A Canção de Morgana
19 Um Olho na Escuridão
Notas iniciais
tudo pelo que eu estou vivendo
tudo pelo que eu estou morrendo
tudo que eu eu não posso ignorar
sozinha à noite
(Evancescence — All That I'm Living For)
Instituto Flamel, 1995.
O ponteiro em formato de flecha do relógio alcançou o limite do primeiro quadrante, avisando à Bervely que já eram três da manhã. Significava que já estava debruçada sobre aquele caldeirão há mais de doze horas, mas a estudante de alquimia sentia o contrário de exaustão; estava eufórica. Finalmente acertara a quantidade exata de ovos de Cizal para a sua nova receita de Amortêntia, depois de oito tentativas falhas. O líquido dentro do caldeirão de estanho evoluía rápido para o tom perolado que procurava, e o particular cheiro que a poção do amor tinha para ela se alastrava pelo laboratório, enchendo seus pulmões com um conforto quase doloroso.
Largando a concha sobre o descansador com um sorriso satisfeito no rosto, ela se sentou na banqueta e descansou as costas contra a parede, soltando um suspiro longo. Aspirou profundamente o ar que preenchia a sala: desinfetante de caldeirão, um sopro fresco de lavanda e o pêlo de um certo animago. Em qualquer outra circunstância os três aromas formariam uma combinação estranha, mas a magia da poção garantia que eles fossem detectados individualmente pelo seu nariz; podia até mesmo se concentrar em um deles e ignorar os outros, se quisesse. Mas isso, Theodor diria, era porque ela tinha um ‘nariz de alquimista’.
Como se evocado pelo seu pensamento, o próprio entrou pela porta do laboratório, sobressaltando-a do seu estado relaxado. Sua presença ali, no entanto, não era uma surpresa, Bervely na verdade esperara que ele aparecesse muito antes, pois devia saber que ela estaria trabalhando no seu projeto de fim de semestre madrugada adentro.
— Aqui, torta de carne e queijo contrabandeada do refeitório. Imaginei que você teria preterido alimentação a favor da arte quando vi que não apareceu no jantar.
O jovem ex-auror e atual instrutor de alquimia pousou o saco de papel pardo na frente dela, aproveitando para dar uma espiada no seu caldeirão e também na coleção de recipientes vazios dos ingredientes que ela tinha usado ao longo do dia, a maioria dos quais ainda estavam sobre a bancada de trabalho. Lá também constavam as cascas dos ovos de Cinzal que ela cozera em fogo congelante por quarenta e duas horas ao invés de submeter à um feitiço de congelamento, como na receita original. Bervely esperou o que ele diria com expectativa, ficando feliz ao ver a expressão de admiração surgir na face do rapaz.
— Uau, congelamento lento para preservar a vida útil da poção?
— Não, não da poção… do efeito em si — ela explicou com um sorriso pretensioso.
— Ah, já vejo. Interessante… mas acha que só isso vai ser o suficiente para garantir a nota?
— Lógico que não. — Bervely alinhou as costas, apontando para o que estava ao lado das cascas de ovo; um pequeno frasco de líquido de cor azul-acinzentada, arrolhado com cuidado para prevenir vazamento. — Acrescentei um ingrediente volátil à receita, serum enriquecido de Ylang Ylang.
Ele pegou o frasquinho com interesse e analisou contra a luz.
— Nunca ouvi falar, o que isso faz?
— Se interagir corretamente com os outros ingredientes, deve adicionar uma importante dose de atração física ao “amor” induzido em quem bebe a poção. A maior crítica à Amortêntia é que provoca amor platônico e não necessariamente desejo carnal, mas ninguém até o momento conseguiu atualizar a fórmula para corrigir esse pequeno problema.
Theodor abriu um sorriso admirado diante da explicação, colocando o frasco de volta à bancada.
— Não até a diabólica Bervely Black trabalhar nisso, pelo que vejo.
Ela deu de ombros com falsa modéstia, puxando o saco de comida que Theodor trouxera para perto com interesse e espiando seu interior. Enquanto beliscava a não-impressionante-porém-decente torta de carne que os elfos do Instituto Flamel eram capazes de providenciar, ela respondeu as outras perguntas que Theodor tinha à respeito da sua nova fórmula, sabendo que ele fazia o inquérito para ajudá-la na sua apresentação no dia seguinte.
A reformulação da Amortêntia fora o projeto que Bervely escolhera para o final do seu primeiro semestre no Instituto; lhe parecera desafiador o bastante, capaz de interessar a banca de jurados e garantir sua permanência no programa, ao mesmo tempo que não lhe exigia uma implicação emocional, como teria acontecido optasse por continuar com Neverland. Estava satisfeita com seus avanços; captar admiração nos olhos de Theodor à medida que ela explicava seu projeto lhe proveu a última camada de segurança de que precisava.
— Não dá pra dizer que estou surpreso, sabia que você iria surgir para nós com algo fantástico — ele disse por fim, após sanar toda a sua curiosidade. O comentário a fez rolar os olhos.
— Tente soar mais impressionado amanhã quando estiver me dando a sua nota, se não se importa.
Ele sorriu de lado sem lhe dar qualquer indício de que faria o esforço – mas Bervely sabia que ele iria. Theodor era parte da banca de jurados que analisava os projetos finais dos estudantes de Alquimia do Instituto Flamel; a razão oficial para isso é que ele era agora parte do corpo docente do Instituto, mas Bervely sabia que ser filho da Diretora do Instituto também contava alguns pontos. Ela pessoalmente achava que Ellis Agrippa jogara essa carta como um incentivo para que o filho aceitasse a posição no Instituto e se sentisse valorizado, após ter que abandonar a carreira de auror.
— Eu não deveria dizer isso, mas acho que há alguma coisa errada com o cheiro — Theodor comentou, após se debruçar mais uma vez sobre o caldeirão e analisar o andamento da poção, que estava bem perto do ponto certo de cozimento. Bervely negou a possibilidade com um movimento de cabeça.
— Nada está errado com o cheiro, está cheirando exatamente como deveria.
Theodor lhe deu um sorriso atravessado de curiosidade.
— Como cheira para você?
— Até parece que se vou te dizer. — Ela riu, cruzando os braços e recostando-se à parede novamente.
— Pra mim cheira como… latão polido de caldeirão novo, maresia, tinta ritual fresca e alguma flor… Mas eu odeio flores — refletiu, estreitando os olhos de forma gatuna na direção de Bervely. — Me lembram velórios e coisas mortas.
— Parece que essa você não odeia — ela disse com humor — Qual a flor? Pela flor podemos descobrir quem é a pobre coitada…
— A pobre coitada...? — Theo ergueu uma sobrancelha larga, fingindo que não acompanhava o raciocínio cruel dela.
— A pobre coitada de quem você gosta, que usa algum perfume floral enjoativo.
Ele lhe deu um sorriso misterioso e um jogar de ombros, comunicação silenciosa de que não lhe daria mais informações. Bervely teve a impressão de que ele sabia exatamente de onde vinha o cheiro e o que ou à quem recendia, só estava sendo obscuro para irritá-la.
— Bem, minha missão aqui está terminada. — Theodor veio até onde ela estava e recolheu o papel pardo, agora vazio, amassando-o em uma bola. Era medida de segurança que material com resquícios de alimento não fosse descartado junto com os dejetos mágicos dos laboratórios; na verdade, alimento nem deviam entrar no laboratório, mas quem iria delatá-los aquela hora da madrugada?
Ele lhe deu um sorriso mais morno ao notar suas olheiras marcadas pelo trabalho intenso.
— Você devia ir descansar. Amanhã vamos descobrir se a sua fórmula nova funciona.
— Ou… poderíamos testá-la agora — Bervely sugeriu, tentando parecer séria. — Tenho um antídoto pronto, seriam só alguns minutos e eu dormiria muito mais tranquila.
— Eu espero que você não esteja sugerindo que eu seja cobaia para a sua poção do amor — riu Theo — Isso seria engraçado.
— Eu particularmente acharia muito engraçado.
— Eu disse engraçado? Eu quis dizer estúpido. Muito estúpido. — Theodor bagunçou sua franja para cima de seus olhos, um hábito que muito a irritava mas que ela acabara desistindo de desencorajar por algum motivo agora perdido no tempo. — Se apaixonar por você conscientemente é a pior ideia que alguém pode ter nessa vida, se quer saber da minha opinião.
— Uau. Direto nos sentimentos — caçoou a aprendiz de alquimia, batendo na mão dele para afastá-la.
— Se você tivesse algum. — Theo deu uma risadinha descrente pelo nariz. — Boa noite, Bervely.
— Boa — Bervely acompanhou pensativa seu único ‘amigo’ no Instituto Flamel caminhar para fora do laboratório e seus olhos foram se estreitando. Por fim aspirou de novo o cheiro apaziguador de sua porção, que sem duvidas receberia a nota máxima no dia seguinte, e todo o resto deixou de preocupá-la naquele instante.
***
O envelope chegou até Charlotte três dias depois do seu encontro com Theodor Shadowtamer no esconderijo em Lancaster. Ao invés de uma carta escrita à pena e tinta, o que deslizou para a palma da sua mão foi um retângulo de papel grosso e brilhante, com letras impressas ao estilo trouxa e um código de barras preto no canto esquerdo:
BIRMINGHAM x SUNDERLAND
FEL CHAMPIONSHIP
BARNSTORMERS GAME CENTER
SUN, OCT 6, 1996 10:30 AM
SEC: 214 / ROW: 10 SEAT: 15
Ela ficou encarando o pedaço de papel, não porque desconhecia o seu significado, mas devido ao aperto nostálgico em seu peito no momento em que reconheceu do que se tratava. Teria sido coincidência, ou Theodor fizera de propósito, tendo ele pesquisado sobre o seu passado?
Bellatrix torceu o nariz quando Charlotte lhe explicou o que o conteúdo do envelope significava.
— Deselegante... mas perspicaz. Parece que seu aurorzinho não é um idiota completo — decidiu a comensal da morte, lhe devolvendo o retângulo de papel trouxa como se não pudesse aturar segurá-lo por mais de meio minuto.
— Eu não acho que eu deveria ir.
— É claro que você vai — a mulher admoestou, deixando claro que ela não tinha opção. — Faça o que ele pedir, concorde com as condições que ele impuser. Nós queremos esse animalzinho amansado.
No domingo em questão, Charlotte vestiu suas mais convincentes roupas trouxas (um macacão jeans de calças compridas, uma blusa de listras azuis e brancas e um boné azul celeste por cima do cabelo trançado) e se olhou no espelho longamente antes de sair de casa. Teve um vislumbre da garotinha que fora um dia, antes de perder os seus pais para a mesma pessoa com quem estava de conluio agora, e sentiu que traía a sua memória. Antes que a ideia a fizesse fraca demais para seguir adiante com o plano, mandou o desgosto de volta garganta abaixo, engolindo firme.
Desceu na estação de metrô mais próxima do estádio escrito no bilhete. A enorme quantidade de pessoas seguindo na mesma direção lhe deixou tensa, mas ela apertou os dedos em torno do pingente do seu colar e deixou que a pulsação em sua palma, ritmada como o batimento cardíaco de um pequeno coração, lhe desse segurança. Lembrou a si mesma que não tinha nada a temer naquela multidão... eles eram desprovidos de magia e não lhe ofereciam ameaça.
Depois de seguir muitas placas em neon penduradas no teto e se esquivar de uma infinidade de crianças excitadas, mães estressadas e pais distraídos, pedindo desculpa mais de um par de vezes a pessoas que esbarraram nela, enfim encontrou o assento designado no bilhete: número 15, fileira 10, sessão 214. Não eram os piores; por toda a sua infância ela se lembrava de ter ocupado assentos algumas fileiras anteriores, na sessão 250 e adiante, porque era o que a sua família adotiva podia bancar. Charlotte nunca reclamara; os telões proviam todos os detalhes que precisava, e de qualquer maneira a graça não estava no jogo em si, mas em ter aqueles momentos a sós com Adam Summers, que na época ainda acreditava ser o seu pai verdadeiro.
Dali tinha uma boa visão do campo. O assento ao seu lado, número 16, ficou vazio até o começo da partida. Aos poucos ela relaxou e até esqueceu porque estava ali; futebol tinha o poder estranho de amortecer seus nervos e lhe deixar num estado contemplativo próximo da meditação, enquanto flutuava levada pelo burburinho excitado da torcida ao seu redor. A torcida se tornava esse organismo único que vibrava, encorajava, xingava em uníssono… A Charlotte de dez anos achava aquele fenômeno mágico. Pobre Charlotte de dez anos, para a qual mágica era sinônimo de êxtase e beleza, nunca destruição e dor...
— Devo supor que esse brilho em seus olhos é um sinal de escolhi bem o nosso ponto de encontro?
Ela deu um pulo para a voz de Theodor bem ao seu lado, quase esbarrando no vendedor de cachorro quente e pipocas que tentava saciar um grupo de quatro crianças do seu outro lado. O auror surgira do nada no assento vazio, também usando roupas trouxas de acordo com a ocasião; no seu caso, uma camisa azul cerúleo e preta do Birmingham e jeans bem gastos. Ele também portava um boné, cinza escuro, que faziam sombra em seus olhos estreitos, mas o ângulo reto de seu queixo era bastante familiar para ela agora.
— Você acabou de aparatar aqui? — sussurrou Charlotte com espanto, olhando para um lado e outro, tentando descobrir se alguém se dera conta da aparição repentina de um jovem de um metro e oitenta e estatura massiva se materializando no espaço vazio.
— Nós não discutimos essas coisas em público, não é seguro — ele disse com um sorriso arteiro. — É bom ver você. Fiquei pensando se realmente viria, alguns bruxos tendem a ficar intimidados com aglomerações trouxas como essa.
Ela sentiu algo inflar dentro de si ao ser reconhecida como uma bruxa por ele; não se lembrava da última vez que alguém se referira a ela dessa maneira, talvez nunca tivesse acontecido.
— Não, eu entendi. Ninguém vai imaginar que estaríamos nos encontrando justo aqui, no meio de um jogo de futebol.
— Então você conhece futebol? — ele perguntou com ligeira surpresa. Charlotte lhe encarou por alguns segundos, tentando descobrir se ele estava blefando com aquela pergunta, mas acabou assentindo.
— Meu pai e eu costumávamos assistir aos jogos da liga europeia todo último domingo do mês, quando eu era– antes de...
— Antes de o seu tio levar você para o mundo bruxo — ele completou com um aceno de compreensão.
Ela assentiu, encostando-se novamente ao assento para ver o Sunderland cobrar um pênalti. Agora que Theodor chegara estava tensa novamente, mas segurou o impulso de procurar alento na pulsação calmante do seu pingente. Ao invés disso, segurou os braços do assento com as duas mãos e evitou olhar na direção dele, fingindo que estava distraída com o jogo lá embaixo.
— Eu também vinha ver jogos de futebol quando era criança — ele disse em tom de conversa, com sua cabeça também virada para o campo .
— Eu pensei que você era puro sangue.
— Eu tenho uma tia trouxa que tem um monte de filhos. Vez ou outra ela conseguia convencer o meu pai de que um pouco de exposição a outros modos de vida ajudaria a construir uma personalidade mais holística e... mais um monte de coisas hippies. Era a década de 70. — Ele deu de ombros como se aquilo explicasse alguma coisa, mas Charlotte não fazia ideia do que queria dizer.
— Você deve estar imaginando porque te chamei aqui — ele disse depois de um tempo; tempo o suficiente para que o Birmingham marcasse mais duas vezes e assumisse a liderança da partida. Charlotte, que na verdade sentia a ansiedade comer o seu estômago sobre porque diabos estavam ali, assentiu brevemente com sua cabeça, controlando os nervos o melhor que podia (“Não demonstre ansiedade nem muito interesse”, fora a recomendação de Bellatrix para qualquer coisa que Theodor tivesse a lhe dizer).
— Tenho uma proposta. Queria fazê-la num lugar em que eu tivesse certeza de que não seríamos ouvidos, se é que me entende.
Ela entendia: que não seriam ouvidos por Bellatrix. Ele estava certo; a comensal da morte não estava espreitando atrás de uma das pilastras da arquibancada, nem em qualquer lugar próximo em que pudesse ouví-los; o que não fazia a menor diferença. No minuto em que Charlotte retornasse ao esconderijo, a mulher vasculharia a sua mente com as artes da legilimência que aprendera com o Lorde Negro, e nada que Charlotte quisesse ocultar estaria fora do seu alcance. Abrir sua mente para a bruxa das trevas fora parte dos termos do seu acordo.
Tudo que ela fez foi assentir, o que o encorajou a prosseguir. Theo aproveitou um momento de comoção da torcida, em que todo mundo se levantou e começou a gritar e encorajar o atacante número 10, e se inclinou na direção de Charlotte, sussurrando em seu ouvido, por trás de sua trança:
— Quero que venha comigo. Tenho um lugar seguro para você até que as coisas se resolvam.
— O quê? — Seu coração começou a disparar, parte pelo hálito quente dele soprando em um ponto do seu pescoço, parte pela esperança do que achara que tinha ouvido.
— Eu posso proteger você, Charlie. Nao importa que tipo de acordo fez por aí e do quão ruim seja, sei que o fez pela sua sobrevivência. Você não é como eles... Venha comigo e você não vai precisar mais ter medo, nem fazer coisas ruins.
As promessas dele eram boas demais para serem verdade. Um instinto de proteção primordial dentro dela, desenvolvido naqueles últimos anos lidando com serpentes traiçoeiras, lhe advertiu que deveria ser uma armadilha. Theodor podia estar tramando para culpabilizá-la pelos crimes e levá-la presa. Era o dever dele; ele era um auror, afinal, e sabia o que ela tinha feito no passado sob as ordens do Olho de Hórus. Era difícil acreditar que qualquer pessoa com o senso de justiça dele poderia lhe perdoar por tudo que lhe contara.
A mão quente de Theodor deslizou sobre a sua no encosto da cadeira, envolvendo a dela por todos os lados. Seu instinto de autopreservação derreteu numa poça quente que se alojou no fundo do seu estômago.
— Você não tem nada a perder, tem? — ele disse baixo de novo. Seu tom era de quem pede um favor — Me deixe proteger você. Me deixe ficar tranquilo, sabendo que nada de ruim vai lhe acontecer.
Charlotte assentiu, afinal ele estava certo. Ela não tinha nada a perder. Theodor entrelaçou os seus dedos e esperou até o terceiro gol; no meio da multidão que comemorava, e que não dava a mínima para os dois, ele os desaparatou para um lugar seguro.
***
Azkaban, meados de Outubro.
Ela esperara que a mão dele se soltasse da sua garganta e a guiou até o seu pulso esquerdo, onde a coleira estava. Abrira o fecho que um dia ele consertara para ela e deixara que o objeto ficasse na mão dele. Black olhara para aquilo como se jamais tivesse visto coisa mais estranha.
"Essa lembrança do dia em que nos conhecemos salvou a minha alma, se tornou uma espécie de amuleto”, dissera, esperando que ele compreendesse o quanto importava.
“Você não pode, possivelmente, ser real", fora o rosnado de Black, em resposta.
“Mas eu sou.”
Revivendo a lembrança do dia em que fizera Sirius acreditar que era mais do que uma alucinação, numa cela muito similar àquela quatro anos atrás, Bervely arrastou a ponta do dedo no couro gasto da coleira enrolada ao seu pulso esquerdo. De tanto repetir aquele movimento nos últimos dias, a pele do seu dedo já estava em carne viva. Repetir o resto provocava uma agonia dolorosa que explodia em seus nervos, mas isso não a impedia.
O Quarter responsável pela sua ala, um auror de meia idade chamado Bob Ugg, decidira que o objeto era inofensivo e lhe dando permissão para mantê-lo consigo até o seu julgamento. Deixando que a pena que tinha dela guiasse a sua decisão, fora ingênuo; a velha coleira podia não ter mais suas propriedades mágicas, sua pedra da lua há muito quebrada, mas estava longe de ser inócua; era a única responsável por lembrar à Bervely de que era real quando a escuridão da cela ameaçava lhe engolir inteira.
Fora "alimentada" há algum tempo; a tigela de comida, ainda semi-cheia e agora fria, jazia abandonada ao pé da pia de pedra no canto da cela. De acordo com os seus cálculos, baseado na hora em que lhe trouxeram a comida e na posição das sombras intercaladas no corredor, a qualquer minuto agora...
— Banho de sol — anunciou o Quarter Bob, surgido do vácuo, um dementador pairando ao seu lado. — Afaste-se das grandes, mãos esticadas à frente, sem movimentos bruscos.
Ela obedeceu, um misto de alívio e desgosto subindo pela garganta. Por um lado, era o único momento do dia em que alguma coisa acontecia. Por outro, era quando tinha que atravessar quinhentos metros de corredor ao lado de um dementador, sem nenhuma magia para protegê-la de sua sufocante influência.
O Quarter entrou e atou seus pulsos com um feitiço-corrente que os ligava até a sua varinha. Ele fez um sinal com a cabeça para que ela o acompanhasse e Bervely obedeceu; se não mantivesse um certo ritmo, o feitiço em seu pulso se tornava mais e mais apertado, cortando sua circulação, uma sensação que não era a sua preferida.
Sentiu o peito gelar quando passou perto do dementador, apesar de este não parecer muito interessado nela. Sua mera proximidade fazia Bervely sentir que a vida não valia a pena, que ela estava pronta para se jogar de uma janela alta se tivesse a chance.
O corredor até o pátio não tinha nenhuma janela.
— Sem conversa. Sem contato físico. Você sabe como funciona.
— Sim, Bob, eu sei como funciona — murmurou com sarcasmo, sabendo que o fato de que sabia seu nome o fazia se sentir importante. O Quarter desfez o feitiço em torno de seus pulsos e indicou que ela atravessasse as grades que davam acesso ao pátio do banho de sol. Bervely tropeçou para dentro, as pernas fracas por falta de uso.
— Meia hora — ele lhe disse antes de sumir.
A grade se recompôs magicamente atrás dela com um estalo abrupto que a fez se encolher; sempre a mesma coisa, ela nunca se acostumava.
Como a maioria dos ambientes em Azkaban, o pátio era um ambiente retangular, mais longo do que alto, cavado magicamente na pedra e projetado para ser desolador e fornecer o mínimo de conforto possível. Ao invés de uma abertura para o céu, a fim de prover aos prisioneiros um banho de sol real, o teto era iluminado por um forte feitiço solar; uma luz branca intensa, vinda de todos os lados, que em contraste com a escuridão do corredor e da sua cela fazia seus olhos arderem. Ao contrário do sol, a luz era fria e desagradável. Como nos onze dias antes deste, Bervely apertou os olhos para proteger suas pupilas dilatadas e se arrastou para um dos cantos do pátio retangular, onde haviam nichos cavados na pedra. Ela se encolheu em um deles, abraçando as pernas e enfiando a cabeça entre os joelhos. Respirou fundo, sentindo uma pontada aguda nos pulmões contraídos pela posição desconfortável.
Olha só para você. Uma coisa patética encolhida num canto. Que desperdício de sangue nobre. Que desperdício de existência.
Tentou ignorar a voz, embora com menos afinco do que das outras vezes. A cada dia que passava, seu monólogo interno soava menos como derrotismo e mais como inegável realidade.
Acabou para você, Bervely. É assim que termina. Você não achou que ia escapar impune, não de verdade, achou? No fim todo mundo paga por seus crimes. As coisas que você fez... as coisas que eles nem sabem... é por elas que você está aqui. Azkaban sempre foi o seu destino.
— Não, já chega — ela murmurou entre os joelhos, sentindo-se sufocada — Já chega.
— Oi. Você está bem?
Bervely ergueu a cabeça, lutando para abrir os olhos contra a luz e enxergar quem estava falando. Parado a sua frente, um adolescente tardio com um sério caso de acne, olhos saltados e cabelo ralo cor de rato, com um par de olhos de um hazel desconcertante. O uniforme de Azkaban caía enorme em seus ombros magrelos. Ela não tinha certeza, mas achou que ele parecia genuinamente preocupado.
— Tive a impressão de que você estava pirando. Meu nome é Lalau, a propósito.
Ele estendeu a mão, que era grande e tinha dedos descombinados, como se tivessem crescido de forma independente um do outro. Ela ficou olhando para aquela figura insuspeita por uns dois segundos, mas ele não abaixou a mão. Bervely pigarreou, se aprumando.
— Não somos autorizados a fazer contato físico — disse, a voz saindo seca devido ao pouco uso nos últimos dias.
— Ih, é verdade. — Ele deixou a mão cair — Vivo me esquecendo.
— E eu não estava pirando — comunicou com o pouco de dignidade que lhe restava — Só estava protegendo meus olhos da luz.
— Uh, fotossensível? Eu sei como é, eu tinha um hamster assim, tinha que deixar a gaiola dele sempre debaixo da cama. Ah, eu sou Lalau. Ops, acho que eu já disse isso... E você é?
— Eu não estou aqui pra fazer amigos — ela disse rapidamente ficando azeda, seu modus operandi para aproximações não solicitadas de estranhos desde que se conhecia por gente. Tudo que conseguiu do rapazote foi um franzir confuso de sobrancelhas confuso.
— Ah, é? Então pra que você está aqui?
— Pela vista. Além do mais a comida é de outro mundo.
Ele riu, deixando a mostra dentes tortos que aparentemente seus pais não tinham se preocupado em corrigir com um feitiço de alinhamento quando ele estivera na idade certa. Bervely ainda estava se perguntando como ele podia rir, habilidade que a maioria dos prisioneiros de Azkaban perdia nos primeiros três dias de exposição aos dementadores, quando o garoto se jogou ao lado dela no banco, desengonçado.
— Você também é inocente? — ele perguntou para puxar papo. Lalau cheirava como se não visse banho há dias, mas Bervely não se deu ao trabalho de recuar. Certos limites eram reavaliados quando se passava um tempo naquele lugar; além do mais ela própria não devia estar cheirando a rosas àquela altura. Enquanto tentava descobrir se já o vira antes, percebeu que ele ainda aguardava a resposta, lhe olhando curioso, seu rosto espinhento torcido em expectativa.
— Não — disse baixo —, não sou inocente. Mas não sou culpada do que eles estão me acusando.
— Ah, sei como é. Armaram pra mim — continuou resmungando, sem parecer surpreso com sua resposta. — Acho que alguém me lançou uma maldição Imperdoável, eu ficava sentindo a sola do meu pé formigando o tempo todo e a minha cabeça flutuando… esquisito, né? Você pensaria que a sola do pé não tem nada a ver com…
Bervely deixou o olhar vagar para o outro lado do pátio, rapidamente desinteressada na conversa. Haviam outros prisioneiros tomando banho de sol junto com eles; uns quatro ou cinco em cantos diferentes, ofuscados pela luz profusa que vazava pelo teto. Era impossível ver suas feições de longe, mas ela sentiu um nó de familiaridade estranha à respeito de um deles, parado imóvel em sua direção, na extremidade oposta do retângulo. Teve a impressão de que ele estava tentando ouvir o que conversavam.
— …indo para o aniversário do meu primo de terceiro grau em Hillot quando os caras me pegaram! Ah, eu já mencionei que eu trabalhava no Nôitibus Andante nos dias de semana? Se você o pegou algum dia deve se lembrar de mim, eu lia a mensagem de boas vindas e ajudava com as malas.
— Fascinante — ela murmurou, aérea, mas seu comentário foi mal interpretado como um encorajamento. Lalau parecia ser uma daquelas pessoas que quando começavam a falar não paravam mais, como uma torneira que alguém esquecera aberta, pingando sem parar.
— Melhor trabalho de todos, certo? Eu espero que me aceitem de volta quando eu sair daqui! Vai ser difícil arranjar outro tão bom, ainda mais com uma passagem em Azkaban no currículo… droga, será que sou obrigado a colocar no currículo? Só se eu fizer questão de dizer que foi tudo um mal entendido talvez até ganhe pontos com isso, vai me fazer parecer durão…
Bervely experimentou um desinteressado assomo de pena, ouvindo com apenas metade da atenção.
Você vai apodrecer aqui enquanto eles quiserem que você apodreça, pensou ela consigo mesma.
Do outro lado do pátio, o prisioneiro se levantou. Ela percebeu que a luz não era a única razão pela qual não podia lhe identificar as feições; o rosto dele era desfigurado, a pele retorcida como se tivesse sido derretida, ou…
Queimada. Bervely sentiu um encontrão desconfortável no fundo do estômago, como um chamado de alerta.
— O que foi? — Lalau se assustou quando ela se ergueu de repente do nicho, o rosto branco.
O homem do outro lado do pátio olhava direto para ela. Bervely podia jurar que havia surpresa em seus olhos; que eram de um azul-esverdeado particular o qual vira em apenas duas pessoas, até então. Uma delas estava morta. A outra lhe queria morta. Frio horror brotou na base de sua espinha, se espalhando pelo resto dos seus nervos. Seu corpo ficou dormente de baixo para cima, primeiro seus braços e pernas, depois, mais lentamente seu cérebro.
— Quem é aquele cara? — Lalau finalmente percebeu o que ela estava olhando. — Você o conhece? Minha nossa, o que aconteceu com a cara dele?
— Eu…. — ela aspirou suas palavras, a boca árida. — Preciso sair daqui.
— Você não pode, não até o fim do seu banho de sol. Você pode optar por não vir, mas uma vez que vem, precisa ficar até o final.
Seu sangue bombeava forte nas suas orelhas, lhe deixando surda para o que Lalau estava dizendo. Fuja, disse a voz que se debatia em sua cabeça. Fuja, corra, saia do alcance dele. Fuja. Mas não importava o que a voz queria, ela não conseguia se mover. O olhar fixo do prisioneiro desfigurado a prendia ali, junto com a certeza de que ela não tinha para onde correr. Ele começou a atravessar o pátio num passo arrastado, fazendo uma linha reta em sua direção. Um olhar homicida no rosto torcido, ele não parecia como alguém prestes a respeitar as regras que restringiam contato físico durante o banho de sol.
O que ele tem a perder? Nada. Tudo que ele tinha a perder eu já tirei dele. A única coisa que ele tem agora é o prazer de acabar comigo agora, aproveitar a chance, enquanto eu estou ao alcance e desarmada.
— Eu v-vou chamar um Quarter… — Lalau correu para o ponto do pátio em que a parede de pedra se tornava uma grade de ferro conectada ao corredor, o local por onde eles tinham entrado. Bervely sentiu o impulso de implorar para que ele não lhe deixasse sozinha, mas nenhum ruído saiu de sua garganta amarrada. O prisioneiro estava perto o bastante agora para que ela pudesse divisar claramente seus olhos, a única coisa reconhecível na massa retorcida do que outrora fora o rosto de um homem atraente. Ele ainda era largo, embora descarnado por sua estadia em Azkaban. Talvez fosse imaginação dela, mas ele ainda cheirava à dor e carne queimada.
— Bervely Rose Black — gorgolejou o prisioneiro. Muito embora sua voz fosse condizente com o monstro que era, o fogo maldito que lhe desfigurara tendo também distorcido as suas cordas vocais, ele ainda soava como antes, a raposa faminta esperando no escuro, o pesadelo de sua adolescência, o homem que a marcara à ferro quente e quisera roubar seu corpo quando ela tinha dezessete anos. — Que surpresa inesperada encontrá-la aqui.
A grade estalou atrás dela quando o monstro estava a só um metro de distância. Um dos Quarters que Bervely conhecia de relance apareceu e apontou para ele, fazendo um sinal imperativo com as duas mãos.
— Fim do seu tempo, Sr. Carmichael. Hora de voltar para a cela.
***
O lugar seguro de Theodor era um pequeno apartamento de um quarto no sul de Welshpool, uma cidade que Charlotte jamais ouvira falar antes, mas que segundo ele ficava perto de Cardiff, a capital do País de Gales. A única coisa notável sobre Welshpool era que abrigava um castelo, do qual ela podia ver uma das torres vermelho-escura pela janela do quarto. Fora isso, a cidade era rural e inteiramente trouxa; a falta de atividade mágica ali nos últimos cinquenta anos fora o que fizera Theodor escolher o local como refúgio.
A primeira regra era de que eles não deviam praticar magia dentro de casa. Ela tinha que lavar os pratos e as roupas à mão, o que ajudava a passar o tempo nas longas manhãs e tardes que passava sozinha no apartamento esperando Theodor retornar do que quer que ele fizesse durante o dia.
Charlotte também ocupou aquele tempo fazendo com que o local, que parecia ter sido arranjado para alugueis de temporada, repleto de móveis antigos e paredes amareladas, parecesse mais confortável. Na terceira noite, Theodor chegou por volta das sete da noite e encontrou o apartamento bem diferente do que deixara; Charlotte remanejara os móveis, deixando mais espaço livre para a circulação, e sacudira o tapete, revelando sua cor original por debaixo de camadas de poeira. Ela fizera uma ligação para a loja de suprimentos mais próxima e pedida tinta, rolos e pincéis, com os quais cobrira as paredes num tom creme aconchegante. Espalhara velas acesas por sobre os móveis e preparara uma refeição simples com macarrão e carne moída que fazia com que a casa cheirasse bem. Uma garrafa de vinho e duas taças esperavam na mesa de centro, bem como a própria Charlotte, de banho recém tomado, usando uma das camisas largas de Theodor e um par de shorts folgados e meias, mas com o cabelo cuidadosamente preso em duas tranças.
Um largo sorriso de apreciação surpresa se espalhou pelo rosto de Theodor enquanto captava cada detalhe da transformação que a garota fizera no apartamento. Havia um brilho diferente em seus olhos quando ele se voltou para ela:
— O que significa tudo isso? Como–?
Ela se levantou do sofá rápido, com a impressão de que talvez tivesse exagerado.
— Eu só queria agradecer por tudo que tem feito por mim — disse sob o fôlego ansioso. — Por acreditar em mim. Por ser tão bom comigo mesmo sem ter um motivo para-
— Você não precisa agradecer por nada. — Ele balançou a cabeça, ainda olhando para um lado e outro com encantamento, registrando as velas acesas, as duas taças sobre a mesinha. — Fazer a coisa certa é a minha obrigação. Deixar você entregue aos lobos nunca foi uma opção. Venha aqui.
Ele abriu os braços e Charlotte atravessou a sala para se encaixar entre eles, deitando a cabeça no peito largo do rapaz. Theodor usava uma farda diferente da de Quarter de Azkaban; consistia em uma camisa vermelha de botões com uma gola de pontas e uma gravata vermelho sangue que tinha o formato de um atame comprido, indo até o meio do seu peito. Ela nunca lhe perguntara de que era aquela farda. O ex-auror aspirou o cheiro de seu cabelo recém lavado e correu a mão por suas costas de uma forma terna.
— Quando você vai entender que o que eu estou fazendo não é um favor?
— O que é, então? — ela pressionou, inquieta.
— Eu gosto de você. É tão dificil acreditar nisso?
Charlotte não lhe respondeu, mas a resposta era sim. Não importava o que Bellatrix achasse sobre os 'tolos sentimentos de Theodor por ela, era difícil acreditar que aquele rapaz inteligente, bem nascido, puro-sangue, seguro de si e talentoso sentia qualquer coisa por ela que não fosse pena. A Charlotte do passado acreditara em algo semelhante uma vez, e as consequências... bem, as consequências lhe tinham ensinado a ser cética. Ninguém tem esse tipo de sorte duas vezes na mesma vida.
O momento dos dois foi interrompido por batidas na porta; ela se tencionou, um arrepio de ameaça correndo pela sua coluna. Theodor a soltou, mas não parecia preocupado.
— Estamos esperando visita? — ela perguntou desconfiada, se afastando da porta.
— Não exatamente, mas não se preocupe. Eu achei que isso aconteceria. Não tem perigo, mas é melhor você ir para o quarto se queremos evitar uma cena.
Alarmada, Charlotte o obedeceu e foi para o único quarto do apartamento, fechando a porta atrás de si a não ser por uma fresta pela qual tinha uma visão limitada da sala; via o fundo do sofá, uma parte da janela e o cotovelo de Theodor. Qualquer visão de quem estava a porta, no entanto, estava fora de alcance.
— Aquele momento em que você percebe que os modos da família Agrippa escorreram pelo ralo. — Ela ouviu Theodor resmungar para o visitante que agora entrava na sala do pequeno apartamento.
— Uma mãe não precisa respeitar etiqueta nenhuma para visitar o próprio filho! Além do mais, foi você quem feriu as tradições primeiro, deixando de me convidar para conhecer a sua nova... — a voz feminina grave hesitou, e Charlotte adivinhou de que ela estava julgando o que via ao seu redor. — O que raios de lugar é esse, Theodor? Você dispensou uma suite tripla na cobertura da residência docente do Instituto Flamel por isso?
— Mãe — Theodor retrucou com paciência —, eu imagino que tenha ficado ofendida quando me mudei do Instituto sem falar nada, mas nunca foi uma questão de conforto ou, ou–
— Ofendida? Eu não fiquei ofendida, fiquei preocupada, querido. Você deixa para trás todos os seus pertences e desaparece do Instituto por dias, ignora minhas corujas, depois eu vejo seu nome no jornal como o delator de Bervely Black, então o seu pai me diz que você apareceu em Azkaban fardado ontem à tarde...
— Meu pai foi fofocar com você? Isso é ridículo — Theodor se exasperou, mas não parecia que a mulher estava próxima de terminar o seu sermão.
— …aí preciso visitar cada uma das propriedades da família para descobrir onde anda enfiado e o que está aprontando, e lhe encontro nessa espelunca velha do seu avô, nos confins do País de Gales fazendo... o que, exatamente? Isso são duas taças? Tem mais alguém aqui?
Charlotte fechou a porta por reflexo, sentindo a voz ficar mais próxima. A porta velha e pesada de madeira fez um clique indiscreto e ela ouviu um suspiro abafado de Theodor na sala, bem como uma exclamação da mulher.
— Mãe, essa não é uma boa hora. Se a senhora puder esperar até amanhã, eu juro que passo no seu escritório no primeiro horário e respondo todas as suas perguntas, prometo.
— Tarde demais, receio. Eu estou sentindo cheiro de problemas aqui, então ou você me explica o que está acontecendo ou vou ter que descobrir pelos meus próprios meios. E você não vai gostar dos meus meios, eles envolvem os recursos da Casa Agrippa e tantos investigadores privados quanto eu puder contratar.
Charlotte sentiu um arrepio de choque diante daquela ameaça; quase se esquecera de que a mãe de Theodor era parte da realeza bruxa, descendente do famoso alquimista Cornelius Agrippa e atual diretora do maior Instituto de alquimia do mundo bruxo, o Instituto Flamel.
O novo suspiro frustrado de Theodor na sala lhe indicou que mesmo para ele a mulher tinha a palavra final.
— Isso é humilhante, a senhora sabe, colocar investigadores atrás de mim como se eu fosse uma criança desobediente fugindo de casa. Tudo bem, sente-se. A senhora quer beber alguma coisa? Uma taça de vinho?
— Theodor, não me ofenda. Você sabe que eu nao bebo nada que não tenha sido envelhecido em carvalho por no mínimo setenta anos.
— Ok, mãe. Nada para a senhora então, eu vou beber um pouco se não se importa.
Charlotte ouviu o movimento de cadeiras e o pop do vinho que ela de fato pedira da padaria da esquina sendo desarrolhado, depois o som suave do líquido sendo despejado em uma das taças. Um novo movimento de cadeira, indicando que Theodor se sentara também. Achando que era seguro, ela ousou alargar a fresta da porta; não conseguia ver a pequena mesa de três pernas nem os seus ocupantes daquele ângulo, mas podia ouví-los com mais clareza quando voltaram a falar.
— Esse precisava de um lugar neutro. O Instituto é o primeiro lugar que iriam me procurar, afinal é onde eu trabalho. Além do mais, se algo acontecesse, eu não queria comprometer a senhora ou ao Instituto.
— Se algo acontecesse? Do que é que você está falando, menino, em que tipo de confusão está metido?
— Só estou fazendo o que acho certo — ele se defendeu, tomando um tempo para o que Charlotte achou que fosse outro gole de vinho. Ela se perguntou se ele ficaria dando voltas naquele assunto até que a sua mãe alcoviteira desistisse, mas a resposta dele veio logo em seguida, quase lhe provocando um ataque cardíaco. — Eu estou abrigando a garota aqui, quero ter certeza de que ela está segura.
— A garota... — a mulher Agrippa repetiu, elocubrando. — Você quer dizer a garota Summers? Aquela que arruinou a sua carreira em Azkaban, que libertou Black, que tentou sequestrar aquele pobre garoto Potter no verão?
— Não! Você não leu as notícias até o fim? Bervely fez isso, a parte de Azkaban pelo menos, e tenho as minhas desconfianças sobre o sequestro... é por essa razão que ela está em Azkaban aguardando julgamento!
Houve um silvo incrédulo que só podia ter saído dos lábios crispados da Mme. Agrippa.
— Theodor, meu filho, nós dois sabemos que Bervely não fez isso! Por favor, não seja absurdo! Nos conhecemos Bervely, ela é talentosa e esperta, tem um futuro brilhante pela frente, porque se envolveria com esse tipo de coisa?
— Eu também pensava assim, mas as evidências apontam em outra direção.
— Você está sendo enganado, Theodor. Essa garota Summers está entrando na sua cabeça. Meu filho, quem quer que esteja atrás dessa garota, deixe que a alcancem, deixe que ela lide com seus próprios problemas. Você sempre foi assim, querido, cuidando de passarinhos de asas quebradas, se esquecendo de que alguns simplesmente não aprenderam a voar direito e estão além de qualquer conserto.
— Eu achei que essa seria a sua posição. — Charlotte ouviu Theodor dizer, agora numa voz muito mais sombria. — Você está tão cega pela descendência e genialidade da sua aluna preferida que não consegue nem mesmo cogitar que pode haver algo errado com ela, mas Charlotte, você apenas assume que ela é a parte culpada, errada, irreparável. Eu sei que nada do que eu disser vai lhe convencer do contrário, longe de mim ou qualquer outra pessoa fazer Ellisadora Agrippa mudar de opinião, não é? Se a senhora não pode dar ao seu próprio filho o benefício da dúvida, não vejo porque continuarmos essa a conversa.
Houve um silêncio pesado depois disso, tão tenso que Charlotte podia sentí-lo através da parede que dividia os cômodos. Finalmente, uma cadeira foi arrastada de novo e ela voltou a ouvir a voz da gran-alquimista:
— Eu lhe dei a vida, Theodor. Só estou tentando garantir que a coloque em risco por causa de uma decisão impensada. Só dessa vez, ouça sua mãe.
— Nao se preocupe, minha vida não está em nenhum perigo iminente — respondeu ele com dureza. Houve mais um suspiro da mulher; Charlotte a ouviu se afastar em direção a porta.
— Então, o vejo amanhã no Instituto para as suas aulas?
— Não. Acho melhor eu me afastar do Instituto por um tempo. Peça para Alissa O'Halley me substituir, já está mais do que na hora de ela assumir alguma responsabilidade por lá.
A gran-alquimista saiu em silêncio, seus passos ritmados e depois o clique suave da porta da frente.
— Charlie? — Theodor chamou. Sua voz tremeu um pouco, foi como ela soube que ele não se sentia tão confiante como soara falando com a mãe. Ela correu para a sala e o encontrou pálido, tentando esconder em seus olhos uma inquietação sobre o que acabara de fazer.
— Desculpe por isso — ele lhe disse, desviando o olhar por um momento para se recompor. — Minha mãe se preocupa. Mas não tem perigo, ela não vai dizer nada a ninguém sobre você aqui.
— Como pode ter certeza? Ela parece certa de que você está cometendo um erro.
— Ah, ela está, mas vai preferir me infernizar até me fazer mudar de ideia… o que não vai acontecer — assegurou ao ver a preocupação crescer nos olhos azuis da jovem. — Eu não vou pisar mais os pés no Instituto até resolvermos isso, então as chances de ela nos causar problemas são mínimas. Bervely será julgada em algumas semanas e quando os crimes forem atribuídos a ela, você será consequentemente inocentada e poderá começar do zero. Podemos até lhe arranjar uma nova identidade, deixar os erros do passado para trás. O que acha disso?
Ela deu um sorriso vacilante. Nem tudo em seu passado eram erros — mas Theodor não precisava saber disso.
— Soa... soa como um sonho.
Ele lhe deu outro dos seus sorrisos largos. Mais tarde, quando a garrafa de vinho já tinha terminado e eles estavam deitados na cama, ela em seus braços e com as pernas entrelaçadas entre as dele, a cabeça confortavelmente encaixada na curva do ombro do rapaz, Theodor afastou o cabelo dela do seu ouvido e lhe sussurrou, num tom esperançoso:
— Se eu tiver sorte, você me deixe fazer parte desse sonho.
Charlotte não teve coragem de responder; ao invés disso, ela fingiu que tinha pegado no sono.
***
— Bervely.
— Lupin — aquiesceu a prisioneira, sentando-se à frente do seu oficial de lei designado para a sua penúltima reunião antes do seu julgamento. Remus sacou uma pasta cheia de pergaminhos e estava prestes a começar a falar, mas viu nela alguma coisa que o fez perder o curso do seu raciocínio. — Você tem se alimentado?
— Ahh, sim. Me farto todos os dias com o banquete que eles servem nas refeições. O jantar de seleção de Hogwarts perde para a fartura de Azkaban.
Remus ignorou o tom jocoso, o vinco de preocupação persistindo entre as suas sobrancelhas.
— Bervely, eles não estão fazendo você passar fome, estão? Você precisa me dizer, há coisas que eu posso fazer, gente com quem eu posso falar, você não precisa–
— Eles não estão — ela o interrompeu com a voz monótona. — Eu tenho a comida, só não tenho a fome.
— Mas você ainda precisa, você devia… — diante do olhar pesado dela, Remus desistiu da abordagem paternal. Ela reconheceu o sentimento de pena nos olhos amarelos do lobisomem, o que curiosamente a afetou menos do que o habitual. — São os dementadores? Eles estão fazendo isso com você?
Antes fossem os dementadores, ela pensou. Para ele, fez apenas um movimento de descaso com os ombros.
— Não diga nada para Almofadinhas, eu vou ficar bem. Como ele está?
— Levando. Aguardando o seu julgamento, como o resto de nós.
Ela assentiu; sabia que era uma puta de uma mentira pelo jeito com que ele escolhera cuidadosamente as palavras. Mas algo em seu âmago lhe alertava que era melhor não investigar muito a fundo; qualquer notícia palpável sobre Sirius àquela altura, qualquer relance da realidade a respeito dele a quebraria, especialmente se fosse algo negativo. Ao menos ele estava vivo, disso ela tinha certeza, porque se não estivesse, Remus Lupin jamais seria capaz de esconder.
— Vamos ao que importa — pediu, lançando um olhar amotinado para a pasta que o bruxo trouxera. — Você já tem um plano para a minha defesa, eu estou suponho?
— Sim, sim. — Remus puxou a pasta num movimento distraído, os olhos ainda pregados nela com aquele misto de preocupação e pena. Bervely ignorou, desviando a atenção para longe. Se perguntou como deveria se parecer aos olhos do lobisomem. Se era tão decadente como ela se sentia, o drama dele era justificado.
— Eu pretendo convidar o professor Dumbledore e Madame Agrippa von Nettesheim como suas principais testemunhas de defesa — começou, a voz voltando ao tom professoral dos assuntos acadêmicos e das lições de moral da casa Lupin — Eles podem atestar acerca da sua conduta como aluna em Hogwarts e no Instituto Flamel. Estou esperando que a boa reputação de ambos provenha base para um perfil sólido e positivo ao seu respeito diante do júri.
Bervely assentiu, fazendo esforço para acompanhá-lo. Tinha a impressão de que a privação de sono e a alimentação esparsa estavam lhe deixando lenta.
— Minha conduta dificilmente pode ser chamada de impecável em Hogwarts. Explodi uma sala, incendiei um homem e alaguei as masmorras no dia da formatura, caso não esteja se lembrando.
— Pretendo focar mais no seu histórico de notas, nas suas atividades de monitoria em poções e monitoria chefe, nos serviços prestados à escola no preparo das complexas poções de despetrificação no seu sétimo ano. Você vai ficar feliz em saber que Snape se voluntariou para depor ao seu favor, ou eu deveria dizer, me obrigou a incluí-lo na lista de testemunhas com a ameaça de colocar pó de prata em minha próxima Wolfsbane se eu discordasse.
Bervely engoliu seco, sentindo uma onda inesperada de vergonha e humilhação ao pensar no padrinho. nem podia imaginar o que ele devia pensar dela agora. Sem querer dar eco a essas elucubrações perturbadoras, se voltou para o restante da estratégia de Remus.
— Madame Agrippa jamais vai aceitar testemunhar ao meu favor. Theodor Shadowtamer, o auror que fez a denúncia contra mim, é filho dela.
— Eu a escrevi uma carta convidando-a ao banco de testemunhas, ainda estou esperando a resposta, mas por tudo que ouvi sobre a relação de vocês nos últimos anos, não acho improvável. Ah, e pensei em incluir uma breve declaração do seu ex-namorado, Oliver Wood.
— O quê? Por quê? — Bervely se sentiu ligeiramente sem ar e um pouco nauseada com a ideia de Oliver estar presente em seu julgamento.
— Ele era uma das pessoas mais próximas a você na época em que Black fugiu de Azkaban, o que significa que pode fornecer ao juri uma perspectiva confiável das suas atividades naquele período, talvez até endossar o argumento de que era impossível que você pudesse estar envolvida na fuga de Black, considerando que ele esteve com você por grande parte daquele verão.
Bervely negou, uma agonia estranha se instalando na base de seu estômago.
— Não envolva Oliver nisso.
— Ah, na verdade ele meio que pediu para ser envolvido — disse Lupin com curioso humor, retirando um pergaminho de sua pasta e empurrando-o sobre a mesa na direção dela. — Recebi uma carta dele há alguns dias; não chegou a me ameaçar como Snape, mas suas palavras são bem contundentes. Parece que se eu não incluí-lo como uma de suas testemunhas, eu estaria interferindo seriamente em suas chances de ser inocentada. Ele diz que tem informação valiosa sobre o seu paradeiro naquele verão, que ninguém mais poderia prover com a mesma acurácia.
Ela reconheceu com familiaridade pungente a caligrafia de Oliver, mas não teve coragem de ler nenhuma linha. O idiota estava disposto a mentir em corte por ela; Oliver sabia muito bem que ela estivera em contato com Sirius durante o verão. Engraçado como, mesmo a um país inteiro e dois anos de distância ele conseguia eliciar nela aquela vontade irresistível de socá-lo.
— Não envolva Wood no meu julgamento — repetiu, dessa vez numa espécie de rosnado, empurrando a carta de volta na direção de Remus. — Ele está blefando.
— Vou me encontrar com ele essa semana para ver que tipo de informação ele tem a contribuir. Se houver algo que valha a pena eu certamente irei incluí-lo. Não pretendo dispensar nada que possa aumentar as suas chances. O que me lembra, preciso saber quem mais eu poderia chamar para depor sobre as suas atividades naquele verão. Qualquer pessoa com quem você passou tempo considerável e que estaria disposto a falar ao seu favor.
Ela pensou por um momento; aquele verão fora quase inteiramente preenchido por Sirius, é claro. E depois, Oliver e a sua na época recém descoberta “parte indigna” da família.
— Anne. Andrômeda. Tonks. Ted, por associação — recitou, listando os nomes com um pouco de dificuldade, lutando contra a névoa densa em sua cabeça.
— Todos que entram na categoria de família são considerados parciais diante do júri. Já consegui que Andrômeda tenha voz como a sua medibruxa na acusação do sequestro, mas é relativamente fácil provar que você esteve no hospital por todo o tempo no dia em questão.
— É claro que é fácil, eu sou inocente dessa. — Ela rolou os olhos. Remus lhe lançou um olhar de advertência e Bervely se apressou a completar, o coração disparando — De ambas. Sou inocente de ambas.
— Seria ideal encontrar alguém próximo o bastante para atestar sobre a sua índole. Alguém além de Wood, afinal vocês eram um casal, o que pode ser usado pela acusação como um ponto de parcialidade contra ele. Ei, como era o nome daquela garota ruiva que andava com você o tempo todo em Hogwarts?
Bervely travou, sentindo o sangue fugir do rosto.
— Não.
— Eu me lembro que ela era de uma família importante no mundo bruxo... Infelizmente ainda estamos presos a esse ridículo sistema que supervaloriza a opinião das famílias conceituadas em detrimento dos demais, pobres mortais, então eu não vou mentir, outro nome influente poderia aumentar suas chances… como ela se chamava, mesmo?
— É inútil. Ela está desaparecida desde que nos formamos em Hogwarts. Nós não nos falamos mais — e ela me odeia porque acha que eu incendiei o pai biológico dela, completou Bervely mentalmente.
— Holmes! Tara Holmes, agora eu me lembro. Uma dor de cabeça nas minhas aulas aquela garota, um monte de perguntas espinhosas, isso quando estava prestando atenção e não tagarelando com aquela outra, Olga Greengrass…
— Você não está me ouvindo, é inútil, ela sumiu do mapa e mesmo se não tivesse sumido, ela jamais diria uma palavra em meu favor diante de um tribunal, acredite.
— Bem, eu tentarei a minha sorte — decidiu Lupin. — Minhas habilidades de rastreamento são razoáveis e o meu poder de argumentação ainda melhor. Eu prometi a Almofadinhas que faria tudo ao meu alcance, Bervely. Nada menos do que isso — ele lhe lembrou quando pareceu que ela ia continuar protestando.
Bervely se calou, deixando a cabeça cair. Seu estômago estava doendo; apreensão, medo e fome. Não tinha energia para discutir com Lupin; de repente, só queria que ele fosse embora. Queria voltar para a sua cela e ficar sozinha no escuro, lutando para manter a mente vazia. O contato com a realidade, todos aqueles nomes que traziam memórias eram como feridas mal-curadas se abrindo e dando chance para os dementadores entrarem. E Merlin sabia que aquele era o pior momento para ficar vulnerável, quando o seu monstro particular estava em algum lugar daquela prisão, talvez a apenas algumas celas de distância, agora consciente de que ela estava em Azkaban também.
— Bervely — Lupin chamou, preocupado. Ela se perguntou quanto tempo ficara em silêncio, tinha a impressão que apagara por vários minutos. Quando ele voltou a falar, seu tom era quase inaudível, secretivo — Tem alguma que você queira me dizer?
— Não. Nada.
Ele sustentou o olhar, tentando descobrir se ela estava falando a verdade. Se fosse Sirius, ele teria sabido… teria sabido de imediato que havia algo terrivelmente errado e que ela estava com medo. Ele teria atravessado aquela maldita sala e a abraçado com força, pro inferno com a regra que proibia contato físico, ele teria lhe levado embora dali no mesmo minuto, nem que tivesse que arrancar aos dentes as mãos de todos os Quarters em seu caminho, ele teria…
Mas Lupin não era Sirius. E ela precisava parar de pensar em Sirius se queria sobreviver a Azkaban mais um dia.
— Esse julgamento não pode chegar nenhum minuto mais rápido — murmurou, sua voz falhando contra a sua vontade. Seus olhos estavam cheios de lágrimas que ela não se atrevia a derrubar na frente de Lupin.
Remus assentiu. As mãos dele, ela notou, estavam brancas sobre a mesa, fechadas tão firmes que faziam um vinco na pasta.
— Mais uma semana e você vai estar fora daqui — o lobisomem prometeu. Ela não acreditava, mas queria. Queria desesperadamente. — Eu volto para ver você antes do julgamento. E pelo amor de Merlin, coma alguma coisa.
Ela assentiu com um tremor de sua cabeça. O Quarter entrou no cubículo acompanhando de um dementador flutuante; a hora de visitas tinha terminado.
***
“Thor Carmichael não pode te alcançar aqui.”
Não importava quantas vezes repetia o pensamento racional para si mesma, Bervely não conseguia cair no sono.
Ela não conseguia dormir desde aquele encontro abrupto no pátio, o qual enrolava suas entranhas em um nó toda vez que se lembrava. Fazia vários dias, não saberia precisar quantos. O tempo em Azkaban não era contado em "dias" de toda maneira; a noção da sucessão de dias e noites não era um luxo do qual ela provinha, pois não fora contemplada com uma janela em sua cela.
Recusara cada um dos "banhos de sol" depois daquele. Recusara a comida tanto quando pudera; não porque não tinha fome, como dissera à Remus, mas porque desconfiava que Thor encontraria um jeito de envenená-la.
Infelizmente não comer e não dormir estava fazendo grande desfavor para a sua sanidade; desde pouco depois da visita de Remus, ela começara a ver coisas que não eram reais.
Se encarasse por muito tempo as sombras do corredor, formadas pelos archotes de luz fraca afixados às paredes, aos poucos elas se transformavam em olhos egípcios lhe vigiando nas sombras.
Se ela fechasse os olhos, por outro lado, ouvia distintos sussurros vindos do escuro, num ponto bem atrás da sua nuca. Promessas. Não do tipo que ela queria que se realizassem; todas envolvendo o fim de sua vida e bastante dor no processo.
— Jantar! — uma voz cruelmente alegre anunciou, enquanto magia empurrava por entre as grades de sua cela uma tigela de comida.
Então é de noite?, pensou ela vagamente. Era difícil ter certeza; para confundir os prisioneiros, às vezes os quarters chamavam de jantar o que na verdade era almoço, ou vice-versa. Vira acontecer quando estivera infiltrada em Azkaban no passado, o que lhe parecera um requinte de crueldade desnecessário.
— Melhor você comer, garotinha. Ninguém gosta de uma presa fraca.
Ela arfou, girando na cama dura para olhar na direção das grades. Por um momento, ele soara exatamente como...
— O que você disse?
O Quarter, que já estava seguindo adiante, parou para encará-la. Não era Bob, o habitual da sua ala, mas outro rapaz, jovem, louro e familiar. Ele a olhou com o desprezo particular que muitos guardas dedicavam aos prisioneiros por nenhuma razão em especial.
— Eu não disse coisa alguma. Melhor comer logo antes que esfrie.
Era uma piada; a comida de Azkaban era enfeitiçada para permanecer morna, como um vômito que acabara de deixar o estômago.
— Espere — ela pulou da cama, indo até as grades para vê-lo melhor — De onde eu conheço você?
Ele não lhe respondeu, mas Bervely o reconheceu com ligeiro choque. Era o Quarter de quem ela roubara a varinha no dia em que ajudara Sirius a fugir de Azkaban. Na época, ela estivera disfarçada de Charlotte, mas ele deveria saber que essa era a sua acusação à essa altura. De repente o olhar ardil que ele lhe dedicava fez mais sentido.
— Sou novo na sua ala — disse ele por fim, um sorriso sádico no rosto — Pedi para ser transferido. Algum problema, prisioneira doze?
Ela quis dar uma resposta malcriada, mas segurou o impulso no último minuto. Alguma coisa a impediu, como arrepio à guisa de aviso em sua nuca. Bervely se afastou das grades, voltando para as sombras. Ele fez um aceno satisfeito com a cabeça.
— Achei que não.
Quando o Quarter se virou para ir embora, ela teve um vislumbre de uma tatuagem em sua pele, aparecendo apenas parcialmente pela lapela do colarinho do uniforme. Devia estar louca, mas podia jurar que o desenho era de um olho.
Não, impossível.
A refeição que o Quarter trouxera cheirava vagamente como sopa de legumes, e o seu corpo faminto respondeu ao cheiro com uma ânsia desesperada.
Nem pensar, disse a si mesma por entre os dentes cerrados. Voltou para a cama e lá sentou, encolhendo as pernas contra o corpo, abraçando os joelhos com os braços o mais forte que pôde para impedir-se de ir até o prato de comida.
Você precisa comer, criança. Se você morrer de fome eles vão dizer que foi um acidente.
— Está envenenado — Bervely respondeu ao escuro, apertando as pernas contra si com ainda mais força. — Aquele Quarter também quer me ver morta.
O escuro não lhe deu resposta. Mais tarde – uma hora ou várias depois, ela não sabia – um rato apareceu e bebeu da borda de seu prato. Bervely assistiu apática o animal se aproveitar de sua refeição, esperando o momento que o veneno agiria em seu pequeno organismo e ele cairia para trás, gelado e morto.
Mas o rato se fartou e saiu feliz, indo explorar outra cela agora de barriga cheia.
Ela deu um suspiro e saltou da cama para pegar a tigela. Se era seguro para o roedor, devia ser para ela também, e não lhe faria mal um pouco de comida morna, mesmo uma com gosto de nada...
Subestimara sua fome. Em dois segundos estava bebendo o conteúdo da tigela com avidez, mal dando a si mesma tempo para engolir. Ah, se Narcissa a visse agora, os modos de um troll montanhês… se fartava tanto com a refeição quente e pegajosa garganta abaixo quanto com a imagem da expressão horrorizada no rosto da tia quando algo duro deslizou por sua língua e foi se alojar em sua garganta, bloqueando-a.
Bervely arfou engasgada, a tigela escapando de sua mão e caindo com um estrépito, o horrível som de seu engasgo preenchendo a cela e ecoando pelas paredes de pedras e de volta para ela.
Que morte estúpida, depois de tudo— pensou em desespero, incapaz de respirar com o que quer que fosse alojado em sua garganta.
Alguma coisa lhe empurrou para fora da cama. Ela caiu de quatro no chão, ainda lutando para respirar.
Tussa, cuspa para fora, tussa!
Concentrou todo as suas forças em tossir, sabendo que era sua única chance de sobreviver. A falta de oxigênio começava a gerar pontos escuros sobre os seus olhos e um ardor insuportável em seu peito.
Vamos, coloque pra fora!
Milagrosamente ela conseguiu; a coisa em sua garganta se desalojou um milímetro, o suficiente para que a gravidade agisse e a ajudasse a expulsá-la e cuspi-la no chão de pedra. O esforço fez com que ela vomitasse tudo o que acabara de colocar em seu estômago logo em seguida. Bervely caiu de lado no chão gelado e tentou recuperar o fôlego. Demorou uma eternidade para conseguir parar de tremer e ter algum controle sobre si mesma de novo.
Quando conseguiu coordenador seus movimentos, ela ergueu o corpo e achou, no meio da sua deplorável poça de vômito, o cintilar metálico de uma medalha. Bervely recuperou a pequena peça na ponta dos dedos e a trouxe para o nível dos olhos, usando a pouca luz que vinha do corredor. Não teve dúvidas ao identificar a forma estampada em uma das faces da medalha; o objeto era familiar demais para que não o reconhecesse; era uma das moedas que o Olho de Hórus costumava usar, ora como chave de portal programada, ora como uma escuta remota para bisbilhotar seus inimigos.
Outra forte contração em sua barriga fez com que ela se curvasse e vomitasse de novo; dessa vez não havia mais nada para expulsar a não ser bile amarga, queimando em sua língua. Bervely permaneceu encolhida em posição fetal, abraçando a barriga. Se sentia fraca, seu corpo inteiro tremendo.
Frio, ela pensou. Ou medo. Por tudo que sabia, Thor estava vindo para ela. Dementadores e grades não iriam contê-lo; ele atravessava paredes como se fosse feitas de fumaça. Seu corpo físico não era um limite, ele podia ter outros corpos... ele podia viajar nas sombras até ela e o que mais havia em Azkaban eram sombras, enormes e engolidoras onde quer que seus olhos pousassem.
Ele vem se vingar por tudo que você tirou dele, destruiu e queimou, ele marcou você e vai conseguir entrar... você não vai resistir como da última vez, não vai lutar...
Ela sabia que era verdade, não tinha chance dessa vez. A rosa não iria protegê-la de Thor porque a rosa era ela, fraca, faminta e vulnerável no chão daquela cela, deitada ao lado de seu vômito, mal conseguindo respirar.
Ele vai tirar tudo de você. Primeiro o seu corpo, depois tudo com que você se importa, como você fez, dente por dente, Olho por Olho…
Bervely ouviu um movimento atrás dela, perto o bastante para estar dentro da cela, não no corredor. Os pêlos da sua nuca se arrepiaram. Ela não quis olhar. Nem se importou em saber como ele entrara. Thor era feito de sombras e ia tomá-la dessa vez, sem resistência.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Tanta inclinação para o drama — uma voz zombeteira disse perto de sua cabeça. Bervely estranhou, não era a voz que esperava ouvir.
Era a última voz que ela esperava ouvir.
— Se aquiete, criança, o bicho papão não vai pegar você — sussurrou a presença novamente. A nota de sarcasmo inerente àquela voz alertou Bervely; soava real demais para ser mais uma alucinação.
Ela rolou com dificuldade, o bastante para divisar na luz fraca a silhueta que se inclinava sobre ela.
Bellatrix Lestrange sorriu amplamente, usando a ponta das unhas compridas para afastar a franja molhada da frente dos olhos arregalados da filha.
— Você está segura agora, querida. Mamãe está aqui.
(Continua...)
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