A Canção de Morgana
45 Picadas de São Valentim
Notas iniciais
Chegar à festa envolveu uma viagem ao quarto andar, uma passagem secreta por detrás de um espelho (Harry fez uma nota mental de revisá-la no mapa do Maroto) e uma escadaria interminável até o que lhe pareceu ser as entranhas do castelo. Quando já estava parecendo que Katie daria a sua festa de São Valentim na Câmara Secreta, a escadaria nivelou para um túnel iluminado por velas vermelhas, e até um portãozinho de ferro baixo.
O som de música, vozes animadas e o reflexo de luzes cintilavam do outro lado dos portões. Harry tirou a caixinha de bombons que fazia as vezes de convite e mordeu a metade, oferecendo a outra a Gina. Quando ela mordeu a sua metade, o portão destravou, lhes dando acesso ao interior da festa.
O queixo de Harry caiu. Gina soltou uma risadinha incrédula ao seu lado.
— Eu adoro a Katie, mas ela pode ser um pouco intensa, não é?
Eles estavam em uma espécie de sala circular ampla e baixa, erguida em pedra rústica e decorada com uma diversidade de coisas… românticas, Harry supunha. Guirlandas de coração pendiam do teto como babados, balões vermelhos flutuavam por todo lado, iluminados por dentro com luzes pulsantes, fadinhas minúsculas como vagalumes viajavam em grupo, cintilando em formação de flecha. Mais velas vermelhas e pequenas fogueiras flutuantes estavam espalhadas pelo espaço em intervalos, queimando chamas vermelho-escura e soltando um aroma agradável, morno e doce de rosas. E em torno da sala circular, em intervalos, nichos fracamente iluminados pela chama de velas flutuantes, com almofadas grandes de aparência confortável, já abrigavam alguns casais dos quais Harry só podia ver as silhuetas. Os nichos tinham portões com grades, e pareciam bastante com...
— Isso são celas? — Harry perguntou, surpreso. — Por que Hogwarts tem uma sala cheia de celas?
Gina deu de ombros, diversão e incredulidade em sua expressão à medida que tentava processar todas as nuances da decoração.
— Para punir estudantes malcomportados, eu suponho? Filch não vive falando que era costume pendurar os alunos pelos tornozelos nas masmorras, nos velhos tempos?
— Dino! Gina! — Katie se aproximava deles num vestido justo, vermelho e branco, que combinava com a sua decoração, o cabelo preso num rabo de cavalo alto. Nenhuma semelhança com a capitã irada que tinha gritado para Harry no último treino que, se ele não parasse de procurar o pomo pelo campo, ela iria arrancar os seus testículos e colocar asas neles, se Harry queria tanto perseguir bolas pequenas. — Sejam bem-vindos! Tem bebida naquela mesa e vamos ter petiscos mais tarde, os elfos se empolgaram quando souberam da festa, e ah, teremos uma atração especial por volta da meia noite! Gina, você está um arraso!
— Obrigada, Katie — Gina disse, sorrindo para a capitã.
Katie piscou na direção de Harry e seu sorriso se expandiu, sugestivo.
— Aposto que o Dino aqui concorda comigo.
— Ele não disse o contrário, até agora — Gina gracejou.
Harry passava os olhos pela festa, identificando quem já estava lá. Ele avistou McLaggen e Parvati entrando juntos em uma das celas, e Hermione e Rony perto da mesa de bebidas, mas nenhum sinal do cabelo negro e brilhante de Johanne.
— Fiquem à vontade, então. Tecnicamente eu devo avisá-los para ficar longe do caldeirão de ponche de amortência, que é desaconselhado para menores de idade. Mas o que os meus olhos não veem, não pesa em minha consciência! — Ela lhes deu uma piscadela marota.
— Amortentia? — Harry perguntou. Aquela não era uma poção de amor supostamente perigosa? Mas Katie já tinha se afastando, indo cumprimentar o próximo casal que entrava pelo portão.
— Ela deve estar brincando — disse Gina, num tom descrente. — Quer beber alguma coisa? Outra coisa que não seja poção do amor, é claro. Não precisamos desse tipo de problema.
Harry assentiu, seguindo Gina até o outro lado do salão, onde a mesa de bebidas tinha sido arranjada em três caldeirões enormes, enfeitiçados para se manterem gelados a noite inteira.
***
— Eu não me importaria de saber como isso aconteceu — Gina disse para Neville, alguns minutos mais tarde, indicando Astória com o queixo. Ela ergueu as mãos com as palmas para fora, num gesto de rendição. — Sem julgamentos, só estou curiosa.
O rosto de Neville ficou rosado, e ele deu uma olhada rápida para se certificar que Astória não estava ouvindo.
— Eu só, uh, a convidei. Ficamos meio que próximos, durante o feriado. Quando todo mundo deixou o castelo, e ficamos para trás.
— Uh, sozinhos no castelo— Gina provocou, mordiscando um cupcake de morango coberto com um suspeito pó brilhante. Neville deu de ombros, o rubor se aprofundando para a cor do cupcake.
— Astória é legal — ele disse, olhando para a garota, que saíra do seu lado para conversar com Susan Bones.
— Imagino que a irmã dela não esteja nada feliz — comentou Harry, lembrando-se da última vez que tinham topado com Daphne Greengrass num corredor, e a coisa toda tinha saído fora do controle, envolvendo Astória transformando o cabelo da irmã em serpentes raivosas.
— Engraçado você comentar — Neville inclinou a cabeça, pensativo. — Parece que elas decidiram por um cessar-fogo. Daphne até emprestou uma jóia de família para ela usar hoje.
Tanto Gina quanto Harry apuraram os olhos para Astória até identificarem o objeto em questão.
— Aquela gargantilha de cobra? — Gina reprimiu uma pequena careta. — É bem… peculiar.
Neville deu de ombros, sem parecer terrivelmente incomodado.
Harry, um copo de delírio fumegante em uma mão e um biscoito de chocolate triplo na outra, olhou por cima do fogo crepitante da fogueira mágica perto deles, até o grupo de quintanistas que acabara de chegar, Anne entre eles. Ela vinha de braços dados com Colin, rindo de alguma coisa que o garoto dissera. O rosto dela se acendia quando ela ria, e o peito de Harry se apertou de vontade de ser a pessoa fazendo-a rir daquele jeito.
— Luna está saindo com Padma? — Rony se engasgou ao seu lado. Harry fez um esforço para desviar os olhos de Anne e achar Luna no grupinho. A corvinal usava um vestidão com estampa de girassóis e estava de mãos dadas com a gêmea de Parvati, que ao contrário da irmã, escolhera jeans e uma bata larga para aquela noite. — Eu não sabia que ela era…
— Olá, humanos — disse Luna com um sorrisão, se aproximando do grupo, arrastando Padma pela mão. — Vocês conhecem Padma, certo?
— É claro que eles me conhecem, Lu, somos do mesmo ano — disse a garota, acenando de volta com embaraço.
Harry e Rony acenaram de volta. Colin os cumprimentou com efusividade; usava uma camisa branca com “Be Awesome” escrito em purpurina dourada no peito e parecia estar usando delineador nos olhos claros.
Mas Harry não se demorou em Colin, porque seu olhar cruzou com o de Anne no instante seguinte. Ela deixara o cabelo solto, e maquiagem exaltava os olhos. Seus jeans tinham rasgos nos joelhos e a camiseta trazia uma estampa de um ziguezague de linhas negras que imitavam um eletrocardiograma. Ela deu um sorriso curto para ele.
— Hey, Dino.
— Johanne — Harry cumprimentou, tentando manter uma expressão neutra que não o denunciasse.
Anne deu uma olhada para Gina sentada ao lado de Harry e seu sorriso vacilou. Ela foi cumprimentar o resto do grupo, e Colin se ofereceu para pegar bebidas. Ela se sentou do outro lado de Harry quando Colin se afastou. Luna e Padma ocuparam o outro lado de Neville.
— Camisa legal — ela disse, olhando para ele de relance, parecendo arisca.
— Obrigado. Suas calças são bem descoladas. Última moda trouxa?
Ela revirou os olhos maquiados.
— Só estou tentando entrar no clima da festa — e mais baixo. — Com a Gina, sério?
Harry olhou para o seu outro lado, mas Gina estava distraída em uma conversa com Neville e Luna sobre a mesa de doces. Ele se voltou e ia começar com alguma desculpa, mas a mão de Anne roçou na sua.
— É bom te ver — ela murmurou. Harry quase suspirou, aliviado por ela não estar zangada com ele. Assentiu mas, antes que tivesse a chance de dizer mais alguma coisa, Anne deu um pulo, a atenção na entrada do salão.
— Oliver!
Harry olhou para a entrada e encontrou Oliver Wood, seu ex-capitão e colega de casa, parecendo desorientado com todas as coisas que brilhavam, cintilavam e piscavam em sua cara. Antes que Oliver pudesse dar mais um passo, Katie foi se jogar nos braços dele. Houve um beijo cinematográfico em que ele a levantou alguns centímetros do chão, depois eles se separaram, os dois com sorrisos bobos e grandes no rosto.
— Sabia que ele ia acabar aparecendo — disse Anne com satisfação. — Foi ele quem ajudou Katie com a seleção de músicas e com o encantamento da vitrola trouxa.
Anne apontou para um objeto grande no outro extremo do salão e Harry notou que a música que ele ouvia preencher o salão fluía dali. Música trouxa. Uma série de discos de vinil, encantados para flutuar ao lado da vitrola, esperavam a sua vez.
Get things right
(Faça as coisas certas)
'Cause this one is a lie
(Porque essa aqui é uma mentira )
We sat around laughing
(Ficamos sentados rindo )
And watch the last one die
(E assistimos o último morrer)
— Aprenda a voar — ela disse.
— O quê?
— O nome dessa música. Foo Fighters, óbvio! Espera, volto já!
Ela saltou e foi falar com Oliver, quicando como se ele fosse a coisa mais interessante da sala. Anne nunca se animava tanto quando ele aparecia. Bem… a não ser quando ela tinha descoberto que ele estava vivo, depois do feriado. Aquele tinha sido um abraço e tanto…
— Ele é um estrago, não é? — Gina se inclinou para comentar, a atenção de novo em Harry, acompanhando o olhar dele até Oliver. — Ficou ainda mais interessante desde que entrou para o United, com certeza. Katie não é boba, nem nada.
Harry olhou para ela com as sobrancelhas erguidas.
— Sério, Oliver? Ele sempre me pareceu… bem normal.
— É mais sobre a atitude — ela disse com um sorrisinho. — Você não entenderia.
— Por que eu não entenderia?
— Garotos são imunes a essas coisas. Bom, exceto por garotos que gostam de garotos — completou Gina com uma piscadela. — Quer dançar?
Harry deu uma olhada para a pista de dança. Apenas dois casais dançavam, entre eles Neville e Astória. Colin Creevey tinha levado Luna, e agora girava-a sem parar em torno de si mesma, o vestidão inflando ao seu redor como um paraquedas. Padma estava ali por perto, sorrindo e se sacudindo um pouquinho, um copo da bebida vermelha nas mãos, como quem busca coragem.
— Acho que preciso aquecer mais um pouco antes — ele se desculpou. — Mas, vá em frente, não me deixe impedi-la.
Gina sacudiu a cabeça, deixando claro que ele estava perdendo uma grande oportunidade, e foi para o centro do salão se juntar aos amigos quintanistas.
— Não está se sentindo especialmente dançante, hoje? — Anne zombou ao retornar, tendo passando por Gina no caminho. Harry estreitou os olhos, considerando.
— Depende. Você vai dançar comigo?
Anne o olhou com advertência, voltando a sentar ao seu lado.
— Engraçadinho.
— Nesse caso, acho que vou ficar por aqui mesmo, só observando.
Uma vez sentada, Anne escorregou a mão para onde a dele estava, apoiada no banco, e Harry enganchou o dedo indicador no polegar dela. Anne olhou para baixo, sorrindo por detrás da cortina de cabelos negros que deslizaram em frente ao seu rosto. Um sorriso só para ele, que aqueceu o seu peito mais do que qualquer copo de delírio fumegante poderia.
* * *
— Pelos direitos a mim concedidos como noivo eu a declaro, oficialmente, a rainha suprema das festas iradas de Hogwarts — disse Oliver com solenidade exagerada, plantando um beijo na testa de Katie. Ela rolou os olhos para o exagero e fez um gesto de falsa modéstia.
— Até que saiu de acordo com o planejado.
— Está brincando? Isso aqui ’tá incrível. A escola deveria te dar um prêmio por serviços especiais. Ou por ser foda. Qualquer um dos dois seria bem merecido.
— Besta — ela disse, rindo, passando os braços pelos ombros largos do noivo. — Obrigada por toda a ajuda. E por aparecer de surpresa.
— Agradeça à Minnie, foi ela que me deixou usar o flú para ver você hoje.
— Não é exatamente um favor, é, se em breve você vai ser parte do corpo docente de toda a maneira. Se pensar direito, é você que está fazendo um favorzão a ela, aceitando o cargo, assim de última hora.
— Como se eu pudesse recusar uma oferta dessas — ele riu. — Com todos os benefícios que vem no pacote.
— Benefícios maiores do que o United lhe oferece?
— O United não tem cem elfos preparando refeições maravilhosas todos os dias.
— Refeições, claro — ela rolou os olhos em desaprovação. — Você só pensa em comida.
— Bem — ele disse baixo, perto do seu ouvido. — Também não tem minha Katie no United, tem?
Katie se derreteu, cedendo os beijos que Oliver espalhava em sua bochecha e a caminho de sua boca. Era ótimo tê-lo ali, é claro, eles não se viam nem de longe o suficiente, mas ela sentia que naquele ritmo ele ia acabar distraindo-a, e ela precisava garantir que os caldeirões estavam sendo repostos, e que a banda estava pronta para dali a pouco, que os bombons enfeitiçados estavam deixando todo mundo entrar…
— Putamerda — Katie se endureceu ao olhar para a entrada, por cima do ombro de Oliver. — O que Malfoy está fazendo aqui?
Oliver se virou só o bastante para ver do que ela estava falando.
— Por quê não? Você proibiu a entrada de sonserinos?
— É claro que não, mas, via de regra… — ela exalou ar com exasperação. — Melhor eu ir ver qual é a dele. Espero que não esteja atrás de problemas.
Oliver a deixou ir, mas um segundo depois decidiu seguí-la. Não tinha contado à Katie, mas uma das condições de McGonagall para deixá-lo ficar em Hogwarts aquela noite fora que ele mantivesse um olho na festa e garantisse que nada “muito fora do apropriado” acontecesse. E ali estava uma situação prestes a fugir do “apropriado”, se ele se lembrava bem do pentelho que Malfoy era.
— Quem é a garota com ele? — Oliver perguntou, achando-a familiar. Era difícil dizer, na pouca iluminação das masmorras e com todas as coisas voando entre eles, balões e fadinhas e fumaça perfumada.
— Não faço ideia. Hey, Malfoy!
— Kats, pega leva — Oliver grunhiu, alinhando-se com ela. — Vai ver ele só quer curtir a festa.
— Hahá, é de Malfoy que estamos falando. Além do mais, ele não recebeu convite. Não das minhas mãos, pelo menos.
Malfoy parou perto da porta, os braços cruzados e a postura arrogante que usava desde os onze anos, mas Oliver não estava olhando para ele. À medida que se aproximavam, a acompanhante de Malfoy lhe parecia mais familiar, como um comichão incômodo que ele não podia alcançar.
— Malfoy, como conseguiu entrar aqui? — Katie exigiu, ao se aproximar do par o suficiente para ser ouvida.
— As masmorras pertencem aos sonserinos, Bell. Não é um feitiço de selamento seletivo meia-boca que ficar em meu caminho.
— Pelo visto o bom senso de não invadir a festa alheia sem ser convidado também não fica, não é?
— Ora, sua… — começou Malfoy com frieza, mas a sua acompanhante deu um passo adiante.
— Não, Draco, deixa eu que resolvo isso. Olha, Bell, a questão é que…
Os olhos de Katie se alargaram ao reconhecer a acompanhante de Draco.
— Black? Mas que diabos?
Oliver piscou várias vezes. Sentia que havia uma névoa de confusão o impedindo de reconhecer o rosto da garota, apesar da familiaridade pungente.
— Rose...?
— Wood? — A acompanhante de Draco ergueu o rosto, só então notando-o um passo atrás de Katie. — O que você está fazendo em Hogwarts?
A névoa se dissipou e Oliver conseguiu enfim reconhecê-la. Mas Katie falou antes que ele pudesse se recuperar do engasgo:
— Black, o que raios você está fazendo aqui– e com cara de quem tomou uma poção de rejuvenescer, ainda por cima?
— Eu disse que era uma péssima ideia — Draco resmungou para Bervely, soltando o braço dela. — Estou dando o fora.
— Não — Bervely agarrou de volta com o aperto de ferro, e para Katie: — Bell, podemos conversar por um momento? Não esqueça que eu ainda sou sua professora — acrescentou, para interromper o início de uma resposta impertinente vindo da setimanista.
Katie hesitou, em óbvio conflito entre seus deveres como estudante e suas expectativas para o desenrolar da sua festa perfeitamente planejada.
— Se você insiste. Vamos para uma cela vazia — Ela apontou um dedo ameaçador para Malfoy. — Você, filhote de cobra, não se mova fora das minhas vistas. Oliver, fique de olho nele.
— Por que eu seguiria ordens de uma sangue– Bervely lhe deu um olhar severo e Draco se calou, de cara feia. — Que seja. Não é como se eu estivesse ansioso para andar por essa festa patética, mesmo.
***
— Acredite ou não, eu não estou aqui para interromper sua diversão — Bervely informou quando elas entraram em uma das celas, sob os olhares curiosos dos estudantes mais próximos, que por conta do disfarce e do feitiço do velho distintivo tinham dificuldade em reconhecer Bervely. — Não precisa ficar toda alvoroçada.
— Eu não estou “alvoroçada”. Barbas de Merlin! — A garota respirou fundo e se aprumou, recuperando a compostura. — Eu devo informá-la que tenho permissão de McGonagall para usar as masmorras e não estamos fazendo nada fora das regras da escola. Não quero nenhuma confusão, Black, mas eu juro por Merlim…
Bervely fez um gesto com a mão, para que ela diminuísse o volume da revolta.
— Eu sei. Eu estou aqui justamente para garantir que nenhuma confusão aconteça.
Katie ergueu uma de suas sobrancelhas finas para ela.
— E por que isso seria necessário?
— Há boatos de que alguns sonserinos estão planejando algo contra a sua festa. Snape me deixou no lugar dele hoje, então fique grata, porque ele não teria a sensibilidade de se infiltrar em um vestido curto para garantir a segurança de vocês. As providências dele teriam sido bem mais drásticas.
Katie abriu a boca e fechou um par de vezes, a imagem de Snape em um vestido curto queimada para sempre em suas retinas.
— E quanto a Malfoy? Porque eu estou bem certa de que ele era um dos sonserinos tentando causar problemas, da última vez que organizamos uma festa.
— Não se preocupe com Draco, vou ficar de olho nele.
Katie soltou uma expiração longa e contrariada. Sonserinos infiltrados não era um dos itens em sua lista.
— Certo. Que seja. Não é como se eu tivesse muita escolha, não é mesmo?
— Não, não é como se você tivesse — Bervely assentiu, um sorriso de satisfação estampado em seu rosto, por Katie ter chegado àquela conclusão brilhante por si mesma.
* * *
Bervely encheu um copo longo de delírio fumegante e voltou para a cela em que conversara com Bell. Era um bom lugar para observar a festa sem ser vista, semioculta pela iluminação faltante, depois que espantara todas as fadinhas para fora. Precisava admitir, a festa de Bell não parecia terrível. Mesmo que a decoração fosse um pouco demais para o seu gosto, com todos aqueles corações e purpurina e vermelho-vivo, e a seleção de bebidas fosse sofrível – três caldeirões tamanho cinquenta, um com cerveja amanteigada, um transbordando de ponche de amortentia e um borbulhando com o infame delírio fumegante.
Bervely não conhecia a canção que fluía de uma vitrola no lado oposto do salão, enfeitiçada para tocar aqueles pratos trouxas enormes que ela nem imaginava como eram capazes de guardar música, para começo de conversa. A canção estava longe de ser o tipo de música clássica que ela crescera ouvindo na Mansão Malfoy, mas era… animada. Não que ela fosse dançar, nem nada. Infiltrações tinham limite.
— Isso é uma tortura — resmungou Draco ao seu lado, miserável desde o primeiro minuto e sem se abster à respeito. Ele tinha se recusado a beber a bebida azul que Bervely trouxera para ele, e ao invés disso se sentara enfezado entre os almofadões, resmungando impropérios a cada cinco segundos.
— Por que não vai dar uma volta? — Bervely sugeriu. — Veja se acha algo suspeito, alguma coisa que pareça envenenada na mesa de petiscos.
Ele lhe lançou um olhar cético. Bervely enfatizou sua expressão.
— Estou falando sério.
— Não vou dar uma volta, todo mundo aqui me odeia.
— Isso nunca incomodou você antes.
Draco bufou e se levantou, de má vontade.
— Não sei porque você acha que eu não vou envenenar a bebida deles. Olhe para essa escória. É deprimente, eles parecem tão indignos, ouvindo essa música trouxa e se sacudindo feito diabretes engaiolados.
Bervely não viu nada indigno, só um monte de adolescente se divertindo e, em diversos casos, se pegando dentro das celas cheias de almofadas fofas e luz de velas. Houvera um tempo em sua vida que ela pensara do mesmo jeito que Draco, mas agora sabia ser pura perda de tempo. A juventude era curta, e logo ele estaria mergulhado de cabeça em dramas maiores do que ser persona non grata em festas de escola.
De certo modo, ele já estava.
— Se chama “curtir a vida”. Você devia tentar, um dia desses.
Draco bufou com descrença.
— Olha só quem fala, a maior aspirante de Severus Snape de que essa escola já ouviu falar.
Draco deixou a cela antes que Bervely o azarasse. Ela pegou o seu copo de delírio fumegante da mesinha flutuante e deu um gole longo. Quando aquela bebida se tornara tão doce? Fez uma careta, baixando o copo. Esperava, pela a sua sanidade mental, que Daphne e Zabine tentassem logo o seu terrorismo, para que ela pudesse retornar ao conforto dos seus aposentos o mais cedo possível. Não tinha mais idade para aquelas festas. Estava morta de cansada de todas as aulas do dia, além do mais, queria ver se ainda conseguia falar com Regulus pelo espelho, antes de ele sair para caçar…
— Em nome do Merlin sapateante, você quase me deu um ataque do coração quando entrou por aquela porta, sabia?
Oliver Wood cruzou o portão da cela, o tom brincalhão, uma caneca de cerveja amanteigada numa mão. E lá também estava a barba rente, os ombros largos e o sorriso fácil de sempre. Bervely se recostou na parede fria de pedra atrás dela, cruzando os braços em frente ao corpo.
— Você nem devia estar aqui para morrer do coração, Oliver. Me explique de novo por que vejo você dentro dessa escola com uma frequência alarmante, para quem não é mais um aluno?
Oliver sorriu e aceitou a pergunta como retórica. Ele fez um sinal para o banco da cela, coberto de veludo vermelho.
— Posso?
Bervely assentiu. Oliver se sentou ao seu lado, bem à vontade. Vestia jeans escuros e um cardigã grosso, marrom claro, que combinava com o castanho do seu cabelo e dos olhos e fez Bervely pensar em sorvete de caramelo.
— Não que seja da sua conta, mas fui chamado para fazer um bico em Hogwarts, efetivo imediato.
— Como é? — Ela olhou para ele de relance. — Que bico?
— Madame Hooch pediu licença para tratar de assuntos pessoais. Parece que a sobrinha dela foi uma das vítimas de Godric’s Hollow e que ela tem alguns sobrinhos-netos órfãos para tomar conta.
— Ah — Bervely franziu. — Que horror.
Oliver assentiu.
— Vou assumir as aulas de voo do primeiro ano e apitar os jogos do campeonato das casas como um favor para Minnie, até que ela arranje um substituto permanente.
— “Minnie”? — Bervely zombou, olhando-o de relance, antes de voltar os olhos para a festa através das grades de metal.
— Não preciso mais chamá-la de “excelentíssima professora McGonagall” agora que saí da escola. Somos amigos.
— Me parece que ela está abusando dessa amizade. E quando à sua posição no United? Não precisam mais da sua magnificência quadribolística no time?
Oliver encolheu os ombros, desviando os olhos para a sua cerveja.
— Não sou assim tão insubstituível. E desse jeito, fico mais tempo com Katie.
— Hum. Sei — Bervely assentiu, sem saber por que a ideia de Oliver estar no castelo a deixava tão inquieta. Ele aproveitou a pausa para espiá-la de novo, sorrindo de alguma piada interna que lhe ocorrera. Bervely se virou, incomodada. — Qual a graça?
— Eu reconheço esse vestido, sabia?
Bervely estava usando uma das poucas peças remanescentes de sua adolescência que tinha trazido consigo do chalé dos Tonks. Ela o tinha usado em seu primeiro encontro com Oliver: cinema de dinossauros, cachorro-quente no pão e chocolate no quarto de Oliver. Uma queimação de nostalgia seguiu a lembrança; era como se tivesse acontecido no dia anterior, não há anos.
— Fico surpresa de que se lembre — foi tudo que conseguiu dizer. Oliver soprou, rindo.
— Ah, sim senhora, eu me lembro.
Bervely bebeu outro longo gole de delírio a fim de manter a boca ocupada. Oliver bebeu de sua caneca de cerveja e eles ficaram quietos, observando a pista de dança por um tempo. Bervely identificou Anne dançando com os amigos, Creevey e Lovegood. “Dino Thomas”, parado nas imediações da mesa de bebidas, tentava disfarçar, mas mal conseguia tirar os olhos dela. Bervely bufou baixinho, se perguntando se ela fora tão óbvia naquela idade, quanto aqueles dois cabeçudos.
Oliver acompanhou a direção do seu olhar e fez um gesto com a caneca para Anne.
— A pestinha está crescendo rápido, não é?
— Demais — Bervely exalou. — A despeito dos meus esforços para mantê-la uma peste pequena para sempre.
Oliver deu risada, finalizando a própria bebida e a colocando na mesinha flutuante.
— Dança comigo, Rose?
Bervely encarou a mão estendida dele, uma inundação de sentimentos conflitantes pressionando-lhe o peito. Nostalgia, afeição e saudades. Ela fez que não com a cabeça, estreitando os olhos para o gesto.
— Sabe muito bem que eu não danço.
— Anda, larga de ser besta. Sei que você é melhor do que isso.
Ele manteve a mão, e Bervely deu uma olhada para o salão. Bell gesticulava com impaciência para um trio de alunos da Corvinal, perto da vitrola. Ou eles tinham feito alguma coisa errada, ou não tinham feito algo certo, difícil saber.
— Não acho que “Katie do time” vai gostar de ver você dançando comigo.
— Pare de chamar ela assim. Katie do time já superou você faz tempo.
Bervely mordeu a língua para não perguntar nada de que fosse se arrepender, e aceitou o convite.
* * *
— Quer ir dar uma volta? — Harry murmurou no ouvido de Anne, quando ela se aproximou do caldeirão de ponche de amortentia para reabastecer o próprio copo. — Conheço um ou outro canto fora de vista nas masmorras, se quisermos desaparecer por um tempo.
Anne sorriu, mas balançou a cabeça em negativa.
— Ainda não. Durante a banda, quando todo mundo estiver distraído.
— Vai ter uma banda essa noite? — Harry perguntou, surpreso. Ela indicou Katie e um trio de corvinais há alguns metros, conversando com as cabeças juntas.
— Mike fez uma banda amadora com Theo e Antônio — ela explicou. — Eles até que são bons, prometi que ia ficar para vê-los tocar, mas podemos sair no finalzinho. Eu trouxe a capa da invisibilidade em minha bolsa — ela completou com um sorriso travesso.
Harry teve que se controlar para não beijá-la por cima do caldeirão de ponche. Ele fez, no entanto, uma careta retroativa para o comentário.
— “Mike”? Vocês são próximos?
Anne assentiu, usando a concha para pescar cerejas no caldeirão.
— Sim, somos amigos.
— Mas não se depender dele, não é?
— Ciúmes não lhe cai bem, Dino — Anne caçoou, aproveitando para alfinetar: — Já perdeu Gina de vista de novo?
— Ela desaparece o tempo todo — ele disse, sem culpa, achando a cabeça flamejante de Gina perto da mesa de petiscos. — Mas acho que está se divertindo.
Anne o espiou por baixo dos cílios, bebericando o ponche agora cheio de cerejas flutuantes.
— E você, está se divertindo?
— Já tive sonhos mais divertidos do que essa festa.
Anne riu, quase se engasgando com um pedaço de cereja no processo.
* * *
Gina esquadrinhou a mesa de petiscos tentando decidir por onde começar; Katie pegara pesado na seleção encomendada da cozinha. Bandejas de vários andares exibiam pilhas de bolinhos de arco-íris, biscoitos de chocolate e caramelo, entremeadas por baldes de pirulitos açucarados e unicórnios de jujuba. Balões de algodão doce de todas as cores flutuavam acima da composição, presos por fios de açúcar e se desviando de uma ou outra fadinha que passava zunindo, para não se derreterem.
— Mais comida do que você já viu na sua vida inteira, não é Weasley?
Gina ergueu os olhos para a figura desdenhosa de Malfoy do outro lado da mesa, recostado à parede, as mãos nos bolsos das vestes negras formais demais para a ocasião, a pura imagem da arrogância platinada e detestável. O que Malfoy estava fazendo na festa? E, porque ele parecia mais malpassado do que o normal?
— Sim, Malfoy, eu sou pobre e não tenho comida em casa. De fato, como o couro dos meus sapatos para sobreviver, isso nos dias bons — ela respondeu numa voz plana, depois completou com desprezo: — Quem foi maluca de trazer você como acompanhante? Por te dar um convite, eu sei que Katie não te deu.
Malfoy se desconcertou-se por um segundo, mas se recompôs rápido.
— Ninguém da sua conta.
— Seja quem for, obviamente já cansou da sua cara, ou você não estaria espreitando sua próxima vítima por detrás da mesa de comida — ela zombou, capturando um balão de algodão doce no ar. Draco assistiu, com um ar de desprezo escandalizado, Gina destacar um punhado de algodão doce e enfiá-lo na boca todo de uma vez.
Gina saboreou o doce de olhos fechados, ignorando o olhar de Malfoy. Draco pigarreou para reafirmar a sua presença.
— Weasley, você não foi comida por um dragão no verão, ou algo assim?
Gina abriu os olhos e ergueu o cenho para ele, a boca cheia de açúcar derretido.
— Eu fico ao mesmo tempo desgostosa e preocupada que uma barata albina como você esteja tão por dentro das fofocas da minha vida.
Draco estreitou os olhos cinza-grafite.
— Mas você foi, não foi?
— Talvez. Por quê? — Gina enfiou outro punhado de algodão doce na boca, sentindo-o derreter na língua, sem nenhuma preocupação em ser educada na frente da doninha albina. — Também vai pedir para ver a minha cicatriz?
— Você tem uma? — Perguntou ele. A ausência do insulto na frase a alarmou, e Gina se forçou a engolir, com uma careta.
— O que é que há de errado com você? Digo, mais errado do que o normal?
Draco se aprumou, remontando sua dignidade e não respondeu. Gina enfiou o último pedaço de algodão doce na boca, cerrando os olhos com suspiro. Ah, o açúcar. Quase tão bom quanto o bife sangrento que ela vinha desejando nos últimos tempos, mas que os elfos de Hogwarts se recusavam a fazer.
Quando abriu os olhos, Malfoy infelizmente ainda estava lá.
— Como ele era?
— Como era o quê? — Gina perguntou com distração, dando uma olhada para a pista de dança e se perguntando se devia voltar, ou se seria melhor beber alguma coisa antes. Viu Dino conversando com Johanne Black por cima do ponche. Melhor dar mais um tempo.
— O dragão que mordeu você — Draco esclareceu. Só não soou debochado, nem mesmo bêbado. Gina considerou uma resposta malcriada, mas realmente, quem tinha lhe perguntado algo assim, até agora? Todo mundo só queria saber sobre a mordida, ou ver a cicatriz horrenda que esta deixara para trás.
Ela fez contato visual com Malfoy, de propósito, para responder. Era o mínimo que aquela pergunta merecia.
— Incrível. A criatura mais bonita que eu já vi.
— De qual espécie? — Draco quis saber. A postura continuava indiferente, as mãos nos bolsos, a expressão vaga beirando o desinteresse, mas Gina podia ver nos olhos cinzentos de Malfoy que ele estava morto de curiosidade. Então Malfoy gostava de Dragões? Muito meta da parte dele.
— Foi um Amuleto da Sorte. Albino, ainda por cima — ela disse, sem conseguir evitar o sorriso com a lembrança. — Branco puro, crista azul, olhos da cor de tempestade.
Fascinação surgiu no rosto de Malfoy, tornando-o uma pessoa diferente da peste odiável que infernizara a sua vida, dos seus amigos e dos seus irmãos nos últimos cinco anos.
— Eles são muito raros, não são?
— Só nasce um a cada geração. Raramente são vistos por olhos humanos.
— Bem — Malfoy zombou. — Você teve sorte.
— É. Que sorte a minha, quase ser rasgada ao meio por um dragão raro — Gina devolveu, sarcástica. Draco ergueu os ombros pontudos, os lábios quase inexistentes se curvando no que poderia ser um sorriso, se Draco Malfoy fizesse esse tipo de coisa.
— Ouvi dizer que há jeitos piores de ser quase quase rasgado ao meio.
Gina franziu para o comentário. Ela pegou um bolinho e deu uma última olhada para ele.
— Sinto muito por sua mãe, Malfoy. E vê se se cuida, você parece que foi pisoteado por um dragão.
Ele franziu as sobrancelhas quase brancas para o comentário. Gina se afastou da mesa, mas Draco perguntou, por cima da música:
— Foi você, não foi?
Gina se virou. Benditas perguntas vagas.
— Foi eu o quê?
— Foi você, na lareira, em Grimmauld — ele acusou. — Procurando por Potter.
— Uau, você só percebeu agora? Você é meio lento, Malfoy.
Draco ficou olhando a Weasley caçula afastar com aquele cabelo obsceno e aquele decote mais obsceno ainda, todas aquelas sardas marcando a sua pele até onde a vista podia alcançar, e imaginou como a cicatriz dela se pareceria.
* * *
— Me diga onde você dormiu a noite passada — disse Oliver em seu ouvido, se inclinando para transpor a música alta.
— Como é? — Bervely disse, os olhos se alargando. Ele deu risada.
— É o nome dessa música. Nirvana.
— Ah. Certo.
Era uma canção arrastada, cantada em grunhidos. Bervely fez o seu melhor para seguir Oliver no ritmo lento da melodia.
Minha garota, minha garota
Não minta pra mim
Diga-me onde você dormiu noite passada
Nos pinheiros, nos pinheiros
Onde o sol quase nunca brilha
Eu tremi a noite toda
— Sua destreza corporal melhorou desde a última vez que dançamos. Me lembro de você massacrando os meus pés na nossa formatura — ele zombou, perto o bastante do seu ouvido para não precisar mais alterar o volume da voz.
— Não me lembro de ouvir você reclamando — Bervely retrucou com um sorriso atravessado, sabendo que aquilo era mais provocação do que a verdade.
— O amor é um bom anestesiador, eu suponho — ele disse, com um sorriso atravessado.
Bervely sorriu contrafeita, um bolo em sua garganta. Como Oliver podia achar uma boa ideia remexer aquelas lembranças?
— Eu era louco por você, não era? — ele meneou a cabeça, descrente de si mesmo. — Ah, Rose. Rose.
Minha garota, minha garota
Onde você vai?
Eu estou indo aonde o vento frio sopra
Nos pinheiros, nos pinheiros
Onde o sol quase nunca brilha
Eu tremi a noite inteira
— Quem sabe se você repetir o nome dela uma terceira vez, não consegue conjurá-la — Bevy sugeriu com uma nota de deboche. Ele riu, balançando a cabeça.
— E eu preciso? Ela está aqui, com o vestido e tudo. Tem ideia de como isso é louco? Eu acho que o meu cérebro está prestes a explodir.
— A sua namorada tem quase essa idade, isso não faz a sua cabeça explodir?
— Kate fez dezoito esse mês — ele corrigiu, mas suspirou. — Eu sei que ela é nova. Acha que eu não sei? Eu estou esperando, Rose. Estou dando o tempo que ela precisa, para se decidir ou… mudar de ideia sobre nós. O que vier primeiro.
— É, parece mesmo que você está. Como andam os planos de casamento, por falar nisso?
A expressão dele se tencionou, mas mesmo assim Oliver continuou a conduzindo com gentileza através da música. A mão dele ardia através do seu vestido, e Bervely se perguntou se sairia dali com uma queimadura no formato dos dedos de Oliver. O cheiro dele era como ela se lembrava, quente e apimentado, como o de coisas que derretem na boca.
— É, sobre isso. Katie quer que seja no verão, fim de julho ou começo de agosto.
— Uau — Bervely soprou, impressionada. Aquilo era em alguns meses.
— Pois é. E eu estava pensando… estava pensando se você consideraria comparecer.
Ela quase parou de dançar, mas Oliver insistiu em fazê-la se mover e seguir o balanço agora quase automático do corpo dele, no ritmo das batidas mais espaçadas da música que a vitrola grunhia.
O marido dela era um homem trabalhador
A quase uma milha daqui
A sua cabeça foi achada em uma roda de trem
Mas seu corpo nunca foi encontrado
— Você quer que eu vá ao seu casamento?
— Você consideraria? — ele perguntou, esperançoso.
— O que Katie do time acha disso? Porque se você me perguntar, eu acho bastante inapropriado.
Oliver buscou os olhos dela, teimoso.
— Por quê, Rose? Por que seria inapropriado? Depois de tudo que passamos na época de escola, achei que éramos amigos.
— Não somos amigos, Oliver. Sua língua já esteve dentro da minha boca mais vezes do que esteve na de Katie, sem falar de outras partes suas. Não vejo por que inferno na terra ela me aceitaria na lista de convidados.
Ele deu sorriso atravessado para o comentário.
— Espere aí, nós fomos namorados? Eu não lembro da Rose daquela época admitindo isso!
Bervely estreitou os olhos.
— Não comece.
— Nunca é tarde demais para uma admissão retroativa — ele provocou. — Considerando que ela está fazendo uma aparição hoje, e tudo mais.
— Vá para o inferno.
Oliver riu, o peito se sacudindo. A risada dele reverberou pelo corpo dela com a proximidade. Bervely respirou fundo. O vocalista agora gritava por sua garota perdida na noite, a urgência dele lhe enviando arrepios pela coluna.
Minha garota, minha garota
Não minta pra mim…
Me diga, onde você dormiu a noite passada?
— Essa música não termina nunca?
— Venha para o meu casamento — Oliver insistiu, inclinando-se tão perto do seu ouvido que o hálito morno dele fez sua pele formigar. — Me deixaria muito feliz.
— Isso é afortunado, considerando que essa será a sua última noite na terra, se depender da futura senhora Wood.
— Katie não te odeia. Ela entende que você foi parte importante da minha vida.
— Mesmo? A sua noiva é muito madura para a idade — Bervely zombou, o coração agora batendo tão forte que competia com as batidas da música.
— Agora você entende porque estou apaixonado por ela.
…nos pinheiros! Nos pinheiros!
Onde o sol quase nunca brilha
Eu tremi a noite inteira.
A música terminou. Oliver a soltou, e Bervely teve que verificar se ainda confiava nas pernas para lhe sustentarem. Ela deu uma olhada geral para o salão, mas Bell não estava à vista. Ademais, todos os adolescentes hormonais ali dentro se encontravam vivos e inteiros, senão um pouco descabelados. Teriam Greengrass e Zabine desistido de sua retaliação? Isso, ou Draco tinha se enganado sobre o plano dos colegas.
— Promete ao menos pensar no assunto? — Oliver insistiu, com a típica cara de cachorro querendo petisco. Bervely assentiu, capaz de pensar com mais clareza agora que seus corpos não estavam mais enganchados.
— Prometo.
Ele abriu um sorriso radiante e estalou um beijo em sua bochecha.
— Obrigado, Rose. Significaria muito pra mim.
Bervely voltou à sua cela, o coração quente. Ao ouvir Oliver professar a sua infame paixão por Katie do time, tudo que ela conseguira pensar foi em como seria ter alguém que se sentisse assim ao seu respeito. Não Oliver, necessariamente, mas... alguém.
A imagem de um certo vampiro com a mania de velar seu sono e escutar suas aulas da gaveta veio à tona, mas ela a enviou de volta aos confins da sua mente. Apesar de todo o flerte, o seu tio vampiro prosseguia bem fora do seu alcance.
* * *
A banda formada por Michael Corner, Antônio Goldstein e Terêncio Boot subiu ao palquinho conjurado no meio do salão circular sob os aplausos entusiasmados dos seus colegas de casa, introduzida por Anne. Harry aplaudiu junto com os demais, apesar da queimação que voltou a lhe morder as entranhas ao se ver diante de mais uma parte da vida de Anne sobre a qual ele não fazia a menor ideia.
— Senhoritas e senhores — disse Anne, na imitação de microfone trouxa, enfeitiçado com um Sonorus. Sua voz tremeu um pouco, mas ela pigarreou e a firmou com um sorriso ligeiramente nervoso. — É com prazer inenarrável que eu apresento a primeiríssima banda mágica de grunge-rock de Hogwarts, Os Senhores do Ouriço! Com os seus… Téo — ela apontou para o mais rechonchudo dos garotos, sentado atrás de uma bateria. Téo fez um aceno com a cabeça, tocando a aba do boné cravejado de tachinhas. — Tony… — Antônio Goldstein, loiro e baixinho, ergueu o polegar para a pequena multidão, segurando uma guitarra na outra. — E Mike — Miguel corner colocou a língua para fora, fazendo um hang loose com a mão erguida. Ele o mais alto dos três garotos, o cabelo preto comprido e os lábios cheios, os olhos azuis cintilando de empolgação. — Uma salva de palmas para os Senhores do Ouriço!
Os trinta e poucos adolescentes presentes bateram palmas e assobiaram, devidamente embriagados e felizes depois de vários copos de ponche ou delírio fumegante. O trio começou a tocar uma música agitada. Anne pulou do palco e, ao passar por Oliver, bateu a palma da mão na dele.
— Eu sou a madrinha da banda — explicou ela, se enfiando de volta entre Harry e Colin Creevey. — Ajudei eles com as músicas para hoje e tudo.
Harry franziu, tentando dizer algo inteligente.
— Eu pensei que você gostava dos Beatles, não de… grunge?
— Eu gosto de um monte de coisas, Har– ela tossiu. — Dino.
Por sorte, Colin não estava prestando atenção na conversa. O garoto assistia Miguel Corner cantar, a boca meio aberta, como que hipnotizado.
Miguel gemia no microfone enfeitiçado sobre… uma caixa em formato de coração? Harry se distraiu da letra da música. Anne tinha encostando o ombro ao braço dele, movendo o corpo no ritmo, escondida pela escuridão. Todas as velas tinham se apagado e todas as fadinhas reluzentes tinham migrado ao palco, sobrevoando a cabeça dos meninos, pulsando no ritmo da música. Harry deslizou uma mão para a cintura dela, encostou o rosto em seu cabelo e respirou fundo. Anne se tencionou, cobrindo a mão dele com a sua e apertando de leve.
— Me diga quando quiser ir — Harry murmurou perto do ouvido dela, descobrindo que não tinha o menor interesse nos Senhores do Ouriço.
— Me encontre no corredor da saída em uns dois minutos.
* * *
Harry esperou Anne sumir de vista, depois comentou com Colin que ia procurar um banheiro e seguiu por um caminho diferente do que ela tinha ido, dando a volta no grupo, cuidando em ficar nas sombras. Antes que pudesse alcançar a saída pelo caminho mais longo, uma garota enfezada e ligeiramente familiar barrou o seu caminho, como que nascida do chão de pedra.
— Onde pensa que vai, Thomas?
Harry a reconheceu com atraso.
— Bervely? Por que você está disfarçada de adolescente?
— Porque minha vida é uma recorrente piada, o que você acha?
— Você veio aqui pra vigiar a gente? — Harry quis saber, desconfiado e já começando a se irritar.
— Você muda o couro, mas o egocentrismo continua incrustado, não é, Garoto Que Se Acha? Pode ir dando meia volta, você e Anne não estão indo para lugar nenhum que não seja os seus respectivos dormitórios, quando essa festa terminar.
— Você não pode obrigar a gente a ficar — ele protestou. Bervely-adolescente estreitou os olhos até que eles fossem dois riscos perigosos em seu rosto:
— Não, mas eu posso dar aos dois uma detenção por estarem fora da cama depois do toque de recolher, no minuto em que pisarem fora da festa.
— Ótimo, vá em frente — Harry desafiou, tentando se desviar dela. Bervely ficou mais séria e mais grave, crescendo diante dele.
— Thomas, não me faça azarar você.
Eles foram interrompidos por um grito agudo, vindo de algum ponto da aglomeração de alunos atrás deles. Miguel parou de tocar com uma exclamação de surpresa no microfone.
— Alguém faça alguma coisa, ele está tendo um treco!
Mais exclamações de surpresa e confusão vieram do agrupamento de alunos. Miguel deixou o palquinho para se juntar à aglomeração lá no meio. Bervely e Harry giraram de volta, tentando entender o que estava acontecendo, Harry sacando a varinha do bolso.
— Eu juro que não fiz nada com ele! — disse a voz de Astória, estridente de medo.
— Cuidado! Atrás de você! — Alguém advertiu, e então…
— QUEM FOI A PESSOA INSANA QUE TROUXE UMA COBRA PARA A FESTA, PELO AMOR DE MERLIN?
Um vão se abriu no meio do grupo, as pessoas recuando em passos erráticos. Harry, abrindo caminho pelos colegas, conseguiu ver a cobra em questão. Feita de metal reluzente, deslizando de onde alguém – Neville— tinha caído. O garoto se contorcia no chão, a mão segurando o pescoço, o rosto ficando roxo. Sua garganta produzia um som borbulhante de engasgo, uma espuma branca fluindo de sua boca aberta, buscando por ar. Astória, ajoelhada ao lado dele, tentava ajudá-lo.
A cobra metálica se ergueu no ar, armando o bote diante de Miguel Corner. Harry abriu a boca para gritar, mas o feitiço de Bervely chegou primeiro, passando por cima do seu ombro.
— Impedimenta!
Só que ao conter a serpente, o feitiço também a transformou em duas. E então, cada duplicata se transformou em mais duas. Um piscar de olhos e dezesseis cobras metálicas ondulavam no chão aos pés deles, deslizando para todo lado na direção de tornozelos. A multiplicação era como um truque de espelho, rápida demais para olhos humanos acompanharem. O vão de alunos se expandiu, os demais tentando se afastar das trinta e duas… sessenta e quatro… cento e vinte tantas serpentes metálicas que se alastravam em sua direção, sibilando e reluzindo à luz das fadinhas cintilantes, que agora sobrevoavam o ar como loucas, emitindo zumbidos de furar os tímpanos.
Harry, que tentava seguir o caminho contrário dos colegas para chegar até Neville, se lembrou de onde tinha visto a primeira das cobras mais cedo. No pescoço de Astória. Daphne até emprestou uma jóia de família para ela usar hoje.
— Ele está morrendo! — Astória gritou, os olhos arregalados de histeria paralisante.
Ninguém pareceu ouví-la através das fadinhas enlouquecidas; nem quem tentava se salvar, nem quem tentava atingir as cobras com feitiços defensivos e como, consequência, aceleravam a sua multiplicação.
Harry chegou aos dois, pulando uma série de serpentes no caminho. Já eram tantas agora que começavam a deslizar umas por cima das outras, tilintando como moedas. Harry se virou e viu uma dúzia delas tentarem subir pelas pernas de Hermione e serem dispersadas – e multiplicadas – por feitiços de repulsão furiosos da garota. Outras se arrastavam para o palco, buscando por um horrorizado Terêncio. Antônio tentava ajudá-lo, chutando-as com as pontas das botas de combate.
— SAIAM! — Harry ordenou, irritado, para as serpentes que se amontoavam no seu caminho, o impedindo de chegar até Neville. — SAIAM, SAIAM, SAIAM!
As serpentes obedeceram, abrindo caminho para Harry, que chegou até Astória e Neville e caiu sobre os joelhos. Os olhos de Neville se reviravam nas órbitas, o rosto se tornando um tom preocupante de roxo escuro, ruídos de asfixia escapando de sua garganta.
— Precisamos levar ele para a enfermaria! Anda, Astória, me ajuda aqui! — Harry gritou sobre a cacofonia atrás deles.
Astória, muito pálida, ajudou Harry a erguer Neville. As serpentes, que agora formavam montanhas reluzentes e cintilantes de prata, foram abriram caminho para Harry, como se repelidas por uma força magnética oposta, à medida que ele gritava para saírem do caminho.
Havia gente no chão, mas era difícil ver porque as fogueiras tinham sido apagadas para o show e as fadinhas em pânico faziam a luz oscilar e piscar como uma série de flashes estroboscópicos. Harry tropeçou em alguma coisa sólida, e reconheceu o cabelo volumoso e castanho. Hermione.
— SAIAM DE CIMA DELA! DEIXEM ELA EM PAZ!
O bolo sólido de serpentes se dispersou de cima de Hermione por tempo suficiente para Harry puxá-la para cima. A garota, trêmula, segurava o braço machucado. Rony não estava mais à vista.
— Fique atrás de mim — ele disse para ela, arrastando o peso morto de Neville com dificuldade, Astória ajudando pouco, lentificada pelo horror da coisa toda.
— Estamos trancados, alguém trancou o portão por fora! — A voz de Katie se destacou dos gritos da multidão de alunos mais à frente. Atrás de Harry, o monte de serpentes já cobria o chão por completo, se acumulando em pilhas movediças cada vez mais altas, precipitando-se para o grupo compacto na frente da porta. Ele ia detê-las – sabia que as cobras iam lhe obedecer, ele podia impedi-las de continuar atacando, ele achava… mas Hermione o segurou pela camisa, os olhos largos em advertência.
— Pare. Eles vão saber que é você, seu ofidioglota cabeçudo!
— POR AQUI! — Bervely gritou de um ponto mais à esquerda da entrada, onde havia um corredor escondido entre duas celas. — ANDEM, POR AQUI! TEM OUTRA SAÍDA!
Ela segurou a porta aberta, aliviada de que tinha conseguido se lembrar da senha. Já tinha passado por aquela área das masmorras há muito tempo, quando precisara escapar da escola para uma missão de resgate.
Quem ainda estava de pé tentou seguir a direção da sua voz. Bervely fez como pode para abrir caminho para eles, com feitiços de repulsão que só tornava o bolo de serpente mais denso. Mais adiante, Oliver tentava fazer o mesmo, abrindo caminho para os estudantes passarem.
— Não deixem elas seguirem vocês! — Bervely gritava para os alunos à medida que eles saíam para o exterior do castelo, sustentando um feitiço escudo à porta. Ela ficou aliviada ao ver Draco e Anne passaram intactos.
Pouco a pouco, a maior parte do grupo foi saindo, incluindo Potter e Astória, arrastando um inconsciente Neville Longbottom.
— Quem está faltando? Quem ficou lá dentro?
— Rose — Oliver arfou, vindo lá de dentro, ofegante. — Você viu Katie sair? Perdi ela de vista.
— Não — Bervely balançou a cabeça, olhando para dentro. Só conseguia ver montes altos de serpentes deslizando umas pelas outras como pilhas de espaguete metálico.
— Acha que conseguem levar ele para a enfermaria? — perguntou Harry mais adiante, deixando Neville na grama gelada, ao lado de Rony e Astória.
Astória assentiu, o penteado desfeito, o rosto branco.
— Por que elas obedeciam a você? O que você estava dizendo a elas?
— Agora não, Astória — Harry olhou ao redor, ansioso. — Droga, onde está Hermione? Ela estava bem atrás de mim!
Ele viu Rony a alguns metros, se aproximando deles com horror nos olhos, seguido de Luna e Gina.
— Hermione ainda não saiu, eu vou voltar lá — Rony disse, mas Harry o segurou pela manga da camisa para impedí-lo.
—- Não, você ajuda Astória com Neville, eu vou tirar ela de lá.
Rony o encarou com confusão por um momento, então seus olhos se arregalaram com compreensão tardia e incrédula.
— C-certo.
Harry, sem esperar mais, se aproximou de onde Bervely estava, contendo a pilha de cobras cada vez mais alta que obstruia o corredor com um feitiço escudo.
— Me deixa entrar — Harry disse, depois se virou para as cobras, enfurecido. — Saiam da frente, suas coisas asquerosas!
Só que o que saiu de sua boca foram uma série de sibilos sinuosos e estalos. Bervely o olhou com assombro, mas abaixou o seu escudo para que ele passasse. As cobras abriram uma trilha estreita de chão livre. Harry segurou a varinha acesa, sem hesitar em dar um passo adiante para a câmara peçonhenta e escura, Bervely seguiu logo atrás dele.
* * *
Cinco vítimas inconscientes nas camas da ala-hospitalar. Neville Longbottom, Katie Bell, Justino Flich-Fletcher, Anna Abbott… Madame Pomfrey não parava de lhe fazer perguntas incisivas, num tom que parecia implicar que tudo aquilo era responsabilidade dela.
— Srta. Black, preciso saber a espécie da serpente! E preciso que informe o professor Snape imediatamente para que ele comece a preparar um antídoto! O Sr. Longbottom já está severamente hipóxico, ele não vai aguentar muito tempo… senhorita Black, está me ouvindo?!
Bervely voltou à tona à menção irritada do seu sobrenome, tentando pensar através do zumbido em sua cabeça.
— Severus não está no castelo — ela disse com apatia.
— Bem, se ele não retornar imediatamente, vou ter estudantes muito mortos, muito em breve!
— A professora McGonagall — Bervely arfou, tentando não deixar o pânico dominá-la. — Ela deve poder ajudar…
— Minerva também não está na escola. Ela foi visitar parentes trouxas na Irlanda, deixou o castelo há pouco. Só está comunicável por coruja, e mesmo que ela estivesse aqui, ela não é a especialista em antídotos!
Potter voltara nas masmorras e trouxera consigo uma das serpentes, em um pote de vidro. Potter, na pele de Dino Thomas, mas com os olhos verdes queimando com ferocidade.
Teria sido bem pior, não fosse por Potter. Se Potter não tivesse ido na frente, abrindo caminho entre as serpentes e ajudado Bervely e Oliver a arrastarem os quatro estudantes desacordados para o lado de fora.
— Você! — disse-lhe Pomona, apontando para Bervely um dedo acusatório. — Você é a coisa mais próxima de um alquimista que temos no momento. Srta. Black! Acha que pode produzir o antídoto a tempo?
Ela lhe empurrou o pote com a cobra prateada se retorcendo lá dentro.
A voz de Snape retumbou em sua cabeça. Pode lidar com isso para mim, Bervely?
— Eu acho… — Bervely engoliu. — Preciso de um par de horas. E alguns pares de mãos.
— Leve os que estão atazanando os meus pacientes, todos eles se puder!
Bervely pisou para fora da salinha apertada adjacente à ala hospitalar. Vários pares de olhos em diferentes níveis de angústia olharam para ela, muitos dos alunos que tinham escapado intactos, estavam ali acompanhando os colegas feridos.
— Você — ela apontou para Potter — e você — completou, para Anne. — Comigo. Masmorras.
Draco, separado muitos metros de qualquer outro aluno, lhe olhou contrariado. Bervely se aproximou dele e sussurrou:
— Fique de olho em Astória. Não a deixe voltar ao salão comunal.
Ele torceu o nariz.
— Por que tenho que ficar de babá? Eu posso ajudar com o antídoto!
— Eu já tenho toda a ajuda de que preciso.
Bervely olhou para o fim da enfermaria, de onde Oliver lhe lançou um olhar desamparado, ao lado do corpo roxo e imóvel de Katie. Havia um pedido mudo nos olhos dele. Faça alguma coisa. Bervely engoliu em seco, deixando a masmorra na companhia dos dois adolescentes, sob o olhar traído de Draco.
— Não foi Astória — disse Potter, no minuto em que pisaram fora da enfermaria. — Foi aquela irmã dela, Daphne. A cobra era um colar amaldiçoado, Daphne que emprestou…
— Eu sei, Potter — Bervely o interrompeu, andando o mais rápido que suas pernas permitiam.
— E você não vai atrás dela? — Ele perguntou, revoltado.
— Não vejo a utilidade disso, agora.
— Mas ela precisa pagar por isso!
— Tudo ao seu tempo. Se eu for atrás de Greengrass agora, todos os seus amigos vão morrer naquela enfermaria, é isso que está querendo?
Harry deixou escapar um som indignado da garganta, que passava longe de ser um argumento, mas acompanhou em silêncio pelo resto do caminho.
Uma vez no laboratório de Severus, ela usou a habilidade de Potter de manter a serpente imóvel e coletou uma amostra do veneno de suas minúsculas presas metálicas.
— Anne, prepare a base para um debridamento — disse, entregando a amostra do veneno para ela. — Se lembra de como fazer isso?
Anne assentiu, se adiantando para uma das mesas de trabalho e puxando uma bandeja para colocar o que ia precisar. Um caldeirão de vidro tamanho cinco, pipetas de sucção, solução desnaturante… Já tinha ajudado Bervely a debridar substâncias um milhão de vezes no Instituto, e se conseguia quando não enxergava, com olhos funcionais não deveria ser mais difícil.
— Potter, armário de ingredientes. Traga o kit para a identificação de elementos orgânicos, prateleira quarenta e sete.
Ele assentiu e sumiu para dentro do armário de ingredientes, então trouxe o que Bervely precisava. Ela já tinha em mãos um caldeirão tamanho doze de ouro puro sendo aquecido debaixo de uma chama de fogo azul-esverdeado.
— Anne, quanto tempo ainda?
Anne suava na frente de uma série de pipetas de vidro, que ia preenchendo com cuidado cada vez que uma camada distinta emergia da mistura de veneno e solução desnaturante.
— Quase lá. Uns.. cinco minutos?
Harry ajudou Bervely a distribuir a série de ingredientes que a ajudariam a identificar o que compunha o veneno da cobra. Anne trouxe, como prometido, o resultado do debridamento em uma série de frasquinhos minúsculos.
— Consegui separar em sete partes — Anne disse. — Não restou nada no caldeirão, então acho… acho que é isso.
Bervely recebeu os frasquinhos e começou a tarefa de identificar cada componente, decidir o seu contraposto e balancear os seus efeitos, para então combiná-los no que resultaria em um antídoto não só eficaz contra os efeitos do veneno, mas que não fosse tóxico por si mesmo.
Ela trabalhou sem pausa por quase uma hora, fazendo gotas minúsculas reagirem com outras substâncias e observando os seus efeitos, tomando notas e fazendo cálculos. Ocasionalmente pedia a Harry algum ingrediente extra, ou que lavasse o caldeirão de ouro para o próximo passo. Anne ficou por perto, etiquetando em uma letra caprichada cada elemento à medida que Bervely o identificava, e os alinhando em ordem em uma bandeja metálica, as mãos suando. Embora já tivesse ajudado Bervely com aquele tipo de trabalho no Instituto, nunca fora uma situação de vida ou morte.
Harry já tinha visto Bervely ensinar e às vezes corrigir alguma poção que ele estava prestes a arruinar, mas nunca a vira produzir nada daquele jeito. Ela não piscava, e às vezes nem parecia respirar. Seus movimentos eram tão preciso que pareciam ensaiados. Não havia hesitação, nem pausa. Nem mesmo durante a poção de reposição de sangue para Malfoy ela parecera tão concentrada.
— Ela é bem intensa quando está trabalhando em poções, não é? — Ele sussurrou para Anne, numa rara pausa em que conseguiram parar lado a lado perto do balcão de trabalho.
— Só quando é alquimia — Anne sussurrou de volta. — É tipo, a droga dela. Ah, meu Merlin, você esqueceu de tomar sua poção!
— Quê? — Harry se alarmou, levando a mão ao cabelo, que espetou a sua palma de volta, caótico, no lugar do cabelo rente e crespo de Dino. — Droga!
Ele tateou os bolsos atrás da sua garrafinha de polissuco, mas não a encontrou.
— Não está comigo. Deve ter caído no meio da confusão.
— Espere aqui — Anne disse. Ela foi até a irmã e sussurrou alguma coisa em seu ouvido. Bervely respondeu sem desviar os olhos da mistura que amassava em um pequeno recipiente de pedra. Anne voltou.
— Ela disse que tem mais no laboratório dela, já pronta para consumo. Vamos, rápido.
Eles deslizaram para fora da sala de Snape, até o corredor vazio que o separava dos aposentos de Bervely. Anne abriu a porta dizendo a senha mágica, Antimônio. Quando Harry entrou atrás dela, o seu corpo inteiro formigava, sinal que os últimos efeitos da polissuco se dispersariam rápido.
— Acha que alguém percebeu alguma coisa? — ele perguntou, preocupado. — Não sei quanto tempo faz que o efeito começou a passar.
— Não, acho que não — Anne disse, adiantando-se para a área de trabalho de Bervely, onde havia um caldeirão cheio de poção, esfriando. — É esse aqui, ande, pegue um copo ali na pia.
Harry se adiantou para a pia, mas não encontrou nenhum copo, só béquer de medidas. Ele pegou um e ofereceu para Anne, que o encheu do líquido denso, cinza-esverdeado.
Harry o recebeu, torcendo o nariz para o cheiro familiar de lama da poção, que ainda estava morna. Ia beber um gole, mas Anne colocou uma mãe sobre a sua.
— Espere um segundo.
— O que foi?
— Nada, eu só… — ela hesitou, corada, e arriscou um sorriso. — É bom ver você sendo você, só isso.
Harry sorriu de volta. Estivera tão preocupado com Hermione e os outros e com o seu disfarce, que se esquecera o quanto tinha desejado tempo sozinho com Anne nas últimas semanas. E ali estavam. Sozinhos enfim, sem ser dentro de um sonho nebuloso, num armário minúsculo e abafado.
Harry não soube quem se moveu primeiro, mas em um segundo eles estavam nos braços um do outro, se devorando num beijo cheio de línguas, calor e afobação. Anne entranhou os dedos no cabelo dele, Harry a agarrou pela cintura e puxou para mais perto, apreciando a maciez, o cheiro e tudo mais que tinha a ver com o corpo dela pressionado contra o seu. Anne suspirou contra os lábios dele. Os pulmões de Harry começaram a arder. Mas foi Anne quem quebrou o beijo, ofegante. Harry sentiu os lábios pulsarem.
— Droga, precisamos voltar... — ela disse, os olhos embotados.
— É. Eu sei — ele concordou, mas a puxou de volta para a sua boca, com a certeza de que o mundo ia se acabar se não o fizesse. Tinha esperado por aquilo a noite inteira. O mês inteiro. Cada beijo que eles trocavam em sonho o fazia acordar com mais vontade da coisa real. E enquanto a maior parte dele estava preocupada com a sobrevivência dos amigos, havia aquela, irracional e faminta, que não queria manter as mãos fora de Anne por mais tempo.
A porta do laboratório de Bervely se abriu com um estalo. Os dois saltaram para longe um do outro, mas era só Jinx. O familiar de Bervely deu um miado acusador, e Harry não precisava falar língua de gato para saber que ele estava ali a mando da dona.
— A poção — Anne o lembrou, corada. O peito de Harry ardeu em receio. Ele não queria ser Dino de novo, não quando Anne parecia muito mais empolgada em beijá-lo se ele não estava sob o efeito de polissuco.
— É, certo — Harry disse, de má vontade. — Suco de Dino Thomas, hmm. Maravilha.
Ela deu uma risadinha nervosa, ajeitando o cabelo desalinhado. Harry pediu forças a Merlin ou a Deus ou a quem quer que estivesse no comando, para conseguir manter as suas mãos e boca longe dela pelo resto daquela noite, e sorveu um longo e desagradável gole.
* * *
Já passava de meia noite quando Bervely retornou à enfermaria, acompanhada dos seus ajudantes e trazendo consigo cinco frasquinhos idênticos em uma bandeja, cada um deles preenchidos com um líquido amarelo translúcido.
— Então? — Pomona veio correndo para ela no minuto em que a viu entrar.
Bervely entregou a bandeja para a curandeira, as mãos firmes.
— Fiz o melhor que eu pude, mas não tenho como testar o efeito de antemão. Como eles estão?
— Nada bem. Longbottom entrou em coma há meia hora. Bell não está muito longe disso. Coloquei o restante para dormir, para desacelerar a disseminação do veneno.
Harry foi para onde Rony estava, ao lado de uma Hermione adormecida. O braço esquerdo dela estava roxo escuro, do pulso até o ombro, o lugar onde a cobra picara vermelho escuro, com a aparência de uma queimadura. Rony deu uma olhada rápida na direção de Harry, o rosto sério e chateado.
— Espero que tenha uma ótima razão para ter se escondido da gente esse tempo todo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Apesar do tom dele, Harry foi atingido por uma onda de alívio. Não precisaria mais mentir para Rony.
— Ela me contou, antes de Madame Pomfrey colocá-la para dormir — Rony explicou. — Que ouviu você falando em língua de cobra, mas que já estava desconfiando, antes disso.
— É mesmo? — Ele se sentou ao lado de Rony, exausto demais para negar, justificar ou se defender. — Como ela desconfiou?
— Não sei. Eu mesmo não tinha a menor ideia. Mas Hermione vê coisas que ninguém mais vê, não é?
Harry assentiu em silêncio, observando Madame Pomfrey e Bervely prepararem as doses de antídoto em seringas de vidro.
— Quem mais sabe? Você contou para a Gina? É por isso que vocês andam tão colados?
— Não — Harry negou rápido. — Ninguém mais sabe…. quero dizer, a não ser por Johanne e Bervely.
Um vinco surgiu na testa de Rony, mas ele reprimiu um comentário quando Hermione gemeu de dor em seu sono induzido. Ele apertou a mão dela e os dois esperaram, mergulhados num silêncio impotente, até ela relaxar de novo.
— Sinto muito, Rony. Sinto mesmo.
— Ao menos vai explicar por que decidiu se esconder da gente?
Harry apertou os lábios.
— Ainda não. É para a segurança de vocês, entende? Quanto menos gente souber dos detalhes…
Rony deu um suspiro exasperado e não disse mais nada, mas Harry se conformou com o silêncio. Preferia ter Rony odiando-o por estar vivo do que sofrendo com a possibilidade de que ele estivesse morto.
Madame Pomfrey se aproximou deles para administrar o antídoto em Hermione, enterrando a agulha enorme em seu braço machucado. Rony olhou para o outro lado, sem soltar a mão dela.
— Ela vai ficar bem — Harry disse, quando a curandeira foi para o próximo paciente, Anna, na cama ao lado. — Bervely sabe o que está fazendo.
— Se você diz — o ruivo retrucou, de cara fechada.
Anne se aproximou deles, cobrindo um bocejo com a mão e estremecendo de leve.
— Deve demorar algumas horas para o antídoto fazer efeito. Vocês deviam ir descansar.
— Não. Vou ficar aqui para quando ela acordar — Rony anunciou, a voz irredutível.
— Eu também — decidiu Harry. Não ia sair de perto dos recém-recuperados amigos antes de ter certeza que Hermione ficaria bem, e que Rony não o odiava.
Anne saiu por alguns minutos e voltou, munida com xícaras de chá quente e um par de cobertores roubados de outras camas.
— Aqui — ela disse, entregando uma xícara e um cobertor para cada. — É melhor se aquecerem, a noite vai ser longa.
* * *
Os primeiros raios de sol atravessavam os vitrais da enfermaria quando Pomona encontrou Bervely sentada perto das janelas, a testa apoiada contra o vidro, cochilando. A curandeira tocou seu ombro de leve e ela despertou com um pulo.
— Está funcionando, querida. Você fez um bom trabalho. Provavelmente salvou a vida deles.
O alívio que a assomou quase derrubou Bervely da cadeira. A curandeira lhe deu um sorriso afetuoso.
— Vá descansar. Eu cuido deles daqui para frente. Vão estar como novos em um piscar de olhos.
Bervely se levantou, o pescoço protestando de dor com a posição em que caíra no sono. Ela piscou para a enfermaria invadida pelas primeiras luzes da manhã e viu o Weasley caçula, Dino-Potter Thomas e Anne cochilando, cada um em uma cadeira, ao redor da cama de Granger. A cabeça de Anne estava apoiada no ombro de Potter, que tinha um braço passado ao redor dela, e eles dividiam um dos cobertores da enfermaria. Bervely suspirou, fazendo uma nota mental de lidar com aquele problema num futuro próximo.
Ela olhou para a cama de Longbottom. O garoto continuava inconsciente, parecendo mais morto do que vivo, mas ela achou que a coloração arroxeada de sua pele tinha desbotado um pouquinho. Astória tinha insistido em ficar e, após vencer Pomona na teimosia, caíra no sono em outra cama, altura na qual Bervely liberou Draco para voltar ao seu salão comunal, na condição de que ele prometesse não ir tirar satisfações com Daphne.
Bervely pretendia esperar por Severus antes de decidir o que fazer com Daphne Greengrass. Agora, tudo que ela queria era a sua cama.
— Rose — uma voz rouca chamou da sua esquerda. Bervely olhou para a última cama perto das janelas, onde Katie Bell dormia, e encontrou Oliver ao lado dela, olheiras fundas sob os olhos opacos. Bervely se aproximou da cama e ele a abraçou apertado antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, murmurando em seu ouvido. — Obrigado. Obrigado por salvar a vida dela.
Ele a soltou e Bervely se firmou, lutando pelo seu equilíbrio.
— Eu só fiz a minha obrigação, Oliver.
— Você criou um antídoto em tempo recorde sob pressão inimaginável. Obrigação ou não, isso foi a coisa mais incrível que eu já vi. Não que eu esteja surpreso, nem nada. Sempre soube que você tinha isso em você.
Bervely soltou uma risada fraca. Não tinha resposta para nada naquilo. Não sabia se concordava com metade, mas Oliver sempre tivera uma tendência a superestimá-la.
— Boa noite, Oliver. Quer dizer, bom dia.
Bervely se arrastou de volta às masmorras depois disso, deixando as pernas fazerem o caminho que já conheciam de cor. Depois das sucessivas injeções de adrenalina e do breve cochilo na enfermaria, estava exausta, mas seu cérebro não conseguia parar quieto.
Uma vez em seu quarto, ela sentou-se na própria cama, as mãos indo direto para o espelhinho no criado-mudo. Hesitou, imaginando que seria inútil tentar falar com ele àquela hora da manhã, mas tentou mesmo assim.
— Regulus? Você está aí?
Sua voz soou instável aos seus ouvidos. Bervely esperou, os molares cravados no interior das bochechas, o peito queimando em antecipação. Quando o rosto dele surgiu no espelho, ela percebeu que estivera segurando a respiração e a soltou de uma vez só.
— Aí está você — ele disse, a voz entusiasmada, ao menos até ler a expressão no rosto dela. — O quê há de errado?
Ela balançou a cabeça, sem querer preocupá-lo.
— Nada. Não tem nada errado — afirmou, desconfiando que sua voz quebrada e exausta lhe contradizia. — Só queria... acho que só queria ver você antes de ir para a cama.
Ele a contemplou com uma expressão insondável, antes de assentir.
— Estou feliz que me chamou. Como foi a sua noite?
Bervely delirou sobre que tipo de magia ela precisaria para atravessar o espelho e sair do outro lado, do lado dele. Como, na noite em que Narcisa morrera, a única coisa que a prevenira de se desfazer em pedaços fora a presença de Regulus, os braços dele em torno do seu corpo, ancorando-a na cama e ao corpo dele. Desejou que pudesse tê-lo aquela noite também, e nas noites que se seguissem. Então estremeceu, presa entre a vontade e a impossibilidade de que aquele desejo se realizasse.
Percebendo que estivera em silêncio por segundos demais, pigarreou para o que pretendia ser um tom casual de conversa.
— Foi meio estranha.
— Estranha como?
Ela hesitou, bem consciente de que horas eram e de que o dia dele terminava quando o dela começava.
— Devo preveni-lo de que é uma longa história.
Ele sorriu, imperturbável.
— Eu sou imortal, lembra? Tenho todo o tempo do mundo para suas histórias.
(Continua…)
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