A Casa da Colina
1 Noite chuvosa e manhã cinzenta
1892
Um raio iluminou a noite chuvosa. Ela sabia que logo viria o trovão e também que deveria caminhar mais rápido. Seu vestido e chale já estavam ensopados e começavam a pesar, somando ao peso da criança chorona que carregava em seus braços. Onde estava com a cabeça quando aceitou fazer o que estava fazendo? Enquanto aquela criança estivesse em seus braços, sua vida corria perigo. Mesmo achando que seria loucura, aceitara mesmo assim. Desde quando descobriu a gravidez da amiga, e de quem era a criança, soube que nada de bom viria daquilo; não enquanto a criança estivesse ao alcance daquele homem.
Seus calçados pisoteavam e afundavam na lama. O caminho que vinha a seguir era íngreme, mas no topo daquela colina estava a salvação para aquela criança – assim como a sua própria. O colar de ouro, única joia que teve na vida, fazia-se sentir como um frio em seu peito. Aquele colar era sua única chance de conseguir sobreviver depois daquele dia. Pensando nisso, colocou mais força nas pernas e subiu mais rápido para o topo do morro. Só era possível ver a tênue silhueta de uma construção através da chuva, lá em cima do monte. A vila já não era mais visível dali, o que trazia algum conforto. Mesmo estando em uma área aberta e descampada, não seria possível alguém a enxergar. Longe das línguas compridas da vila, ela estava segura.
Agora já era possível visualizar o casarão com mais detalhes. Um quadrado de dois andares construído de pedras, entrecortado por janelas em arco. Parecia tão velho quanto o próprio morro que encimava. E provavelmente era, pensou ela. Continuou em seu passo rápido. A criança havia parado de chorar por algum milagre. Seu rosto estava meio roxo, mas parecia respirar bem. Ela tinha medo de sufocar a criança entre suas roupas. Antes de receber a criança, sua amiga dissera o nome da menina. Mas ela não tinha certeza se as outras pessoas que a receberiam iriam aceitar tal nome. Não tinha certeza nem se a receberiam de fato. Porém era um pedido da amiga, não podia negá-lo. Se o desejo não fosse cumprido, não era sua culpa.
Finalmente o terreno íngreme começou a aplainar. Tinha completa visão do casarão e da floresta que o rodeava. Outro raio cortou o céu e iluminou o interior do amontoado de árvores. Tudo parecia tranquilo. Nem os animais gostariam de sair em uma noite como essa, quem dirá os homens. Caminhou os passos que faltavam para alcançar a grande porta de madeira. Olhou a criança uma última vez e o trovão ressoou pela colina.
GLÓRIA
O chá já estava frio quando tornou a bebê-lo. Havia passado mais tempo relendo as cartas do que pensara. Tinha consciência de que sua vida não podia ficar presa ao passado, mas, ao mesmo tempo, tinha consciência de que aquele fora seu passado e aquele fora o homem que amou. E que a amara – o mais importante de tudo. Colocou a xícara com o chá frio de volta no pires e se endireitou na cadeira. Com uma mão, pegou o maço de cartas – amareladas e de papel quebradiço – e com a outra, atou uma fita para prendê-las. Segurou-as com as duas mãos, como se elas fossem criar movimento e desaparecer de suas vistas. Fez uma breve oração em lembrança do falecido e devolveu as cartas à última gaveta de sua estante de madeira.
Naquele momento, o quarto foi iluminado pela luz de um raio. Por um instante, as sombras que a parca luz da vela fazia se engrandeceram e piscaram. Glória olhou pela janela e nada viu além de escuridão. Assim como esperava. Pegou o castiçal que segurava a vela e saiu do quarto. Ouviu o choro de uma criança no final do corredor. Seus passos ecoaram pelo corredor de pedra até a última porta à direita. Era tarde da noite, não iria pedir a uma das outras para cuidar da pobre criança. Girou a maçaneta e entrou no quarto. A lareira estava acesa e uma criança chorava sentada em cima de um tapete no chão.
– Pronto, pronto. – Disse Glória colocando o castiçal no chão e pegando a menina. Sentou-se na poltrona próxima e embalou-a em seus braços. A criança tinha um volumoso cabelo – vermelho como as chamas –, sardas por todo o rosto e um nariz arrebitado.
Cassandra havia sido deixada no casarão há dois anos. Com ela, já se contavam 25 mulheres morando ali. Muitas vieram parar ali por escolha própria, algumas outras nem tiveram essa chance, mas todas tinham algum motivo. Glória recebeu a primeira mulher em 1883 – Lurdes, a mais velha delas, agora com 62 anos. Apareceu no casarão fugindo de um marido que a machucava. Glória morava sozinha no casarão, teve empatia e a ajudou. Juntas plantaram e se sustentaram através do que colhiam, vendendo suas frutas, verduras e legumes para a vila. Depois daquilo, outras começaram a chegar. E acharam um abrigo de qualquer problema ou perigo que as atormentavam. Nos dias de hoje, todas as 15 ajudam e contribuem para a renda da casa, assim para com seu cuidado e reparo.
Embalando Cassandra nos braços, Glória pensava o quanto sua vida tinha mudado em tão pouco tempo. Não conseguia pensar em um futuro sem todas aquelas mulheres que acolheu. O casarão já não era mais dela, mas sim delas. Olhou para as paredes do quarto com um leve sorriso. Recostou-se na poltrona e acomodou a criança adormecida em seu colo. Observou as chamas que enegreciam as paredes da lareira. O calor do fogo a envolveu, sentiu seus membros relaxando e seus olhos fechando-se.
O barulho de um trovão a acordou. Cassandra ainda dormia um sono pesado em seu colo. Levou-a de volta para o berço e a cobriu. Havia apenas uma tora de madeira em brasa na lareira. A vela que havia trazido de seu quarto apagara-se. Pegou o castiçal do chão e tentou reacender a vela com as brasas restantes. Quando a chama voltou a queimar a parafina, Glória ouviu um barulho familiar. Alguém batia na porta da frente.
Apagou a vela de imediato. Deixou o castiçal no chão e saiu para a escuridão do corredor. Fechou a porta do quarto e seguiu na direção do som. O breu era total, mas conhecia aquela casa como nenhuma das outras mulheres. Sabia que ao lado da porta havia uma pequena estante e dentro de uma de suas gavetas, uma faca. Mais uma vez, três batidas. A porta estava a apenas alguns passos. O clarão de um raio iluminou o corredor por um instante, tempo suficiente para Glória pegar a faca e esconder na manga do vestido.
Estendeu o braço e girou a maçaneta de uma só vez. Viu uma mulher correndo colina abaixo. Mesmo estando longe ouviu o que ela gritava: “Helena”. A mulher continuou correndo até desaparecer no meio da chuva pesada que caía. Seu olhar voltou-se para baixo. Outro raio iluminou a colina. E, no batente de sua porta, conseguiu discernir um amontoado de panos no chão. Abaixou-se, já sabendo o que esperar. Em meio àqueles panos úmidos, havia uma criança dormindo tranquilamente.
1911
HELENA
— São seis horas, vamos.
Helena abriu os olhos devagar. Não gostava nem um pouco da ideia de ter que sair da cama. Mas eu preciso. Esfregou os olhos com os punhos e sentou na cama. Observou as outras duas mulheres dormindo e teve uma pontinha de inveja, mas elas já haviam feito suas tarefas e mereciam o descanso. Puxou as cobertas e logo sentiu o frio da manhã nas pernas. Percebeu que o piso estava igualmente gelado quando colocou os dois pés no chão. Vestiu-se rapidamente e saiu do quarto fechando a porta devagar atrás de si.
— Tome. — Safira segurava uma caneca fumegante em sua direção. Helena sorriu e sussurrou:
— Obrigada. E obrigada por me acordar.
Ela não entendia como Safira parecia não se abalar com o fato de ter dormido tão pouco. Sentia como se sua mente ainda estivesse coberta por uma neblina de sono, já Safira parecia desperta como sempre.
— Dormiu bem? — perguntou Helena enquanto as duas caminhavam lado a lado no corredor.
— Mais ou menos. — Safira tomou um gole de sua caneca — Fiquei até tarde cuidando dos cavalos ontem, mas não me importo de ajudar hoje também. — As duas entraram na cozinha com as canecas quase vazias. — A Lurdes continua doente. — disse ela com um olhar temeroso. As duas largaram suas xícaras em cima da bancada de pedra e se dirigiram para a porta.
— Continua. — Helena não gostava de pensar muito no assunto, mas era a infeliz realidade. Lurdes adoecia cada vez mais, dia após dia, nada que elas haviam feito tinha melhorado sua condição. Algumas já estavam se preparando para o pior.
O vento frio atingiu-as em cheio ao saírem pela porta da cozinha. A noite não havia ido embora por completo e uma densa neblina se assentava no topo da colina, abrangendo o casarão e a floresta com um abraço gélido. Helena sentiu o ar cortar seu rosto, mas o resto de seu corpo estava protegido. A grama congelada estalava com o caminhar das duas. Se dirigiram prontamente para a pilha de madeira que as esperava. Ambas pegaram seus machados e começaram o trabalho.
— Parece que o machucado de uma das éguas já está totalmente curado, aquela gosma verde que a Cassandra recomendou realmente funciona. — disse Safira ao cortar uma tora de madeira em dois pedaços. — O bom é que se funciona em bicho, pode funcionar em gente também. — Helena chutou um pedaço de madeira para o lado, observou Safira e disse:
— Espero que também funcione com a Lurdes.
— Vai funcionar. — Safira tinha firmeza na voz, mas sua feição não refletia suas palavras.
— Ela não gosta muito que fiquemos falando sobre isso, acho que ela mesma já espera pelo pior. — Helena golpeou a tora com força, rachando-a ao meio. — Mas não podemos fingir que não está acontecendo, só pioraria as coisas. — Safira concordou com a cabeça.
Helena pensava que o melhor que poderiam fazer era se preocupar, talvez assim conseguiriam resolver a situação. Mas preocupação em excesso também não ajudavam, por isso Glória ficava a maior parte de seu tempo ao lado da amiga e não permitia que as garotas mais novas fossem visitar Lurdes frequentemente, seus olhos tristes e chorosos não eram a melhor visão para a doente naquele momento.
Continuaram seu trabalho por um tempo até ouvirem o relincho de um cavalo ao longe. As duas pararam com seus machados em punho e observaram através da neblina, na direção da vila. Não eram muitas as pessoas que tinham coragem de chegar perto do casarão, todos mantinham distância por receio de se tornarem assunto na vila ou por real e simples medo. Esforçando-se para enxergar através do nevoeiro, Helena empunhou seu machado mais firmemente. Lá ao longe, uma silhueta surgia embaçada. Pelo balanço dos ombros estava de montaria. O galope ritmado que quebrava o gelo da grama ficou mais audível e logo Helena reconheceu quem era. A mão que segurava o cabo do machado instantaneamente relaxou, mas sua expressão facial não acompanhou o movimento, ainda era muito estranho alguém subir até ali tão cedo.
A cabeça do cavalo atravessou a cortina nebulosa que se estendia pelo monte e logo após veio o resto de seu corpo e o montador. Safira soltou o machado e caminhou alguns passos para frente. O cavalo parou em frente às duas com um pequeno relincho enquanto o homem que o montava falou apressado:
— Precisamos de Cassandra.
CASSANDRA
O dia estava lindo. Não se parecia nem um pouco com o frio que percorria o final do outono. O brilho intenso do sol refletido pela água atingia o rosto de Cassandra como o carinho leve de uma mão gentil. Fechou seu olhos com um sorriso e aproveitou aquela sensação. Não podia desperdiçar aquele momento pois era quase impossível essa temperatura para aquela época do ano. Sua mão encontrou a superfície da água, estava morna. Seus olhos se abriram. O sorriso em seu rosto foi desaparecendo aos poucos. Isso é estranho. Olhou em volta. O pequeno braço de água parecia correr normalmente entre as árvores da floresta. O chiado que produzia ao se chocar com as pedras parecia pequenos cochichos como sempre. O sol brilhava entre a copa das árvores, atravessando seus galhos e atingindo o chão com tal intensidade que Cassandra não estava acostumada. Conhecia aquela floresta desde sempre, e a respeitava imensamente, nenhum lugar era mais especial para Cassandra do que aquele, mas havia algo diferente. Sua mão ainda estava emergida nas águas do pequeno rio, a temperatura da água havia subido perceptivelmente. Virou seus olhos para o raio de luz que atravessava as folhas e chegava ao chão com imponência. O pedaço de solo atingido parecia enegrecer cada vez mais, não a cor escura de uma terra saudável e fértil, mas um tom acinzentado que a lembrava de lenha queimada. Colocou sua mão perto da luz e, depois, fez contato com ela. A dor foi tão forte que lágrimas caíram de seus olhos instintivamente. Retirou a mão rapidamente, mas era tarde demais, a queimadura já havia atingido sua pele e parecia se alimentar dela, aumentando o machucado cada vez mais. Mergulhou a mão no rio juntamente com a outra. A dor ainda era lancinante, mas parecia melhorar. Através de seus reflexo na água Cassandra viu as costas de sua mão enegrecerem assim como a terra havia feito. A mancha porosa subiu por seu braço, passando por seu pescoço e alcançando seu rosto antes de conseguir gritar.
Cassandra acordou com um nó na garganta. Agarrou as cobertas com as duas mãos, não conseguia respirar. Um instante depois colocou ar para dentro dos pulmões. Inspirou tanto e tão rápido que seu peito doeu. Todos os seus músculos estavam tensos e o frio não ajudava em nada. Tentou acalmar seus pensamentos. Precisava de uma mente clara em um momento daqueles. Ainda não sabia o quê, mas certamente algo estava acontecendo. Seus músculos agora estavam relaxados, mas ainda doloridos com a tensão. Preciso levantar. O pensamento pareceu a impulsionar para fora da cama. Vestiu-se rapidamente para espantar o frio e correu para sua bolsa no canto do quarto, tudo isso de maneira silenciosa para não acordar as outras. Checou se tudo o que precisava estava ali dentro, então passou a alça por cima da cabeça e puxou sua capa do cabideiro.
Ao descer a escada percebeu que não havia amanhecido ainda, mas sentiu que o dia estava próximo de nascer. Correu pelo corredor vestindo a capa e puxando o capuz por cima de seu cabelo. Empurrou a porta com força e seu rosto foi açoitado pelo vento gelado. Correu na direção do homem com o cavalo e com um pulo subiu em sua garupa.
— Diga a Glória que não sei quando volto — disse para Helena e Safira. — Vamos! — O cavalo deu meia volta antes das duas conseguirem dizer alguma coisa. Apertou suas pernas contra o corpo do animal para conseguir firmar-se. — O que aconteceu, Salon?
— É Rosalia. Algum animal a picou, de novo. Não sabemos qual, mas antes de desmaiar ela disse que tinha um rabo comprido. Provavelmente ainda está inconsciente. — Salon bateu as rédeas e o cavalo galopou ainda mais rápido para dentro da neblina.
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