Notas iniciais
ATENÇÃO: Sempre que houve algum trecho marcado por [...] nessa história, significa que é um flashback, ok? Fiquei atentos! Boa leitura!

Colton

[...]

Os fios dos seus cabelos eram como cascatas de vinho tinto da melhor safra, e a forma como se moviam enquanto ela girava valia mais aos meus olhos do que os diamantes rubros. Sua risada chegava a mim como num sonho, flutuando, acariciando o ar e meus ouvidos. Ela girava e ria sob aquele crepúsculo onde as estrelas despontavam de segundo em segundo, parecendo acompanhar o ritmo do jazz que havíamos deixado tocando no carro ali perto.

“Oh, Deus, eu não sabia que você conseguia imitar as pessoas de maneira tão engraçada!” Emmanuelle exclamou, dobrando-se um pouco com as risadas.

“A senhorita não deveria falar tais disparates. Não vá querer ficar mal falada, mocinha.” Eu forcei a voz que não era minha, imitando a vizinha de flat de Emmanuelle, uma velhinha com ideias antigas e conservadoras. Havíamos feito aquilo o tempo todo até ali, imitado e rido de algumas pessoas, ou contado histórias engraçadas sobre conhecidos do teatro.

“Oh, não! Eu irei me comportar!” Ela garantiu, colocando a mão sobre a boca e fingindo-se de surpresa.

O vestido de Emmanuelle balançava junto com a brisa e a dança, e as risadas e, Deus, como seu sorriso era lindo. Eu praticamente tropeçava enquanto a seguia, indo por aquele caminho até o lago próximo da pequena estrada de terra batida. Eu sequer sabia da existência daquele pequeno pedaço de paraíso tão perto da capital, mas Emmanuelle era assim, ela sempre sabia sobre os pequenos prazeres da vida.

Como dançar sob o luar, e rir sobre coisa alguma.

“Está errando a coreografia.” Eu ri quando ela perdeu o equilíbrio ao dar um giro. Ela continuava rindo, andando de costas, olhando para mim com diversão. Havia álcool em nossos corpos desde que havíamos deixado nosso grupo de teatro e começado a beber, no terraço do prédio, até a decisão súbita de pegar o carro e dirigir, sem rumo, sem direção.

“Você deveria saber,” Ela falou, ainda rindo e lutando para não perder completamente o equilíbrio “Eu estou ficando velha para isso.” Emmanuelle sorriu e roubou a garrafa de cerveja em minha mão, quando eu estava próximo de alcançá-la. Bebeu um longo gole, jogando a cabeça para trás e permitindo uma visão maravilhosa de seu decote, dos seios protegidos apenas pelo vestido – nenhum sutiã.

“Não está velha...” Eu falei, recapturando a cerveja, também sorvendo um gole rápido. “Diz isso apenas porque tem cinco anos a mais.” Eu falei um pouco contrariado. Eu tinha quinze anos, ela vinte. Eu a conhecia desde os doze quando, curioso com aquelas pessoas chamativas, jovens e barulhentas, a vi dançando ao espiar o grupo de dança e teatro em minha rua.

É idiota dizer que a amei assim que a vi, mas eu tinha doze anos e tinha direito de ter meu primeiro amor, mesmo que nunca houvéssemos trocado uma palavra. Mas agora ela era minha melhor amiga e confidente, e eu não apenas a amava inocentemente, eu a fantasiava e desejava, com todo o ardor e paixão de um garoto adolescente.

“Considera-me um menino?” Perguntei.

“Você se considera?” Ela rebateu a pergunta, mordendo o lábio, voltando a se afastar, andando de ré, para o lago. A música ainda parecia guiar seus movimentos graciosos, ainda que ela não estivesse propriamente dançando. Mas para mim, todos seus movimentos eram sublimes como uma dança suave, uma brisa de mar. Seus cabelos voavam um pouco, vários fios jogados pelo vento contra o rosto pálido, enfeitado com algumas sardas.

Eu não tinha resposta para a pergunta dela. Eu era um idiota, paralisado frente à garota dos meus sonhos.

“Quando eu era mais nova...” Emmanuelle falou, abraçando-se, fechando os olhos como se buscasse lembranças boas enquanto seus quadris mexiam-se de leve, acompanhando o jazz. “Costumava vir aqui, para fugir. Eu fugia.” Ela sorriu nostálgica, movendo as mãos pelo corpo, e eu inevitavelmente comecei a ter arrepios com aquilo, como se suas mãos passeassem pelo meu corpo. Seu perfume contaminava minhas narinas, hortelã e tangerina, uma combinação que combinava perfeitamente com ela. “É essa liberdade, Colton. Nós a perdemos se não a cultivamos.” Ela suspirou, e a breve tristeza em seus olhos, ao reabri-los, deixou-me agitado, com uma necessidade quase dolorosa de mantê-la com aquele sorriso de antes.

“Você é a pessoa mais livre que eu conheço.” Falei, deixando-me cair no chão, sentando-me porque eu também não me encontrava em meu melhor estado. Nunca havia bebido tanto, e eu certamente era mais fraco do que ela para o álcool. Não à toa ela quem havia dirigido até ali; do contrário, teríamos batido contra um carro. “Você sempre será livre.”

Ela riu novamente, mas não era um riso irônico, incrédulo, ou o que fosse. Era apenas um riso, cristalino como a água atrás dela. Seu vestido floral continuava balançando, agora menos do que antes. A noite era quente, ainda que fresca e agradável, mas isso era o suficiente para que seus mamilos ficassem eriçados, marcando o tecido fino. Eu sorri de volta quando ela voltou a dançar, olhando-me de uma maneira divertida e provocativa.

“Você me conhece,” Ela disse, sua mão subindo até a alça esquerda do vestido. Ela brincou com o tecido, mordendo o lábio para não sorrir. Seus cílios eram longos o suficiente para criarem uma sombra em seus olhos claros, quando ela os deixava entreabertos daquela forma, com um ar indecifrável em seu olhar. Eu geralmente não sabia o que se passava pela cabeça dela, então estava perfeitamente acostumado. “Eu amo esses momentos...” A alça caiu, assim como meu queixo, lentamente. Ela tocou a outra alça, brincando ali também. “É extraordinário, não acha?” Ela me olhou, deixando o vestido escorregar por seu colo. Seus seios firmes, arrebitados, com sardinhas lindas, ficaram expostas aos meus olhos admirados. “O ego desaparece e não há senso de empenho, de esforço... São momentos que acontecem quando o amor acontece.”

Ela me deu as costas e deu um passo para o lago. Seu vestido foi completamente ao chão, ondulando ao cair pela curva do quadril. Apenas o farol ligado do carro e os parcos raios do sol, que já havia sumido no horizonte há algum tempo, ainda ajudavam-me a vislumbrar aquele corpo que parecia emoldurar-se aos caprichos da natureza, fazendo-me perder o foco do mundo e concentrar-me apenas nele. Meu coração batia como louco e meu sangue corria para o lado contrário da minha cabeça.

Emmanuelle pulou no lago, com uma ponta. Nisso eu já havia me levantado e começado a tirar minhas roupas aos tropeços, pronto para acompanhá-la. Quando ela emergiu, com os cabelos rubros mais vermelhos do que nunca, ela sorriu e riu ao ver meu desespero, afobação e excitação.

“Desse jeito, vou acreditar que nunca viu uma mulher nua antes...” Ela falou charmosa e brincalhona. Eu sabia o quanto Emmanuelle era livre e sedutora. Dezenas de homens, todos os meses, procuravam-na e levavam-na para sair, quebrando, ao final, o coração por ela. De alguma forma, ela nunca se prendia, gostava de conhecer novas pessoas, novas amizades. Saía com alguns caras, numa quantidade e frequência normal para qualquer garota jovem. Por mais que dispensasse alguns, muitos insistiam. Outros, que ganhavam sua atenção por mais tempo, sofriam com o término do pequeno e fugaz romance e, ou nunca mais apareciam, ou sempre retornavam em busca de uma segunda chance.

Se eu era tolo de seguir pelo mesmo caminho? Sim, mas eu não me importava, pois iria me lembrar daqueles momentos para sempre, com adoração, com ternura e a certeza de que havia me permitido viver ao máximo o que a vida me oferecia.

Quando eu mergulhei, emergi perto o suficiente dela para voltar a sentir seu perfume.

“Eu já vi...” Falei, referente à pergunta dela. “Só nunca... Tão de perto.”

“Hm...” Ela mordeu os lábios, olhando para meu peito. Eu era alto para minha idade, ainda que ainda não houvesse atingido minha altura máxima, mas eu era mais alto do que ela, e meus bíceps eram facilmente o triplo do braço delicado e fino dela.

Emmanuelle pegou minha mão e levou-a até o seio dela. Não era grande, mas enchia a minha mão. Era macio e eu o apertei de leve, mal pensando no que fazia. Eu olhava para aquilo – minha mão cobrindo seu seio, e isso era tudo que parecia existir no mundo. Meu pênis pulsou sob a água, lembrando-me do quanto eu estava excitado e nervoso.

“Isso é perto o suficiente para você?” Ela perguntou um pouco mais séria, parecendo estar com a respiração ligeiramente acelerada também. Minha alma latejou, e um precipício pareceu engolir minhas palavras. Eu queria tocá-la mais, queria abraçá-la e afundar meu rosto em seu pescoço, beijar suas sardas e chupar os mamilos eriçados e úmidos. Queria tocar sua intimidade e deslizar meus dedos para dentro dela, beijá-la entre as pernas e sentir na ponta da língua sua umidade e calor.

“Você quer me matar, Emmanuelle?” Eu sussurrei e completei: “Porque se for, eu morrerei feliz. Aqui, agora, apenas olhando para você.”

“Morrer?” Ela riu com simplicidade, mas não disse mais nada, apenas se afastou pelo lago, nadando e fugindo, como ela disse que costumava fazer. Ela girou agora na água, abrindo os braços, seus seios livres como seus pensamentos e ideias. “Eu poderia dançar aqui a noite toda. Você não? Eu sinto que poderia ser jovem para sempre, se apenas continuar aqui, dançando.”

“Sim... Com você, eu poderia dançar para sempre.” Falei como o imbecil que era e a acompanhei, quando ela pegou minha mão.

“Então dance, Colton!” Ela exclamou, girando comigo. “A vida é um movimento contínuo, como uma dança. Uma dança cheia de passos e coreografias.” Emmanuelle riu e nós nos perdemos ali. Perdemos minutos, ou horas, ou mesmo séculos dançando no lago, abraçando-nos, tocando-nos, fugindo... Ela fugia e eu a alcançava, abraçando-a por trás e a erguendo do lago.

Nunca fui tão livre quanto naquele momento, enquanto Alice In Wonderland, dos Modernaires, tocava no carro, e nós brincávamos e brindávamos em nosso próprio paraíso particular.

“Eu nunca fiz isso.” Falei, ofegante, quando paramos na margem contrária do lago. Ela havia caído na grama, de costas, e eu estava sobre ela, sentindo a ponta de minha ereção tocando em seu ventre liso e macio. Emmanuelle tocou meu peito, acariciando minha pele molhada, com um olhar distraído, mas tão desejoso quanto o meu.

“Está tudo bem.” Ela sussurrou e me empurrou delicadamente, fazendo com que eu me deitasse de costas na grama. Ela se sentou em meu quadril, deixando sua intimidade tocar e envolver, de maneira quente, meu pênis. “Eu não te considero um menino.” Ela murmurou e ondulou o quadril, friccionando-se contra meu pênis, a água em nossos corpos facilitando o movimento. “Eu te considero um homem. E nesse momento,” Ela suspirou, jogando a cabeça de leve para trás. Seu peito subia e descia, um pouco alterado, e eu senti que iria enlouquecer. Minhas mãos seguraram com força a cintura dela. “É um homem que quero dentro de mim.”

Nós nos olhamos. Eu apenas a segurava com força, quase paralisado pela ansiedade, mas mesmo assim ela conseguiu se mover, segurando meu pênis e o encaixando contra ela. Sua vagina estava quente e úmida, e rapidamente me aceitou, envolvendo-me por completo. Eu revirei os olhos sob as pálpebras, extasiado, ofegante, e eu a puxei com mais força contra mim. Emmanuelle gemeu e eu desejei aquele som mais do que qualquer outro.

Molhado, quente e intenso. Era assim que eu sentia. Era estar navegando por entre nuvens macias e mornas, quentes e entorpecentes, tempestuosas e rodopiantes. Tudo latejava em mim… E também vibrava, regozijava, queimava, ardia, estremecia, enlouquecia e girava. Girava como Emmanuelle dançando, fosse em terra, fosse em água.

Ela girava completamente meu mundo.

[...]

XxxX

Eu deveria exigir um quarto apenas para mim.

“Relaxe, depois de um tempo você se acostuma.” Falou Tristan, parando à janela do quarto para olhar o movimento. “Julian é apenas um pouco excêntrico.”

“Um pouco?” Eu perguntei, erguendo uma das minhas camisetas favoritas para malhar que, agora, estava com várias manchas desbotadas. “Ele esguichou alguma coisa em mim e isso acabou com minha camiseta!” Aquele maluco estranho havia me atacado quando entrei no quarto e depois saído correndo ao ver-me furioso.

“Julian tem TOC, dificilmente vai deixar você entrar no quarto após treinar, suado e fedendo. Ele começou a se tratar quando entrou na faculdade e hoje em dia está bem melhor, mas é melhor sempre deixar uma toalha no banheiro coletivo desse andar e entrar no quarto já de banho tomado.” Tristan deu de ombros, obviamente já acostumado com seu colega de quarto doido.

Como eu havia ingressado na Ketteridge com uma semana de atraso, não havia mais dormitórios disponíveis e fui alocado num quarto onde dois alunos das já dormiam. Tive a leve impressão de que o tal Lawrence, responsável por quase todo o funcionamento das Belas Artes, havia me colocado ali justamente para implicar com Tristan. Agora nós três dividíamos um único quarto e, por enquanto, eu precisava dormir no chão enquanto a nova cama e cômoda solicitadas por Lawrence não chegavam.

Eu não me importaria com isso, se não dividisse quarto com um garoto estranho que eu já havia flagrado, durante a noite, mexendo nas minhas malas com luvas para, segundo ele, limpá-las. Tristan era ok e eu não entendia ainda o ódio entre ele e Lawrence que, apesar de irritantemente certinho ao encher meus ouvidos com regras e mais regras, parecia bastante eficiente e prestativo.

Tristan riu de leve com minha indignação, virando-se para mim e cruzando os braços, ainda apoiado ao umbral da janela. O detalhe era que ele estava sem camisa, após uma ducha rápida no banheiro do quarto. Não havia como eu não reparar no quanto ele era sensual e quente, principalmente depois de eu começar a transar com homens na Casa das Máscaras. Culpe também minha inclinação para as artes. Pessoas dessa área costumam reparar em todos os tipos de beleza.

Ele tinha dreadlocks finos e usava um colar masculino comprido, de bolinhas de madeira, que parecia nunca tirar, além de pulseiras de corda estilizadas no pulso esquerdo. Era um estilo despojado que dava a ele um ar de quem queria curtir a vida e não encanava com bobagens, como uma camiseta estragada. Naquela primeira semana de convivência, eu já havia ido com a cara ele, mesmo com aquele nariz arrebitado e olhos bicolores.

“Era só uma camiseta que você usava para musculação, não uma roupa de gala caríssima.” Ele desconsiderou e olhou para o relógio. “A audição para a peça desse mês já deve estar na metade. Calouros ganham um bom destaque se conseguem um papel, mesmo que de figurante. E é um musical. Você disse que seu maior interesse é a dança e o teatro, então pode se dar bem.”

“Eu não me inscrevi. Ouvi dizer que Donatella é barra pesada. Terei algumas aulas com ela, porém apenas daqui uns dois semestres.” Eu falei, jogando minha camiseta no lixo. “Irei tomar um banho e vou para o Lyric Convent, ao menos para olhar a audição.”

“Tsc.” Tristan estalou a língua contra os dentes. “Não seja um calouro medroso e siga os conselhos de seu veterano. Irei colocar seu nome na lista dos inscritos. Não se preocupe que o prazo acabou, eu tenho meus métodos.” Tristan pegou uma camisa em cima da cama e a jogou sobre um dos ombros. Ele era branquelo, magro e definido, e seu corpo poderia ser um prato cheio para um acadêmico de medicina estudando a musculatura humana. Cada grupo deles saltava de leve dependendo do movimento que ele fazia. “Até daqui uma meia hora.” Ele acenou batendo a ponta de dois dedos na testa e saindo do quarto.

Eu entrei no banho e tentei não demorar muito. O jeito era participar da audição, talvez me ajudasse e seria interessante participar de uma peça escolar. Ela era exibida não apenas aos alunos, mas ingressos também eram vendidos para pessoas de fora. Como a exigência de qualidade era alta naquela universidade, o Lyric Convent e suas peças e apresentações haviam ganhado uma fama respeitável, pelo que eu havia escutado. Sucesso dentro da Ketteridge era uma garantia de sucesso após o fim do curso.

Isso me deixava com um pouco de frio na barriga, mas eu tentei minimizar isso, pensando em quantas vezes já havia passado por algo muito pior, como quando fui encontrar Leonard para minha primeira sessão de sexo homossexual como prostituto da Casa. Havia sido horrível, e uma simples audição não podia ser pior do que aquilo. Mas, por um lado, aquela excitação e nervosismo eram até gostosos, pois tinham relação com algo que eu gostava e fazia parte de minha vida desde antes da morte de Emmanuelle e minha prostituição.

Saindo do banheiro, deparei-me com Julian, que arrumava as camas. Detalhe que elas estavam organizadas, mas havia dobras nas colchas. Com um suspiro, segurei melhor a toalha que circundava minha cintura e perguntei:

“O que está fazendo?” Eu sabia, mas era uma ótima oportunidade para assustá-lo.

Julian deu um pulo e virou-se para mim, arregalando os olhos.

“Eu estava arrumando... Estava... Desarrumado.” Ele explicou baixinho, sem desviar seus olhos verde oliva dos meus. O jeito de ele falar também era meio estranho, lembrava o de uma pessoa neurótica e desconfiada, ainda que, quando ele estava desenhando ou pintando, adquiria um ar tranquilo e respondia às perguntas com bastante serenidade. Era assustador.

Eu me aproximei.

“Não, não estava. Você que fica vendo coisas onde elas não existem.” Falei, mantendo meu olhar nele e me divertindo de leve ao vê-lo começar a ficar desconfortável com a aproximação. Alguns pingos de água escorriam pelo meu corpo e vi Julian os seguindo com o olhar. Mas não como se achasse a visão sensual, e sim como se tivesse pânico daqueles pingos. “O que foi? Ainda acha que estou sujo? Vai jogar um daqueles seus produtos em mim de novo?”

“Não...” Murmurou, porém deu um passo para trás. “Mas não se aproxime, por favor.”

“Por quê? Está com nojo?” Perguntei abrindo um sorriso maldoso. Julian também seria bonitinho se não fosse tão estranho. Tinha cabelos castanho-claros curtos, um nariz estilo romano e lábios cheios. Certamente era virgem e considerava sexo uma coisa asquerosa e suja.

Eu parei apenas quando as costas dele bateram contra a parede, e o olhei de cima. A diferença de altura era razoavelmente significante, talvez apenas uns dez ou quinze centímetros. Os olhos dele se tornaram ainda mais arregalados, e eu me perguntei qual seria a reação dele se eu encostasse em seu rosto. Mas no lugar disso, peguei a mão dele e a espalmei contra meu peito.

“Você está pegando meus germes.”

“V-Você tomou banho.” Ele falou, completamente tenso.

“E mesmo assim você se sente mal? Há bactérias em todos os lugares, sabia? Até mesmo no ar que você respira. Elas estão invadindo seu pulmão nesse exato momento.” Falei sem me importar que aquilo poderia apavorá-lo. Era senso comum e ele já deveria saber disso.

“Meu TOC não é tão grave, e eu me trato há dois anos...” Ele murmurou, olhando para a própria mão sobre meu peito. “Eu não gosto de contato, mas consigo tolerá-lo. Também odeio desorganização, imperfeições, cheiros ruins e coisas sujas. Você não está sujo, mas é desconfortável... O calor da sua pele.” Ele puxou a mão e escapou pela tangente.

“Você caiu em uma poça de merda quando era pequeno? Dizem que TOC está relacionado a algum trauma de infância.” Falei, deixando-o escapar e correr para o banheiro lavar as mãos.

Ele demorou a responder – não que eu achasse que ele realmente me diria alguma coisa.

“Eu... Fui abandonado quando criança por minha mãe biológica. Eu tinha um ano, eu acho... Ela me colocou numa caçamba de lixo e eu fiquei três dias preso naquele lugar escuro e sujo... Também odeio lugares pequenos e fechados.” Ele relatou abertamente, surpreendendo-me, pois não é comum as pessoas saírem contando sobre traumas ou experiências ruins para quem mal conhecem.

“Eu não sabia.” Um pedido de desculpas brotou em minha garganta, mas então pensei que não havia feito nada demais para me desculpar.

“É claro que não, eu não havia te contado. Só Tristan sabe. Eu também sei coisas sobre ele.” Julian murmurou, quase abrindo um sorriso. “E você deveria ir, a audição já começou há uma hora, sabe.”

“Porra!” Eu me sequei e arrumei na velocidade da luz e voei para fora do quarto, somente no caminho me perguntando como ele poderia saber que eu pretendia participar da audição.

XxxX

O Lyric Convent era uma coisa enorme e chique, lembrando aqueles teatros italianos cheios de frescuras. Assim que entrei, um tanto impressionado, logo avistei pessoas no palco e um grupo sentado na plateia. Senti minhas mãos suarem pela ansiedade e uma batida mais forte do coração doer no peito, e acabei sorrindo com certo escárnio para meu próprio nervosismo. Não tenho mais idade para esse tipo de insegurança.

Eu não sabia a quem deveria me dirigir, mas antes que precisasse me preocupar comigo, alguém chamou pelo meu nome. Olhei para o lado e, sentado na plateia na região mais longínqua do palco, estava Andreas. Ele levantou-se e caminhou até mim, sorrindo aquele sorriso divertido e malicioso que apenas ele tinha. Aquela primeira semana de aulas havia sido tão corrida que eu até havia me esquecido que ele também estava na Ketteridge.

“Não procura mais os amigos, Colton?” Ele perguntou, ácido e provocante. Eu o puxei pela cintura e o mordi no pescoço quando ele me alcançou.

“Você sabe que não é assim, lindinho.” Falei, sedutor.

Era quase um ritual entre nós: quando nos encontrávamos, sempre nos provocávamos dessa forma, mas permanecíamos apenas amigos. Andreas suspirou e beliscou minha barriga, antes que eu o soltasse.

“Nem dá para acreditar que tantos de nós estamos na Ketteridge.” Ele riu, passando a mão pelos cabelos para jogá-los para trás. “Eu, você, Jessica e Fabian. Fabian trabalhando, mas mesmo assim.” Ele deu de ombros.

“Do nosso grupo, sim. Mas não duvido que mais alguém da Casa com quem não falamos muito estude aqui, em sigilo.” Eu falei, expondo uma desconfiança que havia surgido durante a semana. Mas também não importava muito quem estudava ou não ali, se eu já sabia sobre meus amigos mais próximos. “Veio assistir às audiências?”

“Sim. Você sabe que gosto de teatro... Muitas pessoas de fora não são permitidas, mas eu entrei de fininho. Também achei que você estaria aqui.” Andreas me deu um soquinho no abdômen. “Você nem precisava de audição. É só levar a carrasca da Dorabella na Casa das Máscaras e fazemos para ela aquela apresentação especial para as mulheres. Lembra daquela noite que imitamos as danças do filme Magic Mike?” Andreas riu com a lembrança. “Você arrasou no ‘papel principal’.”

“Acho que o nome é Donatella. E por alguma razão isso parece uma péssima ideia.” Falei irônico.

“Colton!” Nós olhamos em direção ao chamado e vimos Tristan subindo as escadas entre as poltronas. “Achei que não iria aparecer. Venha, logo você será chamado.”

“Mas... Eu nem estou sabendo qual a peça!” Eu falei, aturdido.

“Como o dia das crianças está chegando e recebemos um pedido do prefeito para fazermos uma apresentação infantil, faremos A Pequena Sereia.” Tristan informou, mas depois sua expressão se tornou um pouco apologética. “Mas todos os papéis principais já foram preenchidos. Porém os secundários estão começando agora. Vamos.” Ele colocou uma mão em minhas costas e me arrastou. Apressado, eu sequer tive tempo de lhe apresentar Andreas.

“Boa sorte!” Andreas exclamou.

Então eu fui para o palco, junto com outros garotos e garotas. Uma mulher na base de seus quarenta anos, com longos cabelos acobreados e cacheados, rosto longilíneo e nariz fino e reto levantou-se, olhando-nos com olhos tão claros quanto seus cabelos. Era muito bonita, apesar de já não tão nova, mas tinha um ar extremamente intimidante.

“Muitos de vocês são calouros e ainda não sabem atuar.” Ela falou objetivamente. Seu tom de voz era forte e decidido, e ela não soava muito simpática. “Mas apresentando-se em sua primeira peça, terão oportunidade de se destacar. Um erro, e me lembrarei de vocês por um bom tempo como perdedores. Pensem bem antes de aventurarem-se numa apresentação sem estarem realmente prontos.” Ela declarou, passeando o olhar por cada um de nós. Quando parou em mim, senti um arrepio subir por minha coluna.

Depois de seu discurso nada animador, ela pegou uma folha de papel e o ergueu para lê-lo.

“Colton Hartel, um passo à frente, por favor.” Ela chamou e eu suspirei internamente por ser o primeiro. Mas frente a uma mulher como aquela, o melhor era não demonstrar nenhuma insegurança, então dei alguns passos à frente, colocando-me no meio do palco.

Donatella analisou-me com uma atenção analítica.

“Você tem quantos anos, Sr. Hartel?”

“Tenho vinte e três anos, madame.” Falei, colocando minhas mãos atrás das costas.

“Começando tarde no ramo...? Nunca é um bom sinal, será mais difícil para você. Está anotado aqui que tem maior interesse na dança, mas arrisca teatro e algum vocal. O que sabe dançar, Sr. Colton?”

“Basicamente,” comecei, com os dentes trincados pela alfinetada dela “qualquer coisa que eu tentar – jerk, free step, zouk, bolero, tango, shuffle, salsa, dança moderna e contemporânea, ou mesmo o estilo da broadway. É uma área em que tenho bastante facilidade. Já no teatro... Eu participo de um grupo há vários anos e tenho algumas experiências com público, mas diria que no canto apenas dou para o gasto.” Admiti, pois de fato nunca havia treinado minha voz de maneira mais profissional.

“Ótimo. Lembrarei de seu nome daqui dois semestres e cobrarei por tais habilidades que julga ter.” Donatella sentou-se, sisuda. “Colocaremos uma das músicas que assinalou em sua inscrição e você pode dançar para nos mostrar um pouco do seu estilo.” Ela falou e moveu a mão, dando sinal para que colocassem a música.

Por um momento eu me desesperei, pois era Tristan quem havia feito a inscrição, e eu não tinha ideia do que ele poderia ter colocado ali, mas então a música Locked Out of Heaven, do Bruno Mars, começou a tocar e eu senti um alívio imediato. Eu havia comentado com Tristan, em algum momento daquela semana, que estava treinando essa coreografia no grupo de dança e teatro amador do qual faço parte desde minha pré-adolescência.

No momento em que a música começou e eu dei início o primeiro passo da coreografia, todo o nervosismo me deixou. Estava acostumado àquilo, não importava que alguma carrasca jogo-duro estava me observando. Eu sempre havia amado a dança e o teatro. Foi a dança que me fez amar Emmanuelle, ou ela que havia me feito amar a dança. Eu já nem saberia dizer, considerando que já fazia uns dez anos desde que tudo havia começado.

A música entrou em meus ouvidos, e a dança espalhou-se por meu corpo, guiando meus músculos, numa sensação indescritível, quase uma carícia de notas musicais. Porém não dancei por sequer nem dois minutos, pois Donatella interrompeu a apresentação com uma expressão pouco ou nada impressionada.

“Obrigada pela participação, Sr. Hartel. Próximo – Milton Dietrich.” Ela chamou, não falando absolutamente nada sobre meu desempenho, nem sequer se havia gostado. Após um instante paralisado pela atitude da mulher, eu saí do palco, dando lugar ao outro garoto.

Encontrei Tristan no backstage.

“Você dança bem, garoto.” Ele cumprimentou.

“Ela deve ter odiado.” Eu lamentei, deixando meus ombros caírem enquanto ignorava a ironia de ter sido chamado de garoto por um cara dois anos mais novo do que eu.

“Você está louco? Ela te deixou dançar por mais de um minuto. Isso é um bom sinal.” Tristan riu na minha careta descrente. “Fique tranquilo, se não for nessa, será numa outra. Você está recém começando, relaxa.”

Era a segunda vez no dia que ele me mandava relaxar.

“Se já está me mandando relaxar, é porque não passei nessa porra.” Eu concluí, fatalista. “Ah, foda-se isso. Vou ir tomar um ar.” Fui para o lado de fora do teatro e, não demorou muito, Andreas apareceu novamente.

“Apresentação rápida.” Ele disse, sentando-se ao meu lado num banco que havia ali. “Aquela Donatella é uma vadia, você tinha de ter visto as audições anteriores à sua. Na real, foi até engraçado, mas teve alguns que saíram chorando após as palavras dela.” Andreas mordeu o lábio. “Eu teria mandado ela se foder, e não saído chorando, mas tudo bem.”

“Você sabe quem pegou cada papel?”

“Seu amigo Tristan ficou com o papel de Linguado. Já a pequena sereia ficou com uma menina chamada Marion. O babaca do Lawrence pegou o de Sebastião. Príncipe Eric ficou nas mãos de um cara bonitão chamado Flinn. O resto não lembro.” Andreas apoiou a cabeça em meu ombro. “Você vai na Casa hoje à noite?”

“Sim, estou na escala.” Disse, estafado. Não estava com a menor vontade de dar a bunda, se bem que comer alguma coroa gata de quarenta ou cinquenta anos e imaginar que era a Donatella seria mais do que bem-vindo. “Por que não gosta do Lawrence?”

“Ele me flagrou com um garoto aqui, no Lyric Convent, e nos denunciou para o diretor. Algo como ser proibido pegações no teatro. Eu teria saído no jornal junto com Christian, o garoto com quem eu estava... De rolo.” Andreas explicou, o semblante ficando um pouco chateado. “Mas aí a Jessica conseguiu impedir isso. Ela, além de ser membro da fraternidade Sigma, está de rolo com um garoto do jornal, braço direito de Lance, chamado Chase. É claro que ela o convenceu a não publicar meu nome, e Lance parece não ter-se importado, por alguma razão que não faço ideia. Mas foi um alívio, seria um porre ganhar destaque e ter a vida investigada por alguns curiosos.” Andreas contou e eu acabei lembrando-me da notícia de jornal que estava rolando quando eu cheguei à universidade. “É claro que ela não fez isso apenas devido ao bom coração dela. Aquela vadia estava querendo se proteger também. No momento em que um de nós cair, todos cairemos.”

Andreas não chamava Jessica de vadia num sentido maldoso – para ele isso era quase um elogio.

Ele soltou uma risada aleatória.

“Você acredita que aquela ruiva safada está de rolo com esse tal Chase, mas saindo com meu atual colega de quarto, chamado Derek? E esses dois são de fraternidades opostas. Pelo que ela deu a entender, ambos estão loucos por ela. É claro que estão, estamos falando de uma ruiva gostosa versada no pompoarismo. Mas se eles descobrem... Só imagino a briga que dará.” Andreas parecia até mesmo divertir-se com a possibilidade de o caos se instaurar naquele trio.

“E nenhum deles sabe que ela é uma prostituta, imagino.” Eu murmurei, lembrando-me que, naquela semana mesmo, acho que na terça-feira, eu e Jessica havíamos acabado num quarto da Casa das Máscaras após o expediente e trepado até desmaiarmos de cansaço, experimentando vários fetiches diferentes. Deus, eu nem sabia que ela andava de rolo com outros dois caras.

Não queria problemas com ninguém da universidade por causa disso.

“E aquele Tristan? Ele não é exatamente meu tipo, mas é bastante atraente.” Andreas me cutucou.

“Há uma política nas Belas Artes, sobre não ser permitido sexo, ou algo assim. Acho que vou evitar me envolver com colegas de quarto ou de curso.” Ponderei pensativo. Eu não havia pensado sobre isso ainda, mas eu já tinha bastante sexo na Casa das Máscaras e não precisava procurar por isso na universidade. “Você falou com Fabian essa semana? Mal tive tempo de ir vê-lo desde terça.”

“Sim, passei por lá ontem. Ele está adorando o novo emprego. Se não fosse pela manada de irmãos que ele tem, aposto que até teria deixado a Casa. Desmond é mesmo como um pai para nós.” Andreas falou satisfeito pelo amigo, mas seu último comentário carregava certo tédio. “O que é uma merda. Eu adoraria experimentar ao menos uma noite de sexo com Desmond... Ele é tão misterioso, deve foder muito bem.”

“Hm.” Não dei continuidade ao assunto, ou poderia acabar falando demais.

Eu e Andreas conversamos por mais um tempo, até ele despedir-se e eu voltar para a república das Belas Artes.

Mas eu não teria muito tempo para descansar. Desmond havia me mandado uma mensagem pela manhã, avisando-me para chegar mais cedo à Casa das Máscaras, pois tínhamos assuntos a tratar. Esse era o código dele para ter eu, deitado nu, na cama dele. Suspirei, perguntando-me se hoje eu conseguiria arrancar mais algum detalhe sobre a história de Emmanuelle.

Era a única razão para eu continuar me submetendo aos desejos dele.

XxxX

Escondi meu rosto entre os braços e mordi meu lábio quando Desmond penetrou-me mais profundamente, acelerando a velocidade e a força das estocadas, percebendo que eu estava muito próximo de gozar. Gemi abafado, pensando que ficar de quatro não era das minhas posições favoritas, mas eu tinha de admitir que proporcionava um prazer infernal, e as mãos de Desmond em meu quadril davam um contraste perfeito com esse calor.

Não demorei mais do que um minuto depois que ele segurou minha ereção e moveu a mão junto com o movimento de quadril. Já havíamos passado por umas três outras posições antes de acabarmos daquela forma, e eu não tinha tanto autocontrole assim – mexer com a próstata de um homem é assunto sério, e eu ejaculei nos dedos de Desmond enquanto ele acariciava minha glande.

“Filho da mãe...” Sussurrei, e não sabia se queria que ele me escutasse ou não.

Assim que ele tirou o pau de dentro de mim, após mais alguns minutos para que também chegasse lá, eu me virei e caí de costas na cama, um pouco ofegante. Olhei para ele, vendo seus cabelos um pouco desgrenhados, o rosto corado pelo esforço e a pele branca lustrosa pelo suor. Era bom vê-lo sem toda aquela elegância impecável para variar. Parecia deixá-lo um pouco mais humano, principalmente a cena de ele tirando a camisinha do pênis para colocá-la no lixo.

“Fiz uma audição para um musical hoje. Talvez eu consiga papel como figurante.” Comentei para cortar o silêncio pós-orgasmo e distrair meu nariz dos aromas luxuriosos daquele quarto. “Meu colega de quarto é veterano e diz que isso pode me ajudar. O que me irritou foi a mulher que fez a audição. É uma figura grandona ali dentro, responsável por toda Belas Artes. Se chama-“

“Donatella Coradelli.” Desmond completou minha fala, enquanto pegava suas roupas para vesti-las.

“Como sabe?” Perguntei, mas não obtive resposta. Irritando-me porque ele nunca respondia às minhas dúvidas, eu me ergui e segurei-lhe o braço, puxando-o para a cama. Ele caiu deitado e eu montei nele, sentando-me sobre seu quadril. “É irritante quando me ignora.”

“Há coisas que não dizem respeito a você.” Desmond desafiou, ou eu assim entendi, porque sempre era como um desafio arrancar alguma coisa dele. Eu coloquei minhas mãos de cada lado da cabeça dele e me inclinei para frente.

“Você me fode quando bem deseja, e eu tenho de aguentar calado, e depois ainda diz que as coisas relacionadas à minha vida não me dizem respeito? Eu vou ter de aguentar essa mulher pelos próximos anos de minha vida. Poderia me dizer algo sobre ela!” Exclamei, estreitando meu olhar.

Desmond não pareceu abalado, mas uma de suas mãos pousou em minha lombar, criando um arrepio leve. Ele então se sentou, enlaçando-me com um braço pela cintura, enquanto o outro braço usava para apoiar-se. Seus lábios percorreram meu pescoço, e eu percebi que havia me colocado naquela situação por vontade própria.

Eu deveria ser mais esperto.

“As coisas que sei sobre ela não iriam ajudá-lo em nada, meine häschen.” Desmond explicou e beijou levemente meu ombro. Suas demonstrações de afeto me deixavam completamente atônito, e provavelmente por esse motivo ele as manifestava justamente quando eu queria arrancar-lhe alguma informação. O apelido, eu havia pesquisado, era uma forma carinhosa como alguns namorados alemães se tratavam e significava ‘minha pequena lebre’. John, ou Igor – caramba eu nunca consigo me lembrar! – havia me contado que Desmond vivera alguns anos na Alemanha, quando criança.

“Mesmo assim, eu quero saber. Porra, você podia me contar ao menos alguma coisa!” Eu não queria me dar por vencido tão cedo, não por apenas um mísero beijinho e um apelido carinhoso em uma língua que eu não sabia nem informar meu nome ou contar até dez. Alemão não combinava com Desmond, um francês ou italiano cairia melhor e não soaria tanto com um xingamento.

Desmond suspirou e o ar quente de sua respiração bateu em minha pele, onde ele havia me beijado. Ele se ergueu, e eu fui junto, acabando de pé em frente a ele.

“Vista-se.” Ele ordenou e afastou-se, colocando um roupão comprido que estava pendurado próximo. Depois, caminhou até uma pequena mesa onde havia algumas bebidas e pequenos copos de vidro, ou cristal, e serviu-se de uma dose de uísque.

Era irritante o quanto ele não me revelava nada, fosse sobre ele, sobre Emmanuelle, ou qualquer outro assunto. Eu me vesti com raiva, deixando clara em meus movimentos a minha insatisfação. Eu não iria mais transar com ele, estava decidido! Ele que procurasse outro membro da Casa para se satisfazer, Andreas com certeza não se importaria de servir de objeto sexual para ele.

Na próxima mensagem que ele me mandasse, eu iria ignorá-lo.

Caminhei até a porta sem falar nada, sabendo que aquela noite de trabalho seria uma merda, pois eu estava puto da cara com meu ‘chefe’ e adoraria causar algum problema na Casa apenas para deixá-lo também furioso, mas, antes que eu saísse, a voz dele chegou aos meus ouvidos.

“Ela é minha ex-esposa.”

Da porta, eu me virei para ele, boquiaberto.

“E-Ela...”

“Sim, é exatamente como está pensando.” Desmond pareceu ler meus pensamentos através de minha expressão assombrada. “Mas é melhor que não fale com ela sobre... O passado.”

“Você não pode me impedir...” Eu murmurei, mesmo que eu sequer soubesse como poderia aproximar-me de Donatella e falar sobre algo tão pessoal e complicado.

“Acredite. Eu posso.” Desmond bebeu o que restava em seu copo com um único gole. Nós dois sabíamos que ele estava certo, mas eu fingiria até minhas últimas forças que não. “Agora vá... A Casa abrirá em poucos minutos.”

Saí dali batendo a porta, a adrenalina correndo em minhas veias por descobrir um pouco mais sobre os dois carrascos de minha vida.

Notas finais
Como eu imaginei o Colton dançando: https://www.youtube.com/watch?v=aeVhW4yr21g (acho essa coreografia tão fofa!). Próximo capítulo é do Lawrence! Obrigada à: Jeeh, Tsukasa, Anne Marie, Ruth Echelon, Vivi Costa, Tsuito Lena, Bárbara Carvalho, Naiara Azevedo pelos comentários!