A Canção de Morgana

47 A Traição de Astória


Notas iniciais
Olar! Estou preparando uma surpresinha para o dia das bruxas! Não deixe de ler as notas finais!! Boa Leitura ;)

— ... e eu quero você no meio de campo a maior parte do tempo, eu vou guardar a direita e Demelza a esquerda, isso deve manter os batedores deles afastados. Você não estava aqui no último jogo então não viu, mas os balaços de Goyle podem ser problemáticos…

Harry assentiu, apenas metade da sua atenção em Katie. Era o último treino antes do jogo e eles tinham apenas um par de horas no campo antes do jantar, então precisavam tirar o melhor proveito do dia ventoso e gelado para praticar os últimos arranjos sugeridos pela capitã. Enquanto ela requisitara aquela pequena reunião com os outros dois artilheiros – ele e Demelza, Rony atravessava o gramado em direção à irmã caçula, a Firebolt de Harry em uma mão.

— …vai ser um desastre se qualquer um de nós for inutilizado durante a partida, esse jogo é particularmente importante se queremos garantir a taça, e uma diferença de ao menos cinquenta pontos…

Harry parou de fingir que estava prestando atenção em Katie quando Rony obteve a atenção de Gina e ela viu a Firebolt na mão dele. Dali não podia ouvir o que diziam, mas viu perfeitamente o cenho de Gina se franzir, mesmo daquela distância.

— O que está acontecendo ali? — Katie quis saber, percebendo o foco da distração de Harry. — Espera aí, aquela é a Firebolt de Potter?

Harry encolheu os ombros, fingindo estar tão intrigado quanto ela. O restante do time – o pequeno Coote e Jimmy Peakes vieram se juntar a eles, bem a tempo de ver Gina dar um passo para trás, negando com a cabeça, e Rony gesticular com um gesto que só podia ser frustração.

Harry sentiu um peso se instalar no estômago. Gina estava recusando a sua Firebolt?

— Rony está dando a Firebolt de Harry pra Gina? — perguntou Demelza, curiosa e um pouquinho esperançosa.

— É o que parece — Katie assentiu com um quê de aborrecimento. — Era de se supor que ele passaria a ideia pela capitã primeiro, não é, mas…

A insatisfação de Katie foi interrompida por uma exclamação de Gina, alta o bastante para ser ouvida de onde estavam:

Você só pode estar de brincadeira, Ronald!

— Qual o problema dela? — Coote perguntou, embasbacado.

Harry estava se perguntando a mesma coisa. Ele viu as costas de Rony se tencionarem, enquanto ele gesticulava com mais intensidade para a irmã, e Gina recuava e balançava a cabeça.

Inacreditável! Não– Ronald– pra mim já chega dessa palhaçada!”

Gina deu as costas para o irmão e veio pisando duro na direção em que os demais estavam, uma expressão irritada no rosto, os pés fazendo buracos raivosos no gramado ressecado.

— Gina, o quê– Katie começou a perguntar, mas a garota passou direto por ela.

— Sinto muito, Katie, mas tem muita hipocrisia nesse campo pro meu gosto! — Ela resmungou sem se virar, se afastando na direção do castelo.

Katie transferiu sua contrariedade para Rony, que se aproximava deles com um misto de confusão e indignação no rosto sardento.

— O que foi que você fez? — Katie reclamou.

— Só ofereci a Firebolt pra ela usar no próximo jogo! Quem é que recusa uma Firebolt? — Ele lançou um brevíssimo olhar para Harry, depois para Katie de novo. — Achei que seria uma boa ideia ter a nossa apanhadora usando a melhor vassoura que existe, mas o que eu sei, talvez eu esteja louco!

— Você poderia ter passado a ideia por mim primeiro — disse Katie, o que fez o ruivo rolar os olhos para ela.

— Por quê, você tem alguma coisa contra?

— É lógico que não — Katie bufou, dando o braço a torcer. — Por que é que a Gina não quer voar nela?

Rony apertou os lábios, dessa vez visivelmente resistindo em olhar na direção de Harry.

— Ela não quer, uh, usá-la sem a aprovação expressa de Harry.

— Ainda é a vassoura dele, no fim das contas — assentiu Demelza, pensativa.

Rony olhou impaciente para Demelza.

— Mas ele não se importaria de emprestar! Harry ia querer que a Grifinória tivesse a melhor chance de ganhar, não ia?

Ninguém pode contestar aquele fato, a não ser o próprio Harry, que tinha a impressão de que a questão era mais complexa do que Rony estava dizendo para o time. Harry estendeu a mão para Rony.

— Me deixa tentar falar com ela.

Rony franziu para ele, uma expressão subentendida de “mas-foi-você-quem-me-pediu-para-fazer-no-seu-lugar-cabeçudo”.

— É, deixa o Dino tentar — Katie endossou, com um ar de quem sabia de coisas que os demais ignoravam. — Se alguém aqui vai ter alguma chance de fazer a Gina mudar de ideia, é o Dino…

— Por quê– Rony começou a perguntar, mas Harry pegou a vassoura e deu meia volta, seguindo na direção que Gina tinha ido antes que ele tivesse a chance.

***

— Gina! Gina, espera um segundo!

A garota olhou para trás e sua expressão se fechou mais ainda. Ela apressou o passo na direção do castelo– Gina conseguia ser excepcionalmente rápida quando estava irritada.

— Gina, qual é! — Ele conseguiu alcançá-la graças às pernas compridas de Dino, e emparelhou com ela. — Gina!

— É melhor ficar fora disso, você não sabe de… — Os olhos de Gina caíram na vassoura que ele tinha nas mãos, e ela diminuiu a velocidade, desconfiada. — Você também está nisso com o Ronald?

— Nisso o quê?

— O complô do meu irmão para esconder o que sabe sobre o paradeiro do Harry.

— Como é? — Ele piscou, surpreso. — Não tem nenhum compl–

— Ah, por favor! — Gina exclamou, irritação queimando nos olhos castanhos, fazendo-os parecer lascas de âmbar. — Vocês acham que são muito discretos, não acham? As trocas de olhares misteriosas, os segredinhos e agora essa! Até parece que Rony ia tentar me emprestar a vassoura do Harry sem a permissão dele! Isso nem teria ocorrido ao tonto do meu irmão sozinho –– Ela parou e girou na sua direção, um dedo apontado para a cara dele. — Vocês têm se correspondido com o Harry, sabem onde ele está, ou ao menos o Rony sabe! O que é que você sabe?

— Eu não faço ideia do que você está falando — Harry negou, provavelmente rápido demais, porque os olhos dela se estreitaram perigosamente. — Gina, sério…

Mas o olhar gelado da garota fez com que ele se calasse.

— Eu estou cansada de ser deixada de fora do clubinho, a não ser quando é conveniente, está bem? Se o Harry quer que eu voe na vassoura dele, ele que saia do buraco em que se enfiou e venha me pedir pessoalmente.

***

O time se dirigiu mais cedo do que o normal no sábado seguinte, a fim de ouvir o discurso motivacional de Katie. A capitã ainda estava chateada com a recusa de Gina de usar a Firebolt – o que teria lhes dado uma vantagem excelente naquele jogo – e parecia considerar o fato uma traição pessoal da sua apanhadora. Nem o fato de que o seu noivo e ex-capitão do time, Oliver, estaria apitando a partida no lugar de Madame Hooch pareceu melhorar o seu humor. Como consequência, ao invés do tom animado e otimista de sempre, Katie estava bradando seu discurso como uma bronca antecipada para os seis jogadores sonolentos espalhados pelos vários bancos dos vestiários.

— …e não se esqueçam – olhos nos balaços o tempo todo! Goyle vai tentar quebrar os ossos de vocês em qualquer oportunidade. E, Jimmy e Coote…

Harry se aproximou de Gina ao vê-la num dos bancos perto dos armários, calçando as botas com movimentos secos. Ele sentiu o ar quente ao redor dela ao se aproximar, apesar da manhã gelada que fazia naquele sábado.

— Tudo, er… tudo sob controle?

Gina lhe lançou um olhar atravessado por baixo dos cílios vermelhos, e continuou a amarrar os cadarços com firmeza.

— Está tudo ótimo.

— Então você não mudou mesmo de ideia sobre a F…

Ela lhe deu um olhar cortante de aviso.

— Se você falar sobre essa vassoura perto de mim mais uma vez, eu juro por Merlim, vou enfiar o cabo da sua vassoura num lugar da sua anatomia que vai tornar o vôo uma atividade muito dolorosa.

Harry arregalou os olhos, mas tentou não levar o comentário para o lado pessoal. Sabia que Rony tinha insistido no assunto durante a semana, cada vez com mais animosidade à medida que Gina se recusava, até que ele por fim (e com a concordância de Harry) decidiu usar a Firebolt ele mesmo na defesa dos aros. Um desperdício do potencial da Firebolt, na opinião de todo mundo, inclusive do próprio Rony.

— Você não acha que está exagerando um pouco? Quero dizer, mesmo se Rony souber de alguma coisa que não está lhe contando, não acha que é mais um bom motivo para aceitar a vassoura? Se o Harry tivesse hipoteticamente dado permissão

Mas ela se levantou de supetão, tendo terminado com os cadarços.

— Boa sorte, Dino. Tente não cair da sua vassoura e quebrar o pescoço, sim? Merlin nos salve de perder esse jogo, isso iria deixar Harry Potter muito decepcionado.

Ela foi se juntar aos demais na saída dos vestiários. Katie, que tinha esgotado suas palavras de “encorajamento”, franziu para a interação.

— Hoje não é um bom dia para animosidades românticas — a capitã o advertiu quando Harry passou por ela à porta.

— Não tem nenhuma animosidade, Katie — ele resmungou, mal-humorado, observando Gina se afastar na direção do gramado.

— Que seja, só deixe o coração fora do campo, ok? Quadribol é guerra, não uma canção de Celestina Warbeck.

Harry rolou os olhos para o comentário, especialmente ao ver Katie correr para abraçar Oliver na borda do campo um minuto mais tarde. O céu estava limpo e o dia estava fresco e sem vento, o que era um bom sinal. As arquibancadas urraram quando o time da Grifinória entrou em campo, os sonserinos vaiando alto.

O time da Sonserina entrou pelo outro lado, vindo do vestiário do lado oposto do campo. Harry avistou Astória, miúda e de queixo erguido, entre Crabble e Goyle, os batedores da sonserina aquele ano.

Katie apertou a mão do capitão da sonserina, Urquhart e Oliver apitou o início do jogo. Harry respirou fundo e deu um impulso com as pernas, subindo no ar em cima da Nimbus 2000.

— Uhhh, Weasley numa Firebolt, senhoras e senhores! — Anunciou Blaise Zabine, que por algum motivo infeliz fora apontado como o narrador daquela partida. — Que irmão será que ele teve que vender para pagar essa vassoura?

A Grifinória soltou uma onda de vaias para o comentário. Harry viu de relance Rony se aprumar na Firebolt, o cenho franzido. Com uma pontada de irritação agitando as entranhas, Harry localizou Zabine na arquibancada dos professores, ao lado de um entediado Snape. É claro que Snape não faria nada para evitar comentários maldosos vindos de Zabine, aquele filho de uma…

Os primeiros quinze minutos do jogo se desenrolaram com a agitação característica do quadribol, Harry mal tendo tempo de desviar os olhos da goles, que era suposto a apanhar e lançar pelos aros. O papel de artilheiro era muito mais frenético do que o de apanhador, com poucas pausas para distração. Naquela posição ele também era alvo dos balaços com mais frequência – praticamente toda vez que tentava encostar na bola vermelha de couro.

— PEAKES! COOTES! MAIS PROTEÇÃO AOS ARTILHEIROS! — Katie gritou ao passar pelo seu par de batedores. Harry não os culpava– há alguns minutos, vira Coote tentar rebater uma das bombas de Goyle e ser desviado do curso de vôo pela força da bola.

Vaisey, um dos artilheiros da sonserina, marcou o primeiro ponto para a sua casa. A arquibancada verde-e-prata urrou, abafando o gemido de frustração de Rony. A velocidade da Firebolt era inimiga da precisão, e Rony, pouco acostumado com a vassoura, tinha passado direto do aro que tentara defender, como se o ar estivesse mais escorregadio do que estava acostumado.

Harry aproveitou o momento para localizar Gina no campo – a achou perto da arquibancada da Lufa-Lufa, sobrevoando, atenção afiada à procura do pomo. Astória não estava muito longe, seus olhos estreitos como os de uma ave de rapina. Astória voava uma das Nimbus 2001 que o pai de Draco tinha comprado para o time no segundo ano; Harry ainda não se esquecera de como Astória voara no jogo contra a Lufa-Lufa, se movendo no ar como se a vassoura fosse uma extensão do seu corpo. Em contrapartida, Gina estava voando a Cleansweep 11 de Rony, que ela aceitara após alguma insistência dele; uma vassoura estável e relativamente rápida, mas que não era nenhuma Firebolt.

Astória avistou algo acima dos aros da Grifinória e mudou de curso tão rápido que Harry quase não captou o movimento. Gina, percebendo também, deu uma guinada com a vassoura naquela direção. Astória já estava a meio caminho do pomo, que voava acima da cabeça de Rony sem que ele percebesse.

— OPA! Parece que Greengrass viu alguma coisa! E Weasley faz o que pode para tentar alcançá-la…

As duas emparelharam no ar, Gina acelerando a vassoura o máximo que podia, reacendendo em Harry a sua irritação. Se ela tivesse aceitado usar a Firebolt, teria tido uma ótima vantagem…

Gina, inexplicavelmente, conseguiu ultrapassar Astória, uma diferença de centímetros. A Grifinória urrou quando Gina esticou a mão na direção do pomo, os dedos a centímetros da bolinha dourada.

— Será que Weasley vai nos fazer o desfavor de terminar o jogo em apenas quinz–

POW.

Gina girou no ar, atingida por um balaço lançado por Goyle. Seu corpo deslizou junto com a vassoura e atravessou um dos aros, o cabelo ruivo se enrolando ao seu redor como os tentáculos de uma anêmona.

— BOA, GOYLE! — Urrou Zabine, e depois, pigarreando. — Goyle tira Weasley do curso, que batedor eficiente, uma salva de palmas, senhoras e senhores!

Harry xingou alto. A Sonserina vibrou e começou a urrar o nome de Goyle. Harry viu Astória procurar freneticamente pelo pomo, mas, no meio da confusão, ele tinha desaparecido.

Nos vinte minutos seguintes, Vaisey e Urquhart marcaram outras três vezes para a Sonserina, enquanto Demelza e Katie marcaram, cada uma, dez pontos para a Grifinória. Harry tentou se concentrar na grande bola vermelha que devia mandar através dos aros, mas volta e meia ele se via distraído procurando pela bolinha dourada no campo.

— Thomas! — Katie passou por ele gritando. — Admirando a vista?

Harry percebeu, horrorizado, que estivera parado em cima da vassoura, observando Astória e Gina provocando uma a outra do outro lado do campo.

— Foi mal–

— Foi mal uma ova, presta atenção no jogo! — Ela reclamou, jogando a goles no peito dele, cortando o seu fôlego.

Harry segurou a bola e mudou de curso, a outra firme no cabo da vassoura, voando na direção do aro central da sonserina ao ver-se com a frente livre.

— Thomas vai tentar um gol, olha só… e eu que achei que ele só estava a passeio, nesse fresco dia de primavera — zombou Zabine, em meio à um bocejo.

Harry trincou os dentes, tentando forçar a Nimbus à sua velocidade máxima. Vaisey apareceu em sua frente, mas ele desviou do garoto, já próximo ao aro mais alto. O goleiro da Sonserina estava pronto, mas Harry achava que tinha um ângulo favorável e preparou o lançamento…

Gina surgiu voando em sua frente como uma flecha, fazendo com que Harry se inclinasse para trás, a goles por pouco não escapando das suas mãos.

— Caramba, Gina! — ele reclamou no calor do momento, antes de perceber que ela tinha avistado alguma coisa. Harry também viu– a bolinha dourada brilhando no canto inferior do campo, perto do chão. Astória não estava muito longe e também a vira. A sonserina miúda fez uma pirueta graciosa no ar, descendo quase na vertical. O campo inteiro prendeu a respiração, antecipando o desenrolar do embate entre apanhadoras.

— Quantos pomos será que Astória vai precisar capturar para se redimir da suspensão da irmã, eu me pergunto — Zabine perguntou maldosamente ao microfone. — Acho que ainda não inventaram um número alto o bastante.

Harry olhou surpreso na direção do garoto, e viu Snape se inclinar e dizer algo ao garoto, embora sem parecer especialmente incomodado com o comentário. Harry procurou McGonagall nas imediações – a vice-diretora certamente não estaria aprovando aquele tipo de comentário – mas não foi capaz de avistá-la na arquibancada dos professores.

A Sonserina apoiou o comentário com vaias e gritos de suporte. Astória vacilou, perdendo um segundo de vantagem para Gina, que se esticou de novo, perseguindo a bolinha dourada que continuava a descer em direção ao gramado.

Astória continuou sua descida furiosa, praticamente de cabeça para baixo àquela altura. Gina desistiu do curso no último segundo, antes que perdesse o controle de sua vassoura. Astória continuou e se chocou ao chão com um baque doloroso, o pomo escapando de seus dedos no último segundo. Harry se encolheu num reflexo. Oliver apitou uma pausa ao ver a apanhadora no chão.

— Mas que destrambelhada — Zabine soltou um suspiro teatral. — Astória, minha querida, esqueceu os parafusos no dormitório?

— Zabine, restrinja os seus comentários aos acontecimentos da partida — a voz de Snape, num tom comedido de aviso, foi captada pelo megafone enfeitiçado.

Harry olhou preocupado para onde Astória tinha caído, imóvel, esparramada no gramado, o braço que tentara capturar o pomo virado num ângulo estranho. Ele ergueu o olhar e achou Gina, alguns metros acima, dando batidinhas na manga do uniforme, tentando apagar uma pequena chama que brotara em suas vestes. Na confusão, o pomo sumira de vista novamente.

Oliver foi verificar Astória, quando ficou claro que ninguém do seu próprio time pretendia fazê-lo. Ele a ajudou a se sentar, meio bamba, segurando o braço. Uma breve conversa se desenrolou entre os dois, onde Oliver parecendo insistir que ela fosse para a enfermaria, ao mesmo tempo em que Astória tentava se livrar dele e voltar para a sua vassoura.

Harry aproveitou a pausa para voar até onde Gina estava.

— Está tudo bem?

— Só quero pegar a droga do pomo logo — ela rosnou por entre os dentes, os olhos marejados presos na confusão lá embaixo.

O fogo que brotara em seu braço não queimara o uniforme – ela e Katie tinham arranjado um jeito de torná-lo resistente às chamas, mas Harry notou que as mãos de Gina apertavam com força o cabo da vassoura.

Oliver deu-se por vencido e apitou de novo, e o jogo recomeçou. Astória estava de volta ao ar, o rosto franzido, o braço esquerdo dobrado perto do corpo, o direito guiando a vassoura.

Harry conseguiu marcar um gol e Katie, mais três. Sonserina revidou com outros três, quase seguidos. Rony estava fazendo o que podia com o que a Firebolt lhe dava, mas Urquhart era talvez o melhor artilheiro que a Sonserina já tivera em anos, com uma pontaria precisa.

Os times empataram em cem a cem e ficaram assim por frustrante meia hora- sem nenhum sinal do pomo de ouro. Vaisey tentou desempatar, mas Coote lançou um balaço certeiro em seu braço, fazendo-o perder a goles.

— Boa, Ritchie! — Katie vibrou, um sorriso gasto no rosto, passando perto dele para baterem as palmas no ar.

Pouco depois, Coote foi atingido na nuca por um dos balaços bombásticos de Goles e se desequilibrou precariamente da vassoura. Ele pousou no meio do campo, o rosto da cor de cera de vela. Oliver apitou outra pausa.

Coote começou a vomitar no gramado foi mandando para a ala-hospitalar. Os times receberam um par de minutos para descansar; a partida já durava quase duas horas.

— Não é a primeira vez que jogamos com um a menos, não tem problema — disse Katie num tom confiante-furioso para o resto do time, reunidos no canto do campo. — Jimmy, quero a sua atenção exclusiva em Urquhart. Não deixe ele se mover nem um centímetro quando estiver com a goles, sem que leve um balaço nas fuças. Isso vai nos deixar mais desprotegidos, então cuidado com as bombas de Goyle, Dino e Demelza. Dino, preciso de mais trabalho em equipe, eu e Demelza não podemos fazer isso sozinhas.

— Eu sei, desculpe — Harry disse, mas Katie não se demorou muito nele, o rosto vermelho de adrenalina.

— Rony, bom trabalho até agora, mas precisa parar de se preocupar com Gina, ela pode se cuidar. Certo, Gina?

Gina assentiu, um olhar intenso no rosto, uma mão distraidamente esfregando o braço no lugar em que pegara fogo. Harry franziu com preocupação – até onde se lembrava, aquelas combustões espontâneas não eram supostas a machucá-la.

— …Demelza, a lateral esquerda é sua, eu cubro a direita, Dino continua no centro. Só precisamos manter algum equilíbrio até Gina pegar o pomo. Gina, se Astória tentar outra finta, deixa ela se estatelar no chão de novo... quero ver como ela pretende pegar o pomo, se ferrar o outro braço.

A Grifinória marcou mais quatro pontos nos quinze minutos seguintes, apesar da ausência de Coote. Como Katie previra, os artilheiros estavam mais expostos com Peakes marcando exclusivamente Urquhart, mas eles eram bons em esquiva, especialmente Demelza.

Foi quando Astória explodiu, vinda Merlin sabia de onde, em direção aos aros sonserinos, ainda se fiando no braço direito para guiar a vassoura.

— E lá vamos nós — suspirou Zabine com desdém. — Será que agora ela consegue pegar o bendito pomo, ou vai se jogar no chão de novo?

Harry estava perto o bastante para ver Astória travar os dentes para o comentário. A arquibancada Sonserina, como antes, se recusou a torcer pela sua apanhadora, jogando o campo num silêncio tenso. Gina tentou ver o que Astória supostamente perseguia, enquanto voava na mesma direção, imprimindo potência na Cleansweep para alcançá-la. Astória continuou voando numa linha reta, concentrada à frente, ignorando a proximidade da apanhadora rival.

Harry percebeu – era uma finta. Ele estava longe demais para alertar Gina. Astória estava voando na direção do goleiro, iam se chocar a qualquer momento. O goleiro da sonserina estava parado no ar, os braços cruzados e o cenho franzido em descrédito, como que a desafiando a se atrever a se chocar contra a sua pessoa.

— Opa, será que Astória confundiu o goleiro com o pomo? — Zabine caçoou, de bom humor. A arquibancada verde-e-prata riu em coro e Harry sentiu uma onda de raiva inesperada. Qual era o problema de Zabine? Ele teve um impulso de voar até o garoto, arrancar aquele megafone de suas mãos e enfiá-lo pela sua garganta.

Astória não diminuiu a velocidade, nem Gina, as duas estavam rápido demais para desviar agora. Harry se encolheu em preparo para a tripla colisão.

Exceto que Astória ergueu o braço bom ao passar pelo aro, o agarrou e impulsionou o corpo no curso contrário. Como um pássaro miúdo, ela saiu rodopiando e apareceu intacta do outro lado, ainda milagrosamente em cima da vassoura, arrancando murmúrios impressionados das outras casas. Gina inevitavelmente se chocou contra o goleiro da Sonserina, que, distraído com a pirueta de Astória, se esqueceu de sair do caminho.

— Ouch! Isso foi… FOGO! — Zabine gritou se erguendo, e com ele vários outros alunos, tentando enxergar o que acontecia perto dos aros.

Gina e o goleiro caíam embolados, chamas famintas irrompendo e se alastrando em torno deles como se estivessem vivas. O garoto gritava em plenos pulmões, sacudindo os braços e as pernas. Oliver apitou de novo, correndo para os dois bem quando caíram entre os postes que sustentavam aos aros. As arquibancadas exclamavam, num misto de confusão e indignação.

— É impressão minha, ou Weasley acabou de pôr fogo no nosso goleiro? FALTA! FALTA DESLEAL E DESPREZÍVEL! — Zabine urrou. A arquibancada da sonserina ecoou: “Falta! Falta! Falta!”

Harry e o resto do time foram pousar onde a confusão estava acontecendo. Acharam Gina e o goleiro empapados em um Aguamenti de Oliver, o fogo extinto, uma fumaça escura escapando do uniforme carbonizado do goleiro. O cheiro de carne queimada embrulhou o estômago de Harry; não só o goleiro tinha o rosto e os braços em carne viva, mas Gina também fora atingida dessa vez, a pele exposta do pescoço e das mãos muito vermelha.

— Eu não tive– eu juro… — Gina tentava se defender, olhando horrorizada para o goleiro, cuja pele começava a produzir bolhas.

O goleiro foi mandado para a enfermaria sob protestos da arquibancada verde e prata. Gina se recusou a deixar o campo, apesar da vermelhidão de sua pele exposta. Oliver e Snape, este último tendo se aproximado com a confusão, discutiam a alguns metros, enquanto os times esperavam deliberação.

— Sinto muito, Gina, mas você está suspensa da partida — Oliver veio avisar, arrasado. Era óbvio que, apesar de precisar ser imparcial enquanto apitava a partida, ele ainda torcia para o time da sua casa.

— Você não expulsou Goyle quando ele inutilizou nosso batedor! — Katie exclamou, indignação vazando pelos poros.

— Goyle não usou magia. Azarar o time adversário resulta em suspensão, vocês sabem muito bem disso.

— Ela nem tem uma varinha com ela! — Katie urrou, apontando o cabo da vassoura para Gina. — Gina, mostre a ele que você não tem uma varinha!

Gina olhou de um para o outro sem ação, a boca aberta, o olhos em seu rosto misto de indignação e culpa que não ajudavam muito em sua causa.

— Foi culpa de Astória! — Katie tentou argumentar. — Foi ela quem fez Gina se chocar contra o goleiro, de caso pensado! Ela sabia que Gina ia explodir em chamas, deve ter espionado a gente nos treinos!

Você sabia que isso podia acontecer e deixou Gina entrar em campo? — Oliver se indignou. — Katie!

— Eu só– eu não pensei–

— É melhor vocês aceitarem a punição, antes que eu precise suspender você por conduta irresponsável.

— Você não faria isso! — Katie exclamou, parando de tentar se justificar para abrir a boca em profundo ultraje.

Oliver sacudiu a cabeça, decepcionado, e apitou a suspensão, mandando Gina para o banco. Mas a ruiva disparou em direção ao castelo sob vaias audíveis das arquibancadas verde e prata. Harry e Rony trocaram olhares preocupados, mas não se atreveram a seguí-la – a partida ainda não tinha terminado.

Exceto que, sem um batedor e a sua apanhadora, eles não tinham muita chance de vencer aquela partida. Bastava Astória capturar o pomo quando estivessem com uma diferença menor do que cento e cinquenta pontos e Sonserina venceria a partida.

Katie se afastou de Oliver, fora de si de indignação e fez um sinal para que o que restava do seu time se reunisse.

— Ok, novo plano! Jimmy, quero você marcando Astória sem pausa. Quero ela lutando para manter a cabeça em cima do pescoço, nem pensar em ter tempo de procurar o pomo! Vocês dois – Apontou para Harry e Demelza com o dedo em riste –, precisamos aumentar a diferença para mais de cento e cinquenta e segurá-la tanto quanto possível. Desse jeito Astória não pode pegar o pomo sem dar a vitória para gente, e ela não vai poder resistir para sempre, com o braço quebrado. E Ronald – nada pode entrar por aqueles aros. Fui clara?

— Não é como se eu estivesse deixando as bolas entrarem de propósito, sabe — se queixou Rony chateado.

Katie o ignorou, subindo na vassoura como quem monta num cavalo de batalha, o rosto branco de fúria.

A primeira parte do plano não foi difícil – Jimmy marcou Astória sem pausa e ela se viu impedida de explorar o campo em busca do pomo, já que precisava se desviar de um balaço vindo na sua direção a cada curva que fazia, agora um pouco mais desajeitada do que antes, por conta do braço machucado. Rony fez a sua parte em segurar os aros – com uma ou duas defesas espetaculares que levaram as arquibancadas aos gritos – e Harry conseguiu marcar tantos gols quanto Demelza e Katie nos quinze minutos que se seguiram.

Logo eles estavam com duzentos e setenta pontos, contra cento e vinte para a Sonserina. Se Astória pegasse o pomo naquele momento, Sonserina e Grifinória empatariam. Mais um gol da Grifinória e Sonserina perderia o jogo mesmo se que o pomo fosse capturado. Milagrosamente, estavam conseguindo virar o jogo, como Katie planejara.

A torcida da Grifinória, percebendo a estratégia do time – vencer a Sonserina pelo cansaço – começou a vibrar mais alto a cada tentativa da Grifinória de marcar, ou a cada defesa impossível de Rony, que estava praticamente jogando uma partida à parte com Urquhart nas imediações dos aros.

Três horas de jogo. Os braços de Harry queimavam, os ombros duros de tensão e cansaço. O resto dos jogadores não estava muito melhor; até Goyle passara a rebater os balaços com menos letalidade, e Jimmy Peakes tinha relaxado a sua marcação em Astória, sabendo que estavam relativamente seguros enquanto a diferença de 150 pontos existisse.

— Mas que grande plano, Astória — zombou Blaise ao microfone, sua voz desdenhosa ampliada pelos quatro cantos do campo. — Inutilizou a apanhadora da Grifinória e agora não consegue mais achar o pomo… não me espanta que a sua irmã lhe chamasse de Desastória, me parece muitíssimo apropriado.

— Zabine, já chega — advertiu Snape, mas o estrago já estava feito. As arquibancadas da Sonserina começaram a ecoar o novo canto: “Desastória! Desastória! Desastória!”

Astória passou perto de Harry, fugindo de mais um balaço de Coote. Harry viu a bolinha brilhante cintilando a alguns metros deles, na direção para onde ela estava indo, e teve que segurar o impulso quase visceral de voar naquela direção e alcançar o pomo antes dela. Ele tentou desviar o rosto para que Astória não percebesse, mas foi em vão – Astória também o avistara.

Ela congelou no ar, as mãos apertando o cabo da vassoura até os nós dos dedos empalidecerem. Se pegasse o pomo, Sonserina e Grifinória empatariam, mas empatar àquela altura não era uma opção ruim para a Sonserina. Se a Grifinória começasse a virar o jogo, seria cada vez mais difícil para eles reverterem o placar. Sonserina estava sem um goleiro, e os batedores estavam ficando cada vez mais cansados de fazer a defesa dos aros. Talvez eles tivessem que ficar ali por várias horas, até a Sonserina precisar engolir o orgulho e entregar o jogo, e ela devia estar sentindo dor, apesar de não deixar transparecer no rosto concentrado…

Harry viu o momento em que Astória desviou o rosto e voou na direção contrária ao pomo, fingindo que não o vira. Ninguém mais pareceu ter notado a decisão da garota. Harry se afastou para ir atrás a goles que agora estava com Vaisey, embora intrigado com aquela decisão. O que Astória estava fazendo?

Demelza marcou outro gol cinco minutos mais tarde. Agora só precisavam manter o placar, sabe-se Merlin lá por quantas horas, até a Sonserina se dar por vencida e lhes entregar a vitória. Harry sentiu-se relaxar na vassoura. Mesmo que entrassem noite adentro, o jogo seria de resistência, muito mais do que…

Houve uma comoção na arquibancada verde e prata, e Harry procurou Astória no campo no mesmo tempo em que Blaise a encontrou acelerando no ar, concentrada.

— O QUE É QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO, SUA ALUCINADA? — Blaise urrou.

Astória sobrevoava as arquibancadas da Corvinal, numa perseguição implacável ao recém avistado pomo de ouro. Harry percebeu que ela nunca realmente o perdera de vista.

— FICOU MALUCA? VOCÊ NÃO PODE–

Blaise Zabine— Snape começou a adverti-lo com mais energia, mas o som foi abafado quando a arquibancada da Grifinória começou a urrar, cobrindo o som da voz de Minerva e os protestos dos sonserinos.

“DESASTÓRIA!” “DESASTÓRIA!” “DESASTÓRIA!”.

Logo, Lufa-lufa e Corvinal se juntaram ao coro.

Harry parou no ar, sem acreditar, os braços arrepiados.

Ele estava perto o bastante para ver o sorriso de triunfo do rosto de Astória quando ela estendeu o braço direito e, se equilibrando precariamente na vassoura, capturou a bolinha dourada, entregando a vitória de mãos beijadas para a casa adversária.

***

“Isso foi tão esquisito…”

“Mais esquisito do que Zabine atacando Greengrass o jogo inteiro? O que foi aquilo, quero dizer….”

“Ele bem que mereceu… toma essa, Sonserina!”

“Mas será que a vitória vai valer pra a gente?”

“Ora, porque não valeria?”

“Não sei, se Astória pegou o pomo de pirraça para retaliar a própria casa, não é uma vitória meio… indigna? O que você acha, Dino?”

Harry piscou ao ser cutucado por alguém ao seu lado. Rony.

— Hum? O que eu acho de quê?

— Acha que a vitória valeu, com Astória pegando o pomo de propósito para irritar a Sonserina?

Harry encolheu os ombros, considerando a pergunta. Ele, Rony, Demelza e Jimmy estavam na enfermaria ainda em seus uniformes; tinham vindo logo após o fim do jogo para verificar Coote e lhe informar do fim da partida. Madame Pomfrey garantira que ele ia ficar bem – a concussão já estava sendo tratada por alguma poção de aparência viscosa, tomada de hora em hora.

Harry, com uma sensação estranha por não ser ele na cama da enfermaria após um jogo – tinha se distraído com os gemidos vindo de uma das camas mais afastadas onde, atrás das cortinas, Madame Pomfrey tratava das queimaduras do goleiro da sonserina.

— Acho que eu teria feito a mesma coisa — ele disse por fim. — Dane-se a Sonserina, eles mereceram.

— Devíamos chamar Astória para comemorar a vitória com a gente mais tarde — Rony sugeriu, rindo. — Afinal, ela foi parte essencial da coisa toda.

Os demais riram também, mas Harry não acompanhou.

— Falar nisso, alguém viu a Gina depois da partida?

— Ela deve ter voltado para o salão comunal — sugeriu Demelza. — Estava irritada por ter sido expulsa. Quero dizer, foi mesmo injusto, as combustões não são culpa dela, no fim das contas.

— Acha que Katie estava certa? Que Astória a usou deliberadamente para colocar fogo no goleiro deles? — Jimmy especulou.

— Me parece uma teoria forçada — Rony deu de ombros, buscando nos olhos de Harry de novo para confirmação. — Dino, o que é que você–

Astória também não estava na enfermaria, tratando do seu braço. Madame Pomfrey surgiu de detrás das cortinas que ocultavam a cama do goleiro, carregando uma bandeja cheia de bandagens e frascos de pomada para queimadura que deixou no aparador. Ela deu uma olhada franzida para o time fazendo barulho ao redor da cama de Coote, e sumiu numa portinha que Harry supunha levar aos seus aposentos, à esquerda da porta da enfermaria.

— Preciso ir fazer uma coisa — disse Harry em tom de desculpa. — Vejo vocês no salão comunal mais tarde?

Ele passou perto da bandeja desassistida e afanou um dos frasquinhos de pomada, antes de sair.

***

Gina não estava no salão comunal como Rony supusera, mas, com uma consulta rápida ao Mapa do Maroto, Harry localizou o pontinho chamado “Gina Weasley” um corredor pouco frequentado do sexto andar, próximo ao banheiro assombrado pela Murta-Que-Geme.

Ele a achou encarapitada em um dos muitos nichos baixos que adornavam o lado esquerdo do corredor, a luz dos vitrais colorindo o seu rosto sério, as pernas dobradas recolhidas contra o peito. Ela ainda usava o uniforme de quadribol, e a vassoura estava largada no chão aos seus pés. Não olhou imediatamente na sua direção, mesmo quando Harry se aproximou o bastante para ser ouvido.

— Nós ganhamos — ele disse, no seu melhor tom de boas notícias.

Gina se virou para ele de má vontade, sem mover muito mais do que alguns milímetros da cabeça.

— Como você me achou aqui?

— Acaso — ele mentiu, apontando para o espaço ao lado dela. — Posso?

— Se faz questão — Gina suspirou, virando-se de novo para a janela.

Harry transferiu as pernas longas de Dino Thomas para o nicho e enfiou a mão no bolso, tirando de lá o frasquinho de metal que roubara na enfermaria. Estendeu para ela que olhou, desconfiada:

— O que é isso?

— Ditamno. Bom para queimaduras.

Os olhos dela se abriram um pouco com surpresa.

— Como sabe…?

— Eu estava prestando atenção, só isso.

Gina aceitou o frasquinho, os dedos raspando na palma da mão dele por meio segundo, o suficiente para Harry sentir o calor febril que emanava da pele dela.

— O que está acontecendo? Você me disse que as combustões não machucavam você.

Gina deu de ombros, cruzando os braços em frente ao peito e encostando as costas na parede atrás dela.

— A coisas estão mudando rápido — ela deu uma olhada rápida para ele, especulativa. — Sabe algo sobre o goleiro deles? Ele vai ficar bem?

— Queimaduras de segundo grau em boa parte do corpo, pelo que ouvimos Madame Pomfrey comentar. Mas é o tipo de coisa que ela tira de letra, eu não me preocuparia.

Gina afundou o rosto nos joelhos, o cabelo solto formando uma cortina vermelha em torno nas pernas dobradas.

— Eu estou me tornando um monstro. Incendiando pessoas por aí… não vou me surpreender se for expulsa da escola por isso.

Harry hesitou, sem saber o que dizer. Ele estendeu a mão tentativamente na direção do ombro dela, para consolá-la.

— Gina, vai ficar tudo bem. Não foi culpa sua.

Não — Ela se esquivou, erguendo o rosto, os olhos arregalados. — Não encosta em mim, não quero torrar você também!

Harry deixou a mão cair. Gina se fechou de novo, olhando para o seu reflexo no vitral colorido. Ele suspirou.

— Você devia procurar Madame Pomfrey, ela vai saber o que fazer para ajudar você.

Gina deu uma risadinha desdenhosa.

— Ninguém sabe o que “fazer” comigo, Dino. Não é à toa que me deram alta do St. Mungus.

— Como assim?

Mas Gina puxou um pesado suspiro e negou com a cabeça, como se aquela conversa estivesse terminado para ela.

— Obrigada pela coisa para queimaduras. Agora, se não se importa… prefiro ficar sozinha.

— Tem certeza?

Gina respondeu com um olhar impaciente. Sem opção, Harry desceu do parapeito e uma vez de pé, lançou um último olhar inquieto para ela.

— Eu estou bem — Gina insistiu. — E não vá encher as orelhas do Rony com isso, ele vai acabar escrevendo para a mamãe e a coisa virará uma bola de neve do inferno.

Harry deu um sorriso pequeno para o comentário. Gina usara aquele tom de “eu me conformei de que você é parte da família, como se eu precisasse mesmo de mais um irmão mais velho”. Como se soubesse que ele era Harry, e não Dino.

— Vamos estar no salão comunal celebrando a vitória, caso queira se juntar à gente mais tarde.

Gina não respondeu. Ele não teve escolha a não ser tomar o caminho de volta, não sem um peso de preocupação se instalando no peito enquanto se afastava.

Pouco depois de Harry sumir por um lado do corredor, alguém surgiu do lado oposto, tão prontamente como se estivesse esperando pela oportunidade. Gina não se virou de novo – achava que sabia de quem se tratava. Alguma coisa na cadência afetada do caminhar dele, ou no cheiro de sua colônia alcalina se espalhando no ar, antes mesmo que ele começar a falar asneiras.

— Que amorzinho de garoto, esse Thomas — a voz zombeteira alcançou Gina, provocando-lhe um sorriso involuntário. — Até seria de se pensar que ele está querendo arrematar o seu dote. Ah, espera… esqueci que você não tem um.

— Ninguém mais tem dote, Malfoy. Não estamos mais em 1849 — ela devolveu, usando tédio na voz de propósito.

Malfoy apareceu no seu campo de visão, loiro, empoado e afiado como de costume.

Como de costume. Desde quando Gina estava se acostumando com a presença de Malfoy?

— Meus cumprimentos, Weasley. Grifinória como sempre mostrando o seu valor inexistente, tendo que usar a apanhadora do time adversário para vencer a partida.

— Nesse caso acho que deveríamos agradecer também a você — ela zombou. — Não foi você quem se acovardou e cedeu o seu lugar a ela, para começo de conversa?

— Não fale do que você não sabe — ele rosnou, mas não explicou mais nada, o que fez Gina pensar em um velho ditado de sua mãe: dragão que fumega não morde.

Você está no meu lugar — ele disse então, num tom que era mais arrogante do que incomodado.

Gina inclinou a cabeça, as sobrancelhas erguidas para ele.

— Perdão?

O garoto apontou para o nicho em que ela estava.

— Ele é o meu lugar para contemplar melancolicamente os terrenos de Hogwarts e refletir sobre a minha existência atormentada.

Ela soprou em incredulidade.

— Tem uns dez nichos iguais nesse corredor.

— Mas esse é o melhor de todos — ele insistiu sem se abalar.

— São idênticos.

Malfoy não se moveu, os braços cruzados, encarando-a como se ela fosse evaporar dali apenas com a força de sua teimosia.

Gina rolou os olhos e encolheu as pernas, abrindo espaço ao seu lado.

— Não vou sair, mas tenho certeza que é largo o bastante para duas pessoas.

Para o seu embasbacamento, Malfoy deslizou para o outro lado do nicho, após alguma deliberação. Teria sido estranho, a não ser… a não ser pelo fato de que Malfoy continuava “aparecendo” nos lugares em que Gina tentava se isolar, desde aquele dia da festa de São Valentim. Ela ainda não se esquecera de que Malfoy fora o único a se incomodar em ajudá-la a sair das masmorras infestadas, aproveitando-se do fato de que as serpentes não estavam tentando atacá-lo. Ela também não tinha entendido isso.

Mas a verdade é que Gina tinha parado de contestar muitas das coisas que vinham acontecendo com ela, desde o acidente com o dragão. A presença errante de Malfoy no seu caminho era só a cereja do bolo de estranhezas que Gina vinha sendo forçada a encarar ultimamente.

— Eu não estava refletindo sobre a minha “existência atormentada” ela disse de supetão, lançando um olhar atravessado para ele.

A pele anormalmente pálida de Malfoy absorvia as cores lançadas pelos vitrais como uma tela em branco. Os olhos cinzentos dele, sob o feixe de luz azul, pareciam violeta.

— Se você diz — ele desdenhou, nem um pouco convencido. Então puxou um livro pequeno do bolso das vestes, o apoiou no joelho, e passou a ignorá-la.

***

Como de costume, a Grifinória comemorou a sua inusitada vitória no salão comunal, apesar da ausência da capitão do time, de Coote, que ainda estava em observação na enfermaria, e de Gina, que não retornara desde o fim do jogo. Harry se uniu ao restante dos colegas, embora não se sentisse em clima de comemoração. Eles tinham vencido, era verdade, mas o gosto da vitória era agridoce. Harry precisava admitir para si mesmo que a vitória era muito mais excitante quando ele pegava o pomo, ao invés de jogar numa posição, num corpo e numa vassoura que não lhe pertenciam.

— Onde está Hermione? — Rony perguntou de repente, distraindo Harry de suas elocubrações egocêntricas. Ele passou os olhos pelo salão comunal e também não achou a amiga.

— Não faço ideia… ela assistiu ao jogo, eu suponho?

Foi Neville, sentado ali por perto, num dos muitos sofás espalhados em torno da lareira larga, quem respondeu:

— Ela estava aqui antes de vocês chegarem, mas foi chamada por McGonagall faz uns quinze minutos — explicou o garoto. — Algum dever de monitoria, eu suponho.

— Ops. Espero que ela não me chame também — Rony disse, esticando as pernas com preguiça. — Essa coisa de monitoria às vezes dá uma canseira.

Ele mal tinha acabado de bocejar quando o buraco do retrato se abriu e Hermione surgiu através dele, com um olhar grave que ela usava para, bem… assuntos de monitoria. Ao lado dela, estava Astória.

A presença de uma sonserina no salão comunal – especialmente aquela sonserina, que tinha capturado o pomo para eles mais cedo — chamou a atenção dos demais, e aos poucos a conversa foi morrendo até se tornar um silêncio intrigado. Hermione esperou até ter a atenção de todo mundo, enquanto que Astória, ainda usando parte do uniforme da sonserina, fazia da sua missão olhar para qualquer lugar que não fosse o rosto alguém.

Neville, ao lado de Harry, fez que ia levantar, mas parou quando Hermione pigarreou.

— Vocês obviamente conhecem Astória — disse Hermione, projetando a voz para o salão inteiro. — Quem não conhecia antes, certamente conheceu hoje, durante o jogo.

Alguns riram. Alguém começou a entoar baixinho, do outro lado do salão “Desastrória! Desastrória!”. A expressão de Astória vacilou, seu rosto cor de cera se tingindo de rosa.

— É, essa mesma — confirmou Hermione com um meio sorriso. — Após o jogo, Astória foi até McGonagall e pediu para re-experimentar o Chapéu Seletor, sob a impressão que a Sonserina talvez não fosse mais a casa ideal para ela.

— Bando de babacas — Rony resmungou ao lado de Harry. Alguém perguntou “E desde quando a gente pode fazer isso?”, mas foi ignorado.

— O chapéu decidiu que Astória deve ficar mais confortável na Grifinória, a partir de agora — disse Hermione. — McGonagall me pediu para fazer questão de que ela fosse bem recebida.

Silêncio. Astória parou de fingir que havia algo muito interessante para encarar na parede do outro lado do salão e arriscou uma olhada nas expressões dos colegas, especialmente a de Neville. O sorriso enorme no rosto do garoto a contagiou e ela teve que morder o impulso de sorrir também.

— O chapéu sabe o que faz — disse Rony. — Se ele diz que Astória está melhor aqui com a gente, não tem contestação, tem?

— Além do mais Astória venceu o jogo pra a gente — Cormac disse o óbvio. — Não dá pra ser mais Grifinória do que isso!

Astória parecia ao mesmo tempo surpresa, grata e à beira de um ataque de nervos, e contendo tudo isso em uma expressão mais ou menos impassível.

— Vem sentar aqui com a gente, Tots — disse Neville, acenando para o lugar vago ao lado dele. — Estávamos discutindo os lances do jogo. Aquela sua finta e pirueta nos aros foi louca.

Astória caminhou até eles como se estivesse se movendo sob água e ocupou o espaço vago entre Rony e Neville. Harry espiou o resto do salão comunal e percebeu que nem todos os colegas estavam receptivos como Cormac, Rony e Neville, mas ninguém se atreveu a contestar a decisão do Chapéu Seletor.

O uniforme verde-e-prata de Astória destoou violentamente contra o estofado de veludo carmesim debaixo dela.

— Mostro o seu dormitório mais tarde — disse Hermione, com um sorriso acolhedor, vindo se juntar aos amigos.

Ela assentiu, numa mudez pouco-característica. Os demais membros da Armada de Dumbledore que já conheciam Astória desde o início do ano – Colin, Dênis e Lilá – vieram lhe dar as boas vindas, aumentando o rubor nas bochechas da ex-sonserina, que parecia não saber o que fazer com todo aquele acolhimento.

Harry notou que o braço de Astória – supostamente quebrado durante a partida – parecia em bom estado de novo, certamente mais um milagre de remendamento de Madame Pomfrey. E apesar de ela começar a relaxar quando a conversa desviou da sua presença para as chances da Grifinória de ganhar a copa de Quadribol aquele ano, Harry não tinha esquecido o olhar no rosto dela durante o jogo, quando a sua própria casa a atacou em coro no coro maldoso orquestrado por Blaise Zabine. Harry sabia muito bem como era ter a sua própria casa se virando contra ele.

— Cerveja amanteigada? — Harry ofereceu, de uma pilha de garrafas que alguém tinha obtido para a comemoração. Ela ergueu o rosto e cravou os seus olhos em Harry.

— Não tem nada mais forte? BrincadeiraEla acrescentou, assentindo.

Harry passou a garrafinha para ela e Astória a desarrolhou, depois inclinou a garrafa para ele, um brilho astuto nos olhos.

— Golpe baixo o seu, emprestar a Weasley a sua Firebolt.

Harry olhou, alarmado, para ver se os outros tinham ouvido a acusação, mas Rony, Neville e Colin estavam discutindo as melhores táticas para o próximo jogo, e Hermione puxara um livro da mochila e os estava ignorando.

— Não era a minha Firebolt — ele respondeu, abaixando o rosto para desarrolhar a própria garrafa da forma mais casual possível.

— Engraçado, não me lembro de outra pessoa em Hogwarts ter uma, e Weasley certamente não a comprou, o preço está pelas alturas.

— Você está confusa. Quem tinha uma Firebolt era o Harry, não eu.

Astória olhou bem nos olhos dele e deu um sorriso de lábios fechados, inclinando a cabeça.

— Harry Potter também costumava ser o único ofidioglota da escola, mas ainda assim eu me lembro de ver você batendo um papo com as cobras da minha irmã, aquele dia nas masmorras.

— Não faço ideia do que está falando.

Ela sustentou o olhar de Harry, mantendo o sorriso tranquilo e voltou a se aconchegar sob o braço de Neville, dando a Harry uma piscadela que deixou as suas entranhas frias.

***

— Comemorando sozinho?

Oliver virou o rosto na direção da voz e relaxou ao perceber quem se aproximava. Ele abaixou a garrafinha da qual estivera bebendo e sorriu para Bervely.

— É só água. O que está fazendo aqui? Não me diga que você assistiu a partida.

Bervely sorriu para o tom de descrença que ele enfatizara de propósito.

— Sim, eu assisti o quadribol, Oliver. Sou parte do corpo docente, preciso ficar por dentro das intrigas da escola. Parabéns pela vitória, à propósito.

Ela balançou a cabeça, os ombros caindo um pouco.

— Não foi lá uma vitória muito gloriosa, foi? Nunca vi nada assim, no meu tempo em Hogwarts. Uma apanhadora sonserina entregar o jogo de mão beijada à Grifinória? E toda aquela raiva direcionada para a pobre garota... gente pegando fogo no campo… o que raios está acontecendo nesta escola?

— Astória está tendo divergências ideológicas mortais com o restante de sua casa. Não sei nada sobre a Weasley pirotécnica, infelizmente — Bervely lançou um olhar para o vestiário da Grifinória, onde as luzes ainda estavam acesas. — Esperando Bell?

Os ombros de Oliver voltaram a se tencionar.

— Estou… mas ela não quer falar comigo. Está furiosa porque eu expulsei Gina Weasley da partida. Eu estava dando um tempo para ver se ela muda de ideia.

— Mas a Grifinória ganhou, mesmo sem Weasley jogando — disse Bervely, sem entender a razão para o drama.

— Bem, isso não é sobre a vitória… é sobre princípios. Eu acho — ele franziu um pouco, espiando a porta fechada do vestiário.

Silêncio. Bervely considerou continuar o seu caminho para as estufas, do qual se desviara ao avistar a silhueta dele ao longe.

— Certo, então… — começou a falar, ao mesmo tempo que Oliver disse:

— Quer ir dar uma volta?

Bervely ergueu o cenho para o convite.

— E quanto à Bell?

— Acho que ela precisa de algum espaço, agora — ele disse. — E eu, de ar fresco. Pensei em ir até o lago, costumava ser um dos meus lugares preferidos na escola.

— É — ela assentiu, quieta. — Eu me lembro.

— Então?

Bervely pensou nas ervas lhe esperando na estufa quatro e na perspectiva de voltar aos seus aposentos, corrigir alguns trabalhos e ir para a cama cedo. De repente tudo isso lhe pareceu terrivelmente enfadonho.

— Tudo bem.

Eles começaram a caminhar pela borda do campo em direção do lago negro que, daquela distância, era uma mancha escuro na paisagem. Bervely aprendera a evitar o lago de Hogwarts em qualquer estação que não fosse o verão – o ar úmido arruinava o seu cabelo e a lula-gigante gostava de pregar peças – mas ela tinha feito aquele percurso com Oliver algumas vezes no fim do seu sétimo ano.

— Como vão as coisas? — Oliver puxou conversa depois de alguns passos em silêncio, a não ser pelo sopro da brisa gelada atrás deles, mandando mechas do cabelo de Bervely para os seus olhos.

— Não estão terríveis, para falar a verdade.

— O que, no mundo maluco de Bervely Rose Black, significa que nenhum bruxo maluco tentou roubar o seu corpo e nenhum dementador tentou sugar a sua alma nos últimos meses.

Ela sorriu com os lábios fechados.

— Só estamos em março, não é? Vamos dar tempo ao tempo.

Oliver caminhava com as mãos fundas nos bolsos da calça, tendo guardado a garrafa de água, encolhida com um feitiço, no bolso da jaqueta. Enquanto caminhavam em silêncio, Bervely teve a impressão de que havia alguma coisa errada com ele – outra coisa, mais importante do que a chateação de Katie com o quadribol. Era algo no jeito com que ele carregava a si mesmo, a tensão dos ombros, a expressão pesada do rosto quando achava que ela não estava olhando. Captara um indício na festa das masmorras há algumas semanas, mas não lhe parecera o momento apropriado para perguntar, não quando Oliver estivera lhe rodopiando pela pista de dança e convidando-a para o seu casamento. Depois, com as serpentes atacando e Katie quase morrendo envenenada, ela se esquecera completamente do fato.

— E você, quem andou chutando o seu cachorro?

Ele a olhou de relance, intrigado, antes de se voltar para o sol que descia devagarinho a oeste.

— Como sabe?

Bervely soltou ar pelo nariz, deixando claro que aquela era uma pergunta boba.

— Você não parece especialmente interessado em discutir cada lance do jogo com o par de ouvidos mais próximo. Sua namorada está irritada e, ao invés de fazer algum gesto exagerado para que ela lhe perdoe, você está “tomando um ar” comigo.

Ele deu um sorriso atravessado para ela.

— O jogo foi insano, não foi? Senti falta dessa carnificina de Hogwarts. Tudo é tão civilizado, na Liga Europeia.

— Que despropósito, como eles se atrevem? — Bervely zombou, depois olhou com seriedade para ele, deixando claro que ainda esperava uma resposta para a sua pergunta inicial.

Oliver enrolou por mais um tempo, no qual alcançaram a borda do lago e começaram a andar pela parte seca e coberta por pedrinhas, com cuidado para não tropeçar nas rochas desiguais pelo caminho. As águas do lago cintilavam como a superfície de um espelho turvo, distorcendo a luz do sol.

— Acho que Katie pode estar mudando de ideia.

— Sobre o casamento? — Bervely perguntou, pouco surpresa.

Oliver negou.

— Não só isso… sobre nós. Desculpe, isso é estranho? Falar sobre Katie com você, entre todas as pessoas?

— Já fizemos coisas mais estranhas — ela disse, à guisa de encorajamento. — Eu não me preocuparia.

— Pensando por esse ângulo — Oliver sorriu sem alegria. — É só que, antes de começarmos a sair, Katie tinha essa ideia sobre mim, sabe? É claro que ela sabia quem era o “amigo” Oliver, mas ela teve um longo tempo para imaginar o “namorado” Oliver. Agora que finalmente estamos juntos, acho que eu não estou à altura da ideia que ela criou de mim. Sempre tenho a sensação de que a estou decepcionando.

— Não vejo como isso seria possível — disse Bervely. Oliver a espiou, curioso.

— Como assim?

Bervely mordeu a língua, mas era tarde demais para recuar.

— Você tem muitos defeitos, Oliver, mas ser um namorado ruim não é um deles.

Um sorriso afetado se expandiu no rosto do rapaz. Oliver inclinou a cabeça para pescar um olhar dela, fingindo-se de chocado.

— Onde estavam esses comentários lisonjeiros quando estávamos juntos?

— Num lugar fora do alcance do seu ego inflado — ela devolveu com um rolar de olhos. — Como se você não soubesse. Falsa modéstia não lhe cai bem, capitão convencido.

— Mesmo assim, ouvir algo assim na época não teria machucado.

Bervely mordeu a língua. Na época, dissera muitas coisas para Oliver que tinham machucado. O contrário não se aplicava – ela não tinha sido uma boa namorada para Oliver. A coisa mais nobre que fizera por eles fora pôr um fim em seu relacionamento antes que o fizesse ainda mais miserável por estar com ela.

— Bem, é diferente com a Katie — Oliver continuou. — Ela tem todas essas expectativas para o nosso relacionamento…

Bervely reprimiu um sorriso de zombaria.

— Ao contrário de mim, você quer dizer?

— Bem — Ele deu de ombros, factual. — Por acaso você tinha alguma?

Bervely apertou os dentes, olhando para o lago. Não, ela não tivera. Não no começo, quando eles estavam se divertindo, e certamente não quando percebeu que o relacionamento não iria durar, pela própria natureza do quem eram.

— Foi por isso que você a pediu em casamento? Por causa das expectativas dela? — perguntou, querendo se distrair da série de questões antigas sendo revolvidos com aquela conversa, como sedimento se erguendo do fundo de um lago.

— Ah, não. Isso foi um ato egoísta da minha parte — ele admitiu, enfiando as mãos mais fundo nos bolsos. Bervely o espiou com desconfiança.

— Explique.

Os olhos de Oliver, claros como mel, refletiam a luz do sol da tarde que os atingia por detrás do lago.

— Minha mãe está doente. Ela provavelmente não passa desse ano, e ela sempre quis… você sabe, me levar ao altar, a coisa toda.

Bervely se lembrava da mãe de Oliver, uma mulher jovial e bem humorada que conhecera na casa deles uma vez e que encontrara uma segunda, na sua formatura. Não conseguiu imaginar uma pessoa menos à beira da morte do que ela, mas então, isso devia ser diferente agora.

— Mas que droga, Oliver.

— É. Uma droga das grandes.

Eles pararam de andar. Tinham alcançado um enorme salgueiro – não o lutador, mas um pacífico– cujas folhas novas despontavam, respondendo ao primeiro chamado da primavera. Bervely ouviu Oliver fungar e lhe deu privacidade, caminhando em direção à árvore. Ela puxou a varinha do bolso e fez um feitiço para secar a terra entre as raízes, se livrando das folhas semidecompostas e do orvalho acumulado. Se acomodou em uma raiz mais alta e usou um accio para conjurar uma garrafa dos seus aposentos.

Minutos mais tarde, Oliver viu a garrafa passar voando por cima da sua cabeça e se aproximou curioso, os olhos ainda um pouco marejados.

— Que é isso?

— Vinho de fadas — Bervely disse, usando a varinha para expelir a rolha da garrafa com um pop seco.

— Pensei que só fadas bebiam vinho de fadas.

— Fadas sabem o que é bom — Bervely defendeu. Ela tomou um gole, sorvendo a bebida amarga com um suspiro de prazer, e ofereceu a garrafa para ele.

Oliver aceitou, se sentando ao lado dela na mesma raiz, apoiando as costas no tronco do carvalho, que era largo o bastante para ambos. Com a proximidade, o cheiro dele flutuou até Bervely– quente, familiar, tão Oliver quanto ela se lembrava.

Ele sorveu um gole da bebida e fez uma careta, mas não reclamou do gosto.

— Narcisa está morta — ela disse, antes que pudesse se conter. A imagem da tia, branca em seu túmulo de narcisos brancos, ressurgira das águas profundas de sua memória e tinham se colado às suas pálpebras de novo.

Oliver não respondeu imediatamente. Talvez não soubesse de quem Bervely estava falando – com a exceção daquela vez em que eles tinham se encontrado com Narcisa por acidente no Beco Diagonal, Bervely nunca falava sobre a tia.

Mas, Oliver soltou uma longa respiração e assentiu.

— Foi ela quem criou você, não foi? Até você fugir para morar com os pais da Tonks?

Bervely assentiu. Ela pegou a garrafa de volta das mãos dele e bebeu um gole grande, que fez seus olhos lacrimejarem.

— Sinto muito, Rose — ele disse, a voz rouca, soando como se sentisse. Bervely negou com a cabeça, os pelos dos braços se arrepiando com o comentário. Depois de todo aquele tempo Oliver não tinha que continuar se importando com ela, mas ele continuava. De verdade e sem esforço, como pouca gente que ela conhecia.

— Não quero a sua pena. Só quis dizer que… eu acho que eu entendo. Narcisa não era a minha mãe biológica, mas… Você sabe.

Oliver expirou o ar de seus pulmões, deixando escapar uma indignação que devia estar reprimindo há algum tempo.

— É tão estúpido, não é? A gente assume que elas vão estar lá para sempre. O mero pensamento de que podem deixar de existir um dia é a coisa mais absurda. Então um dia, de repente…

A voz dele quebrou. Bervely lhe passou a garrafa de novo. Ela inclinou a cabeça, pensativa.

— O que está matando a sua mãe?

— Câncer — ele murmurou, a voz arranhando em seu caminho para fora.

— Pensei que bruxos não tinham câncer.

Puros-sangues não tem câncer. Mestiços sim. Muito mais raro do que em trouxas, mas acontece. A comunidade bruxa não gosta de falar sobre isso, eu tenho percebido. Eles não têm a cura, não muito mais do que os trouxas tem, o que é ridículo, se você parar para pensar.

Bervely escorregou um pouco mais as costas contra o tronco rugoso da árvore. Quando a vida tinha ficado tão… impossível?

— Talvez eu pudesse trabalhar nisso, como o meu próximo projeto — ela sugeriu com ironia. — Fiz um antídoto em duas horas, o que é a cura para o câncer, se me derem uma noite inteira?

Oliver soltou uma risada aspirada, desprovida de emoção.

— Se você pudesse mesmo, eu te amaria para sempre.

O comentário fora sarcástico, mas o peso das palavras fez Bervely se virar na direção dele. Os olhos de Oliver se trancaram nos dela, e ele não os desviou dessa vez.

E ela descobriu que não doía. Não doía, se Oliver não a amasse para sempre. A realização do fato, apesar de tudo, a pegou de surpresa.

Ela quebrou o contato visual primeiro, fingindo ajeitar a saia das vestes, que escorregara para cima dos joelhos com o movimento anterior. Oliver pigarreou e esticou as próprias pernas envolvidas pelo jeans justo, cruzando-as nas alturas dos tornozelos e voltando a assistir o lago como se esperasse alguma coisa interessante brotar das águas escuras.

Bervely pegou a garrafa de volta e bebeu outro gole de vinho de fada, para acalmar os seus nervos.

— É de verdade então, com a Bell? Felizes para sempre, pequenos Olivers e Katies-do-time prontos para povoar os campos de quadribol mundo afora?

— Sim… acho que sim. Justamente por isso pensei que não faria diferença pedi-la em casamento agora ou daqui há alguns anos, sabe? Mas, se for agora, a minha mãe pode estar lá. E daqui há uns anos, quem sabe se qualquer um de nós vai estar vivo? As coisas andam tão instáveis.

Bervely estremeceu. A ideia de Oliver não estar vivo dali há alguns anos, mais tangível do que uma guerra abstrata se desenrolando do outro lado das paredes do castelo, enrolou o seu estômago.

— Então, qual é o problema? Katie vai superar o que aconteceu hoje. Ela sempre me pareceu bastante apaixonada, pulando no seu pescoço cada vez que você brota na escola.

— É…, mas paixão não é o suficiente para dar certo, né? Como nós dois bem sabemos.

O comentário lhe provocou uma pontada dolorosa, Bervely se segurou para, literalmente, não se encolher. Oliver lhe passou a garrafa de novo, num gesto carregado de arrependimento.

— Desculpe, isso saiu mais amargo do que o planejado.

— Um brinde à amargura, então — ela devolveu, levantando a garrafa na direção dele antes de beber. Oliver deu um sorriso desgastado nas bordas.

Eles beberam em silêncio, a garrafa indo e voltando até ficar bem mais leve. Bervely teve a impressão de sentir o gosto da boca de Oliver no gargalo, tão familiar como se fizesse dias, e não anos, desde a última vez que tinham se beijado. Ela se lembrou de quando eles tinham se sentado debaixo daquela mesma árvore, depois de Bervely receber alta da enfermaria após uma exaustão febril causada pelo seu exame para o Instituto Flamel, no fim do sétimo ano. Oliver lhe oferecera o ombro para que ela descansasse da caminhada até a árvore, e ela tinha recusado.

O que ela daria para voltar no tempo e dizer àquela Bervely cabeçuda para engolir o orgulho e deitar a cabeça no ombro de Oliver? Ao menos agora ela teria aquela memória para revisitar, no lugar do arrependimento.

— E quanto a você, Rose — perguntou ele em tom de conversa, cutucando uma pedrinha presa entre as raízes do carvalho. — Alguém sacudindo as espinhosas estruturas de Bervely Black?

Bervely rolou os olhos, mas não achou coragem para responder. Certas coisas, quando ditas em voz alta, se tornavam reais. E coisas reais tendiam a causar mais dano que as imaginárias.

Oliver, não obstante, tomou o seu silêncio como uma concordância.

— É aquele bonitão da festa de Halloween? O alto, com a cartola?

Bervely espiou com suspeita indignada.

— Como sabe disso?

— Eu vi vocês dois saindo da festa juntos — ele admitiu, deixando a pedrinha em paz e capturando a garrafa quase vazia das mãos dela. — Eu vejo as coisas, Rose. E então? É ele, ou tem alguém novo na história?

Ela suspirou.

— É complicado.

— Se não fosse, não seria você — ele riu. — Mas vamos lá, me entretenha. Complicado, como?

— Se eu te contasse, teria que te obliviar.

— E a cada negação eu fico mais curioso… Quem ele é, onde ele habita? O que come?

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

Ela riu, quieta.

Ele é o meu tio morto-vivo, mora em uma comunidade de vampiros e bebe sangue fresco sempre que tem a chance.

— Ele está um pouco fora do meu alcance — ela admitiu, ao invés disso. — E provavelmente não é alguém com quem eu deva me envolver, de toda maneira.

Oliver bebeu o último gole da garrafa, pensativo.

— Você não está me dando muito com o que trabalhar aqui. Mas no fim das contas, tudo se resume a uma só pergunta.

— E que pergunta seria essa? — Bervely inclinou o rosto para o lado, aceitando a isca. Oliver fez o mesmo, encarando-a com seriedade.

— Ele merece você?

Ela ergueu uma sobrancelha, reprimindo um riso de zombaria.

— E como raios eu sei a resposta disso?

— Ah, você sabe. No fundo, você sabe. Por exemplo… ele é do tipo que a acompanharia a uma ilha infestada de dementadores para acompanhá-la numa visita à sua mãe comensal da morte? Ou… ele fugiria da escola com você, para comprar uma Firebolt para o seu pai fugitivo? Ele passaria quarenta minutos tentando explicar a um joalheiro trouxa a diferença entre as cabeças de um tiranossauro e um velociraptor, mesmo que isso o faça parecer um completo maluco?

Bervely riu alto, prova de que o vinho de fadas já a estava deixando meio bêbada, depois encolheu os ombros.

— Posso estar errada, mas acho que seu questionário é só um pouquinho específico e tendencioso, com pouca aplicabilidade para a situação atual.

— Não, sério — Oliver disse, sóbrio e insistente. —Você é Bervely Rose Black. Você faz emboscadas para colocar bruxos ruins atrás das grades, você… cria antídotos do mais absoluto nada, para salvar vidas de alunos que nem são a sua responsabilidade! Ele precisa no mínimo ser alguém que vai aguentar a barra, se quer estar ao seu lado.

— Aí que está — ela suspirou e se esticou, sentindo-se de repente deprimida, e culpando a bebida por isso. — Não sei se é o que ele quer, “estar ao meu lado”.

— Se ele não quiser — Oliver disse, enfático —, isso faz dele um idiota.

Eles terminaram aquela garrafa e depois outra, jogando conversa fora à medida que a tarde passava. Oliver contou a Bervely detalhes sobre jogar no United – o assédio dos fãs e as exigências físicas do treinamento (que explicavam como ele tinha desenvolvido aqueles músculos sólidos por baixo da roupa, que Bervely sentira quando tinham dançado juntos). Bervely contou sobre as aulas de poções substituindo Snape, sobre a doença de Sirius e o seu afastamento do mundo mágico. Ela deixou Regulus deliberadamente de fora da conversa, fazendo parecer que um benfeitor misterioso tinha surgido do nada para abrigar Sirius longe do perigo, mas Oliver não perguntou detalhes.

Oliver confessou que não tinha abandonado o United por completo, só pedido uma licença para passar mais tempo com a mãe e Meggs, a irmã caçula, em Exeter.

Eles discutiram sobre como tanto Anne quanto Meggs estavam crescendo ridiculamente rápido e resmungaram suas frustrações sobre suas respectivas irmãs caçulas. Oliver perguntou se Johanne estava saindo com algum garoto e se Bervely já tinha planejado ter “a conversa” com ela. Bervely entrou ligeiramente em pânico com o fato de que não, ela não tinha planejado ter “a conversa” com Anne, nem fazia a menor ideia de como introduzi-la. Oliver lhe prometeu uma cópia das anotações que ele estava preparando para quando o momento chegasse para Maggie, já que sua mãe provavelmente não estaria mais por perto para cumprir aquela tarefa.

Não foi até o sol começar a se aproximar do horizonte que Bervely percebeu quanto se passara. Ela estava pensando de novo na pilha de trabalhos para corrigir aguardando em sua escrivaninha nas masmorras – e como não queria retornar para aquilo – quando um movimento captado pelo canto de olho atraiu a sua atenção.

A pequena figura prateada se aproximava deles com velocidade, e Bervely o reconheceu rápido e com alguma preocupação.

— É Jinx — ela se levantou, antes mesmo de o gato chegar perto o bastante. O mundo girou um pouco mais Bervely se apoiou no tronco da árvore. Álcool e barriga vazia. Qual era o seu problema? – Merda.

Havia enviado Jinx mais cedo, com um pequeno pacote atado à coleira, no qual colocara a dose de poção mata-cão de Remus. Ela espiou o céu – a lua cheia já estava visível, uma pálida moeda prateada surgindo por detrás da silhueta do castelo.

Oliver se levantou também, reparando no gato que se aproximava.

— Algum problema?

— Provavelmente.

Jinx chegou a centímetros dos seus tornozelos e ela se inclinou para afagar o gato, reconhecendo a urgência em seus movimentos. No momento em a palma de sua mão encostou a pelagem prateada, ela ouviu a voz e viu Remus falando com o animal.

Chame Bervely até aqui.

— Preciso ir — ela disse para Oliver, inclinando-se para recolher as duas garrafas vazias. Ele a fitou, alarmado.

— Oh–oh. Eu conheço essa cara.

— Que cara? — Bervely tentou conseguir mais informações de Jinx, esfregando a mão no pelo macio entre as suas orelhas, mas ele só lhe mostrava a mesma imagem: Remus, um olhar alarmado no rosto, chame Bervely até aqui.

— Bervely ao resgate — Oliver explicou. — Aonde você precisa ir?

— Hogsmeade, eu suponho — ela disse, a garganta seca. — O mais rápido possível.

Bervely olhou para o castelo e calculou quanto tempo demoraria para alcançar e explicar tudo à McGonagall, e obter permissão para usar a sua lareira. Ou, ela poderia correr ao terceiro andar e usar a passagem da bruxa de um olho só. Mas, a sua melhor chance era dar a meia-volta no lago e alcançar o salgueiro lutador. Jinx a ajudaria a paralisar a árvore, mas o risco de ser vista era grande, ainda não estava escuro o suficiente… e de toda forma, atravessar o túnel subterrâneo até a Casa dos Gritos lhe roubaria minutos preciosos…

— Eu levo você lá — Oliver ofereceu, enfiando a mão no bolso da jaqueta e tirando lá de dentro uma vassourinha minúscula.

— Você carrega a sua vassoura no bolso?

— Lógico, você não? — Oliver já retornava a vassoura ao tamanho original, com ajuda de um cuidadoso feitiço engurgitador.

A lembrança de voar em uma vassoura fez os joelhos de Bervely amolecerem, mas o contorno da lua cheia estava ficando mais e mais nítido no céu à medida que os minutos passavam. Remus se transformaria em breve, se já não estivesse no processo. Se algo estivesse errado com a sua poção mata-cão, talvez ele não tivesse tido tempo para selar a Casa dos Gritos completamente, antes de a transformação começar. O vilarejo estaria em perigo, com um lobisomem solto e perigoso noite adentro. E se ele encontrasse o seu caminho para o castelo…

Então? — Oliver insistiu, uma perna já em torno da vassoura, lhe oferecendo a mão. O déjà vu socou o estômago de Bervely, já sensível por conta de todo o álcool ingerido nas últimas horas.

— Barbas de Salazar — ela gemeu, inclinando a sua cabeça para o céu. Porque era sempre ela, naquelas situações? A lua lhe olhou de volta, desdenhosa.

— Você já fez isso antes — ele disse, como se ela precisasse de lembrete. — Pode fazer de novo.

Sem uma opção mais rápida, Bervely montou na vassoura atrás dele.

— Segure firme — disse Oliver, dando um impulso para cima e fazendo o chão sumir de debaixo dos seus pés.

Como se ela fosse louca de fazer o contrário.

(Continua…)



Notas finais
Sobre a surpresinha: vou escolher 10 leitor@s ativ@s para receber um cartão postal personalizado de CDM esse dia das bruxas! As ilustrações foram feitas por uma artista MUITO FODA que faz fanarts maravilhosas de HP (@mad1492_) e recebeu instruções para desenhar duas cenas do capítulo de dia das bruxas ("Você Escolheu Travessuras"). Os cartões vão ser assinados por mim e enviados aqui de Montreal :) Interessad@? Basta comentar bonitinho nesse capítulo e avisar que quer um, e você entrará na lista de potenciais ganhadores! Vou esperar até o dia 24/10 (sábado) para o envio, mas quanto antes melhor! Mais informações em breve no grupo de Black Destiny no Facebook ("Série Black Destiny"). Beijocas!