A Canção de Morgana

46 Elixires Analgésicos e Chá de Cogumelo


Notas iniciais
Um obrigadinha especial para minhas duas betas desse capítulo, Grazy e Lari, vocês arrasam! Boa Leitura!

— Deve ser uma chateação ter que beber polissuco o tempo inteiro — Rony disse. A ausência de ressentimento em sua voz deixou Harry aliviado.

— Não é tão ruim, acho que estou me acostumando. Além do mais, é um alívio não ter que ser Harry Potter o tempo inteiro.

Era a tarde seguinte ao ataque das cobras multiplicadoras e Hermione, que estava acordada e bem-disposta desde meio-dia, mas ainda em observação na enfermaria, trocou um olhar rápido com o namorado, um vinco de preocupação entre as sobrancelhas castanhas. Harry achou melhor acrescentar:

— Vocês sabem o que quero dizer, toda atenção e polêmica. Não tenho mais que lidar com isso, na pele de Dino.

O vinco continuou presente no rosto de Hermione. Harry se esticou por cima das pernas de Rony para alcançar um pacote de feijõezinhos de todos os sabores, da pilha que Hagrid tinha mandado para ela ao saber que ela se acidentara. Ao menos o meio-gigante não tinha assado seus famosos bolinhos quebra-dentes, daquela vez.

— Bom, Harry Potter continua recebendo bastante atenção da mídia. Agora estão dizendo que você está sendo secretamente treinado pelo Ministério para deter você sabe quem — Rony comentou, espiando Harry de relance.

— Bem, eu não estou — disse Harry, mastigando um feijãozinho branco que ele tinha esperança de ser de côco. Mas, não… papel-machê.

— E nem por Dumbledore? Não é por isso que ele quer você desaparecido, para quando você estiver pronto, voltar arrasando com tudo?

— Pare de jogar verde, Rony — Hermione o admoestou. — Harry vai contar o que está acontecendo quando ele puder.

Rony lançou um olhar impaciente para Hermione, que retribuiu com outro, incisivo. Harry suspirou. As comunicações não-verbais entre os dois tinham ficado muito mais constantes desde que tinham começado a namorar, e não eram a sua parte preferida daquele relacionamento.

— Eu sinto muito, é sério. Estive morrendo de vontade de me revelar pra vocês o tempo todo, mas Dumbledore me fez prometer que ficaria calado até ele voltar.

— Bem, se Dumbledore o fez prometer, você não devia ter contado mesmo — ela disse com seriedade. Ao lado dela, Rony cruzou os braços e não perguntou mais nada.

Harry esperava um pouquinho mais de insistência, mas Hermione continuou dizendo o quanto eles estavam aliviados em saber que Harry estava bem, e que o resto podia esperar para quando fosse seguro.

— E ainda precisamos garantir que ninguém mais está desconfiando — ela lembrou. — Quem mais ouviu você falar língua de cobra na festa? Muita gente na escola ainda se lembra de que você é ofidioglota, depois daquele incidente no segundo ano.

Ela se referia à quando Harry, tentando impedir uma serpente conjurada por Malfoy de atacar Justino Finch-Fletchley, acabara falando em língua de cobra na frente dos colegas e tornando-se o principal suspeito de abrir a câmara secreta. Bons tempos.

— Astória com certeza ouviu. E Bervely e Oliver, eu acho. Mas, Bervely já sabe do meu disfarce há um tempo, e Oliver só estava de visita...

— Por que é que você contou pra ela? — Rony perguntou, num tom acusatório.

— Eu não contei! Ela está ajudando Snape com a poção polissuco e ligou os pontos… e então contou para Anne. — Harry achou melhor acrescentar, para ficar logo às claras com os amigos.

Quê? Snape devia ter obrigado ela a guardar seu segredo! — Rony protestou. Hermione, no entanto, olhava com atenção afiada para o rosto de Harry, tentando ler nas entrelinhas.

— Anne estava pensando que eu tinha morrido — Harry ofereceu.

— Nós todos estávamos! Bem, mais ou menos, era uma das possibilidades, não era?

— É, mas Anne meio que me viu… morrer. Mais ou menos. Longa história.

Harry tentou pescar um feijãozinho de limão no pacote, usando o gesto como desculpa para não precisar encarar os amigos. Odiava omitir fatos para os dois, depois de todos aqueles anos em que Rony e Hermione tinham sido os seus principais confidentes. O olhar perspicaz de Hermione em sua nuca ainda tentava furar o seu crânio.

— Isso foi em Godric’s Hollow? A gente sabe que foi pra lá que vocês foram — Hermione disse, a voz bem baixa, apesar do abaffiato lançado nas cortinas que cobriam a área de sua cama. — Isso nós arrancamos de Remus. Pobre Remus, perturbamos tanto ele para ter notícias suas. Tudo que ele disse foi que tinha visto você pela última vez em Godric’s Hollow, durante aquele ataque dos dementadores.

— É — Harry confirmou, sem querer revelar mais do que devia. — Eu estive lá.

Os três ficaram em silêncio, Harry tentando convencer a si mesmo de que precisava cumprir a sua palavra para Dumbledore, mesmo que o diretor estivesse lhe deixando no escuro há quase dois meses sobre o seu próximo passo.

— Eu não me preocuparia muito com Oliver, mas você precisa falar com Astória — disse Hermione num tom prático, retomando assunto anterior. —Se ela por acaso ligar os pontos e descobrir que você é você, temos que saber se ela é confiável.

— Eu me apressaria, Astória provavelmente não vai ficar na escola por muito tempo depois do que aconteceu nas masmorras. — Rony completou, sombrio. — Foi ela quem levou a serpente amaldiçoada para a festa, a professora McGonagall veio buscar ela aqui mais cedo, quando você ainda estava dormindo, Mione.

— Não foi culpa de Astória. Foi Daphne, a irmã mais velha, quem emprestou o colar a ela, ouvi Neville falando — Harry defendeu.

— Mas ela diria isso, não é, se as duas planejaram a coisa toda juntas? E se, desde o começo, o plano dela foi se infiltrar entre a gente, conseguir a nossa confiança e então soltar uma coisa venenosa para causar o maior estrago possível? Vocês ouviram, todo mundo está dizendo que a irmã mais velha delas se juntou aos comensais da morte no ano passado.

— Eu não acho que Astória estava envolvida, ela ficou bem desesperada quando Neville caiu no chão, espumando pela boca — disse Harry, indicando a direção onde estava a cama de Neville. O garoto ainda não tinha acordado, mas segundo tinham ouvido da curandeira mais cedo, ele estava reagindo bem ao antídoto de Bervely.

Rony ia protestar – provavelmente argumentar que o desespero de Astória era parte do plano também – mas eles ouviram o rangido que indicava que alguém estava entrando na enfermaria. Os três se calaram, reconhecendo a voz de Gina perguntando sobre Hermione, para além do zumbido baixo das cortinas.

Harry saltou da cadeira como se tivesse molas no traseiro. Os dois olharam surpresos para ele.

— Eu falo com vocês mais tarde. Mione, vê se sai da enfermaria logo, ok?

Harry sumiu através cortina no minuto em que Gina surgiu do outro lado.

* * *

Era a segunda vez que Bervely era chamada ao escritório da vice-diretora aquele dia. Na primeira, após meras quatro horas de sono, tinha sido para relatar a sua versão dos fatos da noite anterior, o que ela fizera entre bocejos. Daquela vez, quando abriu a porta da sala austeramente decorada no primeiro andar, Bervely encontrou quatro adolescentes em diferentes estados de nervos e a própria diretora, sentada atrás da sua mesa, a boca em uma linha reta e rígida quando acenou para que Bervely entrasse.

Daphne Greengrass, alinhada e arrogante, o cabelo loiro preso num rabo de cavalo bem esticado, o uniforme sem um vinco sequer, empertigada na ponta da cadeira logo em frente à McGonagall. Ao lado dela estava a irmã mais nova, Astória, cujo uniforme poderia ter sido pisoteado por um Erumpente, o cabelo preto opaco escapando do elástico como se estivesse se rebelando, e os olhos inchados.

Draco se apoiava contra a parede da esquerda, os braços cruzados e a expressão de quem preferia estar pendurado pelo pescoço em uma corda. Ele ergueu a cabeça quando Bervely entrou, e lhe lançou um olhar feio. Blaise Zabine, no oposto da sala, tinha os braços cruzados e analisava o teto com ar de tédio.

— Obrigada por retornar, Srta. Black — McGonagall disse, quando Bervely fechou a porta atrás dela.

— Sem problemas, professora — Bervely se posicionou ao lado de Draco, sem olhá-lo.

— Daphne — começou a diretora, voltando-se para a sonserina mais velha. — A Srta. Black parece achar que esse objeto, que por pouco não causou a morte de cinco estudantes na noite passada, passou das suas mãos para as da sua irmã sem que ela soubesse de suas propriedades mágicas. O que me diz sobre isso?

Daphne separou os lábios num “o” de ultraje, uma das duas sobrancelhas quase invisíveis se erguendo no rosto como uma seta.

— Não faço ideia de onde ela tirou essa informação, professora — Sua voz era a perfeita combinação de injustiça e inocência forçada. — Existe alguma prova contra mim?

— Você foi ouvida, Daphne. Fale a ela o que ouviu, Draco — Bervely exigiu, sem paciência. Tinha esperado que Snape estivesse de volta àquela altura para lidar com a coisa toda, de forma que pudesse ter o seu sábado livre, e recuperar as horas de sono perdidas na confecção do antídoto.

Draco lhe lançou outro olhar azedo, antes de se voltar para McGonagall.

— Tudo que eu sei é que ouvi Daphne e Zabine planejando fazer alguma confusão na festa. Informei isso à professora Black para evitar problemas, mais tarde.

Daphne fez um barulho soprado de descrença com os lábios, virando o rosto com um quê de indignação incrédula.

— Srta. Greengrass, use suas palavras.

A sonserina mais velha estreitou os olhos para Draco antes de retrucar.

Agora Malfoy quer evitar problemas. Ele não estava tão ansioso assim no Halloween, não é, Draco? Cho Chang que o diga… ah, espera aí, ela não pode mais, porque está morta.

Draco empalideceu. Bervely viu a sombra de medo surgir em seus olhos e desaparecer, num átimo de segundo, por detrás da cara desdenhosa de sempre.

— Típico, Daphne. Você tem alguma prova da asneira que está falando, ou só quer nos irritar o com o som dessa sua voz de gralha?

— Sr. Malfoy, modos com a sua colega. Srta. Greengrass — Minerva interferiu, a voz grave. — Está insinuando que o Sr. Malfoy teve alguma coisa a ver com o falecimento da Srta. Chang? Essa é uma acusação muito grave.

— Estou insinuando que Malfoy deveria se manter fora disso — Daphne sibilou —, se ele sabe o que é melhor para ele.

— Professora — Bervely interferiu, a voz controlada e razoável, como ela já vira Severus quando queria provar um ponto incontestável. — Draco não esteve envolvido com os acontecimentos da noite passada. Ele esteve comigo a noite inteira, ambos fomos à festa para tentar evitar o que quer que Daphne e Zabine estivessem planejando.

— Isso não prova que eu fiz alguma coisa — Daphne reclamou. Draco tinha razão, ela tinha uma voz de gralha. — E digo mais, não é a primeira vez que Draco usa o movimento do colar amaldiçoado! A senhora por acaso já descobriu quem foi que quase matou Katie Bell no início do ano letivo, professora?

McGonagall dessa vez se voltou para a garota com uma irritação inesperada em sua voz:

— Srta. Greengrass, se vai acusar o seu colega de duas tentativas de assassinato para livrar a própria pele, é melhor ter provas do que está falando!

Daphne se encolheu um milímetro. Bervely olhou para Draco, que tentava se manter indiferente. Ele evitou deliberadamente corresponder o seu contato visual. Daphne voltou a se empertigar, respirando fundo e erguendo o queixo, que era quase tão pontudo quanto o de Draco.

— Draco pediu para a gente ajudar ele a contrabandear o colar para dentro da escola em setembro, e quando não fizemos, ele arranjou um jeito de entregar a coisa para Katie Holmes. E na festa de Halloween, ele convenceu a gente a trazer os doces envenenados para dentro da escola.

— Que motivo Draco Malfoy teria para vitimar Katie Holmes, entre todas as pessoas, Daphne? — McGonagall pressionou, aparentemente ignorando a segunda informação. A garota abriu a boca, mas Bervely interviu.

— Professora, desculpe, mas isso é absurdo. Draco não pode ter estado envolvido no incidente com Holmes, ele estava comigo na ocasião.

Minerva fez uma pausa e olhou para ela com dureza:

— Tem certeza disso. Srta. Black?

— Absoluta.

Minerva olhou para Bervely longamente, deliberando. Era a palavra de Bervely contra a de Daphne Greengrass. Pela primeira vez, Bervely ficou feliz em estar na posição de “professora responsável”, e não a “aluna problemática”.

— A irmã mais velha de Daphne é uma comensal da morte — Draco anunciou, quebrando o silêncio, a voz arrastada. — Deve estar mandando Daphne acabar com os nascido-trouxas e mestiços do castelo enquanto tem a chance. E o colar de serpente, não é uma herança de família, Daphne?

Daphne olhou para Draco como se mal pudesse se controlar para não esganá-lo, mas não foi a única. Astória o fuzilou com tamanha intensidade que qualquer um com menos prática em receber aquele tipo de ódio teria se encolhido em uma pequena bola.

McGonagall pinçou a ponte do nariz, deixando uma marca vermelha onde seus dedos apertaram.

— Eu vou precisar averiguar cada uma das suas acusações com muito cuidado, Malfoy, Greengrass. E quanto ao envolvimento do Sr. Zabine…

Blaise abaixou o rosto. Ele estivera examinando o teto e os quadros da sala pela maior parte da conversa, como se a decoração da sala da vice-diretora fosse a coisa mais interessante que já tinha visto na vida.

— Não tenho certeza porque o senhor está aqui.

— Nem eu, professora — ele disse com brandura. Ambos, Draco e Astória, olharam feio para ele.

— Zabine parece ter colaborado com o transporte do objeto para dentro do castelo, professora — Bervely auxiliou, sem conter o tom condescendente. Mal estava se segurando em suas pernas de tanta exaustão.

— Segundo quem, o Sr. Malfoy? — McGonagall olhou para Draco com renovada paciência. — Pergunto mais uma vez, Sr. Malfoy, tem alguma prova, ou devo acreditar apenas na sua palavra?

As narinas de Draco se inflaram, mas ele negou com a cabeça de má vontade.

Bem. Vocês estão liberados, eu os chamarei de novo, se precisar. Mas se eu ouvir uma queixa de que houve confrontação verbal, mágica ou física nos corredores envolvendo qualquer um de vocês, todos serão suspensos. Fora. Você não, Srta. Black.

Bervely esperou os adolescentes saírem, ignorando o olhar de eu disse a você para não me meter nisso que Draco lhe lançou, e ocupou a cadeira que Astória deixara vazia.

— Professora — começou, no segundo que a porta clicou fechada. — Sei que parece difícil saber quem está falando a verdade, mas posso garantir a você que Draco não esteve envolvido nos acontecimentos da festa. Eu mesma me certifiquei de que ele não estivesse, fiquei de olho nele o tempo inteiro.

— O que me faz pensar nos motivos que a levaram a crer que isso seria necessário— disse-lhe Minerva num tom sóbrio. — E não, não é assim tão difícil saber quem está falando a verdade.

Ela abriu a gaveta sob a sua mesa e tirou de lá de dentro um papelzinho verde brilhante, que colocou em cima da mesa. Bervely o reconheceu de imediato como aquele que envolvia um dos drops de limão envenenados com que Draco pretendera matar Dumbledore na noite do Halloween.

Ela tentou não demonstrar isso em seu rosto; o esforço fazendo a sua cabeça latejar.

— Nymphadora Tonks foi até Alvo no dia seguinte ao Halloween. Ela estava desconfiada de que o Sr. Malfoy estivesse envolvido na morte da Srta. Chang, ao saber sobre papel do doce encontrado no bolso dela. Coincidia com doces suspeitos que ela tinha confiscado do próprio Sr. Malfoy durante a festa, e que misteriosamente sumiram de sua posse naquela mesma noite.

— Eu vejo — disse Bervely, mantendo o rosto impassível. Minerva esperou e, quando ela não disse mais nada, tirou um doce igualmente verde-limão, redondo e intacto, da gaveta, depositando-o do lado do papelzinho.

— Isso foi achado no fundo do lago pelos sereianos, nas imediações de onde a Srta. Chang se afogou. O doce nunca foi consumido por ela, e certamente não foi a causa da sua morte. Provavelmente se desenrolou do papel em contato com a água.

Bervely quase engasgou.

— Água, professora? — perguntou, para ganhar tempo. Minvera assentiu.

— O corpo da Srta. Chang foi encontrado boiando no lago por um sereiano, nas proximidades da casa de barco. A causa de sua morte foi afogamento.

Draco não tinha sido responsável pela morte de Chang. Dessa vez ela não conseguiu disfarçar o alívio em seu rosto.

— Então o professor Dumbledore sabia esse tempo todo que Draco era inocente?

— Sim — Minerva assentiu. — Não há muito nesta escola de que Alvo não fique sabendo, cedo ou tarde.

Isso explicava muito. Explicava por que Tonks nunca tinha insistido numa investigação oficial para a morte de Cho Chang, mesmo tendo sabido sobre os doces. Bervely achara que a prima tinha se distraído com toda a coisa da gravidez, mas isso parecia absurdo, agora que parava para pensar.

— Eu imaginei que você não soubesse que Draco é inocente — disse Minerva, tendo lido o alívio no rosto dela corretamente. — E que, mesmo assim, decidiu protegê-lo das consequências do seu suposto ato criminoso.

— Draco já foi punido o bastante por suas escolhas esse ano — disse Bervely, na defensiva. Para a sua surpresa, Minerva assentiu.

— Eu estou ciente. Entendo que o conflito de opiniões entre Draco e seu pai durante o feriado teve um enorme custo para o garoto. Imagino que isso o tenha feito reconsiderar algumas de suas escolhas, ultimamente? Devo supor que essa é a razão pela qual ele se opôs aos supostos atos de Daphne e Blaise Zabine, ontem à noite?

— O seu palpite é tão bom quanto o meu, professora. Mas, suponho que ele esteja tentando fazer as escolhas por si mesmo, para variar um pouco.

Minerva assentiu, muito séria e, talvez, um pouco triste. Ela voltou a guardar as provas da ausência do crime em sua gaveta, trancando-a com um feitiço não verbal, e voltando-se para Bervely.

— Draco foi inocente deste crime, mas não do anterior. Ele esteve envolvido no incidente com Katie Holmes, como imagino que saiba, já que foi Sirius quem descobriu a conexão. A Srta. Bell teria morrido, não fosse a ação rápida de Sirius.

— Draco estava sendo chantageado pelo Lorde das Trevas — Bervely defendeu, sem nenhum rodeio. — Eu não vou admitir que ele pague por um erro que cometeu sob coerção de um bruxo das trevas. Dois, se a senhora estiver contando o pai dele.

Minerva assentiu, cansaço transbordando em cada poro do seu rosto enrugado.

— E enquanto eu admiro o seu sentimento de proteção para com o seu primo, mentir para acobertá-lo é inaceitável. Sei que Draco não poderia ter estado com você na ocasião, porque se me lembro bem, você estava retida em Azkaban naquele período.

Os ombros de Bervely se tencionaram, seus braços ainda cruzados, mas ela encarou McGonagall sem nenhuma sombra constrangimento. As palavras “me demita, então” dançaram na ponta de sua língua, mas ela apertou os lábios com firmeza. Minerva soltou um longo suspiro, olhando-a nos olhos. A vice-diretora tinha olhos pequenos e perfurantes, perfeitamente emoldurados pelas lentes quadradas dos óculos.

— Eu quero poder confiar em você, Bervely, como confio no restante dos meus colegas. Sei que o professor Snape não a colocaria para trabalhar ao seu lado se não acreditasse na sua idoneidade. Em respeito à Severus, e em vista de como agiu na noite passada, estou disposta a deixar esse lapso passar, se puder me garantir que não se repetirá no futuro.

Bervely apertou os dentes, controlando o impulso de responder à condescendência de Minerva McGonagall de uma maneira pouco profissional, que provavelmente lhe custaria o seu emprego.

— É claro, professora. Não vai se repetir.

— Excelente. Eu continuarei investigando o incidente da noite passada e posso precisar consultá-la mais uma vez antes de decidir como proceder. Na ausência de Severus, posso contar com você para manter a paz na Sonserina, até que o assunto seja resolvido?

Bervely concordou, já que parecia o tipo de pergunta cuja resposta só podia ser uma.

— E quanto ao Draco? Ele será punido pelo incidente dos drops envenenados?

Alguma coisa na rigidez da resposta de Minerva fez Bervely pensar que ela não estava confortável com a resposta.

— Não por mim. Alvo foi o juiz da questão na ocasião, e não pretendo desenterrar o fato em sua ausência.

Bervely assentiu, sentindo o aperto de tensão em seu peito relaxar. Fez uma menção de se levantar, mas Minerva fez um aceno com a mão para que esperasse.

— Sei que está cansada, mas ainda temos mais um assunto a tratar antes que eu possa dispensá-la.

— Nós temos? —Bervely retornou ao assento, sua inquietação retornando. Se alguma outra turma de poções fosse entregue em suas mãos, achava que ia perder o juízo.

— As suas ações na noite passada salvaram a vida de cinco alunos e, indiretamente, de muitos outros que poderiam ter sido vitimados, não fosse você a propiciá-los uma rota de fuga alternativa. Gostaria de agradecê-la pelo feito, em nome da escola.

— Ah, isso — Bervely sentiu as entranhas queimarem, nem de longe acostumada a receber agradecimentos, especialmente não em nome da escola. — Bem, eu não fiz mais do que a minha–

— A sua obrigação, sim. Nem todos pensam dessa maneira diante do perigo iminente, ou sob a pressão na qual foi colocada para produzir um antídoto. As suas ações foram, na falta de uma palavra melhor, heroicas. Queira ou não queira admitir a si mesma — completou a vice-diretora com um sorriso pequeno, como se soubesse perfeitamente que Bervely não iria. — Por isso, você deve saber que estará recebendo uma medalha por serviços especiais prestados à escola. Um avanço e tanto, não acha, comparado à setimanista que alagou as masmorras no dia de sua formatura¹?

Bervely sorriu à contragosto.

— Eu, uh. Obrigada, professora.

— O prazer é meu. Severus ficará fora de si — disse McGonagall, agora sorrindo com um pouquinho de malícia nos lábios finos.

* * *

A notícia da suspensão de Daphne Greengrass foi o grande assunto da segunda-feira, endossado pela alta das vítimas que, graças ao antídoto de Bervely, tinham se recuperado do envenenamento sem sequelas e estavam em forma para as aulas da semana.

Não ajudou em nada que as serpentes auto multiplicadoras, tendo ultrapassado os limites físicos que a sala das celas podia conter, haviam se espalhado para o restante das masmorras durante o fim de semana. Na altura em que o prof. Flitwick conseguiu desenvolver o contrafeitiço apropriado para impedir a multiplicação, as serpentes já estavam na casa dos milhares e as masmorras precisaram ser evacuadas, coisa que não acontecia desde que…. bem, desde que Bervely Black inundara as masmorras, há três anos.

Severus só reapareceu na escola na terça-feira, e até lá Bervely tinha feito o seu melhor para substituí-lo em suas atividades como diretor de casa e acalmar os ânimos sonserinos exaltados. Todos haviam sido temporariamente transferidos para uma ampla sala no quarto andar, onde eles passaram a acampar e na qual Bervely também precisou passar as duas noites seguintes para garantir que ninguém se matasse (ou engravidasse) durante a noite.

Na terça-feira, ela foi aos seus aposentos nas masmorras munida de um feitiço escudo, para checar a poção polissuco de Potter e pegar uma muda de roupa, e encontrou Snape em seu laboratório, remexendo em suas prateleiras de reserva com urgência.

— Ainda tenho antídoto, mas achei mais seguro guardar no cofre em sua sala, vou pegar… — disse Bervely com urgência, imaginando que ele tinha retornado às masmorras sem conhecimento das serpentes errantes e sido vitimado por uma delas.

Ele se virou, oscilando em seu centro de gravidade. Os olhos estavam desfocados, o rosto sem cor nenhuma.

— Antídoto para quê?

— As cobras, você não foi…? — Uma olhada melhor lhe disse que ele não tinha sido picado. Não estava espumando, nem pressionando nenhum lugar específico do seu corpo. Ele se movia com o cuidado e deliberação de alguém que está sofrendo de dor generalizada. — O que está procurando?

— Elixir… analgésico — ele disse, a voz raspada e asmática.

— Devo ter um pouco em meu estoque pessoal. Sente-se — ela apontou para a sua cadeira e recebeu um olhar irritado em resposta. Mas Snape obedeceu à sugestão, desabando na cadeira em questão e emitindo um grunhido de dor com o movimento.

Bervely correu até o armarinho sobre a pia do seu banheiro, onde guardava suas poções para uso pessoal. O elixir analgésico era verde-esmeralda brilhante, com um pequeno repositório de minério prateado no fundo. Ela o levou até Severus, que o recebeu com uma mão trêmula. Os seus dedos se tocaram brevemente e ele se encolheu, soltando um rosnado. Tentou desarrolhar a poção, mas as mãos não paravam de tremer. Bervely mal conseguia assistir, a aflição se enrolando em sua garganta.

— Deixa que eu abro — estendeu a mão com a palma aberta e deixou que ele colocasse o frasquinho ali, sem que se encostassem de novo. Ela desarrolhou-o com facilidade, mas hesitou antes de entregá-lo.

— O senhor quer que eu…

— Não seja absurda — ele praguejou, arrancou-lhe a poção da mão e, com uma careta, a virou inteira garganta abaixo.

Bervely esperou. Snape fechou os olhos e recuperou o fôlego com esforço, como se cada respiração fosse uma tortura. Ele quase deixou o frasquinho cair, mas ela o pegou no último momento, evitando que se quebrasse de encontro ao chão.

— Nada de corpo, então — ela inferiu, quando pareceu que ele respirava com mais facilidade. Snape rosnou uma resposta negativa, os olhos fechados.

— Imagino que ele não tenha ficado muito feliz?

Outro rosnado, esse mais mal-humorado. Ela apertou os dentes, impedindo uma enxurrada de perguntas. Por que ele se sujeitava àquilo? Por que continuava trabalhando como agente duplo, por que não mandava Voldemort e Dumbledore para o inferno?

— Bervely — Snape chamou, arfando a cada palavra. — Mais…?

— Mais poção? Eu não tenho mais, esse foi o meu estoque do mês inteiro!

O que significava que ela teria de encarar suas cólicas menstruais no seco no mês seguinte, mas Bervely achou melhor não trazer o fato à luz. Snape fez uma careta e continuou respirando forte, de olhos fechados. Bervely teve uma ideia, nascida da aflição.

— Espere um minuto.

Ela voltou com um copo cheio pela metade de líquido âmbar-avermelhado, que colocou na mão dele com cuidado.

— O que é isso? — Severus perguntou, a voz grave áspera, sem abrir os olhos.

— Uísque de fogo.

Ele soltou um bufo, mas bebeu com o mesmo entusiasmo com que bebera a poção. Dessa vez o rosnado foi mais profundo, proporcional à queimação que a bebida devia ter provocado ao descer pela sua garganta sensível.

Bervely esperou, quase servindo uma dose de uísque para si mesma para acalmar os nervos. Pena que o código de conduta de Hogwarts condenava professores embriagados, e ela ainda tinha um par de aulas para dar mais tarde.

— Vou sobreviver — ele disse por fim, num resfolego.

— Vai me contar o quê, exatamente…?

— Não.

Ela soprou com irritação. Isso o fez abrir os olhos e fazer o esforço de erguer as sobrancelhas pesadas, espiando-a.

— Porque eu perderia o meu tempo, se já deduziu tudo sozinha?

Ela aceitou aquilo como uma confirmação. Severus tinha falhado em “achar” o corpo de Potter e o Lorde das Trevas o havia punido. Cruciatus, ao que parecia. Num regime de baixa intensidade por um período prolongado, podia causar uma reatividade exacerbada de todos os nervos do corpo, fazendo com que qualquer contato subsequente fosse como ter a pele esfolada por uma lixa de aço. Era o tipo de coisa que se ensinava em Durmstrang, mas nunca em Hogwarts, com sua política de “defesa” contra as Artes das Trevas.

— Me conte você — ele arfou, voltando a fechar os olhos, uma expressão de zombaria brotando em torno das linhas duras da boca. — Eu a deixo no meu lugar por dois dias, e você dá um jeito de deixar que as minhas masmorras sejam interditadas?

* * *

Uma das maiores consequências do incidente das serpentes auto multiplicadoras foi uma clara divisão das opiniões dentro da escola. Parte dos alunos acreditava que Daphne Greengrass de fato tentara assassinar nascidos trouxas e mestiços e planejara colocar a culpa na irmã caçula, o que renovou o ódio geral pela casa da Sonserina inteira.

A outra parte, uma que incluía quase exclusivamente sonserinos, era da opinião que Astória tinha armado a suspensão da irmã de caso pensado, em conluio com o seu novo namorado grifinório. O fato de que o “namorado” em questão – Neville— tinha flertado com a morte de perto durante o atentado não pareceu colocar a teoria a prova, apenas comprovar a sua “veracidade”. Afinal, se o seu próprio namorado parecesse ter sido vítima do atentado, quem desconfiaria que Astória estivesse envolvida?

A polêmica intensificou as já muito desgastadas relações intercasas, nas semanas que seguiram a suspensão de Daphne Greengrass. Não ajudou nada que o segundo jogo do ano entre Sonserina e Grifinória se aproximava, cercado de polêmicas. O time da sonserina tentara retirar Astória da sua posição como apanhadora, mas McGonagall proibira os sonserinos de remover Astória do time por conta de acusações infundadas. Como consequência, Astória foi parar na enfermaria com ossos quebrados um total de três vezes nas duas últimas semanas de fevereiro, após ser “acidentalmente” atingida por balaços durante os treinos.

Duelos – e por vezes embates grupais, com e sem varinha, passaram a irromper nos intervalos entre as aulas, envolvendo tanto os alunos jovens, com seus Expelliarmus e Petrificus Totallus, quanto os mais velhos, que exercitam a criatividade com feitiços mais nefastos achados em livros da sessão reservada. Detenções nunca tinham sido distribuídas com tanta diligência. O corujal nunca estivera tão limpo, a biblioteca tão organizada, e a sala de troféus tão bem polida…

No primeiro sábado de março, Rony foi visto voltando tarde para o salão comunal da Grifinória depois de cumprir uma detenção particularmente ruim, aplicada pelo prof. Flitwick após pegar o garoto sumindo com a boca de Vaisey durante a aula de feitiços. O fato de que Vaisey tinha se referido à Hermione como “a sangue-ruim do cabelo-de-vassoura” não importou e, apesar do feitiço bem executado (que rendeu Rony a admiração de Hermione pelo resto da semana), o garoto fora sentenciado a ajudar os elfos na cozinha nos quatro sábados seguintes, incluindo aquele, que acontecia de ser o seu aniversário.

Por tudo isso, Rony ficou agradavelmente surpreso ao voltar da sua detenção no sábado à noite e descobrir uma pequena pilha de doces, cerveja amanteigada e presentes esperando por ele no dormitório.

— Feliz aniversário — Harry deu batidinhas piedosas no ombro do amigo, cujo cheiro impregnado de gordura de porco se dispersava ao seu redor a cada movimento. — Foi meio de última hora, mas não queríamos que passasse em branco. Maioridade, cara!

— Feliz aniversário! — Neville ecoou com um sorriso grande.

Como Madame Pomfrey prometera, Neville tinha se recuperado por completo da picada da serpente, a não ser por uma pequena cicatriz em forma de foice em sua clavícula, da qual ele parecia se orgulhar.

Astória, sentada na cama de Neville, com uma revistinha da coleção de Neville entre os joelhos, fez um aceno breve com a cabeça para Rony.

— Parabéns, Weasley. Dizem por aí que nascer é um grande feito.

Rony trocou um olhar rápido com Harry, que deu de ombros discretamente. Não fazia ideia de como Astória tinha ido parar ali, mas desde o incidente da festa, não era incomum que ela fosse vista em qualquer lugar que Neville estivesse, e vice-versa.

— Hermione e Gina estão vindo também, e eu chamei Luna e Johanne, espero que não se importe.

— Se eu me importo? Eu não… eu nem… — Rony piscou, as orelhas ficando rosadas.

— Bem que você falou que ele ia chorar — Neville zombou, para Harry. O garoto assentiu sabiamente.

— Rony é um explosivim cascudo por fora, mas um pufoso sensível por dentro.

— Eu não ia chorar — Rony protestou, desviando o rosto para a pilha de doces e garrafas com suspeita. — Como vocês arranjaram isso tudo?

— Nem me pergunte. Parece que o Dino aqui tem uns contatos para contrabando em Hogsmeade que ele não quer compartilhar com a gente — Neville insinuou, fingindo-se de ofendido.

Harry deu uma piscadela para Rony, já que os dois sabiam muito bem que o seu “contrabandista” para fora da escola se chamava Mapa do Maroto.

Hermione chegou logo em seguida com Gina, trazendo um bolo que elas mesmas tinham feito, com a ajuda da Sala Precisa. O bolo tinha uma coroa de glacê dourado no centro e as palavras “Rony é o nosso rei” escritas na caligrafia caprichada de Hermione.

Johanne e Luna vieram um pouco mais tarde, munidas de tortinhas de frango roubadas do jantar. Luna trouxe também um grande bule vermelho de pintinhas brancas, cheio de um chá especial de cogumelos que, segundo ela, podia ter uns ‘efeitos engraçados na cabeça’ se misturado com açúcar.

Anne colocou o radinho mágico que trouxera consigo para tocar, explicando como funcionava o feitiço para sintonizar na rádio trouxa, e logo música preencheu o ambiente e eles se espalharam entre o chão de carpete ou em cima das camas de Rony e Neville, mordiscando da pilha de comidas e batendo papo sobre o jogo, que seria dali a uma semana.

Harry se aproximou de Anne com a desculpa de pegar um pedaço de torta de frango. Luna estava distraída em uma discussão com Hermione sobre qual cogumelo exatamente ela tinha usado no chá, e não reparou quando ele se sentou do outro lado de Anne, apoiando as costas na cama de Rony.

— Tudo bem? — ele perguntou baixo, se inclinado para bater o ombro de leve no dela. Anne assentiu.

— Nenhum desastre iminente no radar. Você?

— Nada mau. É bom ter Rony e Mione de volta.

A sombra de um sorriso apareceu nos lábios dela e Harry percebeu que queria muito beijá-los. Ele abaixou os olhos, se concentrando na torta. Tinha pulado o jantar para fazer uma visita à Hogsmeade e sua barriga já estava reclamando.

— Eu imaginei. Eles ainda estão lidando bem com o fato de você não poder contar tudo, então?

— Quase não parece incomodá-los — Harry admitiu, reprimindo um cutucão de ressentimento.

— Devem estar querendo aliviar sua barra — ela disse, ajudando-o a pegar um pedaço da torta sem derrubar o resto, tocando nos dedos dele de propósito.

— ...certos cogumelos podem ser perigosos, Luna! É por isso que estou perguntandoHermione explodiu em exasperação do outro lado deles, fazendo a garota loira revirar os olhos.

— Que bobagem, Hermione. Qual foi a última vez que você viu um cogumelo tentando fazer mal a um ser humano?

Harry riu baixo. Ele olhou de relance para Anne e viu que ela olhava para Luna, um vinco preocupado no rosto.

— O que foi?

— Nada — Anne se ajeitou, se inclinando para pegar uma cerveja amanteigada.

— …desde que ela não esteja aqui para sabotar um de nós, numa tentativa desesperada de ganhar o próximo jogo — Rony respondeu a uma pergunta que Harry não tinha ouvido ser feita, num ponto acima do ombro dele. Ele estava sentado em sua própria cama e tinha acabado de lançar um travesseiro em Astória, que se desviou, estreitando os olhos para o comentário.

— Como se eu precisasse de sabotagem para chutar o traseiro vermelho e dourado de vocês. Não, Weasley, prefiro ter algum desafio na partida, para não morrer entediada.

Eles bateram papo, comeram doces, fizeram caretas para os feijõezinhos de gostos bizarros e deram risadas. A sensação de falsa normalidade infectou Harry que, por um momento, quase se esqueceu de que ele não era Dino Thomas de verdade. Ao menos até Neville se aproximar de Rony e Hermione, e cochichar, com um sorriso suspeito no rosto:

— Harry está bem, então, não está?

Pelo canto de olho, com um frio na base do estômago, Harry viu Rony abrir e fechar a boca, como um peixinho dourado arrancado do aquário. Hermione estreitou os olhos para Neville, astuta.

— Por que está dizendo isso?

— Vocês dois voltaram a sorrir, só pode significar que ele está bem.

Os dois ficaram num longo silêncio, sem coragem de desmentir. Harry manteve o rosto voltado para o outro lado, e sentiu, pela quietude de Anne perto dele, que ela também estava ouvindo a interação. Hermione suspirou.

— Você não ouviu isso de nós. Aliás, você não ouviu isso de ninguém, entendeu?

Neville assentiu com intensidade.

— Graças a Merlin. Eu estava ficando louco, achando que eu era o próximo da lista.

— Como assim? — Hermione perguntou, mas o colega fez um gesto despreocupado com a mão rechonchuda.

— Nada, não. É melhor eu voltar lá, parece que Luna está conseguindo convencer Astória a provar aquela coisa.

Hermione trocou um olhar de sinto muito com Harry, mas ele fez um gesto de “tudo bem” com a cabeça. Não era como se Neville, entre todas as pessoas, fosse correndo contar para Voldemort que Harry estava vivo.

Anne saiu de fininho para o lado oposto do dormitório, onde ficavam as camas desocupadas de Simas e de Dino, e espiou a noite clara pela janela comprida aninhada entre as camas. Não demorou muito para Harry chegar ao seu lado, parando perto o suficiente para que os seus ombros se encostassem.

Estamos começando uma rodada de Snape Explosivo, interessada?

Ela negou, mostrando a ele o que estivera remexendo na mão fechada.

Olha só quem eu achei no meu sapo de chocolate.

Harry olhou, a expressão se fechando ao reconhecer a bruxa pálida de longos cabelos negros e olhar perfurante estampada na figurinha colecionável. Morgana Le Fay.

— Dá pra parar de pensar nisso por um minuto?

— Não é culpa minha se o assunto fica me perseguindo. Como você consegue parar de pensar, depois de tudo que descobriu sobre a Canção dela?

Harry deu de ombros, de má vontade.

— Dino Thomas não está em nenhum verso da Canção, está?

Anne suspirou, dando uma olhada para trás, para ver se algum dos outros estava prestando atenção neles. No exato oposto do quarto, ocupando a cama de Neville, Luna e Astória riam histericamente de alguma coisa que devia envolver as xícaras conjuradas que cada uma tinha em mãos, sob o olhar preocupado de Neville. Na cama de Rony, ele e Hermione estavam envolvidos em uma discussão sobre a melhor estratégia para imobilizar um oponente em um duelo não-verbal, assunto que Severus tinha trazido de volta aquela semana em sua aula de DCAT.

O olhar de Anne cruzou rapidamente com o de Gina Weasley, ao lado de Luna. A garota ruiva, que estava montando as pilhas de cartas para a partida de Snape Explosivo, desviou o olhar quando viu Anne espiando. Anne se virou de volta para Harry, sem se importar em manter nenhuma distância dele. Que Gina Weasley pensasse o que quisesse do que estava vendo.

— Você faltou à reunião da AD, ontem — ela disse baixo para Harry.

— Não aguento mais fazer cara de paisagem enquanto todo mundo age como se estivesse esperando anunciarem o meu enterro. Além do mais, muita especulação e pouca ação, ultimamente.

— Não foi assim dessa vez. Neville sugeriu que a gente se dividisse em grupos e se revezasse atacando e defendendo azarações não-verbais no escuro. Foi bem impressionante o jeito com que ele tomou a liderança.

Harry não disse nada, mas ela podia sentir que ele estava tenso. Por mais que a Orbe bloqueasse a maior parte da sua visão, uma linha da conexão entre ela e Harry sempre permanecia ativo – o mesmo que, como agora ela sabia, mantinha a mente dele protegida de ataques externos em tempo integral.

Anne capturou a mão dele – a mão de Dino, os dedos longos e magros e tão diferentes dos de Harry – apoiada no parapeito da janela.

— Sentimos a sua falta na reunião.

— A de Dino, ou a de Harry Potter? — perguntou ele, num tom azedo.

Anne inclinou o rosto para cima, tentando capturar a expressão no rosto dele.

— Ei, qual é o problema?

Harry balançou a cabeça em negação.

— Não sei. Está tudo… tão calmo. Mas, é só temporário, não é? Dumbledore vai voltar uma hora ou outra e eu vou ter de ser Harry Potter de novo. Não posso ficar fingindo que sou Dino para sempre.

— Se você pudesse escolher, é o que faria?

Harry ponderou por um instante, o rosto de Dino refletido na janela semiobscurecida pela noite do outro lado.

— Acho que não seria a pior coisa — ele admitiu, baixo.

Anne soltou a mão dele.

— Vou pegar outra cerveja amanteigada. Quer alguma coisa da pilha?

— Não... obrigado.

Anne não voltou depois de pegar mais uma cerveja amanteigada, acabando por se entreter com a conversa das outras garotas. Se de propósito ou não, Harry não sabia. Enquanto Astória tentava convencer Anne a provar do chá de cogumelo, entre risadinhas muito pouco características, Harry ficou observando de longe, uma sensação de peso no peito. Será que, se um dia ele decidisse deixar de ser Harry Potter de uma vez, também precisaria abrir mão dela?

Rony se aproximou de onde Harry estava com uma expressão cômica no rosto.

— Elas estão loucas. Alguém falou em jogar Strip Snape. Não me leve a mal, mas eu não quero ver a minha própria irmã perdendo peças de roupas.

Harry sorriu com vagueza. Acabara de se lembrar de uma coisa que vinha pretendendo pedir a Rony há algum tempo.

— Sei que o aniversário é seu, mas preciso lhe pedir um favor — disse Harry, encorajando Rony a se sentar ao seu lado, na sua antiga cama.

— Pode falar. Qualquer coisa.

Harry disse a ele o que tinha em mente. A expressão de Rony se transformou em expectativa ansiosa.

— Tem certeza disso? Sabe que ela vai pirar, né? E vai desconfiar de que foi você está por trás disso!

— Sei, mas vamos ter que correr o risco. Na verdade, acho que essa é a nossa única chance contra Astória.

Depois de um monte de chá de cogumelo – que Harry descobriu que fazia cócegas na garganta, explicando as risadinhas – e muitas partidas desastrosas de Snape Explosivo, conversas enroladas, duetos desafinados acompanhando as músicas do rádio, os bocejos começaram a ser mais frequentes do que as gargalhadas. Hermione anunciou que ia voltar ao próprio dormitório, dando uma olhada sugestiva na direção de Astória. Mas Astória não estava ouvindo, a língua enrolada na de Neville, os dois parcialmente escondidos pelo poste da cama do garoto.

— Anne, você está vindo?

— Sim, assim que a Luna… — ela olhou para os pés da cama de Rony. Luna estava roncando a sono solto, o cabelo cobrindo o rosto, as mãos sujas de chocolate. Naturalmente resistente para coisas como chá de cogumelo mágico, a garota tinha um fraco para açúcar. — Assim que Luna acordar.

— Eu acompanho vocês duas até o Corvinal mais tarde — Harry ofereceu. Hermione deu a ele um olhar de “olha lá o que vai fazer” antes de beijar o namorado e sair, lançando um último olhar preocupado para o enroscamento humano que era Neville e Astória.

Gina não estava mais à vista. Harry não tinha visto a hora que a garota tinha ido embora, e não lembrava ter se despedido.

— Por falar em se esgueirar pelo castelo à noite depois do toque de recolher — disse Anne, quando eles voltaram para o canto em que a antiga cama de Harry estava, na parte escura do quarto, levando o rádio com eles. — Você provavelmente deveria pegar isso de volta.

Ela se inclinou em direção à sua mochila e arrancou de lá a capa da invisibilidade. A não ser pelas ocasiões em que a usavam para se encontrar pela escola, nos intervalos das aulas, Harry não tinha precisado da capa nos últimos meses. Era incrível como não ser mais O Escolhido mudava as coisas.

Harry e Anne se acomodaram sobre a cama dele, e os dois ficaram ouvindo John Lennon cantar Because, Harry deitado, a cabeça apoiada nas pernas de Anne. Rony já estava roncando em sua cama, e Neville fechara as cortinas de sua cama em torno dele e Astória.

Because the world is round it turn me on

(Por que o mundo é redondo, isso me excita)

Because the world is round, ah

(porque o mundo é redondo, ah)

Because the wind is high it blows my mind

(Porque o vento está alto, isso me impressiona)

Because the wind is high, ah

(porque o vento está alto, ah)²

Anne passava as pontas dos dedos pelo rosto dele, da bochecha ao queixo, do queixo aos lábios, e então deles para a testa, de uma têmpora até a outra. Devagar, diligente. Concentrada.

— O que está fazendo? — ele perguntou baixo.

— Esse rosto, não consigo me acostumar. Toda vez que olho para você, vejo um estranho.

Antes que ele pudesse descobrir o que dizer, Anne se inclinou e o beijou, seus lábios se encaixando num ângulo estranho. Ele percebeu que era a primeira vez que ela o beijava sob o efeito da Polissuco.

Love is old (o amor é velho)

Love is new (o amor é novo)

Love is all (o amor é tudo)

Love is you (o amor é você)

Because the sky is blue (porque o céu é azul)

It makes me cry (Isso me faz chorar)

Ahh

— Você tinha razão — ele murmurou quando ela se afastou, o rosto parcialmente iluminado pela fraca luz que vinha da janela. — Isso é estranho.

— Suponho que acostume, com o tempo.

Harry fechou os olhos de novo, deixando um suspiro escapar. Queria os dedos dela de volta ao seu rosto, mas não teve coragem de pedir.

— O efeito da poção vai passar logo — ele avisou. As pontas do cabelo dela fizeram cócegas em seu rosto quando ela assentiu.

Harry usou a varinha para cerrar e abafar as cortinas ao redor deles, e conjurou um lumus fraco para não ficarem no escuro. Do outro lado das cortinas, rádio começou a tocar o que parecia ser outra música dos Beatles, se ele estava reconhecendo bem. Aquela devia ser uma estação exclusiva da banda favorita de Anne.

I give her all my love (Eu dou a ela todo o meu amor)

That’s all I do (Isso é tudo o que eu faço)

And if you saw my love (E se você visse o meu amor)

You’d love her too (Você a amaria também)³

Anne escorregou para o seu lado na cama estreita, a franja escorregando para a lateral de sua bochecha. Os olhos dela cintilavam, o anel prateado em torno das íris lembrando à Harry um eclipse. Ela deu um sorriso fraco, afastando a franja para longe do rosto com um movimento preguiçoso.

— No que está pensando? — ela perguntou baixinho.

Harry pegou a mão dela e a colocou de volta em seu rosto.

— Adivinha.

Anne hesitou um segundo, então se apoiou no cotovelo e, com a outra mão, tirou a corrente com a orbe do pescoço. Harry estava perto o suficiente para ver os olhos dela se inundarem das linhas prateadas, uma fina rede fluindo da borda de suas íris até as pupilas escuras. Ele sentiu Anne pedir passagem e permitiu, deixando-a ter acesso à cama de sua mente onde os pensamentos conscientes emergiam. Uma onda familiar de prazer acompanhou o contato, formigando os seus nervos, tão real quanto o que ele sentia quando se beijavam.

Harry se concentrou no pensamento de antes. Anne deu outra risadinha exacerbada pelo chá de cogumelos.

— Eu posso sentir o que você está sentindo — ela murmurou. — É tão esquisito”.

“Como eu estou me sentindo?”, Harry pensou, sabendo que ela seria capaz de ouvir.

Calor — Anne disse, mordendo o lábio em seguida. — E você quer muito me beijar de novo.

— Verdade — Harry concordou, o rosto quente. — Não demora muito, agora — completou, se referindo ao efeito da poção.

Anne abriu os olhos, uma expressão brincalhona no rosto.

— Pena. Dino tem lábios muito macios.

Harry fez uma careta.

— Não seja bobo — Anne o repreendeu. — Não faz sentido ter ciúmes de você mesmo.

— E ainda assim, aqui estamos.

Ela balançou a cabeça, rindo. Eles caíram em silêncio de novo. Anne se distraiu contornando a linha do seu cabelo, triangulando as bordas do rosto de Dino Thomas com a ponta do indicador.

— Você gosta mais do beijo dele do que do meu? — Harry perguntou, incapaz de se conter.

— Ai, Merlin. Se eu soubesse que essa conversa ia acontecer, eu tinha bebido mais daquele chá da Luna.

Harry se inclinou através dos centímetros que os separavam e a beijou de novo, com língua dessa vez. Ele ficou satisfeito em sentir a surpresa de Anne através de sua ligação; o prazer de suas línguas se enrolando, o calor e a adrenalina tomando o corpo dela. Harry só parou quando ela perdeu o fôlego.

— O que aconteceu com esperar? — Anne perguntou, ligeiramente ofegante.

— Nunca fui conhecido pela paciência. Você sentiu… aquilo? — ele perguntou, sem saber como descrever aquele estranho compartilhamento de sensações.

Ela assentiu, mordiscando o lábio inferior com os dentes da frente.

— Sim… ah, olha. O efeito está passando.

Harry nem tinha percebido. Não era como se as suas terminações nervosas já não estivessem formigando antes, com Anne perto daquele jeito, os dois corpos espremidos no espaço feito para apenas um.

— Eu ainda consigo ouvir os seus pensamentos, sabe — ela disse, marota.

— Agora entendo por que Dumbledore queria tanto que eu dominasse Oclumência — ele resmungou, lutando contra o embaraço.

Não demorou para os últimos resquícios da poção deixassem o seu sistema. Era como se Harry fosse um elástico esticado o dia inteiro, finalmente liberado quando o efeito na poção passava.

— Uau — Anne estremeceu, experimentando a sensação também. — Como você aguenta passar por isso todo dia?

— Já passei por coisas piores. Ah, pare de me olhar desse jeito.

— Que jeito?

— Esse olhar de “pobrezinho-do-Escolhido”

— Você é mesmo um bestão, vivo me esquecendo.

Harry riu, dando graças que tinha silenciado o perímetro da cama. Ele fez um movimento com o braço esquerdo para deixar a manga longa demais da blusa de Dino deslizar para baixo e, uma vez com a mão livre, alcançou uma mecha do cabelo escuro dela.

— A espera terminou — avisou, trazendo a mecha para perto e usando-a para cutucar a ponta do nariz de Anne. A menina sorriu, não uma das risadinhas de cogumelo, mas um sorriso genuíno que fez as entranhas de Harry se apertarem.

— Terei a honra de beijar a boca do Escolhido em carne e osso? Merlin, não sei se o meu coração está pronto.

— Não— Harry disse, muito sério, se ajeitando no colchão até pairar parcialmente sobre ela, suspenso por um cotovelo. — Você vai ter a honra de beijar Harry. Só Harry.

Anne deslizou uma mão para nuca dele, enrolando os dedos no cabelo rebelde. Quando suas línguas se enrolaram, a conexão se expandiu como um rio represado que finalmente transbordava, deixando Harry sentir como o sangue dela fluía quente nas veias, como o coração dela se acelerava a cada revolução de suas línguas. E então havia o sangue quente dele, o coração dele palpitando forte, os seus pensamentos caóticos, uma sensação ecoando e amplificando a outra ao se misturarem no meio do caminho.

Harry apertou os dedos na cintura de Anne, por baixo da blusa do uniforme. Ele ouviu o suspiro dela, bem como sentiu o arrepio que correu pela espinha da garota, se misturando ao ardor pulsante entre as suas pernas. Harry pressionou o corpo contra o de Anne, e Merlin o ajudasse, ela era macia e quente exatamente como nos sonhos dos quais ele mal se lembrava.

Anne encontrou o caminho por baixo do suéter dele e espalmou a pele de suas costas, arrastando a palma gentilmente do seu quadril até o centro de sua coluna. Harry estremeceu, surpreso com a sensação que o toque causou às suas terminações já nervosas. Tinham sido os pelos dos braços dele ou dos dela, que tinham se arrepiado? Aquele tambor de sangue pulsante em seus ouvidos vinha do coração dela, ou do dele?

Ele se pressionou mais Anne, respondendo aos impulsos de seu corpo, sem saber direito, nem se importar, com o que estava fazendo. Anne afastou as pernas, dando espaço para a coxa dele se encaixar entre as suas. A ereção de Harry pressionou-a na altura do quadril, e a resposta do corpo dela deixou Harry sem fôlego.

Anne quebrou o beijo, corada sob a luz débil do lumus, que tinha sido chutado para algum lugar perto de seus tornozelos.

— Harry — ela ofegou. — Espera, respira, você está– está me sufocando.

Ele se afastou, encostou a testa à dela e aspirou fundo. As mãos de Anne ainda estavam em sua pele, por baixo da camisa, o contato ardendo como fogo vivo.

— Você sabia que isso seria…?

— Não. Eu não fiz de propósito — ela disse, ainda ofegante, os olhos muito abertos.

Ele sorriu, tenso.

— Talvez a gente devesse…

Foram interrompido por uma voz sonolenta do outro lado das cortinas

— Olá? Onde está todo mundo? Ah, Rony. Rony?

Rony continuava roncando alto. Harry duvidava que Luna conseguiria acordá-lo. Anne aproveitou a chance para se retrair de sua mente Harry abruptamente. Harry estremeceu, o vazio o atingindo como um passo em falso numa descida.

— Desculpe. Isso foi– estou um pouco– ela removeu as mãos da pele dele as colocou em seus ombros. Harry rolou para o lado, liberando-a. Anne se sentou, atordoada. — É melhor eu ir...

Anne deslizou para fora das cortinas com um movimento rápido, antes que Harry pudesse responder. Não que ele soubesse o que dizer, o corpo pulsando de cima a baixo, os pensamentos todos embaralhados. Quando recuperou o controle dos braços, tentou ajeitar o suéter e consertar o caos do cabelo, ouvindo Anne e Luna falarem do outro lado das cortinas sobre voltar para a torre da Corvinal.

Anne reapareceu um par de minutos depois. Ela ainda estava corada, os lábios vermelhos e inchados.

— É melhor a gente ir andando.

— Eu acompanho vocês — ele se ofereceu, afobado, passando as pernas para fora da cama, tentando disfarçar o volume na calça, terrivelmente embaraçado. Anne negou.

— Não precisa. Pior do que pegarem a gente fora da cama essa hora, é pegarem a gente fora da cama com você.

Harry franziu o cenho. Anne evitou contato visual, enquanto se esticava para alcançar o colar com a orbe e colocá-lo de volta no pescoço. Ele sentiu uma sensação ruim na boca do estômago.

— Anne… tudo bem?

— Sim — ela assentiu, jogando o cabelo para trás, ainda sem olhá-lo. — Posso… pegar a capa emprestada de novo? Devolvo amanhã.

— É claro — ele assentiu, estendendo a capa de volta para ela. Anne a pegou, mas Harry não a soltou, forçando-o a olhá-la.

— O quê? — Ela perguntou com impaciência.

— Eu fiz alguma coisa errada?

Os olhos dela se apertaram ligeiramente.

Não, é claro que não. Só estou mais cansada do que pensei. E você precisa descansar, tem treino amanhã cedo, não é?

Anne se inclinou e o beijou no canto da boca, e Harry soltou a capa e a deixou ir, embora longe de estar totalmente convencido.

(Continua…)



Notas finais
O que está achando da história? Te espero no comentário! ;* ¹Minerva se refere aos acontecimentos do capítulo 67 de Indigna Rosa Negra. ²Because – The Beatles ³And I Love Her – The Beatles