A Canção no Vento
1 A Canção no Vento
Notas iniciais
O vento fazia o meu cabelo voar na frente do meu rosto quando a rede balançava. De cinco em cinco minutos eu tinha que tirá-lo do rosto. Mas isso não me atrapalhava. Eu o fazia rapidamente, sem perder o timing da música, ou a magia se quebrava. É difícil saber quantos anos eu tinha quando comecei a criar esses momentos, só sei que faz mais de uma década. Eu deixava a música tocar alta na minha orelha, alta o suficiente para abafar o barulho da rede e do resto da casa, e dublava o que quer que estivesse ouvindo enquanto a plateia reagia. Suas reações eram diversas nos detalhes, mas poucas de forma abrangente. Inveja, admiração, choque com o meu talento e postura elegante, às vezes se apaixonavam e outras vezes me elogiavam. Não importa muito o sentimento com tanto que eu me sentisse uma força a ser reconhecida, uma mulher poderosa. Os personagens tão pouco importavam: pessoas da escola, personagens inventados por mim mesma, partes de livros ou filmes que eu adorava; qualquer um deles olharia para mim e veria exatamente o que eu quisesse, sentisse o que eu comandasse.
O vento e o balanço da rede criavam uma noção de movimento grandioso, e sentada naquela rede eu poderia estar dançando num palco ou andando por algum cenário fabricado. A música ditava como eles ouviam a minha voz e a letra comandava a história. Eu torcia o significado de toda e qualquer canção à minha vontade, de forma que a intenção do autor desaparecia e só existia a minha intenção. Com as palavras de outros, vozes de outros e muitas vezes aparência de outros, eu me criava diante ao meu mundo: uma mulher poderosa, talentosa, inteligente e admirada.
Eu coreografava meus movimentos, um tanto limitados por conta do espaço, de forma meticulosa e aprendia a letra em velocidade recorde. Quanto mais a rede balançava e o vento voava, mais força a experiência tinha. Eu me livrava das amarras da minha aparência, da minha falta de talento, das vozes dos meus colegas que me excluíam e riam de mim. Sentava naquela rede e dublando as mais variadas canções eu entrava em êxtase. Apesar da rede não existir mais, eu consigo me recordar das histórias.
Há um show de talentos. As meninas populares acabaram de performar e elas foram incríveis, a plateia ficou deslumbrada e todos comentam sobre. Então alguém me empurra para o palco. Uma música começa a tocar. Eles querem me fazer pagar mico, mostrar para todos que eu não tenho talento. Mas isso não é verdade, não nesse mundo. Então eu canto. Não tão impressionante no começo, mas a canção começa a ficar mais difícil, até chegar no seu ápice: um refrão contagiante ou uma nota alta e longa. Todos estão deslumbrados. Eu sou a estrela desse show agora. Eles comentam sobre a minha voz, minha energia. Sou sexy, bonita e confiante. Eles pedem mais e eu dou mais. Me perco na música. Meus olhos estão fechados agora, a plateia mais nítida na minha frente do que quando eles estavam abertos. Eles me amam. A próxima música da sequência não se encaixa na fantasia e eu abro os olhos para escolher uma melhor. Não chego a fazê-lo. Minha irmã acabou de abrir a porta da sala e está rindo de mim, perguntando o que eu estou fazendo. Eu dou uma desculpa qualquer, mudo de assunto.
Eu sinto vergonha, minhas bochechas ardem e eu só quero que ela vá embora. O que eu faço aqui é ridículo. Eu deixo a rede parar de balançar. Fico sentada olhando pro meu iPod, uma canção qualquer ao fundo. Consigo quase ler a mente de minha irmã, imaginar o que ela está pensando de mim. Eu sou ridícula. O que eu estou fazendo? Eu não tenho talento, não sou bonita. Mas essa realidade dói. Eu a rejeito. Levanto da rede, fecho a porta da sala, me certifico que não serei vista, sento na rede, balanço rápido, escolho uma música e começo tudo de novo.
Há um show de talentos. As meninas populares acabaram de performar e elas foram incríveis, a plateia ficou deslumbrada e todos comentam sobre. Então alguém me empurra para o palco. Uma música começa a tocar. Eles querem me fazer pagar mico, mostrar para todos que eu não tenho talento. Mas isso não é verdade, não nesse mundo. Então eu canto.
Notas finais
Eu nunca compartilhei isso com ninguém na minha vida, mas acho que já chegou a hora de eu tirar isso do peito, pelo menos em parte. Críticas construtivas e experiências que quiserem compartilhar serão respondidas.
Obrigada por me ouvir.
Fale com o autor