No dia seguinte, Rony foi com Harry ao Salão Principal e sentaram-se à mesa da Grifinória ao lado de Hermione. Rony percebeu que a garota já lia enquanto comia, e ao se cumprimentarem notou uma certa formalidade da parte dela — o que devia ser o jeito dela de mostrar sua reprovação ao acontecimento do dia anterior.

Já Neville deu bom dia animado:

— O correio deve chegar a qualquer momento! Acho que vovó vai me mandar umas coisas que esqueci.

Rony tinha começado a comer seus ovos com bacon quando centenas de corujas entraram no salão. Um grande embrulho disforme bateu na cabeça de Neville e, um segundo depois, alguma coisa grande e cinzenta caiu na jarra de Hermione, salpicando todo mundo com leite e penas.

— Errol! – exclamou Rony, puxando pelos pés a coruja molhada para fora da jarra. Errol caiu, desmaiada, em cima da mesa, as pernas para cima e um envelope vermelho e úmido no bico. Ao ver o envelope vermelho, o garoto sentiu a adrenalina gelar seus ossos: sabia exatamente do que se tratava.

—Ah, não!... — exclamou ele outra vez, dessa vez com o rosto franzido em agonia antecipada.

— Tudo bem, ele ainda está vivo – disse Hermione, cutucando Errol devagarinho com a ponta do dedo.

— Não é isso, é isto. — Rony estava apontando para o envelope vermelho. Ele olhou com receio para o mesmo, com medo de abrir.

— Que foi? – perguntou Harry.

— Ela... ela me mandou um "berrador" – disse Rony baixinho.

— É melhor abrir, Rony – sugeriu Neville com um sussurro tímido. – Vai ser pior se você não abrir. Minha avó um dia me mandou um e eu não dei atenção – ele engoliu em seco –, foi horrível.

— Que é um berrador? – perguntou Harry, olhando deles para o envelope.

Mas toda a atenção de Rony estava fixa na carta, que começara a fumegar nos cantos.

— Abra – insistiu Neville. – Termina em poucos minutos...

Rony estendeu a mão trêmula, tirou o envelope do bico de Errol e abriu-o. Neville enfiou os dedos nos ouvidos. Assim que aberto, um estrondo encheu o enorme salão, sacudindo a poeira do teto.

"... ROUBAR O CARRO, EU NÃO TERIA ME SURPREENDIDO SE O TIVESSEM EXPULSADO, ESPERE ATÉ EU PÔR AS MÃOS EM VOCÊ, SUPONHO QUE NÃO PAROU PARA PENSAR NO QUE SEU PAI E EU PASSAMOS QUANDO VIMOS QUE O CARRO TINHA DESAPARECIDO..."

Os berros da sua mãe ecoaram cem vezes mais altos do que de costume, fazendo os pratos e talheres se entrechocarem na mesa e produzirem um eco ensurdecedor nas paredes de pedra. As pessoas por todo o salão se viravam para ver quem recebera o berrador, e Rony afundou tanto na cadeira que só deixara a testa vermelha visível.

"... CARTA DE DUMBLEDORE À NOITE PASSADA, PENSEI QUE SEU PAI IA MORRER DE VERGONHA, NÃO O EDUCAMOS PARA SE COMPORTAR ASSIM, VOCÊ E HARRY PODIAM TER MORRIDO..."

"... ABSOLUTAMENTE DESGOSTOSA, SEU PAI ESTÁ ENFRENTANDO UM INQUÉRITO NO TRABALHO, E É TUDO CULPA SUA, E, SE VOCÊ SAIR UM DEDINHO DA LINHA, VAMOS TRAZÊ- LO DIRETO PARA CASA."

Seguiu-se, então, um silêncio que chegou a ecoar. O envelope vermelho, que caíra das mãos de Rony, pegou fogo e encrespou-se em cinzas. Rony se sentiu tonto e enjoado, como se tivesse acabado de ser sacudido pelo Salgueiro Lutador outra vez — só que agora com o adendo horrível dos gritos de sua mãe, e em público.

Algumas pessoas riram e, aos poucos, a balbúrdia da conversa recomeçou. Ao msmo tempo, Hermione fechou o seu "Excursões com vampiros" e olhou para o cocuruto da cabeça de Rony.

— Bem, não sei o que é que você esperava, Rony, mas você...

— Não me diga que mereci – retrucou Rony com rispidez. Já imaginava que a amiga iria querer lhe dar um sermão, mas imaginou se Hermione, por acaso, não acabara de ver que o que tomara de sua mãe já fora suficiente para meter medo nele e envergonhá-lo.

Então, Hermione se calou de novo e Rony ficou com os olhos vidrados, de repente indiferente ao café da manhã. Não havia parado para pensar em como aquilo poderia afetar seu pai e, na realidade, à toda a sua família: havia sido um ato de desespero e, agora ele podia ver, inconsequente, porque falhara em imaginar toda aquela proporção. Agora seu pai enfrentava um inquérito no trabalho e, bem, isso não podia significar nada bom — e tudo por sua culpa.

É claro que ele não fazia ideia daquele tipo de consequência, ou sequer teria pensado no carro. Era só que seu desespero com Harry pela ideia de perder o trem para Hogwarts fora tanto que ele não foi capaz de pensar em nada melhor naquele dia.

Agora, no entanto, ele entendia, e sua cabeça estava cheia de culpa e pensamentos horríveis: seu pai seria despedido do Ministério? Ou talvez rebaixado do cargo? Seu trabalho era a única fonte de renda da família e se por sua causa ele a perdesse, do que sua família iria viver?

Rony foi se sentindo cada vez pior e tão imerso naquelas ideias terríveis, que se sobressaltou quando a Profa McGonagall passou por ele distribuindo os horários dos cursos. O garoto nem se deu ao trabalho de ler tudo, viu apenas qual era a primeira aula — Herbologia — e saiu de lá acompanhando Harry e Hermione.

Os três saíram do castelo, atravessaram a horta e rumaram para as estufas em silêncio. No caminho, Hermione considerou que o sermão da Sra. Weasley já tivesse sido o suficiente para ele. Na verdade, estava até com um pouco de pena de Rony. Ele parecia bem preocupado, talvez por seu pai ter sido prejudicado no trabalho, então ela decidiu não falar mais nada sobre aquele assunto, voltando a ser usualmente simpática com os dois.

Ao se aproximarem das estufas, os três viram o resto da classe em pé, do lado de fora, esperando a Profa Sprout. Harry, Rony e Hermione tinham acabado de se reunir à turma quando a professora surgiu caminhando pelo gramado, acompanhada de Gilderoy Lockhart. Ela trazia os braços carregados de bandagens. Ao olhar para a direção de que ela tinha vindo, Rony viu a árvore que quase os esmagou, com vários ramos em tipoias.

— Ah, alô pessoal! – cumprimentou ele, sorrindo para os alunos reunidos. – Acabei de mostrar à Profa Sprout a maneira certa de cuidar de um Salgueiro Lutador! Mas não quero que vocês fiquem com a ideia de que sou melhor do que ela em Herbologia! Por acaso encontrei várias dessas plantas exóticas nas minhas viagens...

— Estufa três hoje, rapazes! – disse a Profa Sprout, que tinha um ar visivelmente contrariado, bem diferente de sua habitual expressão animada.

Houve um murmúrio de interesse. Até então, só tinham estudado na estufa número um – a estufa três guardava plantas muito mais interessantes e perigosas. A Profa Sprout tirou uma chave enorme do cinto e destrancou a porta. Rony entrou logo depois de Hermione, mas Harry se demorou um pouco — tinha ficado lá fora com Lockhart, entrando minutos depois se colocando em seu lugar habitual, entre ele e Mione.

Assim que ele o fez, a Profa Sprout, que estava parada atrás de uma mesa de cavalete no centro da estufa, começou a aula.

— Vamos reenvasar mandrágoras hoje. Agora, quem é que sabe me dizer as propriedades da mandrágora?

Ninguém se surpreendeu quando a mão de Hermione foi a primeira a se levantar.

— A mandrágora é um tônico reconstituinte muito forte – disse Hermione, parecendo, como sempre, que engolira o livro-texto. – É usada para trazer de volta as pessoas que foram transformadas ou foram enfeitiçadas no seu estado natural.

— Excelente. Dez pontos para a Grifinória – disse a Profa Sprout. – A mandrágora é parte essencial da maioria dos antídotos. Mas, é também perigosa. Quem sabe me dizer o porquê?

A mão de Hermione errou por pouco os óculos de Harry quando ela a levantou mais uma vez.

— O grito da mandrágora é fatal para quem o ouve – disse a garota prontamente.

— Exatamente. Mais dez pontos. Agora as mandrágoras que temos aqui ainda são muito novinhas. Ela apontou para uma fileira de tabuleiros fundos ao falar, e todos se aproximaram para ver melhor. Umas cem moitinhas repolhudas, verde-arroxeadas, cresciam em fileiras nos tabuleiros.

— Agora apanhem um par de abafadores de ouvidos. – mandou a professora.

Os alunos correram para a mesa para tentar apanhar um par que não fosse peludo nem cor-de-rosa.

— Quando eu mandar vocês colocarem os abafadores, certifiquem-se de que suas orelhas ficaram completamente cobertas – disse ela. – Quando for seguro remover os abafadores eu erguerei o polegar para vocês. Certo... Coloquem os abafadores.

A Profa Sprout colocou o seu par peludo e cor-de-rosa nas orelhas, enrolou as mangas das vestes, agarrou uma moitinha de mandrágora com firmeza e puxou-a com força. Em vez de raízes, um bebezinho extremamente feio saiu da terra. As folhas cresciam diretamente de sua cabeça. Ele tinha a pele verde-clara malhada e era visível que berrava a plenos pulmões.

A professora tirou um vaso de plantas grande de sob a bancada e mergulhou nele a mandrágora, cobrindo-a com o composto escuro e úmido até ficarem apenas as folhas visíveis. Depois, limpou as mãos, fez sinal com o polegar para os alunos e retirou os abafadores dos ouvidos.

— As nossas mandrágoras são apenas mudinhas, por isso seus gritos ainda não dão para matar. Mas, elas deixarão vocês inconscientes por várias horas, e como tenho certeza de que nenhum de vocês quer perder o primeiro dia na escola, certifiquem-se de que seus abafadores estão no lugar antes de começarem a trabalhar. Chamarei sua atenção quando estiver na hora da saída.

"Quatro para cada tabuleiro, há um bom estoque de vasos aqui, o composto está nos sacos ali adiante, e tenham cuidado com aquela planta de tentáculos venenosos. Está criando dentes."

Ela deu uma palmada enérgica em uma planta vermelha e espinhosa ao falar, fazendo-a recolher os longos tentáculos que avançavam sorrateiramente pelo seu ombro.

Harry, Rony e Hermione dividiram o tabuleiro com um garoto de cabelos cacheados da Lufa-Lufa.

— Justino Finch-Fletchley – apresentou-se ele animado, apertando a mão de Harry – Eu sei quem você é, claro, o famoso Harry Potter... E você é Hermione Granger, sempre a primeira em tudo – Hermione deu um grande sorriso quando o garoto também apertou sua mão –, e Rony Weasley. O carro voador era seu, não era?

Rony não sorriu. Normalmente ele ficaria feliz por alguém saber quem ele é, mas naquele contexto, depois do berrador que ainda ecoava em sua cabeça "... SEU PAI ESTÁ ENFRENTANDO UM INQUÉRITO NO TRABALHO, E É TUDO CULPA SUA..." ele não tinha clima algum. Então, apenas apertou a mão do menino sem dizer nada.

— Aquele Lockhart é o máximo, não acha? – disse Justino, feliz, quando começaram a encher os vasos de planta com fertilizante de bosta de dragão. – Um cara supercorajoso. Você leu os livros dele? Eu teria morrido de medo se tivesse sido acuado em uma cabine telefônica por um lobisomem, mas ele continuou na dele e, zás, simplesmente fantástico.

"Eu estava inscrito em Eton, sabe. Nem sei dizer como estou contente de, em vez disso, ter vindo para cá. Claro, minha mãe ficou um pouco desapontada, mas desde que a fiz ler os livros de Lockhart acho que começou a perceber como será útil ter na família alguém formado em magia..."

Depois disso, não houve muito o que conversar. Tinham tornado a colocar os abafadores e precisavam se concentrar nas mandrágoras. A tarefa era extremamente difícil, as mandrágoras eram muito resistentes tanto para sair quanto para entrar na terra e no fim da aula estavam todos suados, doloridos e cobertos de terra.

Eles voltaram ao castelo para se lavar rapidamente, e então os alunos da Grifinória correram para a aula de Transfiguração, que sempre era trabalhosa mas, hoje estava particularmente difícil: deviam transformar um besouro em um botão. E para Rony, que já tinha dificuldades em transfigurar, fazer isso com uma varinha quebrada não foi boa notícia alguma.

O garoto a havia remendado com um pouco de fita adesiva que pedira emprestada, mas a varinha parecia danificada para sempre. Não parava de estalar e faiscar nas horas mais estranhas, e a cada vez que ele tentava transformar o besouro ela o envolvia em uma densa fumaça cinzenta que cheirava a ovos podres. Irritado e extremamente frustado, ele apoiou o cotovelo na mesa e acabou esmagando seu besouro, tendo que ir pedir outro — o que o cedeu um olhar nada amigável da professora.

Quando a sineta do almoço tocou, Hermione saiu primeiro e ficou à porta esperando por eles — que se demoraram um pouco, pois Rony, furioso, dava golpes de varinha na carteira.

— Coisa, burra, inútil.

— Escreva para casa pedindo uma nova – sugeriu Harry quando a varinha produziu uma saraivada de tiros feito um rojão.

— Ah, sim, e recebo outro berrador em resposta – disse Rony com tom de obviedade, enfiando na mochila a varinha, que agora sibilava. – "A culpa é sua se sua varinha partiu..." — ele já imaginou a mãe o respondendo.

Os três amigos desceram para o refeitório, onde o humor de Rony não melhorou ao ver a coleção de botões perfeitos que Hermione mostrava ter feito na aula de Transfiguração.

— Que vamos ter hoje à tarde? – perguntou Harry, mudando de assunto depressa.

— Defesa Contra as Artes das Trevas – respondeu Hermione na mesma hora.

Rony olhou sobre o ombro da garota o papel que ela segurava e não pôde acreditar no que via:

— Por que – perguntou ele, apanhando o horário dela – você sublinhou com coraçõezinhos as aulas de Lockhart?

Hermione puxou de volta o horário da mão de Rony, corando loucamente, e não respondeu.

Quando terminaram o almoço os três saíram para o pátio nublado. Hermione se sentou em um degrau de pedra e tornou a enfiar o nariz em "Excursões com vampiros". Harry e Rony ficaram discutindo quadribol durante vários minutos até que um garoto miudinho de cabelos louro-cinza com uma máquina fotográfica os interrompeu.

— Tudo bem, Harry? Sou... Colin Creevey – disse o menino sem fôlego, adiantando-se hesitante. – Sou da Grifinória também. Você acha que tem algum problema se... posso tirar uma foto? – acrescentou, erguendo a máquina esperançoso.

— Uma foto? – repetiu Harry sem entender. Rony franziu o cenho, mal entendendo também.

— Para provar que conheci você – disse Colin Creevey ansioso, aproximando-se mais. – Sei tudo sobre você. Todo mundo me contou. Como foi que você sobreviveu quando Você-Sabe-Quem tentou matá-lo e como foi que ele desapareceu e tudo o mais, e como você ainda conserva a cicatriz em forma de raio na testa – (seus olhos esquadrinharam a raiz dos cabelos de Harry) –, e um garoto no meu dormitório disse que se eu revelar o filme na poção correta, as fotos vão se mexer. – Colin inspirou profundamente, estremecendo de excitação, e disse:

— Isto aqui é fantástico, não acha? Eu não sabia que as coisas estranhas que eu fazia eram magia até receber uma carta de Hogwarts. Meu pai é leiteiro, ele também não conseguia acreditar. Então estou tirando um montão de fotos para levar para ele. E seria bem bom se tivesse a sua – o garoto olhou para Harry como se implorasse –, quem sabe o seu amigo podia tirar, e eu podia ficar do seu lado? E depois você podia autografar a foto?

— Autografar a foto? Você está distribuindo fotos autografadas, Potter?

A voz de Draco Malfoy, alta e desdenhosa, ecoou pelo pátio. Ele parara logo atrás de Colin, ladeado, como sempre que estava em Hogwarts, pelos capangas grandalhões, Crabbe e Goyle.

— Todo mundo em fila! – gritou Malfoy para os outros alunos. – Harry Potter está distribuindo fotos autografadas!

— Não, não estou, não – disse Harry com raiva, cerrando os punhos. Rony já estava fazendo o mesmo, enraivecido, mas tornou a se segurar, lembrando do que sua mãe dissera no berrador – Cale a boca, Malfoy.

— Você está é com inveja – ouviu-se a voz fina de Colin, cujo corpo inteiro era da grossura do pescoço de Crabbe.

— Inveja? – disse Malfoy, que não precisava mais gritar: metade do pátio estava escutando.

— De quê? Não quero uma cicatriz nojenta na minha testa, muito obrigado. Por mim, não acho que ter a cabeça aberta faz ninguém especial.

Crabbe e Goyle davam risadinhas idiotas.

— Vá comer lesmas, Malfoy – disse Rony furioso. Crabbe parou de rir e começou a esfregar os nós dos dedos de maneira ameaçadora.

— Cuidado, Weasley – caçoou Malfoy. – Você não vai querer começar nenhuma confusão ou sua mamãe vai aparecer aqui para tirá-lo da escola. – Ele imitou a voz aguda e penetrante: – "Se você sair um dedinho da linha..."

Um grupo de quintanistas da Sonserina que estava próximo deu gargalhadas ao ouvir isso.

—Weasley gostaria de ganhar uma foto autografada, Potter – riu-se Malfoy. – Valeria mais do que a casa inteira da família dele...

Rony brandiu a varinha emendada, mas Hermione fechou o "Excursões com vampiros" com um estalo e cochichou:

— Cuidado!

— Que está acontecendo, que está acontecendo? – Gilderoy Lockhart vinha em passos largos em direção à aglomeração, suas vestes turquesa rodopiando para trás. – Quem é que está distribuindo fotos autografadas?

Harry começou a falar mas foi interrompido por Lockhart que passou um braço pelos seus ombros e trovejou jovial:

— Não devia ter perguntado! Nos encontramos outra vez, Harry!

Malfoy saiu de fininho, rindo-se, para junto dos outros colegas.

—Vamos então, Sr. Creevey – disse Lockhart, sorrindo para o garoto. – Uma foto dupla, nada melhor, e nós dois podemos autografá-la para o senhor.

Colin ajeitou a máquina e tirou a foto na hora em que a sineta tocava às costas do grupo, sinalizando o início das aulas da tarde.

— Está na hora, vamos andando vocês aí – gritou Lockhart para os alunos e voltou ao castelo com Harry, ainda preso ao professor.

Rony olhou para Hermione, arqueando as sobrancelhas, deu de ombros e os dois se dirigiram à sala. Ao chegarem, viram Harry em uma carteira no fundo da sala e foram até ele, se sentando um de cada lado.

— Você podia ter fritado um ovo na cara – comentou Rony, se referindo ao rosto de Harry, que tinha ficado muito vermelho. – É melhor rezar para Creevey não conhecer a Gina, ou os dois vão começar um fã-clube do Harry Potter.

— Cale a boca – disse Harry ríspido.

Quando a classe inteira se sentou, Lockhart pigarreou alto e fez-se silêncio. Ele esticou o braço, apanhou o exemplar de Viagens com trasgos de Neville Longbottom e ergueu-o para mostrar a própria foto na capa, piscando o olho.

— Eu – disse, apontando a foto e piscando também. – Gilderoy Lockhart, Ordem de Merlin, Terceira Classe, Membro Honorário da Liga de Defesa Contra as Artes das Trevas e vencedor do Prêmio Sorriso mais Atraente da revista Semanário dos Bruxos cinco vezes seguidas, mas não falo disso. Não me livrei do espírito agourento de Bandon sorrindo para ela.

Ficou esperando que sorrissem; alguns poucos deram um sorrisinho amarelo.

— Vejo que todos compraram a coleção completa dos meus livros, muito bem. Pensei em começarmos hoje com um pequeno teste. Nada para se preocuparem, só quero verificar se vocês leram os livros com atenção, o quanto assimilaram...

Depois de distribuir os testes ele voltou à frente da classe e falou: – Vocês têm trinta minutos... começar, agora!

Rony olhou para o teste e leu:

1. Qual é a cor favorita de Gilderoy Lockhart?

2. Qual é a ambição secreta de Lockhart?

3. Qual é, na sua opinião, a maior realização de Gilderoy Lockhart até o momento?

E as perguntas continuavam, ocupando três páginas, até a última:

54. Quando é o aniversário de Gilderoy Lockhart e qual seria o presente ideal para ele?

Rony não pôde acreditar naquilo: o professor era realmente pior do que ele imaginara.

Meia hora depois, Lockhart recolheu os testes e folheou-os diante da classe.

— Tsk, tsk, quase ninguém se lembrou que a minha cor favorita é lilás. Digo isto no "Um ano com o Iéti". E alguns de vocês precisam ler "Passeios com lobisomens" com mais atenção, afirmo claramente no capítulo doze que o presente de aniversário ideal para mim seria a harmonia entre os povos mágicos e não mágicos, embora eu não recuse um garrafão do Velho Uísque de Fogo Ogden! — E deu outra piscadela travessa para os alunos.

Rony fitava Lockhart com uma expressão de incredulidade no rosto; Simas Finnigan e Dino Thomas, que estavam sentados à frente, sacudiam-se de riso silencioso. Hermione, por outro lado, escutava Lockhart embevecida e atenta e se assustou quando o ouviu mencionar seu nome.

— ... mas a Srta. Hermione Granger sabia que a minha ambição secreta era livrar o mundo do mal e comercializar a minha própria linha de poções para os cabelos, boa menina! Na realidade – ele virou o teste – ela acertou tudo! Onde está a Srta. Hermione Granger?

Hermione levantou a mão trêmula.

— Excelente! – disse o sorridente Lockhart. – Excelente mesmo! Dez pontos para a Grifinória! E agora, ao trabalho...

Hermione baixou a cabeça e sorriu para si mesma, e Rony, que a olhava discretamente, fechou a cara — até aquelas besteiras sobre o professor ela sabia! Não era possível que alguém realmente tivesse tempo e espaço livre na cabeça para gastar com aquele monte de baboseiras — ainda mais Hermione, que vivia estudando e lendo tantas coisas. Como se ele precisasse de mais um empecilho em qualquer matéria, além de sua varinha quebrada e a falta de gosto por tantas outras.

O professor então virou-se para a mesa, chamando a atenção de Rony involuntariamente, e depositou nela uma grande gaiola coberta.

— Agora, fiquem prevenidos! É meu dever ensiná-los a se defender contra a pior criatura que se conhece no mundo da magia! Vocês podem estar diante dos seus maiores medos aqui nesta sala. Saibam que nenhum mal vai lhes acontecer enquanto eu estiver aqui. Só peço que fiquem calmos.

— Peço que não gritem – recomendou Lockhart em voz baixa. – Pode provocá-los.

E a classe inteira prendeu a respiração. Lockhart puxou a cobertura com um gesto largo.

— Sim, senhores – disse teatralmente. – Diabretes da Cornualha recém-capturados.

Simas Finnigan não conseguiu se controlar. Deixou escapar uma risada pelo nariz que nem mesmo Lockhart poderia confundir com um grito de terror.

— Que foi? – ele sorriu para Simas.

— Bem, eles não são... não são muito... perigosos, são? – engasgou-se Simas.

— Não tenha tanta certeza assim! – disse Lockhart, sacudindo um dedo, aborrecido, para Simas. – Esses bandidinhos podem ser diabolicamente astutos!

Os diabretes eram azul-elétrico e tinham uns vinte centímetros de altura, os rostos finos e as vozes tão agudas que pareciam um bando de periquitos fazendo algazarra. No instante em que a cobertura foi retirada, eles começaram a falar e a voar de maneira rápida e excitada, a sacudir as grades e a fazer caras esquisitas para as pessoas mais próximas.

— Certo, então – disse Lockhart em voz alta. – Vamos ver o que vocês acham deles! – E abriu a gaiola.

Foi um pandemônio. Os diabretes disparavam em todas as direções como foguetes. Dois deles agarraram Neville pelas orelhas e o ergueram no ar. Vários outros voaram direto pelas janelas fazendo cair uma chuva de estilhaços de vidro no canteiro. Os demais se puseram a destruir a sala de aula. Agarraram tinteiros e salpicaram a sala de tinta, picaram livros e papéis, arrancaram quadros das paredes, viraram a cesta de lixo, pegaram as mochilas e livros e os atiraram contra as vidraças quebradas; em poucos minutos, metade da classe estava abrigada embaixo das carteiras e, Neville, pendurado no teto pelo lustre de ferro.

— Vamos, vamos, reúnam eles, reúnam eles, são apenas diabretes – gritou Lockhart.

Ele enrolou as mangas, brandiu a varinha e berrou:

— Peskipiksi Pesternomi!

As palavras não produziam efeito algum; um dos diabretes se apoderou da varinha e atirou-a também pela janela. Lockhart engoliu em seco e mergulhou embaixo da mesa, escapando por pouco de ser esmagado por Neville, que despencou um segundo depois quando o lustre cedeu.

A sineta tocou, e todos desembestaram para a saída. Na calma relativa que se seguiu, Lockhart levantou-se, viu Harry, Rony e Hermione, que estavam quase à porta, e disse:

— Bem, vou pedir a vocês que enfiem rapidamente os restantes de volta na gaiola. – E, passando pelos três, fechou a porta depressa.

Rony encarou a porta por um segundo, desacreditado, e praguejou mentalmente contra Lockhart pelo que poderia ser a trigésima vez naquela aula.

— Dá para acreditar? – rugiu Rony, quando um dos diabretes restantes lhe deu uma dolorosa mordida na orelha.

— Ele só quer nos dar uma experiência direta – defendeu Hermione, imobilizando dois diabretes ao mesmo tempo com um inventivo Feitiço Congelante e enfiando-os de volta na gaiola.

— Direta? – disse Harry, que estava tentando agarrar um diabrete que dançava fora do seu alcance dando-lhe língua. – Mione, ele não tinha a menor ideia do que estava fazendo...

— Bobagem. Você leu os livros dele, vê só todas as coisas incríveis que ele fez...

— Que ele diz que fez – murmurou Rony, muito irritado com a defesa de Hermione àquele professor fajuto. Ela era tão inteligente e exigente para todas as coisas, como podia aceitar e acreditar em sequer uma palavra do que Lockhart dizia que fizera quando ele nem mesmo conseguira conjurar um feitiço para acalmar os diabretes, e ainda passara um teste ridículo em forma de auto-biografia?

Lockhart era apenas duas coisas, Rony tinha certeza: uma bela farsa e mais uma pedra infeliz em seu sapato naquele ano.

Notas finais
Esse Lockhart dividindo opiniões entre Mione e Rony, tá fogo! E também, a gente sabe que ele aprontou pra merecer essa bronca da Dona Molly, mas dá uma dózinha do nosso Roniquinho, né? :( Enfim, nos deixem saber o que acharam! Se cuidem e até logo!