A Clareira
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Nunca fui exatamente vingativo ou pretensioso com o dever de manter a ordem e a justiça para nossa raça, definitivamente nunca tive essa gana em punir outros vampiros como tinha Caius, e nem mesmo o sadismo de minha irmã em, até certo ponto, gostar de ver o sofrimento dos outros, embora eu não a julgue. Apesar de nossa atual "idade", não importa quantos milênios a mais se passem, não acredito que ela vá superar o incidente durante a Caçada das Bruxas. Não acho nem que nossos dons irão permitir que esqueçamos...
Mas apesar de não ser tão justo, sempre entendi e vi a importância do que fazíamos, afinal embora nosso discurso, ou melhor, o discurso de Aro tenda a ser dramático, ele busca o melhor para nossa sociedade, e se eu não acreditasse nisso, não estaria junto dos Volturi.
Porém, mesmo considerando todos os argumentos que estão a nosso favor, eu não fiquei satisfeito com a decisão de irmos todos, toda a guarda e até mesmo as esposas, até Forks. Eu me lembro muito bem de como a crise das Crianças Imortais foi, e não critico Aro ou qualquer um por ficar alarmado, mas por mais que o crime mereça atenção especial, não vejo razões suficientes para atravessarmos o Atlântico por causa de uma única criança, que além de tudo, está sob jurisdição de uma família que, embora tenha nos intrigado e até mesmo irritado alguns de nós, não nos causou nenhum verdadeiro problema.
Mas não pense que sou idiota, pois já passei séculos suficientes com o líder da guarda para perceber segundas intenções quando as vejo, e sei que não haveria todo esse alarde se não houvesse algo que o interessasse neles. E eu sei muito bem que há, e não é apenas uma coisa, digo, uma pessoa. Posso não ter ficado indignado ou ultrajado como Jane na época em que dois deles foram com a humana para Volterra no dia de São Marcos, mas confesso que nunca antes senti que nossas posições como membros mais poderosos e importantes para Aro pudesse vir a ser ameaçada, mas certamente duas coisas cintilaram nos olhos rubros dele naquele dia... Cobiça, ganância. E certamente isso me causou algo inesperado: ciúmes, inveja da atenção.
Agora estamos naquela clareira, coberta de neve, silenciosa e alva. Acho que é uma das primeiras vezes em que me sinto entediado ao sair da Itália, embora ele seja exageradamente apático, tenho que concordar com Marcus, a decisão de Aro de trazer todos aqui para não haver chances para eles é um pouco tola. Acredito que ele nem tenha tanta certeza de que a criança é uma das Imortais, ou se foi realmente um crime dos Cullen, mas o prêmio deve ser valioso demais para ele, um telepata menos limitado que ele( e como ele mesmo disso, exponencialmente menos poderoso), uma vampira que prevê o futuro baseado em decisões e até mesmo a ex-humana, que, agora imortal, deve continuar sendo capaz de bloquear os dons de Aro e Jane. Imagino se ela é imune aos meus também.
O problema é que os Cullen não estão sozinhos, e embora eu esteja divagando muito enquanto as coisas acontecem, pelo visto os companheiros são o que eles chamam de "testemunhas", formas de provar que a tal criança, Renesmee se entendi bem, não é uma criança imortal. É bem capaz de isso ter deixado Aro ainda mais gananciosa, dada a probabilidade de haverem mais vampiros com dons entre as testemunhas dos cullen. Olhando bem, posso ruivos irlandeses, amazonas semi-nuas, a família canadense que compartilha dos hábitos alimentares incomuns dos Cullens, entre vários outros, e paro para observar um trio em particular. Morenos, vestidos de forma rústica que remete ao Oriente Médio, eles possuem uma austeridade e jovialidade que difere muito da dos outros vampiros presentes, talvez até mesmo pela disparidade entre as cores de pele. Mantenho o olhar preso em um dos dois homens, o de aparência mais nova, deveria ter pouco mais de 20 anos quando foi transformado, e me pergunto o por quê de estar dando atenção a ele enquanto a suposta filha de Edward Cullen encosta a mão direita no rosto de Aro, que começa a pintar uma expressão maravilhada no rosto.
Com o hibridismo da pequena Renesmee sendo esclarecido, o clima subitamente fica pesado quando a responsável pela denúncia assume que estava errada, eventualmente assinando a própria certidão de óbito, embora ela já tenha deixado de estar "viva" como humana a muito tempo.
E aí muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo, entre elas a execução de Irina, mas eu realmente não esperava que levasse tão pouco tempo para minha irmã usar seu dom em qualquer um deles, mas pelo visto ela levou para o lado pessoal depois de se sentir humilhada por não conseguir torturar Isabella Swan. Porém aí que as coisas ficaram ainda mais interessantes. Eu conheço Jane muito bem e sei quando ela está concentrada para usar seu poder "bélico", mas nessa ocasião ele simplesmente não estava funcionando, com ninguém.
- Está funcionando Bella — Diz Edward a sua companheira.
Rapidamente entendo que, se tornando vampira, ela conseguiu desenvolver sua habilidade latente. Ela está projetando o escudo e deixando todos eles imunes a tortura psíquica de Jane, a qual começa a rosnar desesperadamente. Ela nunca vai aceitar o fato de não ser mais invencível...
Olho um pouco para o lado e percebo uma ligeira encarada de Aro com um leve aceno da cabeça, o que significa que estou liberado para usar os meus dons dessa vez, ou ser frustrado da mesma forma que minha gêmea.
Fecho os olhos por alguns segundos e relaxo os ombros, em seguida estendo um pouco as mãos e descolo os pulsos da parte de baixo das mangas das vestes negras. Logo, uma névoa escura e translúcida começa a se rastejar para fora como uma lerda fumaça, mas que embora se distancie devagar, velozmente se espalha pelo ambiente como se fosse proveniente de uma grande explosão. E então a primeira coisa estranha acontece.
- Benjamin... — diz Edward inclinando a cabeça justamente para onde estava o vampiro que eu estava fitando, que faz um aceno com a cabeça e olha diretamente pra mim, fazendo um gesto com os braços semelhante ao meu.
E de repente, uma repentina e forte ventania se propagou logo a frente do lado deles, em direção a nós. Minha névoa e os poderes de Jane são dons que influenciam psiquicamente, o que fez com que os ventos não afetassem o percurso da fumaça negra, mas com certeza serviram para deixar todos os Volturi boquiabertos, até mesmo Aro, como ele raramente ficava.
Me questionei por alguns segundos sobre que tipo de manipulação física era essa a qual ele dominava, mas logo a seguir senti a névoa encontrando um obstáculo em seu caminho, e percebi que meus poderes estavam sendo repelidos pelo escudo da nova integrante dos Cullen. O escudo se comportava como um campo de força fluido, que parecia esvoaçar, invisível no ar. Influenciei a névoa a procurar por buracos, aberturas ou partes frágeis, mas era uma redoma perfeita. Uma cúpula impenetrável à névoa que os envolvia de forma impassível. Confesso que não me importei por meu dom não ser implacável, e logo após isso Aro e Caius tentaram deliberadamente encontrar argumentos para declarar que a criança era perigosa, e quase iniciaram uma batalha com proporções que não seriam 100% favoráveis a nós como sempre são, porém fiquei aliviado com a chave final.
A vampira com dons divinatórios e seu parceiro logo chegaram, acompanhados de uma vampira e de um homem que se parecia muito com um imortal, porém tinha olhos castanhos. Ele era a prova irrefutável de que a pequena e doce Renesmee não era um risco ou perigo em potencial para nenhum de nós, o que os deixou sem opções além de engolir o orgulho e decidir que deveríamos retornar a Toscana.
A questão é que, por sorte, nossos cérebros vampiros são como computadores muito complexos que conseguem realizar várias tarefas ao mesmo tempo, pois embora eu saiba o que está acontecendo, todo o tempo depois de ter meus poderes superados, eu não consegui parar de olhar para o vampiro moreno que estava do outro lado da clareira. Benjamin o nome dele. Em um momento sequer eu parei, e continuei pensando sobre sua manipulação com o vento, sobre suas taxas de melanina inalteradas após a transformação, as quais lhe caíram muito bem, sobre o quanto ele era bonito..., pera! O que?
Alguns instantes antes de irmos embora, quando eu finalmente parei de fitá-lo por um segundo, por instinto olhei novamente para a pequena causadora de tudo e seus pais, logo atrás dela, Isabella olhando para de forma terna para a filha, e Edward, estranhamente, me encarando com um meio sorriso engraçado, até um pouco malicioso...
Acabo de me ligar que ele está ouvindo meus pensamentos neste exato momento, e que ele os esteve ouvindo durante todo o tempo em que estivemos na clareira. Arregalo os olhos e abaixo a cabeça imediatamente, ciente de que se ainda corresse sangue em minhas veias, metade dele estaria se concentrando em meu rosto neste exato momento. Me aproximo de Jane querendo voltar logo pra Itália, e querendo que essa sensação estranhe passe. O mais rápido possível, espero...
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