio.

— Você não tem concerto! — A risada do meu amigo ecoou em meus ouvidos como uma música favorita daquelas que você ouve desde que nasceu.

— O quê? Você acha que eu cometi essa irresponsabilidade? O que você pensa que eu sou? Uma delinquente? — Fiz uma encenação tentando provar minha inocência.

— Um dia eles vão te pegar, Maia. — Pedro me repreendeu, ele não aprovava a maioria dos meus planos, mas meu melhor amigo não sabia como eu cuidava de todos os minúsculos detalhes.

— Não se eu for mais rápida! — Empurrei Pedro para fora da escola com toda força que consegui encontrar — Vem! Você precisa ver isso!

Os cabelos loiros de Pedro balançavam contra o vento e seus óculos quadrados quase caíram quando o fiz parar de repente.

O time de futebol inteiro subia na caminhonete 4x4 — parecia que inteligência não era um critério para entrar no time de futebol, assim um dos jogadores já tinha idade o suficiente para dirigir — ao tentarem ligar o carro, o motor lutava para sobreviver. Vítor Nogueira, parecia estar se preparando para matar alguém quando o carro deu seu último ronco.

— Hoje você se superou, garota! — Pedro falou orgulhoso enquanto me abraçava e me puxava para irmos embora antes que descobrissem minha travessura.

Corremos para nossas bicicletas e ouvi gritos de frustração vindo da direção dos brutamontes esportivos. Um sorriso iluminou meu rosto enquanto pedalava pelo estacionamento. Fiz questão de passar pelos jogadores e fazer um gesto obsceno para Vítor.

— Boa sorte para chegar em casa, babaca!

— Foi você!

Pedalei rápido rindo alto enquanto Pedro vinha logo atrás de mim, compartilhando a sensação de sucesso. Duas ideias geniais bem sucedidas!

Não é novidade para ninguém o atrito entre eu e Vítor, sua simples presença me causava enjoos. O típico garotinho mimado que tinha o planeta todo a seus pés. Como eu sabia disso? Ele era meu vizinho.

Logo o caminho se calou e o precioso silêncio voltou a reinar. O vento soprava de leve no meu rosto enquanto seguia o caminho de casa. Tudo parecia calmo e monótono pela cidade, deixei Pedro na frente da sua casa e fui direto para a minha.

Antes mesmo de chegar à garagem, senti algo no ar, uma presença estranha, então os gritos de discussão afastaram esse pensamento e me trouxeram para a realidade. Pelo visto teríamos outra discussão no jantar, não era surpresa alguma meus pais não conseguirem se entender, terei que aguentar olhares silenciosos na mesa do jantar em apenas uma tentativa de parecermos uma família normal, mas assim que eu fosse para meu quarto eles iriam continuar o que começaram.

Passei pela porta o mais rápido possível e subi as escadas correndo.

— Maia? — perguntou a voz hesitante da minha mãe vinda da cozinha.

Não respondi, apenas fui para o meu quarto e fiquei em silêncio.

Eu gostava do meu quarto, podia não ser tão grande, mas tinha algo que me acalmava, uma sensação de tranquilidade, as dezenas de fotos de quando minha família ainda era feliz dispostas ao longo da parede, a varanda privilegiada dava para uma bela visão do jardim, que minha mãe fazia questão de manter bem cuidado. O velho balanço fugia à regra da conservação, ele parecia triste com a ferrugem cobrindo toda sua extensão, como se o ranger das ferragens desse voz ao seu lamento.

Na parede lateral havia outra janela, não tinha uma vista tão inquietante ou bonita quanto à da varanda, ela dava para uma velha árvore e do outro lado do muro, a janela do quarto de certo jogador de futebol.

Meu telefone tocou, mas não consegui encontra-lo em meio à bagunça, quando finalmente atendi, uma voz calma e tranquilizante tirou da minha mente a raiva por nunca arrumar meu quarto.

— Chamaram os bombeiros, sabia?

— Oi Pedro, nem tente fazer eu me sentir culpada.

— O Braga colocou uma anotação sobre você no diário virtual, você viu? “A aluna não apresenta interesse pelas aulas e insiste em dormir em horário escolar”. Nem um pouco responsável, Maia.

Pedro riu enquanto conferia nossas fichas estudantis. Seu trabalho na secretaria garantia acesso a algumas informações privilegiadas, era sempre bom estarmos cientes sobre o que estavam falando sobre nós.

Pedro era meu melhor amigo desde a quinta série, em seu primeiro dia de aula, ele não parecia um deslocado como eu, não teria problemas em se entrosar com a elite, era só tirar os óculos e pronto, mais um filhinho de papai na minha escola. Porém ele simplesmente sentou-se ao meu lado no refeitório e comeu em silêncio, repetindo isso nas semanas seguintes. E assim nasceu uma longa amizade.

— Uou, isso é interessante.

— O que você achou?

— O Nogueira fez uma queixa contra você.

— Babaca.

— A direção vai investigar mais a fundo. Acho que vão ligar para os seus pais.

— Eles não podem investigar quando não há provas.

— Um dia você ainda irá ser uma criminosa, Maia.

— Enquanto isso, eu descanso meus olhos na aula do Braga.

— Você insulta meus conhecimentos históricos, criança! — Disse Pedro com uma péssima imitação do nosso renomado professor de história. Pude o ouvir segurando o riso do outro lado da linha e eu explodi em gargalhadas.

— Então o que vamos fazer hoje?

— Ainda não decidi, que tal pedirmos uma pizza?

— Parece razoável — faria de tudo para sair de casa naquele momento, o clima tenso pós-briga poderia invadir meu quarto até pela fresta da porta – mais tarde passo ai.

Pedro e eu sempre vivemos grudados como irmãos, adorávamos os mesmos jogos, as mesmas comidas, ele era a única coisa que tornava minha vida um pouco mais suportável.

Quando anoiteceu, desci com cuidado as escadas sem fazer barulho, não queria ter que dar explicações aos meus pais. Minha bicicleta vermelha e enferrujada me esperava do lado de fora da casa, o que facilitou minha fuga.

As ruas já estavam desertas e escuras. A única iluminação presente era a dos postes de luz e a pálida luz da lua. Apenas metade dela estava visível, acompanhando e zelando por mim em meu trajeto.

O farol de um carro surgiu de uma rua estreita e seguia em baixa velocidade logo atrás de mim. Um calafrio percorreu minha espinha e me posicionei no acostamento para o carro ultrapassar. O vidro do carona estava ligeiramente abaixado, permitindo que eu visse apenas de relance o brilho de olhos verdes, o carro preto continuou reto até virar em uma rua sem saída. Ele devia estar perdido, ninguém entrava naquele beco, ainda mais a noite.

Pedalei com toda a velocidade ao sentir um calafrio maior ainda e um mal pressentimento, usando todo o oxigênio disponível nos meus pulmões, tive a impressão de ainda estar sendo observada.

Entrei correndo na casa do Pedro, tinha certeza que meu cérebro estava me pregando uma peça. Não havia ninguém me seguindo. Não havia ninguém me seguindo. Repeti várias vezes.

— Tem alguém em casa?

Uma garotinha saiu correndo da cozinha, agarrada ao seu ursinho de pelúcia.

— Ah, é você Maia. — Sara parecia contente e despontada ao mesmo tempo.

— Oi Sara, você está sozinha?

Sara era a irmã caçula de Pedro, eles tinham as mesmas características físicas, o mesmo sorriso, o cabelo loiro, os olhos azuis. Ela devia ter entre seis e dez anos, coisa que eu nunca era capaz de lembrar.

— O Pedro está no jardim, você pode ir lá chamar ele? — Os olhinhos dela suplicavam com toda eficiência.

— Há algo de errado?

— Ele está com o amigo malvado dele hoje, ele fica bravo se eu interrompo.

O tom de voz assustado de Sara me deixou curiosa. Que amigo era esse que ela estava falando? E por que estava com tanto medo?

Me ajoelhei em sua frente e pedi que ela olhasse em meus olhos.

— Não precisa ter medo do Pedro, tudo bem? Com ou sem amigo, ele ainda é seu irmão. — Ela acena em concordância como um cachorrinho obediente — Agora, por que você não vai dormir? Sua mãe vai chegar logo, logo.

E era verdade, Tia Sônia já estava saindo do trabalho, e era dever do Pedro cuidar da irmãzinha enquanto ela não chegava. Assim que Sara subiu para o quarto, fui investigar o jardim.

O silêncio reinava no local. A falta de iluminação dava um efeito sombrio e o calafrio voltou a percorrer minha espinha.

Um brilho avermelhado me guiou pelo jardim até chegar numa pedra do tamanho do meu punho. Ela emitia uma sensação de desespero e tristeza, causando uma dor sem origem no fundo da minha alma, um sentimento obscuro de solidão e eternidade.

— O que você está fazendo aqui?

Virei-me assustada por ser repreendida pelo meu melhor amigo. Algo mudara nele desde que o vi mais cedo, o jeito como ele me olhava, como se pudesse me devorar a qualquer momento. Sem dúvidas agora eu entendia o que assustou Sara.

— Combinamos de comer pizza, lembra? Ou vai me trocar por seu amigo barra pesada? — Perguntei fazendo drama.

— Não era para você estar aqui. Anda. Vamos lá para dentro. — Com poucos movimentos ele envolve a pedra com tecido e me empurra para dentro de casa.

— Ei, seu brutamontes! Devolve o Pedro! Não vai me apresentar seu novo melhor amigo? — Lutei contra os braços de Pedro que me guiavam bruscamente para a cozinha. Braços que pareciam mais musculosos, mas Pedro nem gostava de academia!

— Tem pizza na geladeira — ele disse friamente — mas acho melhor você ir embora, está ficando tarde.

— O quê? O que há de errado com você? — perguntei irritada, ele segurava a pedra embrulhada com todo o cuidado — É essa pedra idiota? Me deixa ver o que tem de tão especial nela!

Contra minha vontade, tentei descobrir o que havia por trás da misteriosa pedra vermelha. Pedro se assustou com meu movimento inesperado e protegeu o embrulho com o corpo, com medo que eu chegasse perto do objeto. Com rápidos movimentos ele conseguiu me imobilizar.

Sem conseguir me mexer, senti a respiração fria do meu melhor amigo no meu pescoço.

— Caramba, Pedro! Eu não ia roubar sua maldita pedra!

— Eu mandei você ir embora.

Sua voz fria e calma gelou meus nervos, a adrenalina esquentava meu sangue e fez eu me desvencilhar com pressa. Sai irritada pela porta e fui direto para minha bicicleta.·.

Mal percebi que tinha alguém me observando do outro lado da rua. Assim que me virei para ver quem era, vi o mesmo carro preto que passou por mim mais cedo. O vidro subiu rapidamente enquanto o carro arrancava e, mais uma vez só consegui notar os olhos verdes.

Não me demorei no caminho de volta da casa de Pedro, uma parte de mim queria descobrir o que havia acontecido com meu amigo, e a outra queria acreditar que não haveria sinais de briga no lugar que eu costumava chamar de casa. Quando cheguei, a lembrança da pedra vermelha me atormentou, o sentimento desagradável que ela me transmitia me trouxe arrepios na espinha. Assim que Pedro estivesse mais calmo eu iria pedir explicações, não era de seu feitio agir daquele modo.

No momento em que cheguei ao meu quarto, a cama parecia me chamar para uma longa noite de sono. O cansaço fez com que eu pegasse no sono rapidamente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.