A Carta
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Sherlock termina de escrever seus votos. O relógio na cozinha marca o meio da madrugada, e a ausência de som confirma o óbvio: ele era o único acordado naquele momento.
Ao se levantar, a cadeira range brevemente, fazendo-o parar o movimento a fim de mover-se com mais sutileza, para não acordá-la. Em suas mãos, a carta dobrada repousa, enquanto o remetente reflete sobre as palavras que pôs ali.
Depois do casamento de John e Mary, ele nunca imaginou que um dia repetiria o gesto. Lembrava-se com clareza de ter dito "não ter a intenção de fazer um voto ou um juramento novamente", mas ali estava ele agora, num apartamento que não era o seu, sentindo-se num agradável conforto ao encarar as gotas de chuva que escorriam pela janela. Seus pensamentos corriam, livres, para um mesmo lugar e para uma só pessoa. Aquela que contava.
Como as coisas estavam diferentes agora, ele pensou.
Vai até o quarto, se deita ao lado de Molly e a puxa para si.
Ele sabe que por mais que tenha escrito o que sente, também sabe que não vai resistir a contar secretamente a ela.
— Eu não pediria a você que fosse um título, uma imagem, vista apenas como alguém que está ao meu lado — sussurrou, respirando fundo para continuar. — Também nunca imaginei demonstrações públicas e frívolas de agradecimento ou carinho- suspira em seus cabelos. — Eu não poderia esperar que me amasse dessa forma, Molly. Nem em mil anos, nem em caso de vida eterna. Você sempre será única.
Sua mão acaricia o rosto de dela e ele diz a si mesmo que aquilo é quase tão difícil quanto declarar-se perante os vivos olhos castanhos que tanto o encantam.
— Eu só posso esperar que, de alguma forma, fique comigo — ele continua e para, ruminando palavras que não passam da garganta, presas dentro de si. — Nunca houve tão falta de palavras em minha boca, Molly, e creio que mesmo que soubesse o que dizer, isso nunca faria jus a sua forma.
Ele relembra os momentos em que eram apenas conhecidos. Ela sempre presente, e ele sendo um tolo ao desprezá-la por tanto tempo.
Mas ele mudou. Ele a viu. Não da mesma maneira que ela no início, mas o sentimento evoluiu.
Ele então sussurra:
— Você é minha mais perfeita e bem sucedida droga — uma esguelha de sorriso se espalha em seu rosto quando ele percebe o que disse. — Desculpe, talvez isso não seja o certo a dizer, mas você sabe — dá de ombros levemente — esse sou eu. Ainda bem que um de nós disse o que sentia. Sem esse, hm... Empurrão? Incentivo? — questionou-se — não estaríamos aqui.
O jogo de sua irmã, lembrou-se, as vidas postas em perigo. O laboratório de testes emocionais de Eurus. Parecia a eras atrás, e ainda assim ele sabe o que sentiu no exato momento. O breve momento quando exitou e disse as palavras tão temidas.
— Eu quero deixar claro que independente do fato de nos casarmos ou não, é seu o direito de me chamar de seu, porque já me perdi em seu jeito — pressiona o coração de Molly com a ponta dos dedos — a um longo tempo. Eu sou seu, Molly, e desejo que queira ser sempre minha também.
Sherlock respira fundo, sente o perfume que emana do corpo em seus braços e pensa que nunca esteve tão em paz e tão ansioso como naquele instante. Era confuso estar nessa situação, pensou, supreendendo-se quando percebeu que gostava de se sentir assim.
— Eu quero — Molly responde, dando um leve susto nele que não percebera que ela estivera ouvindo a tudo. Os olhos castanhos estão marejados. Ela repete, dessa vez mais alto: — Eu quero.
Ele sorri.
— Você fala demais em algumas ocasiões — ela disse, sorrindo diante da cara feita por ele.
— Em minha defesa...
— Defesa? Contra fatos não há argumentos — acariciou o rosto de Sherlock, pensando nas palavras ditas a pouco. — Sabe, você podia esperar até amanhã para me emocionar assim.
Um riso percorreu o corpo de ambos.
— Bom, não imaginei ser pego, mas talvez fosse melhor assim.
— Então não ia dizer nada a mim? — ela se aconchega a ele.
— Não sei dizer.
— E porque não?
— Porque nunca fui bom em expressar o que sentia — sussurrou. — Por isso escrevi a carta.
Ele pôde ver os olhos dela se arregalarem num instante.
— Uma carta? E quando me entregaria ela?
— Quando acordasse — ele voltou a sorrir. Um sorriso que iluminava seu rosto e deixava seus olhos (se isso ainda fosse possível) mais claros. Era como apreciar uma constelação particular, Molly pensou.
Ela perdeu a noção do tempo que ficaram assim, olhando um ao outro, analisando os rostos e expressando carinho sem uma palavra.
Por fim, ela beijou seus lábios e transmitiu a ele tudo que também não dissera, tudo o que ele poderia sentir agora.
Apoiou sua cabeça no peito do detetive e murmurou:
— Eu te amo, Sherlock.
Dessa vez, ele disse sem exitar.
— Eu também amo você. Minha Molly Hooper.
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