A Carta
3 Mortes
Notas iniciais
Depois daquele dia Rivaille havia ido embora e não voltara. Dias de passaram.
-- Hanji Zoé – disse o médico ao entrar no quarto – seus exames indicam que está tudo conforme as ordens, você está bem.
-- Isso significa que já posso ir pra casa? – perguntou com seus olhos brilhando de alegria e expectativa.
-- Sim, já pode – respondeu com um sorriso acolhedor.
Em um piscar de olhos Hanji já estava de pé se dirigindo ao médico. Seu cabelo ainda solto e seu pijama – fornecido pelo hospital – amarrotado indicavam que ela tinha acabado de acordar. Quando chegou perto do mesmo, o abraçou. “Muito obrigada” disse para o homem alto e loiro que havia cuidado dela, junto com a equipe de enfermeiros, e logo lembrou-se de Mike, Nanaba, Petra e os outros. Seus olhos estavam mareados, mas ela escondeu isso muito bem. Com um “não foi nada” do outro, ela se desvencilhou; e quando ele saiu ela começou a arrumar suas coisas, agora sim suas lágrimas corriam por seu rosto.
Parou de chorar, lavou o rosto, trocou de roupa, prendeu o cabelo, colocou seus óculos, arrumou suas coisas e assim pôde sair do local. Nos corredores, desde a porta do quarto até a saída, ela cumprimentou as pessoas sem desfazer seu sorriso, ela estava voltando pra casa e isso que importava naquele momento. Ela saiu, saiu pensando no porquê de Rivaille não ter voltado, estava um pouco decepcionada, mas aprendera que não poderia esperar nada.
Quando chegou à sua casa tudo parecia um pouco diferente, as coisas estavam em seu devido lugar, as plantas – que ela esperava que estivessem mortas com o tempo perdido – estavam vivas, só o que destoava era uma taça suja com o uso e ao seu lado uma garrafa de vinho pela metade. Ela estranhou; ficou observando a taça como se dela, a qualquer momento, pudesse surgir a pessoa que a usou -- ela não sabia quem poderia ter sido então imaginou uma figura sem detalhes, uma penumbra – ela continuou avaliando a taça enquanto guardava suas coisas, o vinho que a manchava ainda estava líquido, isso significava que não havia muito tempo que isso acontecera.
Sentou em seu sofá para ler um relatório, sua letra grande parecia um titã ao lado da sutil de Nanaba. Acariciou a folha como se fosse o próprio jovem loiro que sempre a ajudava com suas pesquisas e temia por sua vida mais até do que ela mesma. “Vou sentir sua falta”, disse baixo quase sussurrando com lágrimas que voltavam a encher seu rosto, “agora vou ter que tomar mais cuidado, afinal, você passou mais tempo cuidando de mim do que de você mesmo”.
Enquanto isso, no hospital, Rivaille andava apressado pelos corredores rejeitando totalmente o “veio fazer uma visita, senhor?” que perguntaram e indo direto para o quarto onde, anteriormente, Hanji descansava, a porta foi aberta e o que ele encontrou foi uma cama vazia e arrumada, janelas abertas e nada que lembrasse a louca dos óculos.
-- Ela já foi – o médico que a liberara disse se apoiando na porta.
-- Fui informado de que ela só sairia amanhã -- respondeu.
-- Ela teve uma melhora rápida.
-- Obrigado – respondeu e saiu, pronto para encontrar com ela no único lugar em que ela poderia estar.
-- Hanji! – abriu a porta gritando e a viu no sofá, debruçada sobre seus livros.
Ela, espantada, levantou-se rapidamente e foi até ele.
-- Seus olhos estão vermelhos e inchados, por que estava chorando?
-- Porque ao contrário de você, Rivaille, eu ligo para as pessoas, eu sinto falta, sinto falta de todos que morreram – disse em alto e bom tom.
-- E você acha que não tenho sentimentos?
-- Eu já imaginava algo como isso, você ter ido embora ser dar explicações só comprovou o fato.
-- Quem você acha que arrumou e limpou sua casa, e ainda salvou suas plantas de uma morte quase iminente?
-- A mesma pessoa que bebeu do meu vinho.
-- É, foi exatamente essa pessoa, e sabe quem foi? Eu. Isso tudo para que você chegasse confortável em casa e não pensasse em como as coisas estão terríveis, por isso, Hanji Zoé, que eu estive ausente.
-- Me desculpe, eu só... Eu não sabia que você tinha feito isso tudo, eu estava nervosa.
-- Eu imaginei que isso aconteceria, sente-se ali – disse apontando para o sofá e quando ela o fazia, retirava os livros e os colocava numa mesa.
Já começava a anoitecer, e a noite que se aproximava deixava o dia nebuloso ainda mais frio. Ele pegou a taça de vinho e a garrafa e sentou, ao lado da moça com que falava, no sofá. Encheu a taça e a entregou para ela. Ela deu um gole e a devolveu para ele.
-- Obrigada.
-- Pelo vinho?
-- Por tudo isso – ela disse e o abraçou.
Para ele, aquele contato poderia durar a eternidade, mas duraram minutos. Eles sentiram o calor que trocavam e as batidas de seus corações. Depois de beijos, abraços, carícias, confissões e, é claro, vinho; uma coisa ainda não estava totalmente explicada na mente da moça.
-- Levi, como você entrou na minha casa?
-- Um dia em que eu vim aqui te procurar, antes de saber que você estava no hospital e sem ninguém pra me informar, eu achei uma chave de emergência em seu brilhante esconderijo, o velho DMT que fica ao lado da sua porta “de enfeite”.
-- Mas...
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