A Casa da Lua
2 Espíritos Inconformados
Notas iniciais
O medo irracional sobe pela minha garganta, arranha como facas e deixa-me enjoada. Minhas mãos estremecem e consigo sentir a cor se esvair do rosto.
—Como assim devora? — Pergunto com medo da resposta, direciono o olhar a ele com a intensidade de sinos de catedrais.
—No sentido literal, ela devorará sua alma para se alimentar e permanecer atual por muitos anos. Sua aura é forte Camilla, está agarrada a morte de alguma forma, então você foi atraída naturalmente. Depois você virará um fantasma-guia, assim como eu. – Ele não sorri, é frio e sua voz me lembra os cortes que fiz no pulso há alguns meses.
—Você vai me matar? — Indago surpresa, muito mais pela frase dura do que por ele saber meu nome, como alguém tão pode falar isso com tanta naturalidade? “Os piores assassinos são os que ficam calmos”. Na verdade, morrer não me assusta, dar fim a dor parece algo bom para alguém na minha situação, mas não deixo de sentir uma ansiedade e meu corpo automaticamente se afasta um pouco do espectro dele. Instinto.
—Eu deveria.
—E então?
— Não vou fazer isso... Ainda. Morrer não é bom. As pessoas dizem que é o fim da dor, mas, esse vazio, esse nada, é pior que qualquer tortura. Ser um fantasma-guia é o pior. Você se lembra de tudo o que aconteceu com outros, mas não lembra quem era, você não pode sorrir, não pode tocar, não pode amar... — Ele me olha profundamente. Olhos azuis celeste límpidos. Tormento. Tristeza. Esse era o destino que seria meu quando eu morresse, não consigo imaginar como ele suporta isso. Meu sofrimento de repente não parece tão grande.
— E aqueles fantasmas? — Aponto para os dançarinos, mas ainda tenho a voz trêmula.
—Eles são reflexos do que eram, fantasmas normais, pessoas as vezes podem vê-los, mas a maioria dos humanos não os percebem. Não se lembram de quem eram, simplesmente dançam, todos os lugares têm algum significado de morte. Geralmente eles são atraídos para lá, alguns espíritos não se conformam com as mortes e não conseguem dispersar e atravessar para o outro lado. – Seus cabelos revoam ao redor do rosto lhe dando um aspecto etéreo, surreal, admiro a beleza de seus traços, como ele morreu?
— Todos estão vestidos como medievais. Por que? — Observei-os enquanto ainda dançavam sua triste música, seus semblantes agora estão decaídos, eles estavam ouvindo o que ele Cayo estava falando?
—Aqui ocorreu um assassinato em massa no dia da coroação da princesa Elizabeth há alguns séculos, vê aquela garota? – Ele aponta para uma garota encantadora de aproximadamente 9 anos dançando com um velho que sequer prestava atenção nela.
—Ela iria ser coroada rainha durante a festa e estava prometida a um barão da nobreza do país rival. Uma união pela paz. Ela aceitou, não tinha escolha, mas os oficiais desse barão não entregaram a mensagem a ele, então achou que havia sido rejeitado e mandou matar a todos. Espíritos inconformados. – Noto que a garota tem um corte profundo na região do coração, e algo vermelho irradia do lugar. Olho para Cayo, ele também a observa em silêncio, talvez a entendesse melhor do que eu.
—E a casa? — Não entendi ainda o que a casa tem a ver com tudo isso, percebo que tenho que manter uma linha de diálogo fixa com ele, sua expressão se dispersa muito rápido.
— Foi aqui que aconteceu. Quando um local fica muito cheio de Inconformados, eles dão vida ao lugar e ele se torna assombrado, sedento por algo que satisfaça sua sede por vingança.
Assenti. Ainda fico imaginando o que se passou pela cabeça da garota. Pobre menina. Antes poderia jurar que a minha dor é maior que qualquer coisa... Mas, ouvir histórias de outros me mostra o quanto estive sendo egoísta. Cayo me olha com uma expressão indecifrável, parece me estudar, de repente levanta a mão e me toca no rosto. Penso imediatamente que vou morrer agora. Porém, seu toque é suave, passa pela minha pele como fumaça e sua expressão se torna profundo desapontamento, quase sinto pena dele.
—O que você está fazendo? — Depois que me recupero, afasto-me um pouco mais. Ele encara seus dedos fantasmagóricos como se eles tivessem algum problema, penso que ele sequer ouviu minha pergunta, pois demorou alguns minutos para responder.
—Gostaria de saber como é ser tocado novamente. –Ele diz e sua voz tem um pouco de vergonha? Timidez? Não. Minhas bochechas esquentam e finalmente entendo-o, muitas vezes olhei para mim como se houvesse algo errado. Depois daquela tragédia, nunca deixei ninguém me tocar. Sinto falta. Mas, me assusta e torna-me vulnerável. Sou tomada por um desejo de tocá-lo, estendo a mão e ela passa por ele como se fosse ar. Ele me observa atentamente, mas logo solta um suspiro.
—Não adianta.
—Não existe nada que se possa fazer? — Minha frustração é evidente, empatia se apossa de mim, mas desde quando me importo com alguém desconhecido? Cayo parece refletir antes de responder e mordo o lábio, inquieta.
—Em teoria existe. – Ele passa os dedos pelos cabelos, revolvendo-os como um vento, parece lutar contra algo em si, porém para mim é um gesto charmoso, meu rosto cora por causa desse pensamento, repreendo-me mentalmente e volto ao raciocínio anterior.
—Como assim? – Presto mais atenção no que ele vai dizer, de repente parece que todo o resto dos fantasmas desapareceu e estamos sozinhos.
—Dizem que na lua cheia os espíritos podem atravessar o véu que nos separa dos humanos. Mas, a Casa nunca deixa ninguém sobreviver por mais que alguns dias após a descoberta da pulseira.
—Então é possível. — Um sorriso otimista se curva nos meus lábios e ele vira o rosto para mim, avaliando a resposta, não esboça nada, apenas vira-se novamente para o salão. Permaneço com os olhos escuros fitos nele.
—Em teoria.
—É melhor do que nada. – Ele me encara e reviro os olhos, cruzo os braços e observo alguns poucos fantasmas ainda ali. Vestes azuis, cortes vermelho brilhantes pela sua pele.
—Você é sempre tão insistente? — Ele parece irônico e carismático ao mesmo tempo, como se quisesse me irritar. “Fantasma idiota!”.
—Na verdade sou. – Respondo no mesmo tom, mas com um sorriso brincando nos lábios, se ele pudesse sorrir, provavelmente estaria fazendo isso, foi cômico. Percebo que a morte retira tudo o que é bom e deixa apenas coisas ruins.
—Que bom. — Ele deixa de me olhar e encara os Inconformados.
Escuto meu celular tocar a melodia padrão, não tenho muitas preferências musicais. Está no meu quarto e rapidamente vou para lá. Quando chego o toque já desligou, me deito na cama irritada. O número é desconhecido. Cayo aparece do meu lado e quase tenho um sobressalto, não estou acostumada com essas aparições. Ele senta-se na cama sem se incomodar. Resolvo perguntar.
—Então... Foi muita informação, pode recapitular para mim? – O fantasma faz um gesto afirmativo com a cabeça, pensa um pouco e olha-me nos olhos, sinto-me nua, ele consegue ler meus pensamentos? Desvio o olhar para a persiana aberta.
— A Casa agora vai tentar matá-la. Ela foi encantada para atrair pessoas de auras ligadas a morte. Ela as devora, como uma planta carnívora. — Fito o teto, ter um garoto no meu quarto deveria ser estranho, mas ele era um fantasma, o que poderia acontecer?
—E tem a lua cheia. – Relembro, mas Cayo parece incomodado, porque sua forma tremula.
—Sim, mas isso é um problema, não há como escapar, ela sempre acaba conseguindo. – Seu rosto se torna triste e resisto ao impulso de compadecer-me dele.
—Só temos que me manter viva até semana que vem. Depois vou embora. – Disse um tanto quanto animada e ele desfez a expressão de preocupação, como se alguma parte de si voltasse a acreditar e assente. Não consigo deixar de dar um leve sorriso, pego a toalha para tomar banho. Entro no chuveiro e ligo a água quente, de repente sinto um cheiro forte e intoxicante: Gás. Isso não é bom!
—Cayo! – Grito e ele aparece no banheiro.
—O que foi? Droga! – Ele diz e encara os lados, tentando fazer algo, começo a tossir e ele parece entender que não pode demorar, olha para cima e lá vê uma falha por onde vem o gás.
A sensação de desconforto aumenta e minha cabeça começa a girar. Inconsciência entorpece meus sentidos, é meu fim?
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