A Canção de Morgana
52 Um Desafio ao Universo
Notas iniciais
I keep a close watch on this heart of mine
I keep my eyes wide open all the time
I keep the ends out for the tie that binds
Because you're mine, I walk the line
(Eu fico de olho nesse meu coração
Eu deixo os meus olhos bem abertos o tempo todo
Eu seguro as pontas
Desse laço que nos une
Por que você é meu, eu ando na linha)
— Foi alguma coisa que eu fiz? — Harry perguntou, o rosto franzido de preocupação.
Anne deu um sorriso pequeno, que refletia uma tristeza incongruente. Ela se ajeitou no batente, uma perna dobrada sob o corpo, tentando decidir como começar enquanto Harry assistia, alarme crescente nos olhos.
Eu dei ao meu amor esmeraldas que eram muito admiradas.
Anne desviou o foco para as estrelas que cintilavam às costas de Harry, procurando coragem no céu. As estrelas costumavam ter o poder de lhe consolar... mas não aquela noite.
— Eu ando pensando sobre o que a Canção de Morgana significa para nós dois, desde que eu percebi que sou um verso dela — Anne disse. — Já parou para pensar que a gente ter se reencontrado nesse verão não foi uma coincidência?
— Você é filha de Sirius, Anne. Nós teríamos nos encontrado de uma forma ou de outra — Harry disse, sem entender porque ela fazia o fato soar como um problema.
— Mas não nos reencontramos “de uma forma ou de outra”. Eu cruzei seu caminho apenas alguns dias antes de trazermos Sirius do outro lado do véu. Depois de anos me submetendo a todo tipo de tratamento no Instituto Flamel, bastou eu me bater com você para a minha visão voltar, como se tudo que eu precisasse fosse de um tombo de um testrálio. E então o Chapéu Seletor me remaneja para a Grifinória, a sua casa. E ainda tem essa coisa mental esquisita entre a gente...
Harry abriu a boca para argumentar que ele tinha achado aqueles acontecimentos suspeitos na época – até a acusara de estar fazendo tudo de propósito – mas Anne fez um sinal para que ele esperasse ela terminar.
— Eu não acho que nada disso seja coincidência. Morgana está jogando com a gente, Harry. Com essa canção, com essa manipulação do seu destino, ela está nos movendo como as peças de uma partida de xadrez.
Harry piscou, pego de surpresa com aquela nova secura na voz de Anne. Antes daquele dia, Anne sempre usara um tom de reverência ao se referir à Morgana, até certa devoção. Agora, ela parecia ressentida com a bruxa que morrera há mais de um milênio.
— Certo, mas… e daí? Como isso é diferente da outra profecia? Minha vida já estava sendo manipulada antes, quando Voldemort decidiu que eu era o Escolhido da profecia de Sibila.
— A profecia de Sibila, por mais terrível que fosse, só envolve você e Voldemort. A Canção de Morgana… — Anne deu um suspiro contrafeito. — Eu não consigo pensar que a única razão pela qual gostamos um do outro é por causa da Canção.
Harry arriscou um sorriso incerto, sem compreender o tom pesaroso que veio com a afirmação.
— Mas isso é uma coisa boa, não é? Se não fosse a Canção você talvez não tivesse entrado no meio caminho com tanta insistência e nós não teríamos… você sabe — ele fez um movimento vago com as mãos para indicar eles dois, juntos.
— Harry — Anne fechou os olhos, mantendo-os assim por um segundo. O nó em sua garganta estava se apertando, como vinha acontecendo toda vez que pensava no assunto. — O que eu estou tentando dizer é que a Canção está manipulando o que sentimos um pelo outro. Não é real.
— Quê? Isso não faz nenhum– Anne, isso não faz nenhum sentido.
Uma brisa fria da floresta veio se enroscar na torre de Astronomia, abraçando arcos amplos com um assobio. Anne abraçou a si mesma, sentindo o frio se infiltrar pelo uniforme. Quando ela localizara Harry e percebera seu humor aborrecido, tinha ido até ele sem se lembrar de pegar um casaco. Harry, que tinha um vinco teimoso entre as sobrancelhas, tirou a capa do uniforme dos próprios ombros e ofereceu a Anne. Ela se enrolou no cheiro e no calor dele, a sensação em sua garganta se apertando mais ainda. Quando ela lhe explicasse a verdade, a magia ia se quebrar, e talvez a gentileza fácil de Harry, o cuidado do garoto para com ela, fosse embora junto. Mas, mesmo assim, Anne continuou a explicar o seu ponto de vista:
— Amor é a magia mais forte de todas. Não foi o que Dumbledore disse a você? Eu acho que Morgana queria garantir que a nossa conexão fosse tão forte quanto possível. Me responda sinceramente: se não tivéssemos nos aproximado esse ano, você estaria saindo com Gina, não é?
Harry bufou, uma nota de irritação emergindo através da sua descrença.
— Eu já disse a você que não gosto de Gina desse jeito!
— Exceto que você gosta, sim. E teria gostado mais ainda se eu não tivesse entrado no caminho de vocês dois e bagunçado tudo. Não estou dizendo isso por ciúmes, Harry. Não se esqueça que eu estive dentro da sua cabeça. Eu sei o que você sente, e eu sei o que você sonha.
Harry abriu a boca para se defender, mas como ele poderia retrucar contra o seu próprio inconsciente?
— Ouça — Anne disse, se inclinando para alcançar as mãos dele, ao sentir que Harry estava se rebelando contra a sua linha de pensamento. O contato fez a sua pele se eletrizar, bem como a de Harry. Anne o soltou rápido, contrariada.
— Viu só? Eu não posso nem tocar em você!
— Eu gosto quando você me toca! — ele retrucou, chateado.
— E esse é justamente o problema! Nós dois gostamos demais– mas não é real, Harry. Você gosta de mim porque a Canção quer que você goste! Do mesmo jeito que a Canção quis que o punhal chegasse até você e Sirius precisou cruzar o véu da morte para recuperá-lo! Do mesmo jeito que a Canção quis proteger você com o amor de sua mãe e Lily acabou se sacrificando por você! Ou como a Canção quer que você lute contra Voldemort e você vai acabar sendo aquele a destruí-lo, ou morrer tentando!
I find it very, very easy to be true
I find myself alone when each day is through
Yes, I'll admit that I'm a fool for you
Because you're mine, I walk the line
(Eu acho bem, bem fácil ser verdadeira
Eu me acho sozinha no final de cada dia
E sim, eu admito que sou louca por você
Porque você é meu, eu ando na linha)
Harry desviou o rosto do dela, mas não é como se Anne precisasse vê-lo para adivinhar o que ele estava sentindo. Irritação e traição, e… outra coisa. Resguardo. O sentimento que guiava grande parte de suas relações com outras pessoas, mas não ela. Exceto que ela podia sentir que ele estava se afastando. Colocando uma camada de proteção emocional entre eles dois, adensando o seu silêncio. Reforçando a ideia de que, no fim das contas, a única pessoa na qual ele podia confiar era em si mesmo.
Anne suspirou com tristeza. Tranque um garotinho num armário de vassouras por anos, alimentando-o com sobras e fazendo-o acreditar que não é amado ou tem qualquer valor, e ele acreditará nisso.
— Tudo bem se você quiser se afastar de mim. — disse Harry de repente, voltando a encará-la com seriedade. — Eu acho que você deve, até. Mas isso não muda nada pra mim. Eu ainda vou… — ele respirou fundo, se aprumando, como se estivesse pronto a enfrentá-la. — Eu ainda vou continuar gostando de você do mesmo jeito. Nenhuma Canção, nenhuma profecia vai decidir isso por mim.
Anne reconhecia um desafio ao universo quando via um. Dessa vez, ela não achou a resposta. Estivera guardando aquela conversa em seu peito há semanas, ensaiando-a em sua mente sem pausa, se perguntando como se sentiria quando colocasse as cartas na mesa e quando Harry, ao perceber o óbvio, concordasse de que não fazia o menor sentido continuarem juntos.
Ela tinha esquecido de levar em conta os níveis estratosféricos de teimosia contidos em Harry Potter.
— Você soa exatamente como Morgana gostaria que soasse — Anne suspirou, a voz pequena e cansada.
— ...Além do mais — Harry continuou, fingindo que não tinha ouvido o comentário —, se Morgana queria que a gente ficasse junto, acho que devíamos ouvir a voz da experiência. Mil anos é experiência pra caramba.
Anne ergueu o rosto o suficiente para olhar atravessado para ele.
— Você não está levando isso a sério como deveria.
— Não — ele concordou, e num tom mais baixo, como se estivesse admitindo um segredo — Porque eu não quero–
O som de passos arrastados e resmungos vindo da entrada da torre fez com que Harry se calasse. Anne abaixou os olhos bem a tempo de ver no Mapa do Maroto que um pontinho estava se movendo na direção do corredor que dava para a Torre de Astronomia. Argus Filch.
Harry também viu e contraiu o rosto para ela.
— Não estou com a capa da invisibilidade, porque é claro que alguém ainda não me devolveu.
Anne soltou um suspiro de resignação, se aprumando. Ela se levantou e ajeitou a saia do uniforme sobre as pernas, e a capa de Harry sobre os ombros, olhando ao redor. A última coisa que ela queria era ter que interromper aquela conversa para cumprir detenção com Filch por ser pega fora da cama depois do toque de recolher.
— Vem comigo.
Harry a espiou intrigado, mas aceitou a sua mão estendida, usando-a para se impulsionar de pé. Eles recolheram o mapa e as mochilas do batente e Anne o guiou até a larga coluna central que sustentava a torre de Astronomia. Com dois toques da varinha e uma senha não-verbal (Spiralis Revelius), uma escadaria de pedra se desenrolou ao redor da pedra lisa da coluna, enroscando-se do chão até o topo da torre com um ruído de trituração.
Harry franziu para ela:
— Essa escada não está no Mapa do Maroto.
Anne deu um pequeno sorriso, fazendo um gesto para ele subir e seguindo atrás dele, poucos segundos antes de serem pegos por Filch fora da cama.
***
A escadaria secreta terminava em um pequeno alçapão arredondado. Harry o empurrou para dentro e ele se abriu para o interior, revelando uma passagem larga o suficiente para uma pessoa. Anne o seguiu, fechando a portinhola ao passar. Lá embaixo, a escadaria conjurada se desenrolou da coluna até desaparecer; se o que Anne tinha lido estava correto, a escada não poderia ser conjurada novamente por alguém na base da torre enquanto eles estivessem ali em cima.
Estavam dentro uma cúpula de pouco mais de três metros de diâmetro e dois de altura, feita de painéis de vidro mantidos juntos por molduras de cobre. O céu através do vidro mostrava uma profusão impossível de estrelas, cada uma delas brilhando com mais nitidez do que em qualquer noite do lado de fora. Era possível ver até mesmo uma faixa nítida de aglomeração brilhante que só podia ser a via láctea, e que Harry só tinha conseguido ver antes em ilustrações de seus livros de astronomia. Ele soltou uma exclamação de admiração.
— Bem vindo ao observatório astrológico de Rowena Ravenclaw — Anne disse, sentando-se ao lado dele no chão macio, forrado com carpete e almofadas fofas, azuis escuras estampadas com estrelas. — O vidro foi encantado pela própria Rowena para revelar todas as estrelas visíveis no céu, independente das condições metereológicas do lado de fora.
Harry, cuja cabeça estivera inclinada para absorver a imensidão escura acima deles, lançou a Anne um olhar questionador.
— Como sabe sobre esse lugar?
— Ouvi Bervely comentar uma vez. Aparentemente é um ponto popular entre os estudantes mais velhos. Para, você sabe.
— Estudar astronomia? — Harry completou com um sorriso maldoso. Anne rolou os olhos, as bochechas corando.
— Anatomia humana, mais provavelmente.
— Ela trazia Oliver Wood aqui, é? — Ele quis saber, se lembrando que a irmã de Anne tivera um caso secreto com o capitão da Grifinória quando estava em Hogwarts.
— Uh… acho que foi a Tara Holmes, na verdade.
— Tara quem?
Anne deu um suspiro longo, balançando a cabeça.
— Longa história.
Harry não fez outras perguntas e Anne também ficou quieta, admirando o céu. A tensão de sua recente discussão ainda pulsava entre os dois, uma ruptura silenciosa na qual eles não queriam tocar. Ela tentou ignorar as vibrações que vinham de Harry, a sua irritação e teimosia em aceitar os fatos. Ao invés disso, ela tentou focar no que estava sentindo.
Tudo bem se você quiser se afastar de mim. Eu acho que você deve, até.
Aquilo tinha machucado. Como se, no fundo, ele já estivesse esperando que ela se afastasse. Como se ela estivesse usando a Canção como uma desculpa.
Mas então…
Eu ainda vou continuar gostando de você do mesmo jeito. Nenhuma Canção, nenhuma profecia vai decidir isso por mim.
Ela não tinha imaginado essa parte, certo? Harry tinha mesmo dito aquelas palavras, num tom de desafio absoluto, de “essa é a coisa certa a ser feita e nada vai mudar a minha opinião”. E como ela tinha respondido? Ah, sim.
Você soa exatamente como Morgana gostaria que soasse.
Anne cerrou os olhos, irritada consigo mesma. Num conflito enlouquecedor. Uma coisa era ser sincera com Harry – outra era ser cruel, descontar nele a sua frustração com a Canção, com o fato de que eles estavam sendo manipulados no nível mais essencial do seu livre arbítrio.
A linha era tênua e ela era uma idiota, tão cega quanto antes de ele fazer os seus olhos funcionarem de novo.
— Sabe o que esse céu me lembra? — Harry perguntou, ainda perdido na contemplação das estrelas. Anne se virou para ele, tentando desfazer os nós dos seus pensamentos. — O nosso voo de moto até Godric's Hollow. Devíamos voar de novo, qualquer dia desses — ele comentou, aparentemente decidindo ignorar o desastre no qual aquele passeio de moto em particular tinha resultado. — Você ainda tem a moto?
— Bervely a confiscou. Aparentemente eu só a recuperarei por cima do cadáver dela.
— Perdida para sempre, então. Tenho a impressão de que a sua irmã é dura na queda.
Anne não conseguiu apreciar a piada. Ela viu Harry espiando pelo canto do olho, ainda evitando discutir o testrálio na cúpula. O seu peito se apertou com a necessidade quase física de diminuir a distância entre eles e pedir que ele esquecesse o assunto, prometer que tudo estava bem entre eles, que toda aquela história da Canção era coisa da sua cabeça neurótica.
Não é real, Anne. Ela se lembrou, cerrando os olhos. Tão fácil de entender, tão difícil de aceitar.
— Eu falei sério, lá embaixo — Harry disse, quebrando a sua espiral de retaliação.
Anne mordiscou o próprio lábio, um aperto de antecipação na boca do estômago, apesar da tentativa de continuar firme em seu propósito.
— Qual parte?
— Você sabe qual parte. Não me faça repetir.
Anne negou com a cabeça, voltando-se para o céu feito de diamantes acima deles, cujo brilho fazia os seus olhos arderem.
— Você faz parecer simples.
— E você parece que já tomou a sua decisão, antes mesmo de vir falar comigo.
Anne não precisava olhar para ele para saber o quanto ele estava chateado. Não, magoado. Com ela. Quem ela achava que era, para magoar Harry? O ser mais sincero e honesto e leal que ela conhecia?
— Desculpe pelo que eu disse lá embaixo — Anne pediu. — Sobre Sirius e seus pais. E Voldemort.
— É tudo verdade — Harry murmurou, uma nota de cinismo no tom despretensioso com que dispensou as desculpas dela. — Argumentos sólidos, racionais e verdadeiros com os quais eu não posso argumentar.
— Nada disso justifica magoar você.
— Merlin a proíba de me magoar, mesmo quando está tentando se livrar de mim.
— Eu não estou tentando… — Anne interrompeu o próprio protesto a meio caminho, percebendo o que ele estava tentando fazer. — Pare com isso.
— Isso o quê?
Anne inclinou a cabeça para o lado, estreitando os olhos para ele.
— Eu não estou querendo me “livrar” de você, sabe muito bem disso.
— Eu sou o Escolhido. Todo mundo, uma hora ou outra, quer se livrar de mim — Harry respondeu num tom via-de-fato que ela achou muito irritante.
— Pare com isso.
— Não é o que sua irmã diz, que eu sou um “imã de problemas”? Ela vai ficar feliz quando descobrir que você finalmente está lhe dando ouvidos. Não me espanta Morgana ter escrito essa Canção para obrigar um pessoal a me ajudar — Harry continuou, naquele tom auto-depreciativo de enlouquecer. — Ela deve ter Visto que sem um empurrãozinho poderoso de magia, todo mundo ia debandar, uma hora ou outra. E quem pode culpá-los? Todo mundo sabe que Voldemort vem atrás de mim. Quem quer que fique no caminho vai se dar mal. Melhor abrir espaço, sair do caminho.
— Uau, com uma capacidade de chantagem emocional desse tamanho, como o chapéu Seletor não colocou você na Sonserina?
Foi a vez de Harry estreitar os olhos para ela, mordaz.
— Eu estou concordando com você. Por que está irritada?
— Por que não é nada disso que eu estou dizendo! Todo mundo se importa com você e quer te proteger. Ninguém vai “abrir caminho” entre você e Voldemort, você sabe muito bem disso!
— Ué, eu estou confuso — ele disse, piscando várias vezes, devagar. — Eu pensei que Sirius e a minha mãe também só se importavam comigo por causa da tal Canção. Não foi a manipulação de Morgana que os colocou no caminho entre mim e Voldemort?
Anne abriu a boca, revoltada com aquele raciocínio, mas Harry não lhe deu tempo para protestar.
— Ou Morgana estava manipulando os sentimentos de todo mundo para me ajudar, ou de ninguém. Não tem meio termo, Anne.
Os olhos dela se alargaram para aquela conclusão absurda. Harry assentiu, muito grave e muito sério:
— Você entende agora o problema do seu raciocínio, não é?
— Eu não tinha pensado nesse ângulo — Ela admitiu, sem jeito.
Eles passaram um bom tempo em silêncio. Anne sentada, abraçada às pernas, Harry com a cabeça inclinada, observando o céu. Daquela vez, não pareceu que Harry ia quebrar o silêncio. Era a vez dela. Ele estava esperando a resposta dela. E pelo visto, estava disposto a esperar a noite toda.
— Hey — Anne chamou, depois do que pareceu uma eternidade, o pescoço doendo de olhar para cima e do esforço de não olhar para ele.
— Quê?
— O que você ia dizer quando Filch nos interrompeu, lá embaixo?
Harry olhou para ela, pensativo. Havia um pequeno vinco entre as suas sobrancelhas, algo doloroso, quando ele responder:
— Que não quero perder você.
Anne fez um esforço para recuperar o fôlego, o rosto queimando, o peito queimando junto.
— Você não vai me perder, não importa o que a gente decida. Eu disse a você em Godric’s Hollow – eu vou continuar ao seu lado e eu vou continuar protegendo a sua mente de Voldemort enquanto eu puder, isso não vai mudar se–
— Que se dane a minha mente, Anne — Harry disse, azedo, se voltando para o domo de novo. — Não é disso que eu estou falando. Você é — Ele se interrompeu para soltar um suspiro irritado. Como se Anne estivesse espremendo as palavras dele, cutucando sob as suas costelas. Ela supunha que estava, em algum nível metafórico. — Você faz sentido. Todo o resto é um caos. Eu nem mesmo sou eu, na maior parte do tempo. Mas com você… é diferente. Você sabe quem eu sou. Mais do que eu, às vezes.
— Ah, Harry — Anne sentiu os olhos pinicarem de novo, dessa vez acompanhado de um aperto em seu peito.
— Mas, se é mesmo o que você quer, eu vou te deixar em paz — Harry completou, sem qualquer rancor ou azedume.
A ideia de que Harry estava disposto a abrir mão deles, por alguma razão, a perturbou mais do que a certeza de que Morgana estava manipulando o que sentiam um pelo outro.
— Eu não quero que você me “deixe em paz” — ela suspirou. Um peso do tamanho de dois castelos se deslocou do peito de Anne, se dissolvendo imediatamente nos confins da inexistência.
Ele assentiu, resistindo em parecer esperançoso, a expressão mantendo a seriedade estóica.
— Bem, me avise se mudar de ideia.
Ela alcançou a almofada de veludo azul mais próxima do seu joelho e jogou nele. Harry, instinto de apanhador afiado apesar da falta de prática, a agarrou no ar antes que atingisse o seu rosto e a colocou no chão, deixando-se sobre ela.
— Quanto tempo até podermos sair daqui em segurança, você acha? — Ele perguntou, soando um tantinho mais relaxado do que antes.
— Se Filch deixou madame Norra vigiando lá embaixo, pode demorar a noite toda.
— Ops — ele disse, se acomodando até ficar confortável, as palmas das mãos cruzadas atrás da almofada, apoiando a cabeça.
Se ocorreu a Harry verificar o Mapa do Maroto para ver se a gata estava vigiando, ele não sugeriu em voz alta. Ocorreu a Anne, mas ela também não se manifestou.
Ela tinha esperado que aquela conversa terminaria com ela em lágrimas na torre da Corvinal, com Luna a consolando. Ao invés disso, ela estava “presa” num dos lugares mais românticos de toda Hogwarts com um Harry que, por hora, não se ressentia nem acreditava que seus sentimentos por ela eram resultado de um encantamento antigo feito para manipular os seus destinos.
Anne engatinhou entre as almofadas até o lado dele.
Após um momento, Harry estendeu um dos braços, oferecendo-lhe o seu ombro. A voz da razão de Anne – que às vezes soava como a sua avó, outras como a professora McGonagall – repetiu com uma insistência: não é real, Anne. Não caia em negação. Você é melhor do que isso. Você é mais forte do que–
Anne deitou a cabeça no ombro de Harry, alinhando o seu corpo com o dele. As vozes se calaram.
You've got a way to keep me on your side
You give me cause for love that I can't hide
For you, I know I'd even try to turn the tide
Because you're mine, I walk the line
(Você tem um jeito de me manter ao seu lado
Você me dá razões para o amor que eu não posso esconder
Por você, eu sei que eu tentaria deixar você ganhar
Porque você é meu, eu ando na linha)
* * *
— Eu não sabia que você gostava tanto de observar estrelas — Anne disse perto do ouvido dele, depois de outra eternidade em silêncio. Com o corpo contra o de Harry, o calor dele multiplicava o seu, e a capa dele estava se tornando obsoleta.
— Eu não ligo para estrelas — Harry suspirou. — Só estou tentando decidir se beijar você é uma boa ideia, ou se você vai começar a dizer que tudo é imaginação da minha cabeça de novo.
— Eu nunca disse que era imaginação. Manipulação mágica do nosso livre arbítrio seria uma descrição mais precisa.
— Semântica.
— Semântica é importante — Anne insistiu, mas foi retribuída com um rolar de olhos, que ela pegou pelo canto de olho.
Anne se sentou, tirou a capa de Harry e a jogou longe. Então pescou a corrente longa da Orbe de dentro da blusa do uniforme e a tirou também, segurando o cabelo no alto para não se enrolar no artefato. Harry assistiu com curiosidade.
— O que está fazendo?
— Tentando ajudar você — Anne disse, voltando a se deitar de novo, esperando os sentidos se adaptarem à ausência da Orbe.
Ela afetava principalmente a sua Visão – a sua intuição ficou mais precisa no minuto que não estava mais sob a influência do objeto. Mas no que tangia à Harry, todos os seus outros sentidos ficavam mais afiados sem a Orbe. O cheiro dele, o calor e a firmeza do corpo dele, até a respiração ligeiramente alterada do garoto, resultado de sua proximidade, eram óbvios para ela. Anne procurou a mão esquerda de Harry, pousada ao lado do seu corpo, e a entrelaçou com sua direita. As palmas se encontraram, quentes e elétricas com magia compartilhada.
— O que você acha?
Harry deu um sorriso pequeno. Ela tinha lhe enviado uma sugestão de que era “uma boa ideia” naquele momento, de acordo com o seu péssimo, péssimo julgamento.
Ele virou o rosto de forma que quando falou, os lábios estavam bem perto do seu ouvido.
— Tem certeza?
Ela assentiu, deixando as pálpebras pesarem. Harry espalhou pequenos beijos na curva do seu pescoço, testando a força de sua resolução. Anne deixou que ele o fizesse, causando uma série de arrepios em seus braços e em sua coluna. Ela deu graças a Rowena e seu pequeno observatório, e aos feitiços que o protegiam de interrupções indesejadas.
Então ela se virou e buscou os lábios dele com os seus. Harry respondeu com entusiasmo, do abraço de suas línguas ao peso do seu corpo, quando se moveu para cobrí-la parcialmente, uma perna contra a sua, o osso do quadril pressionado contra a sua coxa.
— Isso é tão esquisito — Harry murmurou contra a sua pele — Eu posso sentir seu coração acelerando.
Ela riu, um pouco sem fôlego.
— É. Eu posso sentir um monte de coisas também.
Ela quis dizer pela conexão mental que suas mãos entrelaçadas provinha, mas a verdade é que ela também podia sentir a excitação dele pressionando contra a sua perna.
Ele desviou os olhos para baixo, constrangido, e achou o peito de Anne subindo e descendo. O movimento o distraiu, como um tipo primitivo de hipnotismo. Anne lhe enviou outra sugestão mental, essa mais relacionada com os botões da blusa do seu uniforme.
Harry obedeceu, se apoiando em um cotovelo para sustentar o seu peso, e desfez os primeiros dois botões da blusa branca com concentração obstinada. Ela achou que ele parecia um garotinho desembrulhando o primeiro presente da manhã de Natal. Seus olhos brilharam fascinados com o vislumbre do sutiã preto e sem graça que ela tinha escolhido de manhã, sem saber onde a noite a levaria.
Quando pareceu que Harry não estava bem certo do que fazer em seguida, Anne usou a mão livre para correr os dedos pelos fios rebeldes do cabelo dele, da sua nuca até a base do seu pescoço. Harry cerrou os olhos, os arrepios dele eriçando os nervos dela e retornando para ele pela conexão, ampliados. Ele soltou uma exclamação de surpresa, os olhos procurando os dela, alarmados.
— Eu sei — Anne riu, tão surpresa quanto ele — É quase… bom demais para ser verdade.
As palavras dela trouxeram uma sombra aos olhos dele. Não é real, Harry.
Harry enterrou o rosto na curva do seu pescoço, respirando fundo. A extensão quente do seu corpo se colou ao dela, da respiração alterada ao coração disparado e à pulsação entre suas pernas. Anne se achou tonta com a soma da necessidade dos dois, se enrolando uma na outra e se propagando, como dois espelhos face à face.
— Harry — ela chamou, sem fôlego.
— Como algo tão certo pode ser errado? — Ele perguntou em seu ouvido. Baixo, quente, urgente. Tão Harry e tão seu que o seu peito ardeu em resposta.
— Disse o leão para a gazela antes de devorá-la — Anne murmurou, lembrando-se de um velho ditado que a sua avó costumava recitar. Isso fez Harry rir contra a sua pele, o peito reverberando contra o dela.
— A gazela ainda tem objeções? — ele quis saber, arrastando a boca pelo seu ouvido, seu pescoço, a curva onde o seu pescoço e ombro se encontravam. Achando a área extra de pele que os dois botões abertos tinham revelado, roçou os lábios clavícula exposta.
— Quem disse que eu sou a gazela nessa analogia?
Harry riu, o calor de sua risada roçando no espaço entre os seios dela. A mão direita dele achou uma brecha sob a sua blusa e espalmou a pele da sua barriga, a palma áspera acendendo todo tipo de arrepio. Anne arqueou as costas em resposta e encorajamento. Ela não estava mais tentando, mas achava que ainda estava enviando sugestões inconscientes para ele, porque Harry parecia ouvir o conteúdo exato dos seus pensamentos.
— Eu vou ser o que você quiser que eu seja — ele prometeu contra a sua pele, tão doce, tão dócil, que ela não teve opção senão derreter. No fundo do seu peito, mas também entre as coxas apertadas.
Harry se apertou contra ela em resposta, com um suspiro torturado. Ele se alinhou, cobrindo-a de novo, uma de suas mãos ainda entrelaçadas, a outra sob o seu uniforme, ensaiando uma subida com tanta lentidão que ela só faltou implorar para que ele chegasse logo.
Mas o olhar de Harry, preso ao dela, era hesitante.
— Eu não quero fazer você sangrar de novo.
Anne mordeu o lábio, o segundo sentido da afirmação mandando uma contração urgente para o seu centro. Harry compreendeu e piscou, sem jeito.
— Eu não quis dizer…
— Eu sei o que você quis dizer — Ela se apressou, cravando os dedos no braço dele para que ele não ousasse se afastar nem um centímetro. — E você não vai. Eu estou sem a Orbe, lembra?
— Hum, certo.
Harry afundou para beijá-la de novo. Tocando-a onde ela queria, apertando-a e beijando-a e explorando os pedaços dela que não tinha antes. Deixando que ela fizesse o mesmo, com a ponta de seus dedos, com os seus lábios, com o atrito de sua pele, cada vez mais exposta à medida que eles perdiam peças do uniforme. A blusa de Anne foi primeiro, o seu sutiã em seguida. A camisa e a calça de Harry (Anne segurou seu pulso quando ele tentou tirar a gravata – ela mordeu um sorriso travesso, as bochechas ardendo, os olhos mais ainda). Ele deslizou a calcinha dela por último – puxando as por suas pernas com o mesmo cuidado concentrado com que abrira os botões de sua blusa, como se estivesse lidando com pergaminho fino – mas não fez menção de ajudá-la a sair da sua saia plissada.
Anne não contestou a decisão – a saia fornecia alguma barreira contra aquele último pedaço da sua anatomia que ela ainda não tinha compartilhado com outro ser humano.
Mas Harry foi tão minucioso com seus dedos – prestando uma atenção judiciosa em cada sinal incoerente que ela lhe enviou por entre os seus suspiros ainda mais incoerentes – que Anne se esqueceu de qualquer resquício de timidez. Quando Harry – seu Harry, seu Harry – tão parte dela quanto o ar que ela respirava – deslizou uma mão pela sua perna, subindo a barra de sua saia, tudo que Anne lhe ofereceu foi encorajamento.
Mesmo sabendo exatamente como ela se sentia – e mesmo com os dedos pegajosos de suas explorações recentes – ele ainda procurou o olhar dela para se certificar, posicionado entre as suas pernas, tão perto que ela nem sabia mais do que era respirar.
Anne achou que se lembraria para sempre o rosto dele naquele momento. Excitado, ofegante, corado, heróico. Eu vou ser o que você quiser que eu seja. Será que ele sabia que ele já era? O seu peito doía por ele. O seu corpo chamava por ele, a necessidade urgente como um grito no escuro.
— O que você está esperando? — Ela perguntou, um sorriso brincando nos lábios, apesar do nervosismo dançando sob as costelas.
— Eu nunca fiz isso antes — ele confessou, os olhos de esmeralda presos nela, paixão e ansiedade misturados num nó.
— Nem eu. Não tem problema.
— Tem um, na verdade.
Ele estava tão perto. Ela podia sentir-se pulsando em todas as partes, pedindo por ele. Seus lábios, sua pele, seu centro. Se Harry estivesse tendo um surto de consciência agora, ela pretendia matá-lo.
— Eu não estou tendo surto nenhum — Ele disse, fazendo-a franzir. Ela tinha dito aquilo em voz alta? — É só… não devíamos usar… alguma coisa?
— Alguma coisa? — Anne repetiu, vaga.
— Proteção — Harry murmurou. — Algum tipo de… barreira.
— Ah! — Anne expirou, mortificada. Era prova do quanto ela estava fora de sua razão, que tinha sido Harry a trazer o assunto à tona. Depois daquela noite, ela podia muito bem dizer adeus a qualquer parte Corvinal na qual ainda se agarrasse. — Eu sei um feitiço. Ugh. Minha varinha está na mochila.
Ela fez menção de se mover para recuperá-la, mas Harry a segurou no lugar. O movimento fora apenas um impulso mas, sob o aperto da mão de Harry em seu braço, ela sentiu uma pontada inesperada de excitação atiçar seus nervos. A reverberação o fez sorrir, intrigado.
— A minha varinha está mais perto — Ele disse, se esticando só um pouco, mal separando os seus muitos pontos de contato, para pescar a varinha das dobras de sua calça, embolada ao lado deles. — Qual o feitiço?
Anne ainda estava ligeiramente fora de prumo com aquela pequena descoberta. Ela piscou um par de vezes, concentrando-se.
— Aponte a varinha contra a minha barriga. Aqui — Anne segurou a ponta da varinha de Harry e a pressionou contra a sua pele, bem abaixo do umbigo. Ela viu os olhos dele escurecerem e os lábios, inchados e avermelhados com a ação dos últimos minutos, se afastarem levemente. — Diga Custode semine.
Harry levou alguns segundos para encontrar as próprias palavras.
— Custode semine — ele repetiu, a voz rouca e baixa, mas sem hesitar. Anne sentiu um arrepio que ela achava não ter nada a ver com o feitiço. Ele soava faminto. Por ela. Sangue de Merlin.
— Pronto.
— É só isso?
— Por que seria mais do que isso? — Ela perguntou, achando graça. Ele deu de ombros.
— Onde aprendeu esse?
— Livros, Harry. Livros ensinam todo tipo de coisa.
Ele pareceu interessado, uma luz maldosa se ascendendo por trás dos seus olhos, quando deixou a varinha de lado e voltou a se posicionar sobre ela, os movimentos vagarosos de um felino.
— Tipo interessante de leitura.
— Posso emprestar alguns para você, se estiver interessado.
— Eu acho que eu prefiro aprender na prática.
— Grifinór–Ah — Anne exclamou para uma onda de surpresa prazerosa quando Harry a apertou de novo, as duas mãos em torno dos seus pulsos, ancorando-a no chão macio do observatório, pressionando o corpo contra o dela, um sorriso vitorioso no rosto. Ela exalou, sorrindo. — Você aprende rápido.
Ele não respondeu, a boca descendo para o seu mamilo esquerdo, com o qual ele parecia fascinado. Ela choramingou, esperando – querendo – que ele soubesse o que aquilo fazia com ela. Harry escorregou as mãos de seus pulsos para unir as suas palmas, entrelaçando ambas as suas mãos. Eu sei.
Ele murmurou em seu ouvido:
— Eu sou o leão, para sua informação — E deslizou, devagar e deliberado, para o interior quente e apertado entre as suas pernas abertas.
Anne acolheu uma dor entorpecida, exalando devagar, apertando os dedos dele em resposta, e apertando os dentes. Harry se retesou, os olhos muito abertos, e congelou, a respiração suspensa, um olhar de alarme em seu rosto.
— Eu estou bem — ela prometeu, para tranquilizá-lo, embora ainda estivesse ela mesmo um pouco incerta.
Ele franziu. — Tem certeza?
— Vai ser mais fácil da próxima vez.
A ideia de que haveria uma próxima vez pareceu relaxar a expressão no rosto dele, e reacendeu a fome que estava ali antes. Anne fechou os olhos, se concentrando no contato de suas mãos, na pressão do corpo dele, no fervor de sua pele e no cheiro dele impregnado em sua pele.
Sob o seu encorajamento, Harry começou a se mover de novo, levando a dor embora e trazendo de volta tudo pelo que valia a pena existir, na opinião de Anne.
* * *
Era muito tarde, ou muito cedo. Ou o tempo tinha parado. Anne não sabia qual das três opções era verdadeira e ela sinceramente não se importava.
Harry e ela estavam enroscados num emaranhado perfeito de membros, como o resultado de um quebra-cabeças composto por quatro pernas, quatro braços, e dois corpos muito suados e felizes. Ninguém tinha se incomodado em recolocar nenhuma roupa. Anne ainda estava se acostumando com o fato de que ela não se importava com a sua nudez quase completa na frente de um garoto (a saia ainda estava em torno de sua cintura, embora muito embolada e cobrindo pouco de sua anatomia).
Exceto que aquele não era “um garoto”. Era Harry, e toda vez que ela pensava nisso, o seu coração parecia prestes a explodir.
Só essa noite, ela prometeu para si mesma, deixando as estrelas fazerem cócegas em seus olhos semi-abertos e desinteressados, só essa noite vamos fingir que tudo está certo com o mundo.
Tudo parecia certo com o mundo. Harry, a julgar pelo ritmo de sua respiração, parecia prestes a cair do sono, ainda estava brincando com uma mecha de cabelo dela, enrolando-a e desenrolando-a no indicador.
Anne estava pegajosa entre as pernas. Ela se moveu com algum incômodo, tentando decidir se tinha energia para se levantar e ir buscar a sua varinha para um feitiço rápido de limpeza.
— Você está dolorida? — Harry perguntou, a voz pesada de sono fluindo de algum ponto sobre a cabeça dela. Anne, a bochecha apoiada contra o peito dele, sacudiu a cabeça suavemente.
— Só um pouquinho. Vai passar.
— Eu senti. Quando eu… você sabe.
— Eu sei — ela suspirou. Devia estar bloqueando as suas sensações àquela altura, mas sem a Orbe e com toda a intensidade de, bem… sexo com Harry Potter, ela não tinha tido qualquer chance. — Desculpe por isso.
— A culpa é minha, não sua — ele disse, desconforto claro na voz. — É suposto machucar? Ou eu fiz alguma coisa errada?
— É normal. Acho que eu estava um pouco tensa. Eu disse a você, vai ser mais fácil da próxima vez.
— E quanto tempo temos que esperar até essa famosa próxima vez? — Ele perguntou, esperançoso.
Ela riu, enterrando o rosto no peito dele. O cheiro de Harry era embriagante. Ela queria recolhê-lo num recipiente com rolha e carregá-lo consigo para todo lugar que fosse.
— Você diz isso, mas está quase pegando no sono.
— Eu posso ser persuadido a ficar acordado.
— Persuadido — Anne repetiu com descrença. — Desde quando a gazela precisa persuadir o “leão” a fazer alguma coisa?
— Zombe o quanto quiser, mas você não reclamou mais cedo — a resposta dele foi baixa e rouca, carregada de promessas.
Ela se contraiu para uma resposta imediata de suas entranhas. Pelo visto ela também podia ser persuadida.
A sua mão livre – a que não estava sob o corpo, dobrada para mantê-la naquela posição – encontrou o peito descoberto dele, a ponta dos dedos brincando na pele exposta, traçando os contornos do garoto. Harry era principalmente magro, com músculos suaves que apareciam quando ele se movia, quando ele contraia os braços para segurá-la ou quando ele se dobrava para beijá-la em um ou outro lugar interessante. Uma penugem macia e escura fazia o caminho no centro do peito de Harry, através do seu umbigo e, com mais amplitude de cobertura, em direção à sua virilha. Ela estava especialmente fascinada por aquela área de pêlos mais espessos, que faziam cócegas na ponta dos seus dedos e que faziam Harry se contorcer, sua pele esquentar, à medida que ela dedilhava o seu caminho para baixo.
Anne refez o caminho para cima, testando com as unhas dessa vez, raspando de leve. A reação foi um murmúrio baixo de prazer que ela apreciou muitíssimo. Quando ela arrastou as unhas em torno dos mamilos dele, ficou feliz em vê-los se enrijecerem, se tornado rosa-vivo.
— Isso é vingança? — Ele perguntou num murmúrio rouco, os olhos fechados. — Por que está funcionando.
Mas Anne não respondeu. Ela tinha acabado de notar a cicatriz ligeiramente à esquerda e abaixo do peito de Harry, em forma de estrela de quatro pontas, uma para cada lâmina do punhal de Morgana. Entre a terceira e a quarta costela. Assim, empurre até sentir um estalo.
Anne arfou, a memória a atingindo como uma ferroada venenosa. Harry abriu os olhos.
— O que foi?
— Nada.
— Anne — ele procurou os olhos dela, a preocupação em seu rosto tão pungente que ela se sentiu culpada em sequer cogitar fingir que não era nada.
Além do mais, já era tempo de ele saber.
Anne voltou a tocá-lo sobre a cicatriz, exceto que dessa vez os seus dedos estavam trêmulos. Ela respirou fundo, devagar. Quais eram as palavras, para aquilo?
— Eu fiz isso.
Harry demorou alguns segundos para entender. Então, uma miríade de emoções tomaram seu rosto de assalto: compreensão, surpresa, perturbação, indignação, raiva. Ele também respirou fundo – o peito tremendo – e com calma e deliberação, cobriu a mão de Anne com a sua. A mão dele ainda estava quente. Harry era, ao que parecia, uma fonte interminável de calor.
— Ele usou o Imperius em você?
Ela assentiu, tentando evitar que a pressão em sua garganta crescesse, que as agulhadas no fundo de seus olhos evoluíssem para lágrimas. Ela já tinha – já devia ter chorado tudo que precisava sobre aquele dia no topo do Monte Tor. Todas aquelas noites soluçando no dormitório da Corvinal, Luna afagando o seu cabelo e prometendo que tudo ia ficar bem – certamente teriam secado as suas lágrimas, a essa altura?
— Eu não pude, não consegui resistir. Eu tentei. Eu juro que eu tentei, Harry.
Harry a apertou com tanta urgência, como se apertá-la fosse espremer para fora a humilhação e a vergonha audíveis em sua voz.
— Eu sinto tanto — Anne disse, a voz abafada contra a pele do ombro dele. Harry estava respirando pesado, seu peito se expandindo para cima e para baixo de forma dolorosa.
— Não é você quem tem que sentir — ele murmurou. A voz dele veio carregada de um ódio antigo, tão antigo quanto o próprio Harry. — Ele vai pagar, Anne. Por cada pessoa com quem eu me importo que ele machucou, ele vai pagar uma centena de vezes.
Ela não conseguiu dizer que ela preferia que Voldemort não pagasse, se isso significasse que Harry ia ficar inteiro. Mesmo a promessa de fazer outro ser humano sofrer – ainda que a pessoa em questão fosse a desculpa mais distorcida e horrenda de ser humano que existia — parecia uma ameaça a integridade da alma de Harry.
— Talvez você devesse mesmo ficar longe de mim — Harry murmurou contra o cabelo dela, algum tempo mais tarde. Anne não soube quanto tempo. Ela deixou as lágrimas correrem, então se acalmou, encaixada no abraço dele, onde tudo no mundo estava certo.
Eu acho que agora é meio tarde pra isso, Anne tentou dizer, mas já estava caindo no sono.
* * *
A luz queimou através das pálpebras fechadas de Anne. Alguma coisa fazia cócegas na área de pele sob o seu nariz. Apertando os olhos contra a luz, Anne passou os dedos ali e sentiu uma umidade quente.
Droga. Anne abriu os olhos um milímetro, lutando contra a luz do sol que incidia sobre o domo. A mancha vermelha na ponta dos dedos confirmou as suas suspeitas. Sangue.
Com um resmungo aborrecido, ela puxou a coisa mais próxima da sua mão para estancar o sangramento. Ela pressionou a peça de roupa contra o nariz, inclinando a cabeça para trás, como já tinha feito um milhão de vezes antes.
Eventualmente conseguiu abrir os olhos, forçando as pupilas a se adaptarem à luz. O céu azul iridescente sobre a sua cabeça indicou que já era dia alto. No mínimo umas sete da manhã, ela estimou, respirando pela boca.
Anne tinha dito para Harry que a razão de ter parado de usar oniromância para visitá-lo em sonhos era o cansaço no dia seguinte – essa era só uma parte, bem pequena, da verdade. Enquanto que proteger a mente de Harry de invasões era quase uma segunda natureza para ela, tão fácil quanto continuar respirando, compartilhar sonhos lúcidos era outra história.
Oniromância exigia esforço e alguma reserva interna que tinha conexão com aquilo que ela usava para executar a Visão – o seu cerne mágico, segundo Sophia lhe dissera em Avalon. Quanto mais oniromância ela usava, maior era a poça de sangue que Anne achava em seu travesseiro no dia seguinte. E então, as dores de cabeça que podiam durar um dia inteiro. A sonolência que não a deixava estudar, os enjôos que tiravam a sua fome e a faziam procurar banheiros para vomitar no intervalo entre as aulas. O persistente gosto metálico em sua língua. A verdade é que Anne tinha começado a ficar com medo das consequências que aquele tipo de magia estava causando à sua integridade física.
Mas ela não tinha usado oniromancia naquela noite. Ela tinha adormecido nos braços de Harry, mas acordara algumas horas mais tarde, só tempo o suficiente para recolocar a orbe em seu pescoço. Justamente para não escorregar sem querer para dentro de um sonho de Harry – algo bem possível de acontecer, já que eles tinham ido dormir enroscados um no outro como um par de enguias. Depois do quanto eles tinham compartilhado enquanto acordados – seu rosto esquentou ao se lembrar – a proximidade física fazia com que a conexão mental entre os dois fosse bem difícil de controlar.
Apesar da hemorragia, Anne sorriu contra a blusa, o calor do corpo de Harry irradiando contra a sua perna direita, seu torso, o seu braço. O garoto dormia num abandono descuidado, o cabelo um ninho de marfagarfos, os óculos jogados de qualquer jeito acima de sua cabeça. Anne sentiu um calor confortável se enrolar em seu peito. Um sorriso que só podia ser descrito como bobo infectou seu rosto, parcialmente coberto pela peça de roupa.
Anne afastou o pano do rosto, tentativamente. Um fio de líquido morno voltou a deslizar pela sua narina esquerda em direção ao lábio, fazendo cócegas. Ela voltou a pressionar contra o rosto o que agora sabia ser o suéter de Harry (na verdade, o guarda-roupas de Dino Thomas). Anne inclinou mais ainda a cabeça e esperou, cogitando uma passada na ala-hospitalar para um pouco de poção coagulante. Teria de enfrentar as perguntas de Madame Pomfrey, mas isso era melhor do que as de Sophia, que saberia exatamente que tipo de coisa ela devia ter feito para ter aquele tipo de hemorragia.
Anne teve um calafrio ao imaginar Sophia pegando algum vislumbre de sua noite passada com Harry com legilimência, e fez uma nota mental para redobrar a sua oclumência antes de se encontrar com a madrinha.
Com o suéter firme contra o nariz, Anne se ergueu sobre os joelhos e atravessou o pequeno domo circular até onde as mochilas tinham sido abandonadas, com cuidado para não acordar Harry. Ela puxou da sua mochila um pires miúdo de mármore e a sua varinha. Usando um Engorgio, trouxe o objeto para o seu tamanho original – uma bacia de pedra que carregava consigo para praticar oclumência nas horas livres, algo que Anne decidira necessário desde o seu encontro com Voldemort em dezembro.
Depositou a bacia sobre o carpete diante dos seus joelhos e a preencheu com água fresca, a fim de lavar o sangue do rosto e das mãos. Ela aproveitou e usou um tergeo para se livrar da camada seca de fluidos grudada no interior das suas coxas. Merlin abençoe a magia.
Quando Anne se inclinou de novo, o seu reflexo a encarou de volta na superfície da água. Ela se surpreendeu ao encontrar os próprios olhos cobertos pelo véu prateado da Visão. Normalmente ela tinha que fazer um esforço consciente para manifestar a Visão, e só umas poucas vezes tinha acontecido fora do seu controle, especialmente quando estava usando a Orbe, que era suposto a bloqueá-la.
A última vez tinha sido na noite em que ela e Harry tinham trazido Sirius de volta do véu.
Intrigada, Anne tirou a corrente que segurava a orbe de torno do pescoço e a depositou no carpete ao seu lado. O alívio de liberar a Visão a deixou tonta por um segundo ou dois. Anne esperou, respirando fundo e segurando-se à borda da bacia até conseguir abrir os olhos de novo. Sangue voltou a escorrer do seu queixo e pingou na superfície da água, abrindo uma pequena flor vermelha sobre o fundo de mármore branco.
A água se agitou. Não… a água continuava parada, o que estava se agitando eram imagens sob a superfície. Sombras. Movimento. Silhuetas. Anne se inclinou, usando a própria sombra para cobrir o reflexo do céu, a fim de ver melhor o que se agitava lá no fundo. As imagens se estabilizaram e se desenrolaram no fundo da bacia como memórias, costuradas uma na outra pelas linhas do tempo. Um garotinho enrolado em uma manta azul, sozinho no batente da porta de uma casa. Ele se moveu em seu cobertor e Anne viu a cicatriz em forma de raio em sua testa diminuta. A imagem se sacudiu, girou e se reformulou, avançando alguns anos. Um garoto magricela num chão empoeirado, recebendo a carta de Hogwarts das mãos de um meio-gigante…
Anne sabia o que a água estava lhe mostrando: um mundo sem a Canção de Morgana. Ela fora dormir com aquela pergunta, tentando decidir se podia mesmo ser verdade o que Harry lhe dissera. Eu ainda vou gostar de você do mesmo jeito. Com ou sem Canção.
Uma pontada no fundo de sua cabeça a fez apertar os olhos e recuar, soltando uma exclamação. Ela esperou a dor diminuir, como ondas que se dissipavam, e se virou para checar Harry. Mas ele continuava em sono profundo, esparramado sobre as almofadas, adorável.
Anne hesitou. Não devia usar a Visão de forma deliberada para espiar as dobras do tempo — Sophia a advertira sobre os perigos de fazê-lo sem o treinamento apropriado —mas ela precisava de uma resposta. Aquele aperto de incerteza dentro dela se dissolveria e ela poderia ficar tranquila, sabendo que o que ela e Harry tinham era real, não uma manipulação mágica do seu livre arbítrio.
Anne respirou fundo e voltou a se curvar na direção da bacia, deixando que o seu sangue pingasse na água, e a que a água lhe provesse as respostas que buscava.
(Continua…)
Fale com o autor