A Casa Das Máscaras
12 Capítulo 12
Andreas
Após estirar longamente os músculos junto com um bocejo, me levantei preguiçosamente da cama. Coloquei uma camiseta cumprida de Frank em meu corpo nu e segui o cheiro agradável de comida que vinha da cozinha americana. Me apoiei no balcão, olhando para suas costas largas enquanto ele preparava o que pareciam ser omeletes de queijo e bacon. Eu não deveria ter dormido, mas estava tão mentalmente esgotado naquele final de tarde que acabei me deixando levar pelo conforto da cama e sonolência pós-orgasmo.
Eu estava arrependido.
Do quê? Do que eu havia feito com o Christian, e olhe que eu raramente fico arrependido de chupar alguém. Mas eu havia me aproveitado da inocência dele, e não queria tê-lo magoado. Eu jamais esperaria que ele me pedisse em namoro. Fala sério, nós nos conhecemos a o quê? Uma semana? Ninguém pede alguém em namoro depois de uma semana e uma chupada. Ou pedem? Eu realmente não entendo muito desse mundo amoroso. David admitiu estar apaixonado por mim depois de me comer, e Chris que quer namorar depois de eu o chupar.
Sexo mexe com os sentimentos das pessoas, é a única explicação.
Também não queria ter roubado o primeiro beijo dele, pois ele deveria ser aquele tipo de pessoa que quer que suas primeiras vezes sejam especiais. Mas aquilo me deixou estarrecido. Quem nunca beijou aos quinze anos? Ok, eu sei que muita gente, mas ainda assim me parece muito estranho. Com quinze anos eu comecei a trabalhar na Casa das Máscaras! Eu sou mesmo um filho da puta precoce. A merda mesmo é termos sido flagrados. Eu não queria que o Chris acabasse numa situação constrangedora, e muito menos que a história acabasse na boca do povo. Eu não pensei nas consequências antes de levá-lo ao Lyric Convent. Quando eu soube que as Belas Artes têm essa restrição ridícula contra namoros, beijos e sexo, e que o lugar é considerado uma espécie de Igreja Puritana, não resisti aos meus impulsos e quis sujar um pouquinho o santo ambiente. Deixar uma mancha de sêmen naquelas cortinhas vermelhas felpudas do palco teria sido engraçado.
Mas não tinha tempo para me preocupar com isso agora. Eu havia dormido em trabalho, e isso era quase um crime nesse tipo de negócio. A minha sorte que Frank já era cliente há um bom tempo, e portanto mais compreensivo. Ele era excessivamente carinhoso. Às vezes me irritava e eu achava que iria cochilar em meio à trepada; em outros dias eu até curtia, e os carinhos dele após o sexo, nos meus cabelos, eram sempre gostosos. Em realidade ele gostava quando eu caía no sono enquanto ele me fazia cafuné, e sempre havia algo pronto para comermos assim que eu acordava. Segundo ele, era assim com seu falecido esposo. Admito que às vezes me sentia um defunto e achava que aquilo era necrofilia, apesar de não haver muito sentido nessa sensação.
Frank tomou um susto quando se virou, e viu-me ali o observando. Sorri torto enquanto o olhar dele serenava, amenizando as linhas de expressão de seu rosto. Frank tem quarenta e três anos, algumas rugas e muita experiência de vida, mas tudo isso o deixa muito charmoso. Os cabelos são loiro-escuros e ele é dono de um queixo forte, lábios finos e uma barba que lhe escurece o rosto atraente. Já é meio corpulento, mas não gordo, ainda mantendo-se forte. Eu gosto de como é peludo – mais do que os rapazes jovens, menos que aqueles velhotes que competem com lobisomens.
“Está parado aí me olhando há muito tempo? Estou perdendo o jeito, costumava adivinhar quanto tempo dormiria.” Ele comentou, aproximando-se com um pedacinho do omelete no talher. Abri os lábios para aceitar sua oferta, sentindo minha boca se encher de saliva assim que o gosto delicioso daquilo tocou minha língua.
“Eu ando dormindo menos. Quem sabe a faculdade irá me regrar?” Eu não duvidava que fora o diabo quem inventara isso de acordar cedo, pois, se fosse Deus, o cara era mesmo um desgraçado. E eu não vou me desculpar com nenhum cristão por falar assim.
“E como está a faculdade? Gostando?” Frank perguntou. Ele é meu único cliente a saber sobre minha vida pessoal. Ele sabe até mesmo sobre minha família. Eu não sei explicar muito bem por que contei a ele, porém Frank havia se tornado uma espécie de psicólogo particular. Enquanto eu lhe fornecia sexo e a chance de reviver memórias de seu falecido esposo, ele me escutava e dava conselhos. Era uma relação estranha, mas, afinal, o que não é estranho na minha vida?
Nem por isso eu cobro mais barato.
“Está boa...” Dei de ombros, mas captei o olhar perspicaz e insatisfeito dele sobre mim.
Bufei com um beiço e contornei o balcão, impulsionando-me para me sentar sobre ele.
Frank não me deixa mentir e não se contenta com frases abrangentes. Ele exige detalhes e, bem, eu até gosto de dá-los, pois ele analisa tudo como um matemático e suas reflexões às vezes facilitam minha vida. Eu deixo para ele pensar por mim, e minha preguiça agradece.
“Certo. Tudo está um tanto complicado. Eu ‘tô me sentindo estranho. Agarrei um colega na faculdade por puro impulso, e ele me pediu em namoro, mas nos conhecemos há uma semana! Foi o primeiro beijo dele e, imagino, a primeira vez que recebeu um boquete. Mas ele é tão bonitinho... Eu só queria abusar um pouquinho dele. Fiz algo assim tão errado? Todos os jovens se agarram por aí o tempo todo.”
Frank não ficou surpreso com nada daquilo. Considerando que já é meu cliente há dois anos, há pouco que o surpreende. Frank terminou de preparar o omelete e serviu-o em um prato que colocou em cima do balcão. Depois segurou meus joelhos e afastou minhas pernas, para se acomodar entre elas.
“Se era o primeiro beijo dele, Andreas, obviamente para ele não é comum se agarrar por aí o tempo todo. E se ele te pediu em namoro, é porque se apaixonou por você.” Ele explicou, enquanto subia as mãos pelas laterais das minhas coxas. Pela forma que falava, parecia chamar-me de um grande imbecil insensível. O que eu sou, mas que se foda. Eu geralmente preciso do Frank para compreender os sentimentos das pessoas. Final de semana passado, havíamos discutido sobre o Louis. Felizmente a conclusão fora de que ele não me ama realmente, apenas gosta muito do sexo e, por ser terrivelmente mimado, quer me manter para ele. Mas para isso, basta ele continuar pagando, não precisava de palavras de amor. A da semana passada foi a terceira declaração que ele me fazia.
“Mas em uma semana?!” Eu perguntei abismado.
“Você acha impossível? Eu devo ter me apaixonado pelo Andrew nos primeiros dias, mal nos conhecíamos, mas eu o desejei fortemente. Eu tinha apenas quatorze anos. Isso depende muito da personalidade de cada um: uns se apaixonam facilmente, outros demoram, alguns passam anos da vida sem experimentar essa sensação.” Frank explicou tranquilo e fez um carinho na minha bochecha, apertando-a de leve.
Fiz uma careta. Frank deveria encontrar logo outro quarentão gostoso (ou até algum cara mais novo) para firmar um relacionamento, para esquecer de vez o defunto. Ele combina mais com o tipo ‘comprometido’, mas não se envolvera a sério com ninguém desde que Andrew morrera. Veja a ironia da vida, até nossos nomes eram parecidos.
“Não queria magoar ninguém.” Lamentei, abaixando um pouco o olhar.
“Nós geralmente não queremos, mas acabamos magoando. É inevitável, mas você, mocinho, tem de aprender a se segurar antes de sair chupando qualquer um.” Ele apertou mais uma bochecha e minha careta aumentou. Ele parecia um pai. O que é até legal, pois meu pai nunca havia me dado conselho algum, ou falado coisas profundas. Antes da paralisia, ele estava mais preocupado em trabalhar e depois coçar o saco em casa enquanto assistia ao jornal.
Eu sorri maldoso.
“Teve mais gente que eu chupei.” Admiti quase alegre e contei a história toda com o Alan e o David. Já havia comentado do David com ele, mas antes que eu acabasse sendo fodido pelo Alan e, na Casa das Máscaras, pelo meu colega de quarto necessitado. David parece tomar Viagra de café da manhã, é pior do que eu. Ou eu assim gosto de pensar.
Frank riu com meu relato, minha maneira de narrar também não era nada ortodoxa. Contei também sobre a declaração do David, durante o sexo. Aquilo me surpreendera, porque o David não era ingênuo como o Chris para se deixar levar dessa maneira. Ou era?
“Sério, qual o problema dessas pessoas? Eu sei que sou irresistível, ao menos é o que dizem, mas não faço nada além do meu trabalho! Que ânsia das pessoas em se apaixonarem...” Reclamei com um muxoxo.
“É fácil se apaixonar por você, Andreas. Deve levar isso em conta, ainda mais na sua profissão.” Frank me alertou, sorrindo de uma maneira doce. Eu sorri de volta, meio levado, e me acheguei nele, passando os braços por seus ombros para roçar nossos lábios. O perfume dele me lembrou de folhas e terra molhada.
“E você? Se apaixonou por mim?” Ronronei.
Frank tinha essa mania de sorrir-me como se eu fosse uma criança travessa, junto àquele olhar dos mais velhos que acham graça nas atitudes infantis. Às vezes isso me frustra, pois ele parecia não me levar a sério, mas a diferença de idade entre nós era mesmo grande – 24 anos! – e até dava para entender. Ele é um homem muito maduro, tanto que sua resposta foi um beijo em minha testa.
“Sou velho demais para me apaixonar por um prostituto. Isso é coisa de jovens tolos.” Ele explicou, e eu, que havia torcido o nariz para aquele beijo na testa, acabei soltando uma risada, pensando no David. Jovem tolo, é, combina com ele.
“Você acha que eu vou perder a amizade do Chris? Minhas amizades nunca são duradouras...” Resmunguei. Eu tenho uns amigos na Casa das Máscaras, só que nenhuma amizade é muito aprofundada. Só se você considerar o pau de algum deles afundado no meu cu algo profundo, mas não é disso que estou falando.
Fiquei triste de repente, Chris até mesmo havia feito um trabalho para mim!
“Peça desculpas para ele, seja sincero. É o melhor que pode fazer.” Frank acariciou meus cabelos.
“Ele ficou chateado comigo porque tínhamos combinado de ir naquela exposição de animais que teria hoje no parque Greywood. A mãe dele que estava organizando. Aí eu desmarquei hoje de última hora e-“
“Por que não me avisou? Poderíamos ter marcado algo para amanhã.” Frank falou, apertando a mão em minha cintura. Eu encolhi os ombros, isso era algo que aprendíamos como michês: jamais coloque compromissos pessoais adiáveis à frente de seus clientes, ou irá perdê-los. Desmond nos pagava caro para levarmos isso a sério e, nesse caso, conseguia ótimos clientes, como Frank, para que lhes déssemos prioridade. Eu não podia ignorar isso para ir passear no parque e olhar bichinhos, por mais bonitinhos que fossem.
“Você é mais importante.” Falei para o Frank e lhe mordisquei a mão, um gesto carinhoso. Às vezes – muitas vezes – eu me sentia um cachorro. Nos mais variados sentidos.
“Não, não sou. Coma alguma coisa. Vou tomar uma ducha e te largo lá, talvez ainda consiga encontrá-lo. Como a exposição era da mãe dele, ele deve ter ido, mesmo que você tenha desmarcado.” Frank disse definitivo. Se tinha um momento que ele ficava gostoso, era quando seu tom de voz, naturalmente enrouquecido, se tornava mais autoritário. Algo raro.
Eu o olhei de sobrancelhas erguidas, antes de abrir um sorrisinho malicioso.
“Nem pense que vou permitir que você vá tomar banho sozinho.”Eu falei enroscando minhas pernas na cintura dele, e imediatamente o beijando, antes que ele tivesse a chance de reclamar. Não tenho paciência para reclamações quando estou a fim de bater uma, e me esfreguei a ele com um gemido para deixar isso bem claro.
Ele me segurou pelas coxas e me ergueu do balcão. Acabamos no chuveiro, eu sequer havia tirado a camiseta social dele antes que a água caísse sobre nós dois. As mãos de Frank eram sempre carinhosas, por mais que eu tentasse atiçá-lo, mas os leves apertões que dava em determinadas regiões estratégicas de meu corpo me tiravam suspiros leves.
Escorreguei para o chão, ficando de joelhos. Eu deslizei as mãos por suas coxas e lhe acariciei na parte interna delas, mordendo-as provocativamente. Ele apenas me olhava, esperando. Era paciente, nunca perdia o controle, mas seu olhar desejoso era o suficiente para quem se acostumava a seu jeito. E uma exclamação de vitória estalou em minha mente quando abocanhei-lhe o pau com voracidade e ganhei dele um gemido rouco.
Ah, eu adoro essa sensação de poder que uma boa chupada proporciona. Alguns acreditam que pagar uma oral é se colocar numa posição submissa, mas eu achava justamente o contrário. Eu tinha ali, na boca, a razão de existir de um homem, o condutor de suas atitudes, a cabeça que os guiava. Eles fazem tudo por seus paus, o pau de um homem é a coisa que eles mais prezam, mais do que uma namorada, uma esposa, até mesmo mais do que dinheiro. Pergunte a um homem: você prefere ser rico e castrado, ou continuar pobre, mas bom fodedor? Acho que não preciso dizer a resposta. Frank estava na minha mão – expectante, entregue ao prazer. Ou melhor, estava na minha boca, teso e pulsante.
“Se não terminar logo com isso, irá perder o encontro com seu amigo.” Frank me alertou, acariciando meus cabelos. Seu olhar era doce, e quente, parecia não se importar em perdermos o horário, mas ao mesmo tempo não queria contribuir para o fim de minha amizade com Chris.
Eu estreitei os olhos para ele, e acelerei o ritmo, apertando os lábios ao redor de seu falo ao ir e vir com minha cabeça. Eu achava curioso nunca ter tido câimbra no pescoço ou mandíbula, já que ter um pau na boca ocupava boa parte do meu tempo. Pude sentir os músculos das coxas do Frank enrijecerem, e eu o encarava quase emburrado enquanto o sugava a cada segundo mais rápido, querendo arrancar-lhe um orgasmo rápido. Nunca gostei de coisas rápidas. Lembrei-me do Chris gozando assim que toquei meus lábios em seu pênis, mas aquilo fora fofinho. Já Frank é um adulto experiente, e eu geralmente ficava vários minutos o chupando antes do sexo.
Acariciei os testículos dele e o acomodei bem fundo quando ele permitiu-se gozar. Engoli tudo, e então o tirei da boca e o lambi e beijei com muito esmero até que estivesse tudo ‘limpo’ com ajuda da água. Homens também gostam de ver seu precioso bem ser tratado com carinho. Depois que me levantei, o banho foi rápido.
Logo ele já me levava de carro para o parque Greywood.
XxxX
O parque Greywood não é o maior da cidade, porém é um dos mais frequentados. Tem esse ar família, e as pessoas fazem piqueniques e cachorros correm pela grama extremamente verde atrás dos frisbees, pulando no ar para capturá-los. Há algumas atrações também, entre elas um pequeno zoológico com animais bem tratados que ficam em contato com a natureza. Provavelmente ali acontecia a exposição de animais a serem adotados.
Naquele dia em especial havia um pequeno parque de diversões, com barraquinhas de brincadeiras e de comida, apresentações de artistas. Era uma festa. Sorri com aquilo, gostando daquele clima de brincadeira, tantas pessoas rindo e se divertindo. Olhei para uma família, os pais andando com as duas filhas pequenas, junto com a mulher. As meninas eram loirinhas, de cabelos cacheados. Não eram gêmeas, mas extremamente parecidas. Elas acabaram me lembrando de minhas irmãs, e meu coração se apertou. Eu poderia tê-las trazido para se divertirem, se tivesse pensado nisso antes do Chris me convidar.
Se eu não fosse um irmão tão ausente, e um péssimo exemplo.
Frank não pôde me acompanhar. No fim, ele recebeu uma ligação urgente da empresa de que era dono, algo relativo à decoração de imóveis. Depois que alguém escolhe a decoração que quer, precisa de quem vá ‘montar’ o quarto, sala, ou o que for. A empresa dele era procurada por muitos ricaços que compravam suas novas mansões ou apartamentos gigantescos e queriam deixá-los ao seu gosto. Ele teve de ir resolver alguns problemas, desculpando-se por me largar sozinho ali. Como se eu fosse me chatear. Já não gostava da ideia de ele querer me ajudar, e até me sentia mais justificado agora; ele me dispensaria igualmente, não fosse por essa história com o Chris. Porém cheguei ali tarde, visto que boa parte da tarde fora gasta com ele.
Já passavam das cinco da tarde.
Coloquei as mãos no bolso do casaco leve que eu usava e decidi ir até a parte de exposição de animais, me perguntando se seria sensato adotar um para minhas irmãzinhas. O que nós tínhamos, que adorava me seguir quando eu ainda morava com meus pais, havia morrido há cinco meses, atropelado. As gêmeas ficaram desoladas, principalmente Eleanor, que é muito solitária e introspectiva. Dingo talvez fosse seu amiguinho mais próximo. Já Carla é mais espevitada e tem outros amiguinhos de sua idade, na escola.
A maior parte dos animais estava em um galpão moderno onde geralmente aconteciam outras exposições. Conforme me aproximava, via crianças, adolescentes e mesmo adultos carregando novos bichinhos, abraçando-os sorridentes. Cheguei à conclusão de que isso arrancaria um sorriso de Eleanor e decidi que adotaria um e dali iria direto para casa, entregá-lo aos cuidados dela. Fazia algum tempo que eu não via minhas irmãs e meus pais; geralmente, visitá-los me deixava com um aperto amargo no peito, e eu ficava deprimido quando saía de lá. Já elas ficavam tão felizes ao me ver... Era egoísta da minha parte, mas não conseguia evitar. Sou covarde, prefiro simplesmente acreditar que tudo está bem com todos.
“Andreas?”
Pulei ao sentir o toque repentino em meu ombro, porém quando me virei, já havia reconhecido o tom de voz do David. Ele não estava sozinho, Derek estava com ele e, pelo que pude ver, mais distante estava o Alan com o Chris, ambos parados em frente a uma barraquinha, onde Alan comprava umas pipocas. Ergui as sobrancelhas para a cena. Primeiro, porque não imaginei que o Chris andaria com eles, e depois por lembrar que o David e o Alan estavam com problemas.
“Chris falou que você tinha um compromisso... Você sumiu hoje pela manhã. Nem te vi acordar.” David falou, e percebi que ele não parecia muito contente. Porém, não por eu ter sumido, ou sequer lhe avisado que não iria poder vir ao evento. Derek pareceu perceber minhas engrenagens funcionando e se aproximou, tocando também meu ombro.
“Cara, eu não sei bem o que tu fez, mas deu merda.”
“O que quer dizer?” Eu olhei de um para o outro. David bufou passando as mãos pelos cabelos, agarrou meu braço e começou a me arrastar com ele. Eu reclamei, mas acabei desistindo, sabia que com o David era em vão, ele era teimoso e geralmente ignorava meus protestos.
O encarei com certo tédio quando ele me soltou. Agora estávamos num caminho de pedrinhas um pouco distante da área mais movimentada, porém não tanto. Havia muitas árvores por ali, deixando o ambiente mais fresco, meus braços chegaram a se arrepiar sob o casaco fino.
“O que foi agora?” Perguntei sem paciência para uma possível crise de ciúmes, ou reclamações sobre sumiços. Eu não devia nada ao David, éramos apenas colegas de quarto que já haviam transado.
“Se tu vai pegar alguém, ao menos não deixe que a notícia caia no jornal da faculdade. Eu não sei o que tu fez para teu nome não aparecer na notícia, mas a culpa toda caiu sobre o Christian, e agora todos sabem que ele é gay! Eu nem conheço o garoto, mas Oliver, o irmão dele, o entregou aos cuidados do Alan, após ele ter sido humilhado por uns caras que o ridicularizaram quando algumas amostras do jornal saíram com a novidade. ‘A profanação do Lyric Convent’, eles chamaram.” David falou rigidamente. “Oliver insistiu até que o Chris relevou o seu nome pra gente... Ketteridge não é a Casa das Máscaras, e se você queria ser um estudante normal, desculpe, mas vai perder a chance se continuar assim.”
Meus olhos estavam arregalados, e meu queixo caíra. Como eu pude ser tão estúpido? Não estava ligando para o que falariam ou fariam comigo. Que me chamassem de bicha, de escória, me excluíssem. Que se foda, os homofóbicos que morram asfixiados no espaço. Aliás, como assim meu nome não estava na notícia, e somente o do Chris? Eu preferia que meu nome fosse exposto, e o do Chris poupado! Não queria que nada o machucasse, ele é tão inocente... Ele já havia me contado – por insistência minha – sobre os bullyings que recebia na época do colégio.
“Vou falar com ele.” Tentei passar pelo David, mas ele me segurou.
“Melhor não. É sério, Andreas. Se ele te ver, provavelmente vai cair no choro de novo, dê um tempo.”
“Olha só quem está pedindo um tempo!” Eu ri debochado. “Ele é meu amigo, quero falar com ele.”
“Um amigo que tu agarra no lugar mais ridículo possível. Que grande amizade!” Ele debochou com um sorriso forçado, e dessa vez detectei o ciúmes. Bufei e, mesmo indeciso se deveria ou não falar com o Chris, ainda tentei me afastar dele. Uma montanha havia caído e se acomodado preguiçosamente na minha consciência. Agora todos sabiam que o Chris é gay e, pior, ele virou uma espécie de ‘figura pública’ logo nos primeiros dias de faculdade. Calouro, tímido e pequeno, era a presa ideal para os idiotas de plantão.
Eu queria muito me desculpar.
“Me solta, David!”
“Deixe de ser tão teimoso.” David segurou meu braço ainda mais firmemente, frustrando-me por ser tão mais forte que eu.
“Você está aqui me segurando apenas por causa da porra do seu ciúmes! Isso é irritante, você é irritante. Estou cansado de você tentando me controlar o tempo todo. Eu sou livre, está entendendo? Livre! Nós não temos absolutamente nada além de uma química boa na cama. Se eu gosto de você me fodendo? Sim, eu gosto, mas isso é tudo. E não me interessa se você está apaixonado ou não por mim, porque no fundo você não está. Você só está encantado com o fato de que gosta de foder um cu, e eu fui o primeiro onde você conseguiu enfiar o pau!” Exclamei exaltado, desabafando minha frustração. David era uma as poucas pessoas que conseguia me levar ao limite. Ou talvez eu apenas estivesse chateado comigo mesmo, e precisasse descontar em alguém. Descontar tudo nele era apenas cômodo.
Foda-se.
David me soltou, e eu cheguei a tropeçar pela liberdade súbita. A expressão dele endurecera, mas havia mágoa evidente ali. Se ele falasse sério sobre estar apaixonado, então eu talvez houvesse acabado de lhe partir o coração. Mas quem sabe assim ele me deixasse em paz. Eu não podia alimentar falsas esperanças, eu não podia dar a ele o que ele queria; não havia nada de mim, além do meu corpo, para oferecer.
Para ninguém.
“Uau... Você também sabe ser um completo babaca. E tudo isso num único dia. Está mesmo se superando, Andreas.” Seus olhos verde-hortelã faiscavam, e havia ironia em seu tom, algo normal vindo dele. “Quer saber? Faça o que quiser. Eu cansei disso. Eu sou mesmo um babaca por ter me deixado levar por um prostitutozinho promíscuo.”
“Vá se foder, David!” Eu não podia acreditar, mas pela primeira vez eu me ofendia por alguém me chamar daquela forma. Eu não negava, é o que eu sou e não pretendo mudar. Mas a forma como o David falou e me olhou me revoltou. “Cuide da porra da sua vida!”
“É o que eu vou fazer. Passar bem.” Ele deu-me as costas e simplesmente caminhou para longe. Ele, que havia afirmado com tanta certeza que era apaixonado por mim.
Sem mover um músculo, eu o observei desaparecer do meu campo de visão. O mais irônico é que nós ainda nos encontraríamos novamente naquele mesmo dia, por dividirmos o mesmo quarto. Nossa convivência provavelmente se tornaria pior e mais sufocante a partir de agora, e eu suspirei com impaciência e raiva.
Quando retornei para a área de exposição, não encontrei nem Chris, nem Alan, nem ninguém conhecido. Eu acolhia um pequeno vira-lata em meus braços quando segui para o ponto de táxi mais próximo, que adotei após desistir de procurar pelo Chris.
“Para onde?” O taxista perguntou, de olho no meu cachorro. “É melhor ele não mijar no meu carro.”
“Não é longe.” Dei o endereço da casa dos meus pais. Uma saudades imensa de minhas irmãs abateu-me o peito, e eu queria ver Eleanor sorrir para seu novo bichinho de estimação. Talvez isso trouxesse alguma leveza para meu peito naquele dia de merda.
Recebi uma mensagem no celular, e a olhei rapidamente.
“Precisamos muito conversar. Isso é sério.” Franzi a testa ao notar que era uma mensagem da Jessica, mas, no lugar de responder, recoloquei o celular no bolso e bati minha cabeça contra o encosto do banco, com um suspiro.
E você mais uma vez estraga tudo em tempo recorde, Andreas. Minha mente me recriminou. A minha vida deveria ser alguma espécie de comédia de erros. E eu gargalhei sozinho disso no táxi, recebendo um olhar desconfiado do motorista e uma lambida no queixo do cachorrinho.
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