Eric analisava o feedback da semana com um olhar desanimado. Era um estagiário de jornalismo em uma rede de TV. Seu chefe o observava de pé com uma expressão irritadiça.

– Olha, cara, você sabe que eu gosto de você pra caramba e tenho muita consideração pelo seu pai.

As sobrancelhas unidas se mexiam com suavidade na testa enrugada de Roberto, quase como se para compensar a calvície que começava a tomar conta de sua cabeça.

– Mas, vamos combinar, você não está produzindo muito para a emissora. Em um mês, você só me trouxe três matérias, Eric.

– Três matérias muito interessantes, senhor.

– Talvez para o seu mundo. Não sei quem, em sã consciência, se interessaria em “10 motivos para Tíbia ser o melhor MMO do mundo”.

– Mas há muitos “gamers” no país e...

– Sim, eu concordo. Acontece que é um jogo muito antigo com gráficos péssimos, os jovens de hoje em dia sequer se interessam por esse tipo de coisa.

– E o que me diz de “gamers oldschool?”

Roberto esfregou o cenho e soltou um suspiro de puro cansaço.

– Olha, a questão é a seguinte: Se continuar assim, não poderemos te efetivar.

– E o que eu preciso fazer, senhor?

– Ah, pelo amor de Deus, o que foi que você absorveu da nossa conversa? Eu quero que sua produtividade aumente. Traga-me matérias interessantes! Não precisa ser um bocado, desde que sejam interessantes, compreendeu?

– Sim, senhor Roberto.

O chefe afastou-se rapidamente, erguendo as calças largas demais para seu corpo magro. Ele estava visivelmente irritado.

Verdade seja dita, Eric não tinha nenhum interesse em procurar tais matérias. Pouco lhe importava o estágio conseguido pelo pai, assim como pouco lhe importava a faculdade de Jornalismo. O real interesse de Eric era escrever, sim, mas acima de tudo, havia um amor profundo por ficção-científica. Nada mais era capaz de fazer os olhos de Eric brilhar. Seu sonho era trabalhar em astronomia, mas seu talento inexistente para exatas o impediu, logo se contentou em ler livros e quadrinhos, assistir filmes e seriados e, principalmente, escrever histórias sobre sci-fi.

Enquanto preparava-se para levantar e pegar um copo de chocolate quente, seu chefe voltou à sua mesa.

– Sônia acabou de me ligar de Santos, acho que posso te dar uma mãozinha, em consideração ao seu esforçado pai, para mudar seu conceito dentro da emissora. Você topa?

– De Santos? Quer dizer, eu preciso ir a Santos? Eu não posso fazer toda a...

– Deve ir a Santos! Eu faço questão de pagar sua hospedagem, mas, por favor, tenha bom senso e aceite essa oportunidade.

– Certo... Qual é o assunto?

– Me parece um tanto tolo e improvável, mas é sobre a Ilha de Bruma.

– Ilha de Bruma? O que pode acontecer de interessante lá?

– Exatamente. Parece que uma grande quantidade de animais foram mortos, em um curto espaço de tempo.

– Já mandaram alguém investigar isso aí? Parece-me um pouco bizarro.

– Exatamente, é perfeito para você! A prefeitura contratou uma equipe para investigar, só falta o cara para cobrir toda a investigação. E esse cara é você!

– Cara, eu não sei se eu quero ir pra uma ilha, eu nunca acampei e sou alérgico à...

– Está certo, vou enviar seus documentos e o contrato assinado por você à Sônia. Pode tirar o dia de amanhã de folga para se preparar, certo? Muito obrigado, Eric, mande lembranças ao seu pai.

Roberto saiu novamente, deixando Eric perplexo e irritado. Ficou um tempo parado, pensando no caso, mas logo se levantou e foi finalmente pegar seu copo de chocolate quente.

Talvez o chefe não estivesse falando sério.