A Carta de Bernardo
1 Olá, adeus.
Notas iniciais
Tudo começou quando eu era apenas um filhote, ali na presença de minha mãe, meu pai já estava velho e cego, não conseguia mais ver eu e meus irmãos, mas certamente sentia nossa presença.
Fazia frio aqule dia, me lembro como se fosse ontem, as árvores balançando com o vento, a rua cheia de pedras, os moradores falando alto e eu deitado em baixo de um telhado de uma casa pouco frequentada.
Já estava quase adormecendo quando escuto um barulho de carro, eram os moradores da casa, traziam um casal de velhinhos, o senhor se curvou para mim e logo eu estava em seu colo, fiquei assustado mas ao mesmo tempo me aquecia no calor de seu peito.
—Esse vai ser Bernardo.
Enquanto os senhores alimentavam eu e minha família, provavelmente os filhos dos mesmos simpatizavam com meu pai, ele entrava em um carro, foi a última vez que vi ele.
Os dias se passavam e tudo ia bem, exceto pela saudade que sentia do meu pai, já tinha se passado sete meses, minhas esperanças de vê-lo novamente já tinham se acabado.
Os senhores cuidavam bem de mim, meus dois irmãos já haviam me deixado, já moravam nas ruas badaladas do centro da pequena cidade, minha mãe me abandonou, foi para algum lugar em que até então não sabia como era.
Logo pecebi que um pouco mais abaixo de minha morada havia novos vizinhos, dois senhores, um rapaz, uma moça bonita e uma criança. Com o passar do tempo comecei a frequentar esse lar, sempre que ouvia o barulho do carro saia correndo de minha casa, tropeçando entre minhas quatro patas, fazia de tudo para passar um tempo com eles. Iniciei uma bela amizade com todos, principalmente com o rapaz, sempre seguia esse homem, ele era uma espécie de pai para mim.
Ás vezes meus donos demonstravam preguiça de me cuidar, já estavam debilitados, a outra vizinha, a senhora, mãe do rapaz que eu gostei, começou a perceber isso também, com uma conversa com a moça decidiram levar-me embora.
Lembro-me de sentar no colo da moça que ficava ao lado da criança, elas estavam felizes, enquanto eu seguia viagem olhando para a janela traseira do carro, balançava meu corpo de felicidade, estava em um lugar em que eu gostava e que me gostavam. Em toda a minha vida essa foi a única vez que olhei para trás, até agora.
Quando me dei conta eu já estava em um enorme sobrado branco, todos estavam eufóricos com minha chegada, andei por quase a casa toda enquanto cheirava cada canto, eu estava muito feliz, pela primeira vez eu tinha um pote de ração só meu, pela primeira vez eu tinha toda a atenção voltada em mim.
Muitas vezes a criança costumava me por na coleira e sair correndo comigo, eu com minha vitalidade gostava disso, mas meu peso atrapalhava um pouco. Eu gostava dela, mesmo sendo chata e ciumenta era uma boa pessoa.
Após algum tempo nessa nova casa resolvi me aventurar nas ruas, saí por um buraco no portão e fui em busca de amigos. Nesse caminho encontrei uma grande amiga, eu ainda não sabia mas iria ser ela que ia se tornar minha guardiã. Sempre andávamos juntos, eramos carne e unha.
Quando voltava ao meu lar gostava de passar a tarde deitado nos tapetes, muitas vezes eu ia no sol. Depois de minha família humana, essa é a coisa que mais sinto falta, o sol.
Eu sabia que tudo isso não iria durar para sempre, mas acredite, eu aproveitei o máximo cada segundo precioso de minha vida, cada bolinha que peguei, cada latido, cada osso que ganhei e cada carinho recebido.
Os anos se passavam e a criança já tinha virado adolescente, e eu já estava velho, gostava muito do rapaz que agora não me dava tanta atenção, logo me aproximei da moça bonita que gostava me chamar de Bebê, cada vez que ela acordava eu quase quebrava de tanto me torcer de felicidade, abraçava a mesma com minhas patinhas enquanto todos riam na cozinha.
Quando eu não estava demonstrando meu amor, estava paquerando a vizinha, em uma dessas eu acabei levando uma pedrada de seu dono, até aquele dia essa era a maior dor que já havia sentido, pensei que já estava na minha hora de partir, mas com os cuidados da bela moça me curei rápido e já estava em minhas caminhadas novamente.
Pela minha passagem, presenciei muitos momentos alegres, lembro-me de quando vestiram-me e tiraram fotos minhas, de quando fiz arte no chão da cozinha, do dia em que fiquei enciumado com um bichano que havia pulado o muro. Falando assim, não parece algo feliz, mas lembrando-me sinto que sim, era feliz.
Ainda consigo me lembrar do dia mais marcante da minha vida, foi quando vi as duas moças voltando de viagem, eu sorria de felicidade, eu as amava, assim como todos daquela casa.
A moça bonita me entendia e o mais engraçado de tudo isso é que ela não entendia o que eu dizia e vice-versa, mas a sua presença era agradável, bastava para me acalmar.
Mas com o tempo passando a minha vitalidade já não era mais a mesma, já não conseguia subir as escadas, nem correr tão rápido, mal conseguia enxergar, certamente isso eu tinha herdado de meu pai.
Certa vez, adoeci, a moça me dava todos os tipos de remédios caseiros. Eu sabia que eu não iria mais viver muito.
Eram momentos tristes, ficava quieto e não latia mais, quase não conseguia andar e não comia, ao beber água caía, não fazia mais minhas necessidades e minha boca estava seca, todos me olhavam, todos tentavam me ajudar, minha colega, minha guardiã, ainda de tarde me viu, eu já não estava mais com meu tamanho peso, estava magro e meus ossos eram de fácil percepção e aquele foi o dia.
Ao anoitecer vinha o frio, pela primeira vez eu pude ficar na sala, deitei em meu tapete enquanto a senhora e o senhor estavam em seus respectivos sofás, o rapaz em seu quarto e as duas mocinhas também, sentia dor, muita dor, foi quando perceberam e reuniram todos na sala, eu tentava suportar, mas quando vi a bela moça descer da escada eu já sabia, eu ficava apreciando seus olhos, estavam já cheio de lágrimas. Fiquei feliz em ver quase todos na sala, a adolescente, não estava, tudo bem, eu estava ciente que era difícil perder um amigo, aquele que lambeu suas lágrimas quando estava triste e agora eu era o motivo das mesmas.
Três uivos, minha guardiã sabia, era hora de partir. Olhei fundo para todos e pela última vez dei meu suspiro fechando os olhos.
Hoje, sou uma estrela, sou as nuvens, sou o melhor amigo deles. Ás vezes ainda escuto algum comentário meu, decidi contar isso. Amigos ou melhor, família da Terra, nunca me esqueçam, nunca esqueçam o animal feliz e brincalhão que eu era, dócil e amável, esse era eu, tirem da cabeça essa imagem doente minha, esse não era eu. Eu sou aquele que amou todos vocês, que ama e que sempre irá amar e com certeza, um dia, nós vamos se encontrar, assim como me encontrei com minha mãe. Sigam em frente.
Eu amo vocês e sabem disso.
De coração,
Bernardo.
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