A camponesa e a ninfa do rio: um breve conto de amor atual em quatro dias com um final feliz, seja lá o que felicidade signifique...


O Encontro


A camponesa caminhava junto ao rio até a sua casa, estava voltando da cidade e trazia consigo um manto novo para passar o inverno, leite, pão fresco, queijo, frutas frescas, frutas secas e um pequeno caderno onde costumava escrever a lista de compras com um bastão de carvão que sempre carregava em um bolso oculto na saia do vestido. Saber ler e escrever era muito raro para uma mulher em sua época e ela era vista como incomum, era órfã desde os 10 anos de idade, morava sozinha no meio da floresta e costumava acolher viajantes, que sempre voltavam para visitá-la como amigos. Nunca casara mesmo tendo pretendentes, pois era bela.


Ela levava uma vida pacata, silenciosa, cheia de pequenas alegrias e na companhia de amigos que a admiravam por sua segurança, ela era sábia e tomava boas decisões, sempre segura de si.


A pequena camponesa tinha olhos castanhos, que sustentavam um olhar doce e amigável, um sorriso agradável em um rosto com pequenas sardas. Estava calor, ela prendia o longo cabelo em um coque no alto da cabeça e se escondia entre a sombra das árvores da melhor maneira que podia, porém o sol sempre penetrava entre as folhas e a atingia, fazendo sua pele, muito branca, brilhar.


Enquanto caminhava, a camponesa percebeu uma amoreira cheia de frutos a margem do rio e decidiu ir apanhá-los. Ao chegar à margem percebeu que uma ninfa a observava e como ela era linda! Como hão de ser todas as ninfas, mas a camponesa viu naquela algo especial, fosse seu longo cabelo ruivo que se espalhava pelo rio, seu corpo delicado de pele azulada pelo reflexo da água cristalina e cheia de pequenas flores tatuadas que se espalhavam em ramos por todo o corpo, além dos olhos grandes, que pareciam refletir o arco-íris.


A pequena ninfa levava uma vida fantasiosa, porém monótona... ela não podia sair da rio, pois fora da água padeceria. Passava os dias cantando para as outras ninfas, seguia de um limite a outro do rio, adorava tocar o mar, mas sempre voltava para aquele trecho, próximo a amoreira. Quando seguia para a nascente, escutava as histórias das outras ninfas sobre as pessoas. As ninfas da floresta, suas melhores companheiras, contavam que os homens as capturavam pensando erroneamente que elas realizariam todos os desejos deles, porém nem todos os pedidos estavam ao alcance das ninfas da floresta, quando os homens percebiam, eles as abandonavam novamente, ou em alguns casos elas eram estupradas.


Mas a ninfa ruiva não tinha medo das pessoas, muito pelo contrário, sentia uma grande curiosidade.


A camponesa, por sua vez, ouvia muitas histórias sobre as ninfas do rio, sabia que elas costumavam encantar lenhadores e caçadores para então afogá-los. Ouvia lendas sobre a realização de desejos caso capturasse uma delas. Conhecia sobre a natureza vingativa delas. Entendia os perigos, mas ela se sentia extasiada, então se sentou à margem do rio e começou a admirar a ninfa.


Elas descobriram uma a outra e a si mesmas durante quatro dias.


O primeiro dia:


A ninfa percebeu que sua curiosidade era recíproca, ambas se observavam atentamente, os olhos da pequena ruiva eram curiosos e analíticos, ela se escondia atrás de algumas pedras próximo ao fundo e lançava a camponesa sorrisos tímidos. Ao se ter atentamente observada a camponesa se sentiu insegura e nervosa pela primeira vez. Com gestos desajeitados ela se aproximou um pouco mais do rio para melhor ver a ninfa, a pequena ruiva saiu de traz das pedras e aproximou-se um pouco mais da margem. Ambas sorriram nervosamente. Elas trocaram olhares inquietos, sorrisos ansiosos e gestos sôfregos... sem nunca tentar transpor a barreira que as separava.


Talvez todas aquelas histórias sobre os humanos sejam apenas estórias... Pensava a pequena ninfa.


Naquele dia, elas viveram um silêncio agradável, satisfeitas por terem a companhia uma da outra. Porém, no ocaso, a camponesa teve a necessidade de tocar a outra, contudo seu nervosismo e insegurança faziam sua mão tremer, mas ela não tinha medo, então, estendeu a mão em direção ao rio. A ninfa sempre curiosa, ao perceber a mão tremula se aproximar teve medo pela primeira vez e fugiu para as pedras.


À noite, a camponesa adormeceu a margem do rio, com um estranho sentimento no peito, um nervosismo e insegurança.


A ninfa, que a velou enquanto dormia, queria estar mais próxima da outra, mas sentiu-se medrosa e temeu ainda mais que ela partisse.


E elas descobriram o sentimento...


O segundo dia:


A ninfa queria poder falar a sua companheira sobre o medo de que ela partisse.


A camponesa gostaria de falar sobre o nervosismo por não saber como agir perto dela.


A ninfa tentou falar, mas sua voz chega distorcida a companheira.


A camponesa sentia-se nervosa por não compreender o que era dito e ainda que a ninfa pudesse compreendê-la, ela gaguejava e não conseguia se expressar, mas lembrou que trazia consigo um pequeno caderno de anotações e após muita reflexão escreveu:


Amo-te,

Por isso estou nervosa...


A ninfa sorriu, entendia a profundidade daquelas palavras, e com seu sorriso tudo que estava ao redor prosperou, tornou-se mais fértil, alegre, exuberante...


Em um momento de espontânea alegria a ninfa cantou e desse modo sua voz saiu límpida e pode expressa todo seu medo de perder a linda camponesa. Cantou sobre seu mundo, suas companheiras ninfas, sobre o desejo de ir além mar, sobre as histórias sobre os humanos, histórias dos peixes, e seu coração se acalmou.


A camponesa teve seu coração apaziguado pela voz da ninfa ruiva e contou a ela sobre sua vida, os pais, os viajantes que paravam em sua casa, que sempre retornavam para visitá-la, sobre as histórias que traziam, sobre a cidade e como era o mundo fora da água. Estava feliz por poder compartilhar cada palavra.


Durante a noite, enquanto a camponesa dormia, a ninfa pensava no que cantaria para ela na manhã seguinte. A queria por perto cada vez mais, com todo seu nervosismo engraçado e jeito sincero de se expressar, como a respeitava e todo o carinho, as historia que a companheira contava, e como a ouvia, e imaginava o quão bonito e divertido era o mundo fora dágua, cheio de árvores e com o a brisa.


Mas acima de tudo queria senti-la.


A camponesa sonhou, e em seu sonho, ela mergulhava no rio e não sentia a necessidade de ar, elas estavam de mãos dadas a ninfa que a guiava pelo mundo maravilhoso que existia em baixo da água, cardumes coloridos, que dançavam como quadrilha, um castelo de pedras turquesa, olho de tigre, turmalina, quartzo rosa, ametista,ágata azul, rubi, a pedra da lua, onde elas podiam dormir abraçadas e... Beijar-se.


Naquele dia elas descobriram a linguagem.


O terceiro dia:


Era divertido estar sempre perto, ambas sentiam a presença uma da outra a todo o momento, mas ao mesmo tempo a sentiam-se distantes. Nascia nelas o desejo...queriam sentir a pele uma da outra, as caricias, porém a ninfa era medrosa de mais para se expor ao ar e nina sentia-se insegura, sem saber ao certo se deveria tentar. Até que a camponesa estendeu sua mão sobre o rio e foi correspondida, houve um sorriso nervoso no rosto de ambas e satisfação. A ninfa se aproximou ainda mais da margem e a camponesa ainda mais do rio assim, trocaram caricias tímidas com as mãos, tocaram seus rostos, braços, seus seios.


Cada uma participava um pouco do ambiente uma da outra, sem nunca estar nele por completo...


... e descobriram o toque...


O quarto dia:


O desejo crescia entre elas.


No quarto dia a ninfa cantava melodias inseguras e tinha medo de demonstrar os seus desejos e ter que entrar por completo na superfície, a camponesa sentia-se nervosa, queria conhecer o mundo da ninfa e estar cada vez mais próximo dela.


Passaram um dia silencioso e desagradável, remoendo dúvidas.


No fim da tarde a camponesa decidiu ariscar, retirou as veste, seu corpo brilhou ao sol, e entrou no rio, a camponesa mergulhou seu corpo com cautela e elas se tocaram lentamente. Imergiu por completo e se viu completamente imersa no mundo da ninfa, e como ele era belo, muito melhor que o sonho pelo simples fato de ser real, a camponesa sorriu e beijou a ninfa.


Elas trocaram um beijo calmo, carinhoso e molhado. Aproveitaram todas as pequenas sensações daquele momento, mas o fôlego acabou e a camponesa seguiu para a superfície e levou consigo a pequena ninfa.


A ruiva ao ver-se no mundo da companheira ficou maravilhada com a luz e a cor, sentiu o peso dos cabelos e o zéfiro que passava, sorriu e beijou a camponesa intensamente, mas o ar a sufocou e imergiu de volta a seu mundo, mas ainda abraçada à camponesa.


A camponesa convidou a ninfa para um beijo.


Na fronteira de cada mundo seus lábios se encontraram e elas perceberam que aquele era um beijo de adeus.



Notas finais
sei que poderia ter dividido em vários pequenos capítulos, mas achei melhor assim...
Aceito críticas, sugestões, comentários, muitos comentário....para que a autora possa progredir e corrigir os erros que você apontarem...
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!