A Casa da Rua de Trás
12 Ponto DE Vista
–Se conhecem há muito tempo? — Ele se apoiou no tronco de arvore atrás dele, guardando seu celular no bolso da calça, era dali que estava saindo o barulhinho chato.
–Conheço Liza desde a pré escola, somos da mesma sala.- Sorri enquanto lembranças vieram a tona.
Ele permaneceu pensativo.
–Por quê? — Interessado na Liza?
– Ela é muito brava — Ele sorriu.
Cruzei os braços e o olhei bem séria, ela não era muito brava, você que irritou ela. Ele estava sorrindo sozinho, observando a sacada, daria tudo pra saber oque passava pela sua cabeça.
Seus olhos brilhavam, o rapaz tinha visão noturna? Era um pouco assustador, dependendo da posição de seu rosto, os olhos não refletiam o brilho, que mesclava de um vermelho brilhante com lances amarelados, para um tom roxeado.
– Gostei do seu cabelo colorido. — Sorri envergonhada do seu comentário. Aquelas mechas rosa sem retoque de um ano, me davam bons apelidos. Cabelo Colorido? É, Carlos tinha me dito isso, quando nos conhecemos, lembrei-me dele e senti meus olhos enchendo de lagrimas, olhei para Victor que me olhava pensativo. Não vou chorar.
– Obrigada. Namora? — Tentei trocar de assunto. Vamos ao status civil.
– Que eu me lembre, não. — Ele coçou o queixo rindo com algo que só ele estava saboreando. Trágico!
– Como assim? — Que se lembre não?
– Olha, eu conheci muitas pessoas — Ele permanecia com os braços cruzados fitando a sacada — nada impede de que essas achem que temos algo mais serio. — Lá estava ele sorrindo novamente.
Bom saber, Victor é terrível. Ele apanhou seu celular que voltou a tocar estridente, tomando sua atenção. Eu me apoiei na balaústra da sacada afim de relaxar.
– Eu não gosto de me prender a uma pessoa, que nem sei se merece. — Victor continuou sua explicação, enquanto guardou seu celular novamente.
Interessante. Não é esse meu ponto de vista.
– Você saberia se ela te merece ou não.
– Será? — Ele me analisava — Tem tanta gente que se ama não esta junto, e tanta gente que se odeia e esta perto.
– Não mandamos no coração Victor. — Abaixei a cabeça, sei que era uma afirmação própria.
– Fabi, é Fabi né? — Eu voltei a encara-lo — Se você não nasceu com isso, é possível se desfazer.
Olhei para traz e sabia que Liza tinha ouvido aquilo, nos atingiu em cheio, sem duvidas! Ela tirou o travesseiro do rosto e virou para o outro lado.
– Você namora Fabi? — É claro, ele não sabe o inferno que eu estava.
– Sim. — Consegui sentir o olhar de desaprovação de Liza. Eu ainda namorava ué.
– Entendo! — Ele coçou o queixo, parecendo refletir — Espero que as coisas melhorem. Pelo menos para o seu lado Fabi.
– Não estou lhe entendendo. — Ué ele sabe? Que tipo de comentário é esse? Melhorar pelo menos para mim? E a Liza? Talvez ele esteja deduzindo.
– Só desejando melhoras. Algumas pessoas não merecem, ate por serem grossas e mal educadas. Ah e claro. CURIOSAS DEMAIS! — Ele estava rindo. Ele estava falando de Liza? Não, ele não sabia o que estava acontecendo... Eu acho!
– Continuo sem te entender Victor. — Da onde ele tirou aquilo?
– Essas meninas grossas, sem educação — Ele continuava sorrindo com ar zombeteiro — curiosas, vizi.. quero dizer, tem uma grande tendência a não arrumar um namorado, e quando arrumam, já viu né?
Virei novamente para Liza, seu rosto um grande espanto, ela se levantou toda cheia de coragem e voltou para a sacada com o rosto vermelho como um morango.
– Como é? — Indagou com ódio nas palavras, fitando Victor que arregalou os olhos, parecendo estar surpreso.
– Seja mais clara, como é o que? — permaneceu com os dedos no queixo, apenas observando Liza eufórica e irritada.
– Escuta aqui MOLEQUE! — Liza estava com a respiração acelerada — Você não sabe de nada, não tem noção de nada, é só mais um cara com o nariz em pé achando que pode dar opinião na vida das pessoas!
Ele cruzou os braços e mudou sua expressão de espantado, para talvez curioso, e como eu já esperava com um toque de deboche ele a retrucou.
– Me responda dona Elizabete, por que esta me ofendendo?
Ela bateu uma das mãos na mureta e apontou o dedo em direção a ele.
– Não se faça de idiota, você tem coragem de opinar na minha vida, de dizer que sou mal educada e que mereço passar por isso?
Ele disfarçou, e sorriu.
– Elizabete, além de ser grossa, mal educada, curiosa, você também é intrometida! — Ele estava deixando ela muito brava, como jamais tinha visto — Eu não citei seu nome em momento algum.
Ela fechou a mão, eu precisava acabar com aquela descução.
– Bem.. — Tentei trocar o assunto, mas, Victor levantou uma das mãos para me interromper.
– Eu disse o que eu penso. — Continuou falando.
– Você fala o que pensa sem pensar sabia? — Escoltei o tremor em sua voz, Liza estava muito abalada.
Ela se virou para o quarto e desceu para a cozinha.
Eu o fitei, eu não queria aborrecer Liza.
Ele se ergueu e abaixou a cabeça sorrindo.
– Tenho que entrar. — respondi para o nada, já que Victor tinha simplesmente sumido.
Entrei para o quarto de Liza e fechei a porta de sua sacada, assim ela ouveria o barulho da porta e voltaria para o quarto. Dito e feito! Ela voltou com a cara fechada e pulou em seguida em sua cama.
– Ele é repugnante não acha? — Disse emburrada.
– Muito pirracento, mas, ainda assim achei uma graça.
– Bem — Ela parecia mais calma — tirando a parte dele ser desagradável, acho que vocês combinam, pelo menos esteticamente.
Ela sorriu e esperou minha resposta, desencana Fabi, você não conseguiria o bonitão porque ainda amava o bobão do Carlinhos.
– Descordo, mas talvez, você e ele fazem um casal muito melhor. — Sorri e me encostei-me a seu lado, ela me estendeu a outra colher.
– Você acha mesmo? Ele é tão idiota, tão irritante, ai — Ela suspirou — Não deveria ter perdido meu tempo falando nada com ele. — fechou a cara e se concentrou a comer o sorvete.
Mesmo Victor ter sido grosso, ele a fez distrair a mente, e parando para refletir, eu conseguia ver Victor e Liza como um belo casal. Estava estampado em seu rosto, o quanto ele estava se divertindo com Liza, como se estivesse testando-a.
– Mesmo assim, acho que vocês sim, fariam um bom casal. — Ela revirou os olhos, sorri e apanhei o sorvete de suas mãos, fazendo a sorrir.
– Por que não Victor e Fabi? — E assim ela apanhou o pote novamente e em seguida mostrou-me a língua.
Victor e Fabi? E Carlinhos e Fabi? Não eu nunca conseguiria nada com Victor, e também não conseguiria nada comigo. Sou uma palhaça.
– Não, não tem nada a ver. — Abaixei a cabeça. Liza ainda parecia irritada com o que Victor tinha dito.
– Liza, não liga para o que ele falou, ele realmente disse coisas idiotas, mas sabe o que eu acho?
Ela deu de ombros, mesmo assim eu falei.
– Ele também já deve ter passado por isso, e traumatizou ele.
– Pois bem feito! — Ela sorriu.
– Obrigada Fabi — Ela fez uma careta que não pude conter de alegria.
– Pelo o que?
– Por estar sendo tão legal comigo.
Ela voltou a comer o sorvete, meu celular vibrou, era Carlinhos. Levantei-me e fui atende-lo fora do alcance de Liza.
– Sim? — respondi baixo.
– Onde você tá Fabiane? — Sua voz calma me deixou muito aliviada.
– Na casa da Liza. — Respondi mais baixo, para Liza não me ouvir.
– Vem pra sua casa! Sem maldade, eu quero falar com você. — E ele desligou, provavelmente eu o irritei. Como sou idiota, fazia quanto tempo que estava aqui?
Voltei para o quarto e apanhei minha bolsa, Liza me observava tediosamente, o que eu diria? Que Carlinhos me ligará, e mandará voltar pra casa? Que nós já estávamos bem? É o que tinha pra ser dito.
– Carlos me ligou agora. Vou pra casa pra poder conversar com ele.
Liza sorriu, levantou e veio me abraçar. Surpreendemente ela não se irritou ou me reprovou.
– Ainda bem Fabi, vai dar tudo certo com vocês.
Sorri e a abracei mais apertado, em seguida corri para a porta, já tinha anoitecido, eu teria que ir correndo pra casa, mas valia a pena, Carlos estaria lá me esperando... Antes de correr que nem louca gritei par Liza.
– Te vejo amanhã? — e ela respondeu — Lógico! — Sorri e fui em direção a minha corrida.
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