A Canção de Morgana
41 Estilhaços de Almas e de Espelhos
Notas iniciais
heroes are made, not born
love is destiny, not faith
you're forever, not timeless
— unknown
Harry acordou com a impressão de que tinha ouvido o seu nome. Piscou, mas olhos fechados ou abertos não fizeram diferença nenhuma. Ele tentou entender se estava deitado ou de pé, mas descobriu que não tinha nenhuma sensação. Não passava de uma consciência flutuante.
Eu morri?, se perguntou, intrigado. Ele se lembrava de uma dor e o eco da dor ainda estava lá, mas não era como a dor verdadeira, a que se sente quando se tem um corpo, que vinha acompanhada de receio pela sua própria integridade física. Era só… informação.
Ele tinha sido machucado. E agora ele estava morto.
Não era tão ruim quanto imaginara.
Harry?
O chamado, de novo. Harry não queria atendê-lo. Ele estava tão confortável. Lugar nenhum. Coisa nenhuma. Não era assim que devia ser? Só uma consciência e nada mais, e se quisesse voltar a dormir, ele poderia…
Harry! Por aqui, ande.
Harry descobriu que podia ver. O que ele viu foi um longo corredor sem portas. O chão e o teto eram de um branco ofuscante.
O garoto achou que era melhor se mover se queria saber o que havia no fim do corredor.
Isso mesmo, Harry, continue andando. Siga o som da minha voz.
Harry continuou. No fim do corredor havia algo – ele. Encontrou o seu reflexo refletido na superfície de um espelho estilhaçado. Um coelho felpudo de orelhas longas pulou para fora do espelho e cheirou os seus sapatos (só então Harry notou que estava usando sapatos).
Senhor Orelhas, pensou Harry, sem fazer caso do porquê de o coelho estar ali. O seu reflexo fragmentado no espelho era mais interessante, e Harry se voltou a isso. Estava usando roupas – jeans sujos de lama, o suéter tricotado à mão pela Sr. Weasley, com o leão bordado no peito. Havia uma mancha de sangue fresco na altura em que o seu coração estaria. Harry apalpou a si mesmo, mas não sentiu nada no lugar que o sangue deveria estar.
Que engraçado, ele pensou.
Passou os dedos pelas rachaduras. Os pequenos cacos resistiam em cair, grudados ao fundo do espelho como que por magia. A sua mão não atravessou para o outro lado.
— Receio que não esteja mais funcionando.
Harry se virou e achou Alvo Dumbledore parado ao seu lado. Portava vestes longas, tão brancas como o chão e o teto do corredor, e que se confundiam com o seu cabelo e a sua barba. O diretor parecia contemplativo, observando o espelho estilhaçado.
Harry não tinha certeza se aquela era uma memória ou a sua imaginação. Já tinha parado ao lado de um espelho com Dumbledore, antes, ou aquilo ainda ia acontecer?
— Professor, onde é que estamos?
— Ah, bem — Dumbledore se balançou em seus pés, ligeiramente desconcertado. — Estamos em minha consciência, Harry. Desculpe ter de trazê-lo para cá sem perguntar antes, mas precisávamos de um lugar seguro para conversar.
Ah, pensou Harry. Quanto mais tempo passava, mais sólido ele se sentia. De repente, o ponto em seu peito que em seu reflexo sangrava começou a incomodar. Harry o esfregou de novo, chateado.
— Estamos trabalhando nisso — disse Dumbledore, capturando o movimento do garoto pelo canto do olho. — O seu coração foi atingido e você perdeu uma boa quantidade de sangue, mas Remus agiu rápido o suficiente, levando-o até Mme. Pomfrey. Fawkes tem cedido algumas lágrimas para ajudarem em sua recuperação. Estamos otimistas.
— Eu não entendo, professor. Eu estava em Godric’s Hollow. Os dementadores… — A medida que falava, Harry foi se lembrando. A revoada de centenas de dementadores atacando o vilarejo, Sirius quase sendo beijado por três deles, Bervely o levando embora consigo, então Harry e Remus correndo para se juntar ao resto dos aurores e da Ordem para defender a vila… — O que aconteceu? Onde está todo mundo? Sirius, Remus e Nymphadora?
— Vivos, remediando os danos — disse o diretor. — No momento, estou mais preocupado com você, Harry.
— Pensei que o senhor disse que está otimista.
— Quanto à sua recuperação, eu estou. Mas, a longo termo…
Harry notou que Dumbledore parecia muito cansado e muito velho. Ele aparentava os cento e quinze anos de idade que a descrição da figurinha do seu sapo de chocolate lhe atribuía.
— Professor, esse é o espelho que estava na casa dos meus pais?
— Sim — disse o diretor. — Ou melhor, é a versão dele que eu guardei em minha memória. Eu fui vê-lo esta manhã, para tentar compreender o que aconteceu com você. Como você poderia estar, ao mesmo tempo, em Godric’s Hollow e em Glastonbury, e como poderia ter morrido diante da entrada de Avalon e também estar sangrando, mas vivo, na enfermaria de Hogwarts.
— É… o espelho me duplicou — Harry explicou, embora supunha que a essa altura Dumbledore já tivesse adivinhado essa parte. — Então, ele está morto, o Reflexo? Por isso o espelho está quebrado?
— É uma boa explicação — assentiu Dumbledore, pensativo, o que só serviu para deixar Harry mais confuso.
— Como aconteceu?
— Perdão, Harry? — O professor se virou, distraído com os próprios pensamentos.
— Como foi que ele morreu?
— Voldemort, naturalmente. Ele os encontrou na entrada de Avalon, enquanto tentavam me alcançar. Foi você quem enviou o seu Reflexo e a Srta. Black até mim, eu imagino?
O coração de Harry deu um giro completo de horror.
— Anne! Ela também não…? Voldemort….?
— Ele a poupou — o diretor o tranquilizou. — Ela está se recuperando em Avalon, a salvo por agora.
— Se recuperando do quê? — quis saber Harry, com crescente alarme. Mas o diretor não pareceu ouvir a sua pergunta ou, se ouviu, decidiu ignorá-la.
— Venha comigo, Harry. Quero lhe mostrar uma coisa.
No momento em o diretor acenou, o espelho estilhaçado desapareceu da frente deles e o corredor se prolongou como se tivesse vida própria. No final dele, Harry viu um prado verdejante e um céu luminoso, num lugar impossivelmente claro e convidativo que lhe lembrou um dia perfeito de verão. O aroma doce de maçãs frescas chegou até eles, trazido por uma brisa morna. Harry sentiu os pelinhos do seu braço se arrepiarem.
Dumbledore o encorajou a prosseguir, o coelho em seus calcanhares.
Harry notou, na campina vasta e coberta da grama mais brilhante que já vira, a silhueta de duas pessoas caminhando lado a lado. Ele reconheceu o professor Dumbledore e Hildegard; o primeiro em longas vestes roxo-prateadas, e a segunda em sua pesada túnica de mangas largas, o cabelo cor de cinzas caindo solto ao longo das costas, até quase os tornozelos.
— Professor! — Harry exclamou. — Eu me esqueci! A sua sobrinha, Hildegard, ela era parceira de Voldemort! Ele colocou a marca negra nela, e ela fez uma…
— Uma horcrux. Eu sei, Harry — Dumbledore assentiu, atento à cena como se fosse a primeira vez que a via.
No que agora Harry entendia ser uma lembrança, ele viu Hildegard e Dumbledore andarem até um pequeno lago de águas muito paradas e escuras. Ela fez um sinal para que ele fosse primeiro, e Dumbledore se ajoelhou à beira do lago. Por detrás dele, ela fez movimentos complexos com a sua mão, que causaram um arrepio involuntário em Harry. Ele viu alguma coisa aparecer na água – o próprio Dumbledore, ele… mas então, após um sopro suave de Hildegard na têmpora do tio, as imagens começaram a aparecer na ordem contrária. Dumbledore se levantou num movimento estranho, contrário ao que tinha feito para se debruçar no lago. Olhou para Hildegard, depois se ajoelhou… o lago mostrou de novo o próprio Dumbledore, Harry… então retrocedeu a visão e tudo se repetiu outra vez.
— Professor? — Harry perguntou, com receio do que via.
— Um encantamento de tranca temporal — ele explicou, seu rosto se contraindo tão rapidamente que, antes que Harry pudesse detectar aquela emoção, já não estava mais lá. —, inventado pela própria Hildegard. Sendo desconhecido e inesperado, não tive a chance de me defender.
O dia de verão se dissolveu enquanto a Hildegard da lembrança deixava o professor Dumbledore para trás, trancado em seu próprio ciclo de poucos segundos, e retomava pelo caminho do qual tinham vindo, agora apressada.
— O que aconteceu depois? — Harry perguntou, sem conseguir conter a sua ansiedade com a cena que presenciava.
— Ela esperou o seu Reflexo e a Srta. Black aparecerem no topo do monte Tor, pois sabia que estavam vindo. Sabia o que traziam consigo.
— O diário dela? — Harry perguntou, ainda confuso. — Era uma armadilha, então? Foi ela que colocou o diário em Godric’s Hollow para que eu encontrasse?
— Não. Hilde não planejou nada disso. Foi o acaso, o mesmo acaso que colocou a horcrux de Hildegard nas mãos de sua mãe há muitos anos. O acaso que ela tem perseguido, desde que eu contei a ela sobre a profecia que liga você à Voldemort. Só que Hilde preferia chamá-lo de destino.
— Professor, o que isso quer dizer? Por que Hildegard esteve perseguindo o… destino?
— Desculpe, Harry, eu estou divagando — Dumbledore deu outro pesado suspiro. Ele parecia necessitado de descanso, na opinião do garoto. — Hilde estava tão interessada em recuperar o seu próprio diário quando estava em ouvir a Canção da qual você e a Srta. Black tinham tomado conhecimento, mais cedo. Eu creio que você a ouviu enquanto visitava as ruínas da casa dos seus pais, em Godric’s Hollow?
Então Harry entendeu. Dumbledore estava se referindo à canção que ele ouvira na memória que Anne lhe mostrara. A memória de Lily cantando para ele, que emergira quando Anne tocara em seu berço.
— Se importa em compartilhá-la, Harry? Ainda não tive a chance de ouvi-la por completo.
Harry se preocupou de que teria de cantá-la, mas não foi preciso. No minuto que ele pensou na canção, eles estavam na lembrança. O seu quarto de bebê os envolveu, com a pintura da floresta em cores suaves cobrindo as paredes, a luz baixa e amarelada do abajur, o berço aconchegante no meio do quarto, o móbile dos marotos girando lentamente…
Lily estava bem diante deles, com o bebê Harry em seu colo. Ela estava bem ali. Se Harry estendesse a mão, poderia tocá-la. A sua mãe o embalava devagar, murmurando os versos daquela canção de ninar engraçada.
“Eu dei ao meu amor esmeraldas
que eram muito admiradas
Eu dei ao meu amor um cão
que merecia um beliscão
Eu dei ao meu amor um beijo
que não fez nenhum estalo
Então eu dei ao meu amor um relâmpago
que lhe causou certo estrago
Eu dei ao meu amor uma chave
para abrir um esconderijo
Dei-lhe também um passarinho
que em sua cabeça fez um ninho
E eu dei ao meu amor esta canção
para lhe mostrar o caminho… "
Dumbledore ouviu com atenção, enquanto Harry assistia Lily. O vermelho do cabelo dela era mais vibrante do que fora na lembrança passada por Anne. As olheiras em seu rosto eram mais escuras, e suas sardas mais visíveis nas bochechas pálidas. A voz dela provocava em Harry um aperto de amor e saudade. Uma saudade de tudo que ele perdera antes mesmo de saber o que significava…
O bebê Harry caiu no sono nos braços de Lily e a lembrança se dissolveu em torno deles, deixando-os de volta no longo corredor.
— O que tem essa canção? — perguntou Harry, tentando ignorar o aperto em seu peito. — Por que é que Hildegard queria tanto ouvi-la?
— Ah, Harry, você não vê? Essa canção fala sobre você, mesmo que tenha sido criada há muitos séculos, antes de você e das várias gerações dos seus antepassados terem nascido. Ela foi passada adiante através de muitas gerações bruxas e trouxas. A mãe de Lily provavelmente cantou essa canção para ela quando pequena, e a avó dela para a mãe dela antes disso, e assim por diante. Canções tem o poder de resistir excepcionalmente bem ao curso do tempo, se adaptando, se moldando e alcançando os ouvidos daqueles que mais precisam delas, especialmente uma criada com magia poderosa, como essa aqui.
— O senhor está dizendo que essa canção foi feita para mim?
— Do jeito que eu vejo, é mais como se você tivesse sido feito para essa canção. Não reconhece os elementos dos versos? Você já se encontrou quase todos eles. Um cão que merecia um beliscão, um relâmpago que lhe causou certo estrago… — disse Dumbledore, olhando sugestivamente para a cicatriz na testa de Harry. — Suponho que as esmeraldas sejam uma referência aos seus olhos… e o beijo… bem, tem que ser a proteção que a sua mãe deixou ao morrer para protegê-lo, não é?
— Então a Canção é uma profecia? — Harry perguntou, embasbacado. — Para mim?
— Eu receio que ela seja mais do que isso. Profecias são o resultado de uma espiada no rascunho do destino, o produto do que já foi decidido pela trama do tempo. Mas essa canção me parece muito mais como uma linha com o poder de tecer o próprio tempo, ou melhor… sete linhas. Uma para cada verso…
— Professor? — Harry não estava digerindo aquela história muito bem. Linhas tecendo a trama do tempo?
— Não me surpreende que Voldemort tenha ficado com medo ao saber que a Canção existia. Há coisas que ele ignora e coisas que ele não respeita, mas até ele sabe que o Destino é uma força que não se deve tratar com descaso.
“Eu lhe disse antes, Harry, que a certa altura no verão passado comentei com Hildegard sobre a profecia que o unia à Voldemort. Hildegard, por conta da sua posição em Avalon, tinha acesso a recursos que poderiam nos ajudar a compreender melhor a profecia. Eu lhe pedi então para espiar o que o seu destino guardava, pois àquela altura, pensei que qualquer nova informação poderia nos beneficiar. Esse pedido foi um grande erro, eu admito. Hildegard viu que você receberia um poderoso objeto em breve, o qual estava atado ao seu destino com um nó de muitos séculos, e que esse nó era parte de uma canção. Uma canção cantada por ninguém menos que a própria Morgana Lefay e por ela costurada na trama do tempo, a fim de alcançar aquele em posição de combater uma força que, ela previu, ameaçaria a integridade da própria magia… nunca se perguntou como surgem os heróis, Harry? Eles não nascem heróis… são criados, de um jeito ou de outro.”
“Hildegard pôde ver apenas a existência da canção, não o seu conteúdo. Mesmo assim ela tentou vir a Hogwarts, me advertir do seu novo conhecimento, mas foi interceptada…”
Harry assistiu outra cena se desenrolar ao fim do corredor, muito mais escura que o dia ensolarado de Avalon. Uma pesada tempestade se formava no céu, sobre um vale entre duas montanhas. De novo havia duas figuras, miúdas em contraste com as escuras montanhas de cada lado.
Voldemort era uma delas, Hildegard a outra. Por algum tempo eles conversaram civilizadamente, mas Harry não podia ouvir o que diziam, suas vozes abafadas pelos trovões e pela chuva. Então ele estendeu sua mão branca para ela, como quem faz um convite, e Hildegard deu um passo para trás.
Voldemort avançou para Hildegard como uma serpente dando o bote, suas mãos espalmando-a nas têmporas, uma de cada lado, antes que ela tivesse a chance de reagir. Mesmo à distância, Harry sabia o que Voldemort estava fazendo.
— Usando legilimência nela, Voldemort tomou conhecimento do que ela sabia. Ao descobrir que a profecia que se quebrou no Ministério era parte de algo muito maior e mais antigo, ele ficou com receio do que isso poderia significar para a sua integridade e recuou em seus planos, ordenando que Bellatrix o deixasse em paz, no dia do seu aniversário. Ele queria ter mais informações sobre o que você receberia, e se era algo perigoso para ele, antes de deixar que você chegasse perto demais.
Harry assentiu. Não tinha como esquecer a sua surpresa quando Bellatrix, prestes a sequestrá-lo no verão, recebera ordens de Voldemort para deixá-lo ir.
— O que Hilde não me contou foi que ela fez um acordo com Voldemort, naquele dia. Ela prometeu que, se ele a permitisse, ela poderia salvá-lo.
— Salvá-lo de quê? De mim? — Harry perguntou com incredulidade.
— Não… de si mesmo. Uma das consequências da legilimência é que ela deixa a mente do legilimente vulnerável. Hildegard aproveitou a oportunidade para investigar a mente de Tom, e viu a escuridão, a solidão e a agonia que ele carrega dentro de si. Ela tomou para si a missão de ajudá-lo, mas para isso precisava reconquistar a confiança dele. Para isso, ela prometeu a ele que lhe entregaria a Canção completa. Desde então, ela esteve trabalhando para descobrir o que a Canção dizia, antes de mim.
Dumbledore fez uma pausa para olhar para Harry. Até ali a sua voz tinha estado relativamente neutra, mas Harry pôde ver dor e arrependimento nos olhos dele.
— Eu sinto muito, Harry. Eu acreditei que Hildegard tinha superado a sua antiga lealdade à Tom. Ignorei o sentimento que ela continuou a nutrir por tantos anos, em segredo. Eu, que sempre assumi Tom como um ser impossível de ser objeto de amor, fui cego para o fato de que o mesmo não se aplicava a Hildegard.
— Hildegard ama Voldemort? — Harry ecoou. Era a coisa mais absurda que ele já tinha ouvido, e repetir em voz alta não ajudava.
— Amava. Venha comigo. Você vai entender.
As paredes brancas do corredor se dissolveram ao redor deles e antes que Harry soubesse, estavam em Hogwarts. Estavam no Salão Principal e era noite de seleção. As mesas das casas estavam lotadas, havia um burburinho animado de início de ano e uma professora jovem, de cabelo loiro brilhante preso num coque apertado, trazia o chapéu seletor e o banquinho para o púlpito.
Uma fileira de primeiranistas miúdos aguardava. Harry olhou para a mesa dos professores e achou Dumbledore – muito mais jovem e sorridente do que o que conhecia – sentado à direita na longa mesa, conversando com uma versão menos enrugada do professor Flitwick.
Havia outro diretor na cadeira central – Armando Dippet, Harry reconheceu. Já o vira antes, nas memórias de Tom Riddle.
Tom Riddle que era, aliás, um dos primeiranistas miúdos na fila. Ele estava sério, os olhos muito negros absorvendo toda aquela maravilha exuberante para o interior de sua mente escura.
Os alunos começaram a ser selecionados um por um, seguidos dos aplausos, das vaias e da balbúrdia costumeira das quatro mesas das casas. Harry não conseguia tirar seus olhos de Riddle, se perguntando se ele estava fascinado, se sentía a magia de Hogwarts como Harry tinha sentido da primeira vez que pisara naquele salão. Era difícil saber, pois não se via emoção alguma em seu rosto sério.
— Dumbledore, Hildegard!
Uma garotinha magra, com cabelo cor de cobre longo e embaraçado, se destacou da fila e começou a andar na direção do banquinho, de nariz empinado. Ela lançou um olhar rápido para a mesa – para Dumbledore, Harry percebeu – antes de se sentar.
— Sonserina! — disse o chapéu sem muito meandro. A mesa aplaudiu. Harry viu o olhar de surpresa no rosto do Dumbledore mais jovem, que ele encobriu rapidamente, endossando as palmas.
— Riddle, Tom!
A seleção de Riddle demorou mais do que a de Hildegard. Harry achou que, como ele, Tom Riddle estava conversando com o chapéu. Teria feito um pedido? Saberia ele alguma coisa sobre a reputação das casas, vindo de um orfanato trouxa?
— Sonserina! — anunciou por fim o Chapéu Seletor.
Tom andou sem pressa para a mesa da Sonserina, achando o único lugar vago ao lado de Hildegard. Harry viu quando ela se apresentou, estendendo a mão, e quando Tom a apertou, muito educado.
— Inseparáveis desde o primeiro dia — narrou Dumbledore ao lado de Harry, sobressaltando-o. Havia certa amargura em sua voz. — Ambos tinham muito em comum. Ambiciosos, orgulhosos e excepcionalmente inteligentes para a sua idade.
— Eu pensei que o senhor tinha dito que Tom Riddle não tinha feito amigos em Hogwarts — Harry se lembrou, de uma de suas aulas anteriores sobre o passado de Voldemort.
— Ah, não me entenda mal, Harry. Não acho que Tom a tenha considerado uma amiga, não no sentido que gostamos de dar à palavra. Hildegard era uma parceira competente de estudos e uma companheira leal, que pouco questionava a moralidade tortuosa de Tom, mesmo naquela época. Ela perdera a mãe ao nascer, e o seu pai, o meu irmão… nunca foi capaz de lhe oferecer o afeto de que precisava, o que a tornou uma criança vulnerável à atenção, mesmo quando vinda do lugar errado.
“Tom fascinava Hilde porque era tudo que, no fundo, ela gostaria de ser. Confiante, independente, impassível. Nada parecia afetar Tom, enquanto Hilde era extremamente sensível e, como toda criança com um passado difícil, tinha as suas vulnerabilidades.”
O salão principal se dissolveu. Harry viu uma série de lembranças de Dumbledore girarem diante deles, como as águas agitadas de uma penseira, e aqui e ali capturou momentos dos dois alunos em Hogwarts. Tom e Hildegard estudando juntos na biblioteca, comendo lado a lado no salão principal, ou mesmo duelando ferozmente em uma aula de feitiços. Diante dos olhos de Harry eles cresceram, se tornando adolescentes orgulhosos e competentes em suas vestes escolares verdes e pratas.
“No início, tive esperanças de que a aproximação entre minha sobrinha e Riddle pudesse beneficiá-los mutuamente. Que uma vez exposto à um modelo de amizade saudável, Tom iria superar os comportamentos destrutivos do passado. E que a confiança e independência de Tom fosse fortalecer Hildegard, ajudando-a a superar as perdas da sua primeira infância. Eu fui ingênuo em meu otimismo, Harry. Quando eu soube o quão longe eles tinham ido com as suas pesquisas extracurriculares, em áreas da magia que nenhum jovem bruxo deveria perseguir sem a correta supervisão, eu tentei intervir… mas já era tarde.”
Harry se viu numa versão mais antiga da ala-hospitalar de Hogwarts. Hildegard estava sentada em uma das comadres, o seu braço esquerdo enrolado em ataduras grossas, o rosto mais magro e o cabelo mais longo e mais embaraçado do que nas outras lembranças. Ela devia ter quatorze ou quinze anos.
Dumbledore também estava lá. Embora Harry não pudessem ouvir o que falavam, dava para perceber que discutiam. O jovem professor Dumbledore fez um movimento em direção ao braço dela e Hilde se afastou protetoramente.
— Isso foi quando Voldemort fez a marca-negra nela? — Harry perguntou, a respiração suspensa, vendo-a lutar contra Dumbledore, recusando-se a mostrar o que havia por baixo das ataduras. Ele nunca tinha visto Dumbledore tão colérico como naquela lembrança.
— Sim — disse o Dumbledore ao seu lado, o cenho franzido enquanto assistia a sua versão mais jovem discutir com a sobrinha. — Eu pedi a ela que se afastasse de Riddle, e quando isso não funcionou, eu mandei uma carta para o meu irmão explicando a situação e implorando que ele intervisse. Um grande erro… como você pode imaginar, a proibição de vê-lo só a tornou mais investida a estar com ele, a venerá-lo como o símbolo de sua resistência ao que considerava uma “interferência abusiva e não-solicitada ao seu livre-arbítrio”.
A enfermaria mergulhou numa densa escuridão e Harry soube que eles estavam avançando no tempo através das lembranças de Dumbledore, em direção àquelas que ele guardava nos lugares mais obscuros de sua memória.
Estavam na sala de DCAT em Hogwarts. Era noite e Hildegard, um pouco mais velha do que na lembrança anterior, chorava. O jovem Dumbledore parecia ser a razão do seu aborrecimento porque ele estava, de novo, discutindo com ela.
“O QUE FOI. QUE VOCÊS. FIZERAM?”
Hildegard escorregou da cadeira e caiu no chão, seu corpo inteiro se sacudindo num choro mudo, o rosto escondido entre os joelhos magros, cobertos pelas vestes escolares.
“Ele não vai ficar impune, Hilde, nem que seja a última coisa que eu faça, eu garanto a você.”
Ele a deixou sozinha na sala. Harry sentiu uma profunda piedade por Hildegard, acompanhada de uma mágoa inesperada daquele Dumbledore que era capaz de deixá-la para trás em tal estado.
— Ele não pagou — disse Dumbledore ao lado dele, a voz pesada. — Tom negou sua participação no artefato de magia negra que eu encontrei na posse de Hildegard, o diário que continha um pedaço da alma dela, como fui saber algum tempo mais tarde. Hildegard foi suspensa de Hogwarts e eu, acreditando que estava cuidando da sua segurança, garanti que ela não pudesse voltar. Convenci o meu irmão a enviá-la para Avalon, onde a linhagem materna dela havia sido educada no passado. Hildegard se recusou a falar com qualquer um de nós por décadas. O diário, que foi confiscado pelo diretor Dippet, desapareceu misteriosamente da escola no mesmo ano que Tom Riddle se formou.
— Mas como foi que ele a convenceu a fazer uma horcrux? — Harry perguntou, tão curioso quanto horrorizado com o desdobramento da história.
— Não acho que ela precisou ter sido convencida. Hildegard era tão curiosa a respeito de magias proibidas quanto Tom… embora penso que o interesse dela fosse essencialmente acadêmico e nem de longe tão inconsequente quanto o dele. Imagino que, quando ele propôs que os dois experimentassem com uma horcrux, ela possa ter oferecido a própria alma, ou tenha sido compelida por ele a tal, sem grande resistência. Lembre-se Harry, desde aquela idade, Tom possuía um dom de persuasão extraordinário.
— Mas como… quem eles… quem eles mataram para fazer a horcrux dela?
— Ninguém. Ao contrário do que se pensa, o encantamento não requer, necessariamente, um sacrifício humano. O assassinato só é parte da receita padrão porque é o caminho mais rápido e garantido de causar o dano necessário à alma do executor, mas existem outros jeitos, mais experimentais, de se partir uma alma humana.
Dumbledore se calou, e Harry esperou. Continuavam no escuro, mas Harry ainda podia ouvir os ecos do choro de Hildegard. Ele percebeu que ela estava chorando não porque estava arrependida do que fizera, mas porque seria afastada de Tom. Porque fora descoberta e seria mandada para longe dele. Porque o perderia…
— Dor. Luto. Culpa. Sentimentos que, intensos o suficiente, podem causar danos profundos à alma de alguém.
Harry teve um calafrio. Dumbledore olhou para ele, se certificando de que estava bem, antes de continuar.
“Após Voldemort ser derrotado por você pela primeira vez, eu consegui restabelecer o meu relacionamento com Hilde. Ela então me revelou o que estou lhe contando hoje: como Tom explorou a culpa que ela sentia pelo falecimento da mãe para realizar o seu intento. Ele fortaleceu em Hildegard a ideia de que ela era a culpada pela morte da mãe, vulnerabilizando-a de tal forma que sua alma se tornou instável e enfim se partiu. Tom então completou a maldição, implantando uma parte da alma fragmentada de Hilde no diário. Ele não previu que o processo fosse provocar em Hildegard uma profunda crise mental, que enfim chamou a minha atenção para o que os dois estavam aprontando.”
Eles estavam de volta à Avalon, a grama impossivelmente elástica sob os seus pés. O ar estava parado, carregado de estática.
— Professor... o que aconteceu quando Hildegard encontrou o meu Reflexo e Anne em Avalon? — Harry perguntou, mesmo que no fundo ele tivesse medo de saber. Aquele ponto em seu peito pinicava, agora mais forte, como se o ferimento pressentisse que se aproximavam da verdade do que o ocasionara.
— Tenho algumas suposições. Suponho que Hildegard tenha chamado Voldemort, usando a sua antiga marca-negra, e que tenha lhe entregado a Canção, na esperança de que ele fosse cumprir a parte dele da promessa e deixar você ir. Ela, é claro, não tinha ideia de que você não era de fato você, e sim um reflexo produzido por um poderoso espelho duplicador dado como perdido há muito tempo.
— Por que ele me deixaria ir, se tudo que ele sempre quis foi me destruir? — Harry perguntou, achando que aquela era uma grande falha no plano de Hildegard.
— Hilde pretendia destruir a Canção, desatando o encantamento que liga o seu destino ao de Voldemort. Libertá-lo, e então curá-lo da escuridão que, na visão dela, o atormentava.
— Como ela podia achar que Voldemort podia ser curado? Depois de tudo que ele fez? Tudo que fez com ela, inclusive!
— Eu já lhe disse uma vez que amor é um sentimento poderoso, Harry — respondeu Dumbledore. — Hildegard sabia disso e acreditava que, se tivesse a oportunidade, ela poderia remendar o que Voldemort destruiu em si mesmo e fazer com que ele fosse capaz de sentir. Ela esperava que, se ele fosse capaz de amar, entenderia as consequências dos crimes que causou e se arrependeria.
— Voldemort sabia desse plano? Não consigo imaginar que ele tivesse qualquer interesse em ser “curado”, professor, depois de tudo que vimos na sua Penseira — Harry disse com profunda descrença.
— Penso o mesmo… acho que Tom está muito satisfeito com o vazio emocional que o permite atuar em seus horrores sem nenhum remorso.
— Mas, se ele acreditasse… ela teria conseguido? Ela poderia ter consertado a alma dele e fazer ele sentir amor?
— Nunca saberemos, Harry. Penso que não há outro alguém no mundo que se importe o bastante com Tom – e tenha o poder necessário – para tentar algo do tipo.
Ainda estavam em Avalon, de novo diante do lago de águas escuras, que agora refletiam um círculo de dezenas de mulheres em mantos brancos. Elas velavam um corpo que fora depositado em um altar feito de pedras brancas muito lisas. Harry percebeu, pelo longo cabelo grisalho cascateando pela lateral de pedra, o nariz reto apontando para o ar e a expressão austera mesmo na morte, que aquele era o corpo de Hildegard. Ele se sentiu subitamente tonto.
— Voldemort a matou?
— Logo após obter a Canção. Ela já não lhe tinha serventia.
— Eu sinto muito, professor. É tudo culpa minha! Se eu não tivesse enviado Anne e o meu Reflexo atrás do senhor, nada disso teria acontecido…
— Não posso imaginar como isso poderia ser menos culpa sua, Harry. Não dessa vez. Não se admoeste.
Ele olhou para cima, para o rosto de Dumbledore, e percebeu com surpresa que uma lágrima escorria por sua bochecha magra. Assistindo ao velório silencioso de sua sobrinha, a Senhora do Lago de Avalon e primeira comensal da morte de Voldemort, ele não fez a menção de enxugá-la.
— A culpa é minha, Harry, e eu devo assumi-la por inteiro. Se eu tivesse ouvido, ao invés de dispensar cada uma de suas tentativas de humanizá-lo aos meus olhos, quem sabe ela ainda estaria viva.
— O senhor não tinha como saber que ela estava agindo com ele depois de todo esse tempo!
— Talvez não… Mas acho que a grande lição aqui é como somos cegos para as falhas daqueles a que mais amamos, não é mesmo?
Avalon se dissolveu. Eles entraram numa versão do escritório de Dumbledore em Hogwarts que era muito parecida com o original, exceto que não havia nenhum quadro dos antigos diretores nas paredes e a janela ampla em arco dava para um dia claro de primavera, embora Harry soubesse muito bem que estavam em pleno inverno.
— Agora, Harry, me escute bem… Voldemort já sabe sobre a Canção de Morgana e provavelmente já desvendou os sete versos. Ele também tem um punhal, que tomou do seu Reflexo naquela manhã. Aquele era o original, eu assumo?
Harry assentiu. Não tinha o punhal consigo quando atravessara o espelho duplicador, de forma que, ao contrário da sua varinha, este não fora duplicado. Imaginava que, do mesmo jeito que o Reflexo havia pegado a sua capa da invisibilidade na mochila quando estavam em Godric’s Hollow, também pegara o punhal e o levara consigo.
— Então a única vantagem que temos sobre Voldemort é que ele acha que você está morto. Ele não sabe sobre o seu Reflexo, portanto acredita que o matou no topo do monte Tor.
— E como isso é uma vantagem, professor? — Harry se virou para Dumbledore, confuso com aquela conclusão inesperada.
— Isso nos dará tempo para achar o último elemento da Canção: o esconderijo do último verso, ao mesmo tempo em que tentamos recuperar o punhal. Se ele achar que você não é mais uma ameaça, não estará preocupado em proteger nenhum dos dois. Mas, para isso, receio que precisamos continuar fazendo-o acreditar que de fato o matou.
— Então eu vou ter que ficar escondido?
— Eu receio que sim. Eu sinto colocar essa carga sobre você no momento, mas eu não pediria se não achasse que fosse absolutamente essencial para o sucesso do nosso próximo passo. Você confia em mim, Harry?
O garoto assentiu, sentindo que Dumbledore já tinha um plano, e que ele diria o que esperava dele no tempo certo.
Harry, Dumbledore e o Sr. Orelhas assistiram em silêncio o sol se pôr através da janela do escritório. Foi um pôr do sol mais espetacular e irreal que Harry já presenciara, com cores que ele nunca tinha visto antes, no mundo real.
— O que acontece agora, professor? — Harry perguntou, curioso.
Dumbledore sorriu com certa tristeza, sentindo que o momento de se despedir estava próximo.
— Agora, Harry, você acorda.
(Continua…)
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