A Casa da Avó

1 A Casa da Avó


A casa tinha um corredor por onde ele passava de vez em quando. Não gostava daquele corredor. Era longo e ia dar a uma porta que comunicava diretamente com a rua. Era escuro, mesmo com as luzes ligadas, e a porta apresentava um pequeno vidro cujo padrão, simplesmente incompatível com a imaginação humana, lhe provocava sérias náuseas inexplicáveis.

Era a casa da sua avó, a sua amável avó, mãe da sua mãe, que vivia sozinha desde a morte do seu marido. A mãe fora buscar uns ovos a casa da velhinha e estava a atrasar-se para o jantar. As casas eram próximas e, por isso, o pai pediu ao rapaz que fosse chamar a mamã para ver se ela precisava de ajuda. E o rapaz lá foi, relutante, deixando um desenho por terminar no seu caderninho da escola.

Chegou à casa e entrou chamando "Mamã!" e "Avó!" mas ninguém respondia. Começou a ter um mau pressentimento. Percorreu a sala, a casa de banho, a mesa de jantar. Nada. Ninguém se via nem ouvia. Só faltava procurar num sítio: para além do corredor. Primeiro, ligou as luzes. Pensou em fechar os olhos mas isso chegava a assustá-lo mais quando pensava seriamente no assunto. Decidiu correr.

Correu, correu. Mexeu as pernas o mais rápido que podia. "Os monstros não me vão apanhar, não me vão apanhar..."

Uma mão pegou-o pelo braço. Fora um puxão firme e inesperado que tomou o corpo da criança. Ela gritou mas não por muito tempo. Era o fim. Fora visto. Eles encontraram-no. Ou melhor, ela, pois tratava-se da sua avó.

Vendo-se na cozinha da casa frente-a-frente com a idosa senhora, perguntou pela mamã. "Foi só às compras, meu querido. Toma. Leva estes ovos ao papá."

Ela abriu a porta do sinistro vidro pintado e ele saiu, contentíssimo por ter cumprido a sua missão e por tudo ter corrido bem, passando pela escura sala onde, encostado à parede mais escondida, estava o cadáver ensanguentado da sua mãe mesmo ao lado do decomposto corpo meio roído do seu avô.

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