A Coffee Tale
8 Capítulo 8
Blaine procurando por Kurt deitado a seu lado – no entanto, não o encontrou em lado algum. Desceu, ainda nu, até à cozinha onde calculou que ele estaria. O dia começava a nascer, agora.
― A gente realmente vai ficar com os horários trocados se continuarmos desse jeito ― ele riu, vendo Kurt perto do balcão, preparando algo que ele não conseguia identificar. ― Bom dia, bonito ― depositou um beijo na bochecha de Kurt e sentou-se num dos bancos que havia ali, observando o mais velho.
― Bom dia, Blaine ― Kurt respondeu simplesmente, sem o olhar. Blaine observou suas roupas: uns shorts pretos completamente indecentes que mal tapavam sua bunda e nenhuma blusa.
― Esses são seus pijamas? Me ajudem ― Blaine brincou. Kurt voltou-se para ele com dois tabuleiros em mãos e sentou-se a seu lado, soltando uma risadinha.
― Cala a boca, anão ― Kurt resmungou ― Como foi sua noite?
― Pode ter certeza absoluta que foi ótima, sr. Hummel ― Blaine insinuou. ― E sua, como foi?
Kurt deu a língua para Blaine, começando a mordiscar um bolinho que ele mesmo havia preparado. Então, perguntou: ― Você tem algum compromisso para hoje? Eu estava pensando em começar a preparar o livro e-…
― Não tenho compromisso nenhum, relaxa ― Blaine garantiu. Então, após saborear a comida de Kurt, exclamou: ― Hm, isso está bom demais. Bom de cama e de cozinha, já dá para casar. ― Kurt escondeu a cara, não querendo demonstrar que estava corando. Blaine soltou uma risadinha e continuou: ― Você fica uma gracinha quando está com vergonha.
― Vai se foder ― Kurt murmurou. Seus olhos estavam fechados e ele parecia não conseguir se decidir em de qual jeito deveria atacar Blaine.
― A gente não tem que trabalhar no livro? ― Kurt encarou-o confuso e Blaine fingiu uma cara pensativa ― É, a gente tem. Mas a foda pode ficar para mais tarde, bonito.
Kurt sentiu a cor invadir seu rosto novamente e jogou um pãozinho em Blaine, que gargalhava fortemente. Então, de café já tomado, eles não demoraram nem cinco minutos para arrumar tudo.
― O que acha de fazermos isso em meu escritório? ― Blaine perguntou. ― O livro, eu digo. ― Kurt não respondeu, temia gaguejar devido às insinuações de Blaine.
Então, eles subiram. Kurt dirigiu-se ao quarto de hóspedes para poder se vestir, trajando umas calças em tom azul escuro e uma camisola simples, em tons de cinza. Blaine também se vestiu. Então, eles dirigiram-se até ao escritório, após Kurt pegar seu laptop, e Kurt não pôde evitar notar a mão de Blaine perto de suas costas.
Kurt observou o lugar. Parecia discreto, dentro do conceito possível de “discreto” quando se refere a Blaine Anderson. A mesa principal era enorme e atrás dela havia uma grande poltrona giratória, na frente de uma parede feita inteiramente de vidro. Dali, podia-se ver o mais belo jardim que Kurt alguma vez já vira. Blaine o surpreendia cada vez mais.
As paredes eram cobertas de prateleiras sob prateleiras, cheias de livros. Num canto, algo captou a atenção de Kurt. Era a capa de A Política do Filho da Mãe.
― Você leu? ― perguntou, apontando para o livrinho.
― Claro que sim ― Blaine respondeu, como se fosse óbvio e talvez devesse ser ― Eu não estava brincando quando disse que adoro seu trabalho, Kurt.
O escritor continuou a observar o enorme escritório. A um canto, havia três pequenos divãs e uma mesa de vidro com algumas revistas em cima. A madeira do chão era clara e as paredes eram num tom de vermelho vivo que captou a atenção de Kurt.
― Você tem bom gosto ― Kurt observou. ― Vamos começar?
Blaine indicou um dos divãs a Kurt, que se sentou, e sentou-se noutro. O escritor, então, abriu a bolsa do laptop e ligou-o sobre suas pernas, batucando levemente enquanto o aparelho ligava. Blaine observava cada movimento de Kurt, até finalmente perguntar:
― Você pensou em algum nome?
― Eu não acho que conheça o suficiente de você para poder escolher agora ― Kurt refletiu. Blaine concordou e, então, quando o portátil finalmente ligou, Kurt perguntou: ― Por que você não começa me falando sobre sua família?
Blaine respirou fundo. Então, narrou:
― Bom, há Rach e Coop, você sabe. Meu pai morreu quando eu era menor e eu realmente não tinha uma boa relação com ele, tal como não tenho com nossa mãe. Rachel também não teve uma boa relação com nenhum dos dois, já Cooper foi outra história ― murmurou.
Kurt respirou fundo; ele sabia que seria difícil. Esticou sua mão para pegar a de Blaine, que fechou os olhos suavemente. Então, o escritor disse: ― Olha, Blaine, eu não sei ao certo como fazer isso, eu sou um escritor, não um psicólogo. Eu não sou bom nessas coisas, mas você sabe que terá que ser mais explícito que isso, certo?
― Eu sei, eu só-… ― Blaine respirou fundo. Então, tentou de novo: ― No princípio não era desse jeito. Cooper sempre foi o garotinho da mamãe e do papai, mas eu não era propriamente maltratado. E foi quando Sebastian morreu; eu me fechei, deixei de falar para quase todo mundo e quem mais sentiu isso foi Rachel, sabe? Ela ficou mal, ela não tinha atenção dos pais que não queriam saber da filha doente e ela acabou me perdendo também. E quando eu me apercebi, era tarde. Mamãe estava diferente e papai agia como um cachorrinho para ela.
Kurt digitava rapidamente num documento em seu computador. Blaine mantinha as mãos nas bordas do divã, ligeiramente desconfortável. Então, continuou:
― Mas foi quando eu comecei… Me descobrindo que tudo deu para o torto. Eu não fui o único a me aperceber que algo funcionava diferente em mim, nem os valentões da escola. Não importa. ― fez uma pausa ― Teve esse verão que mamãe mandou meu pai construir um carro comigo. Eles acharam que sujar minhas mãos e me faria virar hétero.
O escritor ainda digitava. Ele encarou Blaine por um momento, compreensivo. De certa forma, ele sabia um pouco do que Blaine havia passado. Não era fácil para ninguém, mesmo em pleno século XXI, ser abertamente gay. Não importa quantos panfletos você distribua ou quantos filmes você faça, as pessoas ainda vão temer aquilo que não conhecem e não entendem.
― Ele morreu dois meses depois ― Blaine contou ― Mas as coisas não melhoraram, afinal, sempre foi Pam Anderson que me odiou por não ser o que ela queria. Ela vivia me lembrando como eu era um lixo, como Cooper era melhor que eu em tudo e isso gerou uma pequena rixa entre mim e ele, até. Eu não tenho uma boa relação com ela até hoje.
― Como você acha que Sebastian se sentiria sobre isso? ― Kurt perguntou. ― O que você acha que ele pensaria ou faria?
― Ele com toda certeza iria xingar ela com todos os nomes possíveis e imaginários ― Blaine soltou uma gargalhada, sendo acompanhado por Kurt ― Eu acho que ele tentaria falar com ela e eles acabariam brigando feio, porque simplesmente não dá para falar com aquela mulher. Muitos já tentaram.
― Me fale sobre a sua relação com seus pais e seus irmãos antes da morte de Sebastian, e da relação dele mesmo com eles. ― Kurt pediu, sem tirar os olhos do ecrã.
― Ele nunca gostou de Cooper, de facto. Cooper não é a pessoa mais fácil de conviver do mundo; ele é egocêntrico e arrogante. Coop sempre amou falar sobre si mesmo, sobre em tudo em que ele é bom e melhor que os outros. Em parte, Sebastian era um pouco assim também e eles não se davam muito bem por causa disso. ― Blaine soltou uma risadinha ― A relação dele, Sebastian, eu digo, com Rachel era excepcional. Ela odiou ele de cara e ele odiou ela de cara, mas eu não sei… Ele conquistou ela de alguma forma. Eles viraram amigos e Sebastian protegia Rachel tanto quanto a mim. ― o cantor batucou levemente seus dedos na beirada do divã, tentando parecer descontraído ― Com meus pais era outra história. Lembra quando eu te falei que nossos pais eram amigos? Bem, meu pai e os pais de Seb eram amigos. De facto, minha mãe e os de Sebastian nunca foram nem de perto amigos e a gente entrou meio que numa amizade só para irritar ambos os lados. Você sabe, moleques…
“― Eu não quero você perto daquele garoto, Blaine! ― Pam Anderson exclamava. ― Ele não é bom para você.
― Por quê? ― Blaine exclamou ― Por que os pais dele não têm dinheiro? Ou por que ele usa roupa em segunda mão e por que a mãe dele trabalha numa lavandaria?
Blaine sentiu o lado esquerdo de seu rosto arder, mas não se permitiria chorar ou demonstrar dor. Então, a mulher ordenou: ― Não fale para mim desse jeito, eu ainda sou sua mãe!
«Vai se ferrar», Blaine pensou, não ousando responder. Então, rebateu:
― Tenho uma novidade para você: eu não sou seu cachorrinho e você não pode escolher meus amigos por mim como fez com Cooper. ― ele encarou-a do modo mais desafiante possível para uma criança de não mais de sete anos. ― Eu não sou como Cooper.
― E essa é a maior desilusão de minha vida ― a mulher resmungou ― Você é a maior desilusão de minha vida.”
Blaine sentiu seus olhos arderem ligeiramente ao terminar de narrar a memória, mas não chorara na altura e não choraria agora. Ainda assim, aquelas memórias não eram nem um pouco agradáveis para ele. Então, exclamou: ― Isso realmente é necessário? Eu pensei que o livro começaria depois da morte de Sebastian.
― E vai começar, Blaine. Mas eu preciso saber sobre sua relação com as pessoas ao seu redor, sobre sua personalidade e sobre a de Sebastian. ― Kurt olhou-o, ligeiramente preocupado. ― Você está bem.
― Sim, eu só… ― Blaine agitou a cabeça e negou fortemente, como quem afasta um mau pensamento. Então, garantiu: ― Eu estou bem, vamos continuar.
Kurt olhou Blaine, ligeiramente reticente. Então, decidiu fazer o que o cantor falara, perguntando: ― Seus pais brigavam muito?
― Não. Minha mãe não teria coragem de brigar com meu pai, ele sempre foi o financiamento dela para todas as suas frescuras. ― Blaine deu de ombros. ― Ele era o cachorrinho dela, que nem Coop era e que nem ela queria que eu e Rach fossemos.
― As brigas pioraram depois que Sebastian morreu, certo?
“― O que é isso, Blaine Devon Anderson? ― Pam tinha em suas mãos o boletim das notas do garoto e não parecia feliz.
― Do que você está falando? Eu fui o melhor da turma! ― Blaine exclamou. Pam, no entanto, não parecia ouvir o garoto ou nada do que ele falava. Sua mão voou até à orelha do garoto, puxando fortemente.
― Cooper tirou uma média perfeita quando fez esse ano, Blaine! Você vai subir suas notas, ouviu bem? Eu não vou ter em minha casa um delinquente, você não vai ser ninguém no futuro se continuar com sua insolência. Eu não vou gastar meu dinheiro alimentando um ninguém!
Blaine sentiu vontade de chorar – isso não significava, no entanto, que ele o fosse fazer. Ele era orgulhoso demais para isso. Sentiu o tapa ardido em seu rosto e ouviu os passos da mulher abandonando o quarto.”
― Ela vivia exigindo cada vez mais de mim. Nada nunca estava perfeito, nada nunca estava bom. Nada nunca era bom o suficiente, pelo puro e simples facto de eu não ser Cooper. ― Blaine explicou.
― E como você se sente sobre isso, agora?
― De verdade? Eu gosto de pensar que não só o que ela fez, mas tudo o que eu passei, me tornaram em quem eu sou hoje. Me fizeram melhorar mais e mais, eu me esforcei mais e mais para lhes provar que eles estavam errados, todas as vezes que eles falaram algo mau sobre mim. A verdade é que eu consegui, olha para mim ― murmurou ― Mas não foi fácil, cara. E eu quero que todos eles ardam no inferno; eu preferia ter tido uma vida normal a ter uma vida de moleque sendo preparado para a arena.
Kurt respirou fundo. Ele terminou de digitar e, então, fechou o laptop e levantou-se, pousando-o sobre a medida de vidro. Então, surpreendeu Blaine, sentando-se levemente sobre suas pernas. Suas mãos foram até aos ombros do cantor e, então, Kurt perguntou:
― Você está bem?
Blaine respirou fundo, respondendo: ― Sim, eu estou. Eu nunca falei sobre isso com ninguém, é só isso. Só não é fácil mostrar todas as suas fraquezas para alguém que você mal conhece.
O escritor levou as suas mãos ao pescoço e nuca de Blaine, acariciando levemente ali. Talvez ele estivesse sendo precipitado, ele e Blaine apenas tinham passado uma noite juntos e apesar de Kurt já se ter apercebido que Blaine não era o que as revistas falavam, o próprio cantor não escondia que era um pegador. Kurt não sabia o que pensar, mas estava se jogando de cabeça.
― Eu sei que a gente mal se conhece, Blaine ― Kurt respirou fundo ― Mas a gente tem que fazer isso dar certo. Eu nunca vou te julgar, okay? Você me inspira a cada dia que passa. E é okay deixar suas fraquezas transpassarem às vezes, ou você pode acabar explodindo. ― os dedos de Kurt percorreram o rosto de Blaine, parando em baixo dos olhos de Blaine que pareciam ligeiramente marejados ― E é okay chorar. Sentir não é pecado, Blaine.
― Eu não gosto de chorar. É algo tão sem sentido ― Blaine murmurou, abaixando a cabeça ― Eu nunca deixei que alguém que me quer mal me visse chorar. Eu tenho estado rodeado dessas pessoas por toda a minha vida.
― Eu não te quero mal.
Blaine olhou Kurt por uns segundos, deixando seus lábios se encostarem aos do escritor. O beijo não foi apressado, não foi bruto nem selvagem. Foi calmo, doce e gentil. Eles se separaram, ligeiramente ofegantes.
― Cara, você tira meu fôlego ― Kurt murmurou.
― O que nós temos, Kurt? ― Blaine perguntou. Ele sentiu o leve peso de Kurt sobre si e suas mãos ao redor de seu corpo e ele gostava daquela sensação. Gostava de seu beijo e de seu toque, gostava de sua voz e de seu jeito de ser. Ele não sabia o que era nada daquilo.
― Eu não sei ― Kurt confessou ― Eu tenho tanta experiência em relações quanto você. Mas isto me parece certo ― deu ênfase ao “isto”, descendo sua mão pelo braço de Blaine e encostando suas testas ― E eu gosto de estar com você. Eu estou disposto a tentar se você estiver.
Blaine soltou um sorrisinho de canto, respondendo: ― Eu quero tentar. Eu vou tentar, nós vamos.
― Então agora eu pergunto: o que nós temos? ― Kurt brincou. Blaine, por sua vez, abraçou Kurt de volta e depositou um beijo leve no pescoço do escritor, respondendo com um sorriso de orelha a orelha:
― Uma amizade colorida, talvez?
― Uma amizade colorida ― Kurt concordou, depositando um beijo casto nos lábios do… amigo. Blaine soltou uma risadinha e suas mãos desceram por todas as costas de Kurt, parando na sua bunda e apertando levemente ali. Blaine levantou-os, segurando Kurt em seus braços. Eles bateram contra algumas paredes no caminho até ao quarto.
E eles estrearam sua amizade colorida de um ótimo jeito.
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