No dia seguinte, após um breve desjejum com nossas rações, partimos rumo a caverna juntamente com Elderath.

Graças as informações dadas pelo líder da aldeia, encontramos uma enorme montanha, mas nenhum sinal de rocha falsa ou outro estranho mecanismo que poderia servir de alavanca para tal porta.

Então Myrymia tocou o paredão de pedra e sumiu como por encanto.

Na verdade, descobrimos que a própria parede tinha um fundo falso que levava para um largo corredor, em outras palavras, era uma ilusão de ótica exatamente como Elderath nos falou.

Corinna e eu ficamos de guarda na entrada da caverna enquanto os outros a exploravam. Só não podíamos prever que Elana fosse atrás de nós e nós dois tivemos até mesmo que entrar na caverna para impedir que Elana fizesse alguma imprudência.

Assim que entrou, a garota levou uma reprimenda do velho líder do vilarejo devido a sua irresponsabilidade em nos colocar em um possível perigo.

A caverna era totalmente íngreme e no caminho dela existiam várias armadilhas escondidas que poderiam nos matar com um simples passo em falso. Graças a nossa perícia, contudo, conseguimos passar ilesos por elas e desabaram vários troncos e estacas da parede, revelando fissuras ao redor da caverna que iluminaram o ambiente.

Para desgosto de Albert e Cassandra, não havia tesouros valiosamente significativos nem nas salas nem tampouco no baú desgastado ao fundo.

Seguimos em frente até encontrarmos uma escada de pedra. Todos nós descemos cautelosamente mas Elderath não teve a mesma sorte e na queda, acabou quebrando a perna.

Corinna logo o curou com seus poderes e seguimos mais a frente até encontrarmos outra entrada que revelava a caverna principal. Elderath havia nos dito que tinha pouca coisa de valia exceto os pertences pessoais das famílias que sobreviveram ao ataque brutal dos saltadores.

Contudo, percebemos algumas sombras estranhas e ameaçadoras em cima de nós e ouvimos passos vagarosos do outro lado da caverna.

Ficamos atordoados com a desagradável surpresa que nos reservava.

Uma surpresa em forma de horrendas aranhas.

* * *

Eram aranhas de todos os tipos e tamanhos que desciam sobre nós como ondas gigantes. Uma delas atacou Cassandra e Albert matou a outra aranha sem dificuldades. Uma terceira atacou Corinna que resistiu ao ataque venenoso e outra derrubou Myrymia no chão com Albert cortando-a ao meio como um tronco de árvore.

Enquanto isso, eu tentava ajudar Corinna afastando a aranha com meus golpes tempo suficiente para que Cassandra despachasse-a com um tiro certeiro de sua besta.

Mas outras aranhas atacaram e feriram gravemente Cassandra e Albert que começaram a lutar para não perderem os sentidos.

A situação estava crítica para nós. Quanto mais derrotávamos as aranhas, outras vinham em seu lugar para nos atacar e deixarmos a beira da loucura até Myrymia ter a brilhante ideia de usar seus poderes para queimar os sacos com os pertences e assustar as aranhas, dando tempo o bastante para organizarmos nossa retirada.

Uma aranha ainda estava dependurada na armadura de Albert e eu a cortei ao meio para tirá-lo daquela situação.

Para nossa surpresa, o velho Elderath não sofreu um arranhão ou uma picada das aranhas e não tivemos escolha a não ser segui-lo.

Apesar da recomendação de Elderath de pisar o chão com cautela, Albert demonstrou o porquê de ser tão azarado e pisou num fundo falso onde a pedra caiu e selou as aranhas que nos ameaçavam.

Para um homem com a fama de azarado como Albert, foi uma sorte e tanto ter conseguido escapar da armadilha da caverna. Dá pra se dizer que ele mostrou um aperitivo do que faria mais tarde.

Seguimos adiante e entramos em outro segmento da caverna onde encontramos sete pessoas mais mortas do que vivas e todas estavam infectadas com a peste misteriosa.

Os efeitos da peste eram devastadores e Cassandra e Albert caíram doentes assim como Elana.

Continuamos nossa investigação e descobrimos que as aranhas eram a causa de tudo. A picada delas era muito venenosa e matava a vítima de forma lenta e agonizante.

No entanto, Corinna já havia neutralizado o veneno de Cassandra e Albert, curando-os depois de muito esforço. Principalmente com Albert que ainda estava entre a vida e a morte.

Nesse meio tempo, Myrymia havia detectado magia nos corpos e todos nós descobrimos uma porta trancada por magia negra.

A tranca era bem resistente e Cassandra tentaria destrancá-la nem que seja a última coisa que fizesse na vida.

Porém, não tínhamos tempo para planos.

Porque os cadáveres dos habitantes da vila se levantaram para nos atacar.

E nos matar.

* * *

Inicialmente, decidimos não atacar os cadáveres para podermos planejar melhor nossa estratégia contra os zumbis com Albert e eu atacando os zumbis de frente e Myrymia bombardeá-los com suas bolas de fogo. A princípio, o plano correu bem com nós dois atacando os zumbis e ao mesmo tempo esquivando-se de suas mordidas. Graças ao plano bem montado de Myrymia, os zumbis estavam recuando, mas por quanto tempo mais aguentaríamos até Cassandra conseguir destrancar aquela maldita porta?

Então tomei uma decisão difícil e arriscada. Fui ajudar Cassandra a abrir a famigerada porta enquanto Myrymia e Albert resistiam bravamente as investidas dos zumbis.

Com a ajuda de Elderath, a porta se abriu e resolvi proteger Corinna e Elana passando pela porta aberta.

Foi uma decisão das mais estúpidas que cometi porque acabei deixando Myrymia e Albert sozinhos contra sete zumbis.

Mas como que por milagre, eles sobreviveram ao ataque maciço dos zumbis a base de golpes de espada e bolas de fogo.

Assim que passaram pela porta, Albert, frustrado por não ganhar nada de valor, quis bater em Elana culpando-a por toda essa situação só não levando a cabo o intento devido a ação enérgica de Corinna.

Quanto a mim, senti-me envergonhado pela minha atitude covarde e Myrymia me repreendeu pela falta de combatividade contra os zumbis.

Ela tinha razão. Foi uma decisão imbecil de minha parte que poderia ter levado Myrymia e Albert a uma morte certa.

Que Alá me perdoe por essas atitudes e se eu estivesse no exército, levaria no mínimo algumas chibatadas por minha covardia.

Depois de tudo isso, seguimos em frente com a esperança de encontrarmos a saída deste local macabro e deparamos com uma ponte de pedra que provavelmente nos conduziria a um grande perigo.

Um mal terrível com seres profanos.

Durante o trajeto, a ponte se desprendeu e todos nós corremos como loucos na tentativa de sobreviver a essa armadilha. Albert vinha em uma desabalada carreira e tropeça em uma das pedras só não sendo jogado dentro da lava ardente porque agarrou uma das cordas da ponte na ponta dos dedos.

Quando pedimos a ajuda de Elderath, ele não estava mais entre nós.

Acabou sendo capturado e devorado por um morcego gigante.

Não tendo tempo para lamentarmos a morte do velho líder do vilarejo, seguimos na nossa rota para a liberdade e encontramos um pórtico onde horrendas criaturas aproximavam-se de nós.

A saída estava perto, mas a montanha era íngreme demais para escalar e havia ainda um platô no meio do caminho.

De repente, para nossa surpresa, Elana estava chorando de alegria por ter finalmente encontrado sua mãe Eleanor.

Sem perda de tempo, Elana abraçou sua mãe sem que soubesse que na verdade, ela seria apenas uma oferenda para o monstro.

O rosto de Eleanor era inexpressivo demais para um encontro tão emocionante até absorver a criança por completo. Daí o semblante inexpressivo transformou-se em um semblante cruel e macabro com ela rindo maleficamente.

Era o horror encarnado. A maldade pura.

E nada podíamos fazer para detê-la e libertar Elana.

Só tínhamos duas opções naquele momento: fugir em segurança e deixar Elana morrer com o monstro seguindo seus planos nefastos ou lutar até o fim para salvá-la mesmo sabendo que morreríamos nas mãos desse monstro.

Bem que Cassandra tentou traçar uma rota de fuga, mas quase caiu de uma altura de 10 metros e fomos forçados a recuar para poder salvá-la.

Não tínhamos escolha a não ser lutar. Era a opção mais sensata a se fazer.

E que os deuses nos protejam de todo esse horror.

* * *

A luta foi terrível. Imagine vocês que enfrentamos o mal encarnado com poucas armas e recursos e tendo ainda Myrymia sem condições totais de lançar bolas de fogo ou qualquer outra magia.

Seria certamente um massacre. Então Albert e eu fomos enfrentar o monstro com ele entrando em seu modo sanguinolento e eu usando o escudo para tentar afastar Elana o mais longe possível do monstro.

Eu já conhecia o estilo de lutar de Albert desde os tempos de mercenário. Entre os mercenários ele era conhecido como “Albert, o Sanguinário” devido as suas qualidades.

Ele atacou o monstro que contra-atacou com uma pernada com a força de um coice, mas Albert conseguiu esquivar-se no último instante.

Foi então que Corinna resolveu intervir na luta contra o monstro atacando-o com as bênçãos de Meliteli, mas o monstro foi mais rápido do que a sacerdotisa e conseguiu esquivar-se do golpe.

A luta seguia num impasse. Qualquer erro tático de nossa parte seria o fim para nosso grupo. E o monstro estava se aproximando pra me atacar na tentativa de absorver novamente Elana.

No entanto, não teve tempo de conseguir seu intento.

Um urro foi ouvido e o monstro jogou-se para trás pela força estrondosa de um golpe de espada.

Eu conhecia este golpe como ninguém. Era o golpe decapitador que Albert havia desferido nele com toda força possível.

O monstro havia sido derrotado contra todos os prognósticos.

Albert havia salvado o dia e decidido a luta a nosso favor.

Nada mal para uma pessoa considerada a mais azarada do mundo.

Nada mal mesmo.

* * *

Chegamos enfim ao platô e saímos daquela caverna com o sol ainda a pino e eu ainda com Elana inconsciente nos braços.

Ficamos apenas duas horas naquela caverna mas a impressão que tínhamos era como se ficássemos dias naquele lugar.

Voltamos ao vilarejo e demos a triste notícia da morte de Elderath a sua esposa que lamentou sua perda e ao mesmo tempo ficou feliz por Elana estar sã e salva.

Ela foi hospitaleira conosco e nos recompensou com algumas moedas de ouro apesar dos protestos de Albert por não ter conseguido adquirir um cavalo do curral só para colocar algumas ferraduras que tinha obtido da caverna.

Fiz minhas orações a Alá e fui dormir depois de uma aventura tensa, mas vitoriosa.