A Caminho das Estrelas
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Quem são as coisas? São monstros que vieram e tiraram tudo de importante de nós. Nos saquearam, nos mataram, nos escravizaram, tiraram nossa vontade de viver. São seres que vieram a terra com um único propósito: nos roubar. Alguns diriam que são aliens mas eu os chamo de demônios.
Os dias estão amenos. Depois de um longo e congelante inverno as coisas estavam indo bem. Os invernos eram difíceis, apesar dos suplementos que gente possuía, a fome espreitava pelos cantos. A neve que cobria todos os cantos da mata era densa, morávamos em uma das cidades mais fria dos Estados Unidos e com isso havia uma certa dificuldade em sair do acampamento para caçar ou para as missões do soldados. Éramos mais lentos e fracos enquanto as coisas pareciam muito acostumado com o clima.
A primavera já estava conosco fazia algumas poucas semanas. Os dias estavam mais quentes e a neve já não existia e aos pouco voltávamos com a nossa rotina normal.
Jonas partiria daqui algumas horas para mais uma de suas inúmeras expedições. Senhor K esperou que o clima se firmasse para mandar os soldados em suas obrigações. Todas as vezes que ele partia parte do meu coração ia junto. E esse era um dos motivos de eu querer tanto fazer parte dos soldados, poder ir junto com meu irmão porque se algo acontecesse com ele eu estaria lá nem que fosse apenas para morrer junto a ele. Acho que Jonas sabia disso, por isso era tão contra meu recrutamento e de alguma forma convenceu senhor K do mesmo.
Jonas não era minha única preocupação no momento, algo estava estranho com as florestas, muitos partiam para caçar mais quase ninguém voltava com sucesso. Os animais parecem ter sumido, encontrávamos um ou dois perdido apenas. Se isso continuasse logo estaríamos passando fome.
— Deveríamos ir para o sul, alguns soldados que voltaram recentemente disseram ter avistado alguns animais de porte grande na área — Senhor K falava enquanto olhava para o mapa aberto em uma mesa que já tinha visto dias melhores.
— O sul é tão perigoso, muito próximo da cidade, do acampamento das coisa, sem falar dos saqueadores. — falei tentando pensar nas opções, nada vinha a mente.
Droga. A solução mais provável seria exatamente essa: para o sul. Era o mais próximo do nosso território onde havia uma grande possibilidade de dar certo. Soldados já relataram a existência de alguns animais naquela região e um deles até trouxe coelhos como prova. Porém, na direção sul do acampamento era área urbana. Saqueadores e as coisas desfilavam pela cidade, era como ir na direção da boca de um leão faminto.
— É nossa única opção ou arriscamos ou logo passaremos fomes — Senhor K coçou a barba — Tentarei mandar alguns soldados junto aos caçadores.
Apoiei minhas mão na mesa olhando fixamente para o mapa. Devia ter algum lugar, algo que deixamos passar, alguma região. — É tão estranho — Passei a mão no rosto. Estava tão cansada, mal tinha dormido preocupada com a viagem de Jonas.
Me sentei tentando dar um descanso para as pernas que já começavam a doer — Os animais sumirem mas para onde eles foram? — perguntei mais para mim mesma. Sempre houve animais grandes e pequenos na região ao redor do acampamento, antes do inverno ainda existia uma grande quantidade deles pelas redondezas e então do nada eles desaparecem.
— Talvez o inverno os tenha afastado e seja questão de tempo até eles voltarem. — Ponderou Senhor K
Eu sei que ele só está tentando amenizar a situação, tentar nos dar esperança. Porém não acho que seja só questão de tempo. Algo tinha afastado os animais.
Kevin bateu a mão na mesa em sinal de frustração — Fazem semana...SEMANAS que o inverno se foi — exclamou irritado — Não é possível que esteja fugindo do frio ainda. Concordo com Ginger, é arriscado ir até o sul, muitos de nós não tem preparo físico se uma das coisas aparecer. — pressionou o punho na boca — Muito vão morrer.
Os outros caçadores do acampamento que estão com a gente nessa reunião, após escutar Kevin começaram a ficar apreensivos e a falarem um sob os outros, tornando tudo uma bagunça de falas.
Kevin era apenas um ano mais velho que eu. Está com senhor K há apenas alguns meses. Ele é um caçador nato, praticava a caça como esporte bem antes de tudo ir a merda, um hobby herdado de seu pai.
Ele tinha cabelos castanhos e encaracolados, alguns cachos caiam sobre seus olhos. Portador de um sorriso esnobe com dentes brancos e aliados, olhas verdes, nariz arrebitado e um queixo longo com um covinha. Provavelmente era capitão do time da escola há uma vida atrás. Apesar de ser um bom caçador deixava a desejar como pessoa.
— Ei — gritou Senhor K tentando fazer todo mundo calar a boca- Eu não vou deixar isso acontecer, iremos preparado — olhou para Kevin — Sul é onde deveríamos ir e é onde vocês vão — recolheu o mapa da mesa e olhou para mim, para Kevin e depois para os restos que ali escutavam — Sem discussões — e então saiu.
— Você concorda que é uma péssima ideia, não é Ginger? — Kevin segurou meu braço quando eu me virava para sair dali.
Dei de ombros, não tinha muito que pudesse fazer. Puxei meu braço e continuei meu caminho até meu treino de luta.
***
Já estava morta de cansada, suada por todos os lugares possíveis. Aprender a lutar era um bom passatempo além de ser útil na situação em que nos encontrávamos. Uma boa maneira de gastar energia, o stress e a raiva.
Normalmente era Jonas que me ensinava. Antes das coisas chegarem Jonas era apaixonada por todos os tipos de luta, praticava um pouco de tudo. Não era atoa que se formaria em educação física. Mas como Jonas estava ocupado com os preparativos para viagem tive que me contentar com Noah.
Noah tinha uns 21 anos e era bom em luta corporal, não tão bom quanto Jonas mas o bastante. Tinha uma pele achocolatada, olhos negros e um peitoral de dar inveja a quem olhasse. Não conversávamos muito além de lutar. Tenho quase certeza que Noah gosta do silêncio.
Pausei para tomar água. Ela descia pela garganta quando senti um peteleco na cabeça que me fez engasgar. — Você é...- tossi virando para enfrentar quem quer que tivesse ousado e encontrei Jonas rindo- ..louco?.
Depois de me recuperar da crise de tosse observei ele com mais atenção. Ele já vestiu as roupas de soldado, que era basicamente roupas pretas. Calças escuras, blusa preta com um colete caseiro por cima para diminuir o impacto dos danos e um casaco também preto. As calças por dentro tinham placas de plásticos para minimizar as possíveis quedas ou ataques. A roupa não era nada confortáveis mas eram eficientes.
— Já estão indo? — minha voz saiu trêmula, nunca ficava fácil.
— Já, cenourinha — provavelmente devo ter corado com o apelido infantil que Jonas me deu quando nasci. — Vai dar tudo certo — se aproximou para me abraçar.
Me afastei rapidamente e estendi a mão para pará-lo — Estou suada e fedendo não se aproxime — ri ainda com a mão levantava.
Jonas inclinou a cabeça para o lado e semicerrou os olhos — Que você é fedida eu sei, mas você nunca se sabe quando pode ser o último abraço sabe — colocou a mão no coração em sinal fingido de tristeza.
Aquilo me fez socar seu peito com toda raiva que senti — Não fala mais isso — e me joguei em seus braços ignorando de vez o suor.
Sua mão escovava meus cabelos enquanto eu escondia meus rosto em seu peito tentando segurar as lágrimas — promete que você vai fazer de tudo para voltar — a voz saiu um pouco abafada por estar pressionada contra seu abdômen. Me afastei apenas para encontrar seus olhos em busca da resposta.
— Eu prometo — beijou minha cabeça e me soltou — sem choros, por favor. Você é mais forte que isso. — riu fracamente
Meia hora depois eu segurava meu peito enquanto observava ele partir junto com um grupo de mais 3 pessoas. Antes de passar pelo portão ele olhou na minha direção, colocou dois dedos na testa e os afastou, uma forma de adeus. Quando não conseguia mais vê-lo eu parti em direção aos dormitórios. Mal cheguei na cama antes das lágrimas me vencerem.
***
— Lágrimas não combina em você.
Desencostei o rosto do travesseiro e olhei para direção da voz. Era Kevin, encostado na porta do dormitório. Era só o que me faltava. Ele não era minha pessoa favorita desse acampamento.
— Vá embora — falei antes de virar de costas para ele.
O silêncio reinou no ambiente, provavelmente devia ter me obedecido e ido embora. Então senti o colchão afundar nos meus pés.
— Temos que conversar sobre o que aconteceu naquela reunião — silêncio novamente — Você sabe que não estão preparados para isso. A maior parte tem 14 anos. — continuou. — É suicídio.
— É nossa única opção — não virei em sua direção eu continuava encarando a parede de madeira. — Vamos em um grupo pequeno e reunimos os mais experientes. Se a gente ver que vale a pena continuar indo naquela direção, então os outros vão.
Kevin bufou provavelmente frustrado — Ainda acho que não é nossa única opção.
Kevin era tão teimoso, vivia contradizendo tudo. — Me diga um local então. Você é o experiente aqui. Você caça desde que estava nas fralda, então — me sentei na cama encarando seu rosto — me conte a solução.
Ele desviou os olhos do meu e engoliu em seco. Teve a audácia de parecer constrangido por não ter uma ideia melhor. — Foi o que eu imaginei — voltei a deitar. — se não tem nenhuma ideia você pode por favor me deixar sozinha?.
Senti o levantar e os passos se afastando dali. Nenhuma palavra a mais foi dita. Eu entendo a angústia de Kevin, não é fácil se sentir responsável pelos mais novos. O sul é um local cheio de perigo, muito próximo da cidade, das coisas, dos saqueadores.
Não vamos conseguir caçar muitos animais de porte grande, o peso vai nos desgastar demais no caminho de volta. E se precisarmos ter que ir em bandos maiores vamos ter dobro do perigo.
Isso não vai dar certo.
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