A Casa Das Máscaras
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Fabian
Estávamos perdidos.
Aquela universidade era enorme, e quase todos os prédios eram parecidos. Nem eu, nem Colton, que estava comigo, conseguíamos decifrar o mapa do campus. Desse jeito eu iria chegar atrasado à minha entrevista de emprego na centenária biblioteca da Ketteridge. Quem me conseguira isso, fora, obviamente, Desmond. Apesar de eu me envergonhar de me prostituir, eu tinha de admitir que era algo extremamente vantajoso. Não apenas pelo dinheiro, mas pelo Desmond. Ele agia como um pai para todos nós; no meu caso, arranjando-me um ótimo emprego. No caso do Colton, convencendo-o a entrar na faculdade.
Colton, no entanto, não parecia muito satisfeito. Caminhava com a expressão fechada enquanto segurava a alça da mochila atirada sobre um dos ombros. Com o sol batendo diretamente em seu rosto, ele parecia mais bronzeado que o normal. Eu me perguntei o que estaria pensando, pois ele silenciara desde que colocáramos o primeiro pé dentro da universidade.
“Não está contente? Eu me lembro de você ter comentado que gostaria de fazer uma faculdade de dança uma vez.” Eu não imaginava o Colton nessa área artística, mas, pelo que eu me lembrava de algumas conversas distantes, antes de entrar para a Casa das Máscaras, ele trabalhou como garçom, michê e ainda participava de um clube amador de dança e teatro.
“É...” Colton murmurou com descaso, apenas.
Irritam-me pessoas que não continuam um assunto, mas me restou suspirar e me calar.
Boatos de que a relação dele com o Desmond não era das melhores já circulavam pela Casa há algum tempo. Minha curiosidade praticamente me rasgava o peito, implorando por mais informações, mas era simplesmente impossível arrancar algo de Colton quando ele não queria. Talvez ele só estivesse nervoso com seu ingresso numa das faculdades mais conceituadas do país, principalmente por estar começando com uma semana de atraso.
Nessas horas, eu ficava feliz por já ser formado.
“Acho que nos separamos por aqui. O dormitório das Belas Artes é para esse lado.” Ele apontou com o polegar para sua esquerda. “E a biblioteca parece que é seguindo reto por esse mesmo caminho. Boa sorte, Fabian.”
“Boa sorte, Colton. Até mais.” Me despedi e já ia continuar a andar, mas ele me puxou pelo braço e deu-me um beijo estalado na bochecha.
“Vê se te cuida. Não deixa nenhum idiota mexer contigo.” Sussurrou e seguiu para o caminho lateral, com uma mão no bolso. Isso me fez perceber que ele não estava nem perto de nervoso. Colton raramente ficava nervoso. Não, ele apenas estava ali contra vontade, eu não tinha mais dúvidas.
Ah, e mantenha um olho em Colton por mim, Fabian. Desmond me solicitara quando encerrávamos o assunto sobre meu novo emprego. Ficou claro para mim que ele ter me ajudado não fora algo completamente altruísta. Ele também tinha seus interesses, e eu agora tinha uma pulga atrás da orelha.
Minhas orelhas também avermelharam devido ao beijo, mas eu ignorei isso e continuei meu caminho. Não queria perder a hora, mas felizmente não tardou até que a edificação da biblioteca se descortinasse frente aos meus olhos após um corredor de árvores altas e extremamente verdes. Meus olhos brilharam com admiração. Era linda, uma construção antiga que me fez pensar no castelo de Versalhes e toda a nobreza do passado.
Apressei meus passos querendo sentir logo, invadindo minhas narinas, o cheiro dos milhares de livros que deveriam existir ali dentro. Tanto conhecimento, riqueza e beleza. Isso me encantava. Não havia nada no mundo que eu amasse mais do que ler, e cuidar dos livros. O que seria de nós se a escrita e os livros não tivessem sido inventados? Tanto conhecimento teria se perdido com o passar dos séculos... Haveria ainda mais roubo, enganação e injustiças do que há hoje.
Ainda viveríamos em trevas.
Eu apenas não entrei de imediato porque algumas vozes exaltadas me chamaram a atenção. Havia pessoas brigando ali perto, eu pude identificar rapidamente. Minha curiosidade incontrolável levou-me até a área lateral da biblioteca, onde havia uma pequena área gramada com uma fonte elegante e árvores de galhos grossos.
Ali, três rapazes altos de porte corporal mediano a forte lutavam contra um único garoto – um japonês de aparência delicada, mas decidida e feroz. Era tão pálido, que o sangue que nascia no canto de seu lábio parecia gritar de maneira escarlate. Eu fiquei surpreso com o quanto ele lutava bem, seus golpes eram de artes marciais bem dominadas, não havia dúvidas. Ele se desviava com uma agilidade invejável de chutes e socos, e conseguia revidar com golpes, principalmente de pernas, igualmente velozes. Um dos rapazes maiores foi ao chão ao receber um chute certeiro no rosto, mas ainda assim era dois contra um, e um deles conseguiu agarrar o japonês pelas costas, com uma chave de braço.
Eu deveria me apressar para ajudar, mas fiquei pregado observando o desenrolar daquilo, como se visse um filme onde o mocinho – no caso o japonês – tiraria forças do além e conseguiria derrotar os três brutamontes. Nesse momento de contemplação, senti alguém abraçar minha cintura. Olhei para baixo e me assustei ao deparar-me com outro japonês, porém este ainda menor e mais delicado que o outro.
Parecia-me extremamente novo para estar numa universidade.
“Por favor, ajude o meu irmão!” Ele exclamou esganiçado, os adoráveis olhos castanho-mel repletos de lágrimas grossas. “Eles vão matá-lo, por f-favor... Meu irmão é orgulhoso demais para fugir!” Ele tremia de cima abaixo. Cogitei a hipótese de o menino estar em estado de choque ou muito próximo disso, e me compadeci de sua aflição.
Eu não tenho nenhuma habilidade para luta corporal, mas meu porte físico não difere muito do rapaz que socava a barriga do irmão do menino, enquanto o outro ainda o segurava com dificuldade. Como ele estava concentrado em espancar o japonês, pude me aproximar sem ser notado, e ele sequer percebeu o soco certeiro que o atingiu no nariz; pelo menos, não até que estivesse no chão, segurando o rosto tentando estancar o sangue.
O japonês conseguiu então dar uma cotovelada nas costelas daquele que o segurava e rapidamente se virou, iniciando uma sucessão de golpes que me impressionou. Lembrou-me, de verdade, de algum filme de ação com o Bruce Lee, ou algum outro desses asiáticos famosos das artes marciais. Eu contei uma sequência de seis chutes seguidos, tão rápidos, que eu não tenho dúvidas de que me desequilibraria no primeiro deles, caso tentasse algo parecido.
O agressor estava no chão poucos segundos depois.
“É melhor vocês darem o fora daqui, seus filhinhos de papai, covardes! Juro que se pensarem em mexer com meu irmão de novo, eu mato cada um de vocês.” Ele deu um chute diretamente no rosto do rapaz caído, fazendo-o rolar na grama com um urro de dor. Arrepiei-me com repulsa ao escutar o som estalado de osso quebrando.
Os três levantaram e correram.
“Isso vai ter volta, Okubo! Você e seu irmão já eram!” Um deles gritou por cima do ombro enquanto corria, e eu achei a ameaça patética de tão clichê. O tal Okubo ainda tentou correr atrás deles, o rosto tomado pela fúria. Concluí que ele era um tipo fácil de irritar.
O irmão dele, entretanto, o impediu de ir atrás dos três rapazes. Abraçou-o fortemente pelas costas, segurando-o ali no gramado, ainda que fosse claro que o mais velho poderia facilmente arrastá-lo universidade afora se assim desejasse. O menor ainda chorava e tremia, enquanto o outro respirava profundamente, tentando se acalmar. Era incrível o quanto dois irmãos podiam ser diferentes: um indefeso e assustado, o outro bastante capaz de se defender, e corajoso. Romântico como sempre fui, jurei então que uma linda cena de amor fraternal se desenvolveria agora à minha frente.
Mas estava redondamente enganado.
“O-Oliver...”
“Qual a porra do seu problema?!” Oliver gritou ao se virar e empurrar o menor para longe de si, a ponto de fazê-lo cair sentado na grama. “Já não bastava eu ter de ficar sempre te protegendo no colégio, agora isso vai se repetir aqui na faculdade? Como você pôde ser idiota a ponto de ir transar com um garoto no Lyric Convent e ainda acabar no jornal, Christian?!”
“M-Me desculpa...” Christian sussurrou abaixando a cabeça. “E-Eu não pensei...”
“Esse é o seu problema! Você nunca pensa. Mas que porra, custava ter ficado quietinho sem chamar atenção? Eu deveria ter deixado aqueles três te espancarem mesmo, ou seja lá o que eles queriam fazer contigo.” Se aproximou e chutou a coxa do irmão. Isso me revoltou, ainda que ele não houvesse colocado força alguma naquilo. “E pare de chorar. Cresça um pouco, você não tem mais cinco anos, porra!”
“Hei!” Eu me manifestei. Não aguentei de dó ao ver o menino se encolher abraçando as pernas. Christian estava verdadeiramente assustado, e aquela atitude do irmão mais velho não ajudava em nada. Ajoelhei-me perto do garoto. “Ele está em choque, não precisa ser estúpido dessa maneira.” Abracei a figura pequena, que chorava escondendo o rosto entre os joelhos.
Oliver olhou-me como se só então me visse. Mesmo que eu o tivesse ajudado a ganhar a maldita luta.
“Isso é entre eu e meu irmão, você não se meta.” Ele falou nem um pouco intimidado pela minha presença. Mas não era de se espantar. Mesmo que meu porte físico não fosse assim tão desconsiderável, meu rosto mais delicado, repleto de pintinhas esbranquiçadas, e meus cabelos loiros levemente compridos não me ajudavam a impor respeito. Sempre me falavam que eu tenho um rosto de expressões dóceis demais para isso.
Oliver segurou o braço do irmão e o puxou do chão, afastando-o de mim.
“Você acha que tratar o seu irmão dessa forma vai ajudar em alguma coisa? Isso só vai deixá-lo mais assustado.” Eu me levantei também. Para minha surpresa, Christian abraçou o irmão, escondendo o rosto no tórax dele, enquanto Oliver mantinha um braço protetor ao redor de seus ombros.
“Vai se foder, idiota. Eu não preciso de um otário metido a psicólogo para me dizer como agir com meu irmão.” Olhou-me com real desprezo. A adrenalina advinda da luta deveria estar em alta nele, para ele ainda estar tão alterado, e agindo tão grosseiro. Cruzei os braços, ofendido. Eu não estava tentando bancar o psicólogo! Só não achava certo ele descontar a raiva no irmão mais novo.
“Quem é você, afinal? Ah, que se foda, não me interessa. Vamos, Christian, vou te levar para a enfermaria.” Oliver ordenou e, me desconsiderando por completo, começou a se afastar com o irmão. Christian ainda olhou para trás, e seus lábios se moveram em um ‘obrigado’ silencioso para mim.
Eu sorri de leve, atenuando minha expressão insatisfeita.
Não tardou e eles já sumiam de vista. Cansado, passei a mão pelos meus cabelos e resolvi entrar logo na biblioteca, em busca de alguma paz. Prendi o ar, por reflexo, ao entrar. Se possível, o interior era ainda mais magnífico que o exterior. Nem em um ano eu conseguiria percorrer cada uma daquelas estantes que se enfileiravam suntuosas ali dentro. Eram dois andares de biblioteca, cortados pelo corredor central de um teto abobadado. As estantes de mogno alcançavam o teto, todas elas criando várias minicúpulas entre si, enquanto os livros empilhavam-se numa mistura de cores vibrantes.
“Céus... Isso é o paraíso!” Eu sorri abertamente e avancei para dentro, puxando profundamente o ar para meus pulmões a fim de absorver um pouquinho daquele ambiente embriagante. “Não posso me esquecer agradecer de novamente ao Desmond por isso...”
Eu vi ao fundo do longo corredor a bibliotecária por trás de um balcão comprido. Sorri, chegando à conclusão de que era com ela que eu deveria falar, mas consegui dar apenas alguns passos até ela. Um homem surgiu por de trás de uma estante, atraindo minha atenção. Sua altura e seu sorriso charmoso me fez parar, e os pelinhos de minha nuca arrepiaram.
A sensação de que eu o conhecia de algum lugar alertou-me para ter cautela.
“Bela intervenção a que fez na briga.” Ele comentou casualmente, empurrando para trás o blazer azul-escuro que usava para colocar as mãos no bolso, suas mangas dobradas até metade dos antebraços. “Sempre me surpreende o que rostinhos bonitos como o seu podem fazer. Oliver é um grande exemplo disso.”
“Você estava observando a luta, e não fez nada?!” Exclamei espantado. “Oliver estava para apanhar feio quando eu me meti.”
O rapaz retirou do bolso um cigarro e um isqueiro prateado, que deveria ter custado uma fortuna, e o acendeu ali, na biblioteca. Encostando-se à estante, colocou-o na boca e deu uma tragada longa por entre seus lábios finos. Ele ficava impressionantemente bonito e charmoso assim, por mais que sua atitude fosse extremamente reprovável.
“Já vi Oliver se virar com caras maiores. Ele já foi notícia de jornal algumas vezes, por causa das brigas em que se mete. Não tenho culpa se minha profissão exige que eu mais observe, do que aja, em situações assim.” Ele sorriu provocante, segurando o cigarro entre os dedos.
Eu me aproximei e arranquei o cigarro dele, nervoso com aquilo. Atear fogo numa biblioteca era, a meu ver, um dos maiores pecados que alguém poderia cometer. Ele não me impediu, tampouco pareceu irritado ou indignado com o meu furto.
“Não sei que profissão é essa, mas uma profissão que faz alguém ver uma covardia e não ajudar não deve ser uma boa profissão. Pessoas que fumam em lugares proibidos também não despertam minha simpatia, então, com licença.” Tentei passar por ele, me esforçado para ignorar seus olhos que brilharam em divertimento.
“De que curso você é?” Ele perguntou quando eu já o havia ultrapassado. Eu parei por um momento, considerando se deveria lhe falar ou não alguma coisa. Como ele provavelmente iria descobrir cedo ou tarde, poupei-lhe a curiosidade; e quem sabe assim não o visse tão cedo por ali.
Por alguma razão, ele me deixava desconfortável.
“Não faço curso nenhum. Sou o novo bibliotecário.” Falei sem olhar para ele, e voltei a caminhar. Novamente fui impedido, quando ele me segurou pelo pulso. Girei pela forma com que fui puxado.
“Sabe, sinto que já lhe conheço de algum lugar... Talvez você também tenha essa impressão. Eu me chamo Lance Harris. Soa familiar?” Ele perguntou, seus olhos amendoados presos aos meus. Meu pulso formigava no ponto em que ele segurava. Olhando-o mais atentamente, eu poderia reconhecer aquele toque, aquelas mãos de dedos compridos, assim como aqueles olhos e o perfume elegante que dele exalava em qualquer lugar.
Afastei-me o mais calmamente que pude.
“Não, não me soa familiar.” Dei-lhe as costas novamente e continuei andando o mais dignamente que conseguia. Minhas pernas tremiam pelo nervosismo. Eu não queria ser reconhecido, mas talvez isso fosse um desejo tolo quando eu lidava com olhos tão astutos e ainda mais curiosos que os meus.
“Não vai me dizer o seu nome?” Ele ainda perguntou, erguendo um pouco a voz para que eu o escutasse.
“Não.”
“Nem devolver o meu cigarro, suponho.” Havia a alusão de um sorriso em seu tom.
“Vá fumar lá fora, por favor!” Exclamei, e não olhei para trás até alcançar o balcão. Apaguei o cigarro num cinzeiro, me perguntando por que havia um objeto desses ali, em um lugar que era proibido fumar.
Só olhei para trás quando terminei de conversar com a bibliotecária, uma senhora já mais velha que queria ir encomendando a aposentadoria, e recebera boas indicações quanto a mim para substituí-la. Lance não estava mais lá; eu obviamente já esperava isso, mas ainda assim fiquei aliviado. Não queria que ele reconhecesse em mim o rapaz com quem ele havia transado há alguns meses, na Casa das Máscaras.
XxxX
“Então você conseguiu mesmo o emprego.” Colton comentou, deitando-se na grama com as mãos atrás da cabeça. O que mais havia em Ketteridge era lugares para os alunos estenderem toalhas e aproveitarem o sol agradável para conversar, estudar, ler... Mas agora já era final de tarde, e o sol estava fraco.
“Sim, começo amanhã. Há na biblioteca um espaço com uma sala-cozinha, um banheiro e um quarto. Poderia ficar ali, se quisesse, mas não posso deixar meus irmãos morando sozinhos. Eles destruiriam a casa em poucos dias, sabe...” Sorri suavemente com a lembrança daqueles pestes. “E você, o que achou?”
“Já estou achando um porre. Não queria ter entrado em merda de universidade nenhuma. E meu colega de quarto é um garoto estranho, calado, com jeito de nerd chamado Julian.” Colton resmungou mal-humorado. Esse não era seu humor típico, geralmente exibia sorrisos e flertes para todo lado. “E ainda tive de aturar uns papos idiotas sobre responsabilidade, regras e castidade de um tal de Lawrence.”
Eu franzi a testa em confusão.
“Então por que entrou?”
“Por quê? O porquê tem nome e sobrenome: Desmond Chevalier. Não é irritante como ele tenta coordenar a vida de todos nós? Eu me sinto um fantoche nas mãos dele...” Colton fechou os olhos, parecendo concentrado.
“Ele me ajudou muito conseguindo esse emprego para mim. Não sou orgulhoso a ponto de querer conquistar sozinho meus objetivos, não quando tenho quatro irmãos para cuidar, e ainda gasto parte do meu tempo escrevendo. Se não fosse pelo Desmond-“
“Se não fosse por você ser bonito e gostoso pra caralho, isso sim. Senão, o Desmond nunca teria gastado dois olhares em você.” Colton me interrompeu, deixando-me com as bochechas ardendo. Sei que é idiota um prostituto se envergonhar com esse tipo de elogio, mas quando eu não estou trabalhando, eu sou um cara normal, e até um pouco tímido.
Pigarreei retomando minha linha de raciocínio.
“Se não fosse pelo Desmond, eu e meus irmãos ainda viveríamos em grande aperto financeiro. Eu não teria conseguido concluir a faculdade e estaria trabalhando como, não sei, secretário em algum lugar. Então, tudo bem, ele pode até ser um pouco controlador, mas eu acredito que ele cuida de nós.” Afiancei.
“Você é ingênuo, Fabian. Junto com esse seu sotaquezinho francês, fica bem bonitinho.” Colton abriu os olhos e sorriu com flerte para mim.
“Vai se ferrar, Colton.” Ele apenas riu divertido do meu constrangimento. Voltei a suspirar, cruzando as pernas. “Sabe, encontrei com um cliente hoje...”
“Mas já?!” Colton ficou verdadeiramente surpreso. “Mais rápido do que eu, hein? Mas nada surpreendente quando estamos falando de um dos mais conceituados acompanhantes da Casa.”
“Isso é sério. Ele disse que sentia já ter me visto de algum lugar. Eu não quero ser reconhecido...” Desabafei nervoso. Eu morria de medo e vergonha disso, e sentia que o Colton também não gostaria de que algo assim acontecesse com ele. “Ele ainda por cima parece que é do jornal, imagina se espalha para a universidade inteira que o novo bibliotecário é um prostituto também?”
“Certamente mais pessoas vão frequentar a biblioteca.”
“Colton! Que droga, é sério!” Me exaltei, e ele riu de novo se sentando e colocando uma mão em meu ombro.
“Relaxa. Ele pode até suspeitar, mas nunca terá como ter certeza. Ele não viu o seu rosto, e é só você tentar se manter o mais distante dele possível. Daqui a pouco ele esquece de você.” Colton tentou me acalmar, e eu percebi que ele tinha razão. Eu tinha de aprender a lidar com isso, não podia entrar em colapso nervoso toda vez que me deparava com algum cliente, ainda mais um cliente antigo.
Manter-me longe de Lance seria o suficiente, assim ele não reativaria a memória e se esqueceria da minha existência. Talvez ele já nem mesmo se lembrasse do encontro com o bibliotecário. Apoiei minha cabeça no ombro do Colton, mas logo depois me afastei.
“O que foi?” Colton estranhou isso.
“Não é bom darmos bandeira que somos tão próximos... Essa faculdade é cheia de preconceituosos. Quando estava chegando na biblioteca, presenciei uma briga. Ao que parece, três rapazes estavam intimidando um garotinho gay, e o irmão dele o defendia. Minha mão está dolorida até agora com o soco que dei em um deles...” Massageei meu punho em busca de conforto.
“Você deu um soco em alguém?” O espanto de Colton me ofendeu. “ Eu te achava metido e fresco, mas parece que é verdade o que dizem... A faculdade muda as pessoas.”
“Eu já fiz faculdade! E não vou mudar...” Revirei os olhos, sentindo a brisa de final de tarde bagunçar meus cabelos. A maioria das pessoas comentava que eu tinha um ar de metido, mas quando me conheciam melhor, mudavam de opinião. Eu não sei bem o que faço para parecer metido, então não tenho muito que fazer para tentar mudar essa má impressão.
Mas Colton até hoje me chama, às vezes, de francesinho metido, para implicar.
“Seu dia parece ter sido bem mais animado que o meu. Quem diria, e eu que achava que ser bibliotecário era um tédio.” Ele suspirou, apoiando as mãos na grama e se inclinando para trás. Algumas meninas passaram por nós cochichando e rindo, e nós dois as acompanhamos com o olhar por alguns segundos, num silêncio momentâneo.
“E eu nunca imaginei que você queria ser bailarino.” Rebati apenas então. Geralmente eu demoro a encontrar palavras para rebater alguma implicância, ironia ou brincadeira. Às vezes, penso em algo horas depois de perder uma discussão, e me xingo por não ter pensado naquilo antes.
“Não quero ser bailarino.” Ele grunhiu e empurrou-me o ombro. “E estou pouco me lixando pros homofóbicos, então se eu quiser te abraçar, ou beijar em público, é bom que você não me afaste. Odeio essas restrições.” Ele falou, autoritário. Colton não era de muitas demonstrações de afeto, mas às vezes ele me abraçava por trás, mordia minha nuca, ou me dava um tapa na bunda. Isso na Casa das Máscaras, único lugar onde interagíamos antes.
Fazia isso com Andreas também; flertes bobos e espontâneos. Eu não sabia como seria nossa relação ali. Andreas também estava na Ketteridge, e admito, era estranho imaginá-lo como um estudante normal.
“Também não gosto... Mas não quero que você acabe em alguma briga.”
“Bobagem. Eu raramente brigo.” Ele desconsiderou, distraído.
Eu tinha sérias dúvidas quanto a isso, mas resolvi não discutir.
“Certo.”Colton suspirou de repente, parecendo derrotado. “Não quero que algo aconteça com você, nem que seja alvo do jornaleco daqui, então irei me controlar.” Ele se levantou. “Preciso ir, tenho que me organizar para amanhã, ou ficarei mais atrasado do que já estou... Eu não sei como podem ter feito tanta coisa em apenas uma semana de aula. Só de imaginar o que vem pela frente, já fico com preguiça.”
“Eu também preciso ir. Meus irmãos não devem demorar a voltar para casa.” Ele estendeu a mão e ajudou-me a levantar também. “E não se preocupe, você vai dar conta.”
“Você deveria cuidar mais de você, e menos dos seus irmãos... Vai ficar com rugas em poucos anos se continuar nesse ritmo.” Falou com deboche, apertando minha bochecha. “Não vai na Casa hoje então?”
“Não, estou com a noite liberada.” Meu tom de alívio era evidente. “E você sabe que sinto prazer em cuidar dos meus irmãos.”
“Masoquista... Deve gostar de apanhar na cama também.” Sorriu animado.
“Oh, cala a boca.” Eu ri o empurrando.
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Eu estava preparando o jantar quando a campainha tocou. Estranhei, já que meus irmãos tinham a chave, mas, limpando as mãos em um pano de cozinha, fui até a porta de entrada ver quem era. Olhei pelo olho mágico, achando que poderia ser o vendedor de gás, ou algum engano, mas me assustei com o que vi – de estatura mediana, cabelos negros penteados para trás até a base da nuca, e os lábios carnudos mais lascivos já criados, ele nunca deixaria dúvidas quanto à sua identidade.
Abri rapidamente a porta, deixando a surpresa visível em meu rosto.
“Jett! O que está fazendo aqui?” O puxei para dentro, olhando furtivamente para rua para me certificar de que meus irmãos não estavam por perto antes de fechar a porta. Eles poderiam chegar a qualquer momento. Olhei para Jett Mason, outro colega da Casa das Máscaras. “Você não deveria estar trabalhando hoje?
“Você me deixou com saudades ao tirar os últimos três dias de folga... Desmond é mesmo bastante bonzinho com você, não é?” Ele não esperava por uma resposta. Prensou-me contra a porta como um leão, e devorou meus lábios com fome quando segurou firmemente minha cintura. Gemi exasperado e nervoso com aquilo, mas minhas mãos acabaram em seus cabelos lisos, e minhas pernas circularam involuntariamente sua cintura quando ele me ergueu do chão.
Jett era tão bom naquilo que, mesmo que eu desde o início não houvesse desejado me envolver com ele, simplesmente não pude resistir. Era a pessoa mais lasciva, provocante e erótica da casa, muito mais que Colton, competia acirradamente com Andreas, e ganhava até mesmo de Jessica, a ruiva exuberante. Isso, entre nós, começou de uma maneira estranha e repentina. Há alguns meses, eu queria um quarto vazio na Casa para me trocar, mas entrei por engano no de Jett. Ele saía de um banho, ainda nu e molhado, após concluir o trabalho com um cliente.
“Desculpe, errei o quarto.” Murmurei envergonhado, principalmente por não conseguir me segurar e deixar meu olhar percorrer seu corpo nu. Ele era algum tom próximo do mulato; seu corpo era definido e sensual, e seu olhar esverdeado lembrava a cor jade. “Não seja por isso”, foi o que ele me respondeu, antes de caminhar até mim e, livre de constrangimentos, me atacar. Simples assim – voraz, sedento e egoísta. Naquele dia, eu não encontrei forças para impedi-lo, e me deixei levar.
Assim como deixei em todas as vezes subsequentes.
Acordei para o que acontecia quando ele me sentou sobre a mesa de jantar, suas mãos apalpando meu corpo por todos os lugares que conseguia alcançar. O afastei empurrando-o pelos ombros, tirando forças de algum lugar distante de minha mente nublada. Transar sobre a mesa de cozinha da minha casa nunca esteve entre meus fetiches, principalmente quando não moro sozinho.
“Jett, você não deveria ter vindo aqui. Meus irmãos...”
“Então vamos para o quarto.” Ele entendeu errado e tentou novamente puxar-me para seu colo.
Eu o impedi novamente, balançando a cabeça.
“Não é isso. Eles vão chegar do colégio. Dois deles são crianças, por favor, controle-se!” Desci da mesa e fui apagar as panelas no fogão, antes que a comida queimasse. Jett abraçou-me por trás e colocou as mãos por dentro do avental que eu usava, apertando a parte frontal de minhas coxas e me mordendo a nuca.
Arrepiei-me suavemente, ainda mais ao sentir sua ereção pressionada contra minha bunda.
“Você só pensa em seus irmãos. E quanto a mim?” Ele perguntou de uma maneira comicamente carente, enquanto roçava o nariz em minha nuca e atrás de minha orelha. “Não tem a mesma graça trabalhar sem você por perto...”
“Mal ficamos juntos na Casa.” Virei dentro de seu abraço após desligar as bocas do fogão. “O que houve que está carente hoje?”
“Preciso de um motivo? Eu já disse que sinto sua falta.” Ele tentou beijar-me novamente, mas eu virei o rosto, ao que ele resolveu fazer de meu pescoço o seu alvo. Apenas eu conhecia esse lado mais carente de Jett, pois ele, geralmente, era apenas uma máscara crua de luxúria. “Vamos para cama... Eu serei rápido, se você quiser.”
“Não, Jett. Você precisa ir para a Casa, e eu preciso ajeitar a mesa para o jantar, meus irmãos logo estarão aqui.” Eu tentei me afastar e consegui – míseros passos. Não sei explicar como acabamos no sofá da sala, em amassos intensos. Uma nuvem cinzenta surgia na minha mente quando ele me agarrava, e eu não entendia esse efeito, mas o resultado era invariavelmente nós dois, sem roupas, unidos carnalmente – às vezes ele dentro de mim, outras eu dentro dele.
Uma doce tentação...
Gemi quando ele se acomodou entre minhas pernas e se pressionou forte contra mim, a dureza de sua excitação violando minha sanidade. Minhas mãos subiram por dentro de sua camiseta e colete, sentindo a musculatura de suas costas. Era estranho desejar por sexo fora da Casa. Havia vezes em que o que eu menos queria era ser tocado. Enjoava-me, me sentia sujo, queria descanso para ficar comigo mesmo e escrever, desligando-me de minha própria realidade. Sentia repúdio até mesmo de me tocar, me masturbar.
Mas, naquele instante, um fogo inveterado queimava cada parte de meu corpo.
E, como na mais clichê das histórias, o barulho da porta sendo destrancada alcançou nossos ouvidos, interrompendo-nos no momento mais inadequado e frustrante. Empurrei Jett, olhando-o com uma expressão que transbordava nervosismo e medo. Não queria que meus irmãos o vissem. Não queria que fizessem perguntas, ou criassem suspeitas. Eles não sabiam sobre minha bissexualidade e minha vida dupla, e eu preferia que isso continuasse assim.
“A janela do meu quarto. Você pode destrancá-la... Se pular, acabará na rua. Vai!” O impeli em direção aos quartos. Jett olhou-me aborrecido, mas obedeceu, desaparecendo na curva do corredor assim que a porta da pequena casa suburbana onde eu e meus quatro irmãos morávamos era aberta.
Me virei rapidamente, aprumando-me e colocando um sorriso no rosto.
Só esperava estar razoavelmente apresentável.
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