A Busca Continua
9 Deixando A República
Com um carro daquele tamanho, não havia porta, portão ou cadeado que não cedesse à sua frente, então quando Jill levou seu enorme automóvel em direção à saída do estacionamento, o portão, que um dia devia ter sido eletrônico, mas que agora só conseguia ser trancado e aberto manualmente, se desprendeu de onde suas roldanas ficavam presas e voou em direção à parede à frente, de um outro prédio. O barulho foi tão grande que muito provavelmente, se houvesse mais alguém ali que não fosse zumbi, seria possível ter a impressão de que uma construção tinha ido abaixo, como numa explosão. Ricardo já tinha percebido que ela e sua trupe não eram do tipo mais discreto ou organizado que existia, então não achou uma surpresa tão grande ter que passar por aquilo, exceto pelo fato de que, mesmo que por uma fração de segundo, ele tivesse imaginado que talvez o carro não fosse o bastante para o portão e que Jill e seu companheiro esnobe, Kevin, seriam os primeiros a serem esmagados pelo mais puro ferro moldado.
- Onde você disse que fica a delegacia? – Jill perguntou ao fazer uma curva brusca o bastante para fazer aquilo parecer uma manobra perigosa.
Como não sabia se a pergunta tinha sido direcionada a ele, Ricardo se manteve em silêncio.
- Hum... No escuro, é difícil de dizer – foi Carlos quem respondeu. – Além do mais, essas ruas são tão complicadas que não consigo nem me lembrar de onde viemos.
- Segue pela esquerda – disse Kevin e ergueu uma mão na frente do rosto de Jill, indicando a direção. Ricardo agarrou-se ao banco, imaginando que aquela pequena distração o faria perder a vida em questão de segundos.
- Você não sabe de nada, Kevin – Jill retrucou.
- Ah, não? E quem é que tem guiado todos vocês até agora?
- O Carlos, é claro. Você tem sido tão útil quanto uma pedra.
- Ah, sim, o Carlos, e é claro que ele também está ajudando bastante agora, não é mesmo? Para onde ele disse que devemos seguir mesmo...? Ah, é, ele não disse.
- O Carlos é bem mais importante do que você, Kevin – Jill respondeu e Ricardo viu quando ela virou o rosto na direção do rapaz. Olhe para frente! – Além do mais, conheço tão pouco de você que não sei como eles puderam achar justo colocá-lo na mesma equipe de resgate que eu.
- Será que você não consegue nem supor o porquê? – Kevin falou e esticou os braços atrás da cabeça, relaxando em seu assento.
- Por um momento, eu juro que pensei que fosse porque você era um excelente funcionário e que seria de grande valia para a equipe, mas então eu troque duas palavras com você e percebi que essa nunca foi a realidade. – Jill fez uma pausa e Ricardo não soube dizer se foi porque ela estava fazendo uma curva ou se porque pensava. – Quais foram os argumentos que essa sua lábia de malandro fez você usar para convencer o Chefão Supremo a colocá-lo numa missão tão importante quanto essa?
- Você não sabe da metade das coisas que já fiz para a nossa população, Jill.
- Talvez seja isso mesmo. Quer começar a me contar? Sei lá, me fazer mudar de ideia?
Kevin não deu nenhuma resposta de imediato. Durante seu vacilo, Ricardo finalmente abriu a boca.
- Eu sei onde a delegacia mais próxima fica.
Carlos lançou-lhe um olhar de lado e não comentou nada. A única atenção que Jill deu ao que Ricardo disse pôde ser captada pelo rápido olhar que lançou ao espelho retrovisor, que permitia que ela visse também quem estava no banco de trás. Kevin não se deu o trabalho de dizer coisa alguma.
- Você sabe? – Jill perguntou em tom de desdém, mas parecia mais alegre do que desdenhosa realmente.
- Sei. Eu trabalho nesse lugar, conheço a maioria dos cantos como conheço a palma da minha mão. Se o que vocês querem é visitar a maior delegacia que existe por aqui, devem ir em direção à Avenida Paulista. Na Rua da Consolação, encontraremos um prédio antigo, por volta de quatro andares, onde ela funciona. Eu a visitei pouco tempo atrás, mas o lugar está mais abandonado do que a minha própria casa. Não acho que vamos ter problemas por lá.
- Hum... — Jill lançou mais um rápido olhar pelo retrovisor. Ricardo estremecia cada vez que ela fazia isso. – A delegacia que vimos se encaixa nessa descrição.
- Então é só fazer como eu digo.
- Mas em que direção fica a Avenida Paulista? Mal consigo enxergar as placas em circunstâncias como essas.
Ricardo ajeitou-se em seu banco e deu um suspiro aliviado. Finalmente estava no controle da situação, mostrando-se útil, e o que era melhor: Jill parecia concordar com tudo isso e simplesmente não via problema em seguir adiante com a situação. Orgulhosa como era, devia ser um problema para ela ter que aceitar ordens que não viessem de um superior ou de si própria. Se aceitara ser guiada por Ricardo naquela viagem, muito provavelmente sabia que o homem era importante e que devia acatar suas ordens, independente de tudo.
Mas essa era uma conclusão que Ricardo tinha, e o que ele não sabia era que estava totalmente equivocada.
Jill estava desesperada para encontrar seu parceiro de trabalho, Chris, e seu desespero estava num nível tão grande que ela sabia que não podia mais se dar o luxo de ignorar ajudas que vinham de fora. Aliás, fora apenas por isso que ela aceitara a presença de Ricardo no esconderijo em que eles se encontravam, porque ter um nativo do lugar em que ela desconhecia por completo era mais útil do que ela podia imaginar. Ao receber a informação de Ricardo, ela percebeu que nunca estivera tão certa. Qualquer coisa para que eu possa encontrar o meu parceiro, foi o que ela pensou ao ouvir a sugestão do homem no banco às suas costas. Chris era muito importante para ela e qualquer ajuda lhe seria bem vinda.
Durante todo o trajeto, quando não paravam para ouvir as novas instruções de Ricardo, os três oficiais da S.T.A.R.S não paravam de papear sobre assuntos que os três conheciam, coisas que tratavam dos Estados Unidos e das forças armadas das quais eles faziam parte. Conversavam animados, apesar das circunstâncias, o que parecia algo bem estranho para o único estranho naquele carro. Era como se apocalipses como aquele não fossem um problema realmente para quem tinha uma pistola na mão – ou para quem já estava acostumado com eles. Pensar nessa hipótese fez com que Ricardo estremecesse no lugar, porque ele nunca imaginou que coisas daquele tipo aconteciam com freqüência ao redor do mundo. Preferiu se apegar à ideia de que eles só eram destemidos e que nem mortos-vivos eram capazes de assustá-los.
E entre uma conversa e outra, Jill demonstrava uma implicância com Kevin que, Ricardo tinha certeza, não espantava só a ele, como também ao Carlos. Quer dizer, Kevin era um tremendo impertinente, que só fazia comentários grosseiros cada vez que abria a boca, e Jill até demonstrava certa relutância em deixar que o oficial continuasse a agir assim, mas não porque se importava realmente com aquele comportamento, e sim porque tinha prazer em dirigir a palavra ao homem. Carlos não devia ser tão tolo a ponto de ignorar que havia uma tensão sexual entre os dois, e nem Ricardo o era, tanto que começou a se sentir ainda mais irritado com o fato de Kevin estar ali, principalmente de estar do lado da única e mais bonita mulher que havia em um ambiente como aquele.
Quando estacionaram em frente à delegacia, Ricardo se sentiu até mais aliviado. Não queria continuar no carro com aquele clima pesado lá dentro. Assim que Jill deu a ordem de que eles deviam descer, ele foi o primeiro a abrir a porta e colocar um pé para fora. Recebeu uma forte lufada de vento gelado no rosto como comitê de boas-vindas.
- Seja mais cauteloso da próxima vez, meu jovem – disse Carlos a ele. – Nem sempre a rua é tão segura quanto parece ser. Somos oficiais armados, mas se puder facilitar o nosso trabalho olhando de um lado para o outro antes de entrar na rua...
- É claro que eu sabia que não teríamos problema, meu jovem, pode ficar tranquilo — Ricardo disse de volta, seco.
- Tem certeza de que é esse o lugar? – Jill perguntou e olhou para cima no prédio.
- Tanta quanto tenho de que um dia encontrarei minha filha e minha esposa.
- Ótimo. Vamos entrar, pessoal! – Jill ordenou e então os três se puseram a caminhar em direção à delegacia.
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