A Busca
2 O Mágico de Oz - Prólogo 2/2
Há muitos anos atrás, no Brasil, no estado de Brasília, em uma favela sofrível e que era constantemente palco de extermínio controlado por causa da superpopulação que já preocupava os engravatados do local, nascia uma garotinha de família pobre, que passou toda a sua infância sem conhecer nenhum centímetro além do que o espaço de terra que lhe era permitido caminhar e que incluía, como pontos mais importantes, uma escola estadual, onde aprendeu ler e escrever, uma padaria e alguns comércios que não diziam respeito à uma criança, tais como um depósito de materiais de construção ou uma serralharia.
Essa menina teve uma infância muito sofrida, num ambiente familiar nada agradável, e passou a morar nas ruas poucos dias depois de completar dez anos. Tímida demais para esmolar, orgulhosa demais para roubar e jovem demais para trabalhar, ela logo seria mais um corpo infantil estendido nas estradas de sua cidade. E foi quando achava que estava para morrer de fome e de frio, que foi encontrada por Gengetsu, um grande homem asiático, com porte físico e aparência de um conquistador, tipo comum em épocas medievais, mas que raramente se via nas décadas atuais. Gengetsu se apresentou como alguém que precisava de ajuda para um pequeno serviço, que poderia ser realizado por qualquer um que soubesse ler português e tivesse tempo para ficar à sua disposição 24 horas por dia. E aquela pequena moradora de rua preencheu essa vaga sem problemas. Passaram alguns dias juntos e, quando voltou para o seu país de origem, o Japão, Gengetsu levou a garotinha consigo. Ele se tornou seu mentor e guardião, deu-lhe o nome de Rumiko, e lhe mostrou a cultura japonesa, totalmente nova e completamente mágica para a menina.
Rumiko ficou tão admirada com aquela pequena nação asiática, que não pretendia sair mais dali. Para ela, o lugar onde agora vivia era bem diferente do inferno do qual por pouco escapou. E ao lado da pessoa que admirava cada dia mais, ela achava que ali seria um lugar perfeito para envelhecer e morrer. Então tratou de conhecer e aprender tudo o que podia sobre o novo país, ora por viagens e visitas que fazia com seu tutor, ora por programas de turismos que assistia incansavelmente. Até mesmo o idioma local ela se mostrou faminta e ansiosa em aprender, mesmo isso sendo algo que ela não precisaria se preocupar tanto, pois graças à aparição e fama mundial de Flousey, o planeta inteiro se viu numa certa obrigação de aprender e falar o português do Brasil.
Então veio o “Fim do Mundo”. Rumiko ainda estava na faixa dos seus 10 anos quando presenciou, pela primeira vez na vida, o terror causado por uma tragédia natural de proporções bíblicas. Não fosse por Gengetsu ao seu lado, que mais uma vez lhe salvou a vida, ela seria mais uma das milhares de vítimas que perderam a vida só no Japão. Somente alguns meses depois é que ela veio a ter conhecimento de que todo o planeta Terra havia sofrido desastres semelhantes.
Fome, falta de água potável, falta de moradia, sem luz ou telefone e o pior, a ameaça de uma nova e mortal doença, que era transmitida pelo ar... Todos esses empecilhos se tornaram comuns na vida de todos. Rumiko também passou por tudo isso, sem nunca desistir de ficar ao lado de Gengetsu, que mais uma vez provou ser um homem de grande valor, passando por todos esses desafios sem nunca desviar o olhar de seu caminho à frente nem deixar seus companheiros para trás. Foi quando ele percebeu que o Japão estava um caos total, com gangues aparecendo em vários cantos, matando, roubando e destruindo, enquanto as autoridades, por algum obscuro motivo, ora participavam da festa, ora fingiam que nada lhes acontecia ao redor. Então Gengetsu decidiu reerguer o seu Dojo, um tipo de academia especializada nas artes de esgrima, que já era conhecido como Gen-Bu, e transformá-lo num império que combatesse fogo com fogo, para adquirir o controle do país. Em seguida lançou essa idéia aos seus parceiros de longa data, Mozu e Nezuo, e eles aceitaram de imediato.
Gengetsu obteve grandes vitórias e marcou seu nome em várias partes da nação, mas, pouco antes de realizar o plano que, se desse certo, iria finalmente lhe dar o controle do país, lhe veio a notícia da situação em que o resto do mundo se encontrava. Não tinha interesse em ajudar mais ninguém além de sua nação, mas, interessado em saber como os seus vizinhos estavam se virando e também se atualizar sobre o novo mundo, ordenou a pesquisa e documentação de tudo o que lhe fosse importante saber. Então, com o extenso documento em mãos, sentou-se pesadamente sobre sua poltrona e leu com bastante atenção. E o que ele descobriu foi aterrador. E ao mesmo tempo fascinante.
Alguns países menores foram apagados, novas terras surgiram e as nações que restaram e permaneceram intactas, tiveram que se adaptar a uma nova geografia, pois uma quantia considerável de países de grande porte teve seus nomes alterados. Foi o que aconteceu com países como o Brasil, hoje chamado de Ilha de Vera Cruz, a Rússia, maior nação do mundo, que voltou a ser conhecida como URSS, os Estados Unidos, que para uma melhor distribuição de terras, foi dividas em 13 gigantescas colônias e mudou de nome para CAU, ou seja, Colônias Americanas Unidas, a Finlândia, que perdeu um pedaço de suas terras com os maremotos e passou a se chamar Val Halor, dentre outras.
Para controlar esse novo sistema geográfico, o mundo foi dividido em três partes, que foram apelidadas de Alas. Duas grandes áreas correspondentes ao ocidente e oriente, ficaram simplesmente conhecidas como Ala Laevus ou esquerda, e Ala Dexter, ou direita. A terceira ala era a área central, a qual servia como uma espécie de divisão e localização para as duas alas anteriores. Era a menor que havia, porque segundo a geografia global atual, ela não pertencia mais a nenhum dos hemisférios do mundo e nem deveria ser agregada à nenhuma das novas Alas. Correspondia à Alemanha, lugar aonde o meteoro caiu, e países ao redor, que em conseqüência do impacto, se ajuntaram num amontoado de terras, foram arrancados do continente europeu e se perderam entre as águas do mar do Norte e Oceano Atlântico, dando origem à uma nova terra, que recebeu o nome de Tritêmia. Porém, devido a fama merecida de ser um lugar lúgubre e de estar sempre coberta por uma densa e dantesca nuvem escura, ficou mais conhecida como ala Negra. Por ser o lugar em que ocorreu o temível incidente, a ala negra foi e ainda é uma área extremamente restrita, sendo que a explicação para tal restrição é que lá é o local de maior possibilidade de contaminação pelo vírus D4. Embora corra o boato de que há outro motivo, bem mais obscuro e assustador, já que a cura do vírus foi descoberta pelos russos dois anos depois da tragédia e hoje é do saber de todos que o D-4, apesar de ser 100% letal quando não tratado, é uma moléstia que só se pega uma vez na vida.
Rumiko ouvia atentamente enquanto o soldado explicava a situação geográfica do mundo, o que ela achava desnecessário, mas estava curiosa pela parte de Oz, então não quis interromper, pois acreditava que toda aquela enrolação era necessária para melhor entendimento do ponto alto daquela estória. Era desnecessário porque ela, assim como aquele soldado e qualquer outro ser humano que sobreviveu ao impacto do meteoro, sabia ou deveria saber com que pernas o mundo caminhava hoje em dia. Então veio a parte interessante, quando o soldado citou a vez em que ele e seu parceiro, também ali presente, juntamente com Karras, um dos membros do Gen-Bu em que todos respeitavam, isso porque ele era um padre, foram convocados do Dojo central para irem à cidade vizinha buscar Gengetsu e alguns objetos recentemente adquiridos por ele. Nessa época, aqueles dois homens haviam acabado de entrar para o “bando”.
– Rumiko lembra bem disso – a moça faz sua primeira interrupção – Nessa época o mestre Gengetsu havia ficado quase dois anos fora e trouxe, de valor, uma Nodachi maravilhosa, que a pendurou numa parede na sala principal do Dojo, e um espelho enorme e horroroso, que deixou na sala Himitsu.
– Himitsu? – proferem os dois solados ao mesmo tempo, espantados.
Himitsu significava “segredo” e era o nome de uma sala localizada à muitos metros abaixo do Gen-Bu, acessível somente por um elevador que se movimentava com força braçal. Também era um lugar misterioso em que Gengetsu guardava seus tesouros, tanto em barras de ouro e pedras preciosas, quanto em itens raros e valorosos. Isso sem falar nos documentos, cartas e informações sigilosas sobre pessoas importantes. Ninguém além de Gengetsu tinha permissão de entrar lá, nem mesmo seu fiel escudeiro Nezuo. A única pessoa que entrou lá além de Gengetsu foi Rumiko, e isso, diga-se de passagem, foi o que deu início ao crescente ódio que Mozu sentia pela menina.
– Quando Rumiko perguntou-lhe sobre o que havia feito e o porquê da demora – continua Rumiko – ele apenas disse que estava peregrinando e que ficara fascinado com o que viu e o que descobriu sobre o novo mundo, do qual pretendia um dia se tornar o Líder supremo.
– Sim, mas à nós, quer dizer, ao padre Karras, ele também falou que passou esses quase dois anos à procura de um ser místico, que possuía um dom tão inacreditável, que nem em lendas antigas ele havia lido algo a respeito.
– Ao senhor Karras? E porque ele nunca disse nada à Rumiko?
– Creio que sei a resposta, milady – diz o soldado ao fundo, encostado na parede – Mas vamos deixar esse idiota terminar.
– Rumiko está ouvindo – diz a moça, tornando a se ajeitar na cama e gesticulando com a mão esquerda, dando permissão para o homem à sua frente continuar.
O soldado explica que Gengetsu comentou ter visto diferentes amálgamas da nova espécie que hoje caminha sobre a terra; os Híbridos. Criaturas meio humanas e meio animais, das quais Rumiko, por intermédio de Gengetsu, já conhecia um exemplar, e que, com seu jeito pitoresco de ser, acabou sendo cativada pela aparência da criatura. Comentou também sobre as 8 coroas do mundo, que eram reis cujos cargos eram os mais importantes do planeta, mas que ficariam abaixo do líder do mundo assim que o Gilgamesh fosse escolhido. E isso representava, acreditava Gengetsu, um grande perigo, já que ninguém que reina soberano iria gostar de seguir ordens de um qualquer que obtivesse tal poder de um dia para o outro.
Falou também sobre os Honoráveis, os apelidados “donos do mundo”, que eram pessoas extremamente ricas e poderosas, porém tão misteriosas que Gengetsu não descobriu nada de concreto a respeito, mas sabia que, enquanto o Líder do mundo não fosse escolhido, eram eles quem ditavam as ordens. Aliás, o nome, o cargo e o poder que será dado à um único líder de todo o mundo foi idéia deles, e ainda deixaram a candidatura para tal cargo livre para qualquer um que fosse louco o bastante para se apresentar ao sufrágio de eleitores. Desde claro, que os candidatos preenchessem alguns pequenos requisitos e se apresentem primeiramente diante dos “donos do mundo”. O plano de eleição, previsto para 2.013, já foi adiado diversas vezes, pois até hoje não apareceu ninguém com coragem para mostrar seus planos de governo ao tribunal dos Honoráveis, visto que aqueles que se arriscaram a sequer concorrer, foram assassinados ou desistiram por motivos nunca explicados. O próximo evento ocorrerá em 2.016 e tem como candidatos nomes de peso no ramo da política atual. Nomes como o de Caio Velasqueses, Lomar Armstrong e o procurado John Galápagos já estão impondo respeito.
E por fim, Gengetsu comentou sobre os danos eternos do suposto meteoro, assunto que foi transmitido oficialmente para a população apenas alguns dias depois do baque. Gengetsu não acreditava nessa teoria de que a terra foi atingida por um corpo celestial e, sendo ele um homem de extrema inteligência e bom senso, tudo o que ele batia o pé, negando ou afirmando, muitos os seguiam sem precisar abrir os olhos.
A notícia também dizia que o choque do corpo celeste foi tão violento, que a Terra perdeu, por várias horas, o seu equilíbrio natural de rotação, o que ocasionou os terremotos, maremotos e tsunamis. Vários meses depois, a “força misteriosa do universo colocou o planeta de volta nos eixos”, foi a explicação que os cientistas usaram para elucidar as dúvidas sobre o porquê do planeta não ter se desmontado ou sofrido a fúria da natureza até ter virado poeira cósmica. “Malditos filmes hollywoodianos”, exclamou Gengetsu num deboche ao ver a notícia, culpando a estupidez do homem em acreditar em tudo o que o cinema impõe como “futuro catastrófico apoiado por uma ciência provável”. Mas o que a matéria sobre a recuperação do mundo não falava, e até hoje ninguém sabia o motivo, era que, mesmo que o planeta estivesse de volta nos eixos, muitos buracos e pontas soltas haviam ficado para trás. Milhares e milhares de anos de história oculta e itens preciosos, soterrados pelo tempo e pela formação do planeta, agora estavam novamente à disposição de homens inteligentes e perigosos. Muitas portas proibidas foram abertas enquanto o planeta era liquidificado pela força da gravidade, que tinha seus valores positivados e negativados de forma tão abrupta que ela precisou de meses para se estabilizar. E dessas portas, saíram deuses, demônios e todo o tipo de monstros que a humanidade jurava nunca existir.
Foi então que Gengetsu falou, de modo bem mais raso que qualquer outro assunto comentado naquele dia, de que havia ouvido falar de Oz, uma das criaturas que provavelmente veio de uma dessas portas sobrenaturais e que o encantou. E o encantou tanto que, dentre tantos outros seres com lendas mais palpáveis e acreditáveis, foi a Oz quem ele decidiu procurar enquanto peregrinava pelo mundo.
Mas o jeito que falou de Oz foi tão rápido e aparentemente irritado, que passou a impressão de que ele estava temeroso em entrar no assunto. Assim Oz se tornou uma incógnita na cabeça daquele soldado que, dentre todos os que acompanhavam Gengetsu naquela ocasião, foi o único que ficou interessado em ouvir mais a respeito, mas não tinha coragem e nem permissão de perguntar isso diretamente ao Dai-Sensei.
Então, quando chegaram em casa, o soldado esperou que se passassem ao menos uns dois dias e foi ter um encontro com o padre Karras, a fim de perguntar mais sobre o assunto de Oz. E Karras, sempre humilde e prestativo, lhe entregou um livro de lendas urbanas, de exemplar único, que fora escrito à mão por um homem cuja fama se assemelhava a aventura recente de Gengetsu, ou seja, ele havia estado em todos os cantos do mundo à procura mitos e folclores locais. E foi nesse livro, com informações tão parcas quanto qualquer outro que fala dessa criatura misteriosa, que o soldado descobriu quais os talentos de Oz. Um dos talentos era sua quiromancia, comum em muitos humanos que se achavam médiuns, porém o poder de Oz tinha uma diferença que o tornava especial. Essa diferença o livro não dizia qual era. O outro poder era mais explorado pelas religiões de todo o mundo. O poder de ressuscitar os mortos. Claro que um poder assim não era simplesmente ver e fazer. E tal magia não era feita de graça. Oz não cobrava o valor em dinheiro, mas em objetos ou favores, que variavam a cada vez em que ele fosse encontrado. Se acaso a pessoa não estivesse com o pagamento desejado nas mãos, Oz ressuscitaria a pessoa desejada e daria um prazo para que o objeto fosse adquirido ou o seu pedido atendido. E caso a petição de Oz não fosse cumprida, ele, com seu poder sobre a vida e a morte, aniquilaria os dois; o ressuscitado e o pedinte. E para o processo de ressurreição, duas regras importantes precisavam ser cumpridas. A pessoa deveria ter partido desse mundo com sua vida interrompida, ou seja, teria que estar morta por assassinato. E havia um prazo para que a pessoa pudesse ser trazida de volta. Esse prazo era de exatamente um ano.
Ao término de toda aquela narração, o soldado põe as mãos sobre as coxas e respira fundo, descansando.
– E então? – ele questiona 15 segundos depois – o que a senhorita acha?
Rumiko o observa com seus olhos grandes, sem saber o que responder. Ela esfrega todo o rosto com a mão direita, depois abaixa a cabeça e remexe nos cabelos. Recebeu muita informação em pouco tempo e, no momento, não queria filtrar nada do que ouviu. Quis apenas se agarrar à única coisa que lhe interessou.
– O senhor acha que esse Oz existe mesmo? – ela pergunta finalmente.
– Bom... Isso o Dai-Sensei não disse. Mas eu meio que acredito que sim, pois se ele não existisse, não haveria informações comerciais, no sentido de um pagamento pelo seu serviço, por exemplo.
– Bem pensado, senhor... O que será que ele pediria para ressuscitar nosso mestre?
– Bom, quanto à isso, nosso grande mestre tinha um grande trunfo.
A moça faz um ar de espanto e o soldado sorri de olhos cerrados antes de explicar:
– De alguma forma nosso mestre descobriu, e não me pergunte como ele fez isso, que Oz tem um interesse especial numa pedra preciosa.
O soldado dá um tempo para atiçar a curiosidade da moça. Rumiko, no entanto, permanece calada, esperando o desfecho da informação.
– Um diamante vermelho – diz o soldado finalmente.
– Diamante vermelho? – Rumiko põe a mão no lado esquerdo da face – O senhor quer dizer um rubi?
– Não! Um diamante mesmo, de cor vermelha. Nunca vi um, mas descobri que eles existem e que são chamados de pedra do fogo.
– E onde Gengetsu-sama conseguiria um diamante vermelho? Não há nenhum na sala Himitsu.
– Ele mencionou um local de nome Ophis, milady – intervém o soldado em pé, de braços cruzados.
Ele havia buscado uma cadeira, conforme lhe foi instruído por Rumiko, mas não se sentou em nenhum momento. No fundo ele não pensou que a moça, naquela melancolia em que se encontrava nesses dois últimos dias, fosse ouvir toda aquela ladainha sem se entediar, mas ela seguiu firme e devorou cada palavra dita com se fosse uma dica de loteria. E agora era a vez do outro soldado alimentá-la ainda mais, para depois fazê-la voltar para o mundo real.
– O... Ophis? – a mocinha gagueja de emoção por estar chegando mais perto.
O soldado tira uma caneta do bolso, pega um cartão qualquer em sua carteira e escreve a palavra em letras garrafais. Depois entrega nas mãos de Rumiko e volta para o seu lugar, ao fundo.
– Ele disse ser um templo – o soldado continua enquanto Rumiko lê e memoriza a palavra – Um antigo lugar considerado sagrado, que se tornou tão perigoso após o Fim do Mundo, que poucos tinham coragem ou permissão de entrar lá.
– Como sabe disso, senhor?
– Nosso mestre mencionou que se um dia voltasse a procurar Oz, ele iria precisar de um diamante vermelho e deixou claro que nesse templo havia tal pedra. Eu fiz uma pesquisa e descobri que esse templo é realmente citado como sagrado, porém não descobri onde ele se localiza. Depois de muito ler documentos e opiniões de arqueólogos que estudaram sobre o assunto, eu cheguei à conclusão de que ele é fictício, porque segundo o que consta, ele deveria estar localizado na Grande Alexandria, numa montanha que foi recentemente formada pelos abalos do Fim do Mundo. A montanha existe, mas não tem nada lá.
– Meu mestre não perdia tempo com coisas fabulosas. Esse templo deve existir. Esse diamante deve estar lá. Logo, Oz também deve existir.
– Não há provas de sua existência, milady – diz soldado com mais veemência – nem do Templo, nem de Oz.
– Também não há provas de que eles não existam, não é? – replica Rumiko, sem se alterar.
– Bom, não, mas...
Rumiko levanta-se da cama, caminha devagar até ficar de frente para o cético soldado, pouco mais alto que ela, e com sua voz doce ela retoma um assunto anterior.
– O senhor disse conhecer o motivo do senhor Karras não ter dito nada à Rumiko sobre essa misteriosa conversa.
– Ah, sim... bom... Antes de chegarmos ao Gen-Bu, o senhor Gengetsu proibiu a todos nós de falarmos a respeito do que ele iria contar. E enfatizou a senhorita como a pessoa que não devesse de modo algum saber sobre aquela conversa.
– Rumiko? Por quê?
– Desculpe. Não perguntamos isso à ele. Mas acredito que era porque ele se preocupava com a senhorita e não queria te assustar.
– Huuun... – Rumiko fecha os olhos e imagina seu mentor dando essa explicação como desculpa, mas nem em pensamento ela consegue ouví-lo dizer isso – O mundo lá fora é assustador, não é senhor?
Rumiko abre os olhos devagar e olha para o rosto do soldado, sem focalizar os olhos dele.
– Havia tantos mistérios que sempre foram especulados e nunca foram resolvidos. E agora depois do Fim do Mundo, eles só aumentaram. E como sempre, eles mais assustam a população do que lhes deixam curiosas.
– Milady...
– O que é mais estranho é que o mestre Gengetsu, pouco depois que voltou dessa misteriosa viagem, disse à Rumiko uma frase curiosa.
– O... O quê ele disse?
A moça sorri e o homem imediatamente se cala. Era o sorriso de Egao, a “face sorridente” do império Gen-Bu, que o soldado acreditava que nunca mais veria. “Esse brilho... esse desejo pelo desconhecido... Ela voltou”, é o que ele pensa.
Rumiko vira-se para o soldado sentado e inclina-se levemente, agradecendo em japonês.
– Arigatou! Rumiko pensou que essa nossa simplória missão seria desagradável e maçante, e pede desculpas por pensar assim. Graças aos senhores, Rumiko já sabe o que quer fazer da vida.
– Milady... – sussurra o soldado atrás dela.
– Os senhores podem ir – Rumiko conclui
– Teichou! – exclama o soldado à sua frente, erguendo-se rapidamente da cadeira.
– Rumiko não é mais uma “teichou”. Nem para os senhores aqui presentes, nem para os meus comandados lá no Japão. Rumiko precisa se preparar, afinal, como o senhor disse, se esse Oz existir, Rumiko só tem um ano para encontra-lo, não é?
Os dois soldados ficam observando a mocinha ali, parada, sorrindo com simpatia enquanto aguarda pacientemente que eles saiam de sua cabana. Então o soldado ao fundo, agora com um rosto sério e convencido de que Rumiko estava mesmo decidida do que iria fazer, aproximou-se dela e ajoelho-se, ao estilo ensinado no Gen-Bu.
– Senhor... – Rumiko abaixa-se e põe as mãos no ombro do homem – ...não precisa se ajoelhar perante Rumiko. Nunca precisou...
– Teichou! Fomos enviados pelo Dai-Sensei para ficarmos às suas ordens e não cumprimos nenhuma. Dê-nos qualquer ordem. Peça qualquer coisa que possamos fazer para ajudar nessa sua decisão.
Rumiko olha para o outro homem, que sorri de modo respeitoso e faz um sinal com a cabeça de que ele também concordava com o parceiro. Era a primeira vez que atuava ao lado de homens de Mozu e, ciente dos boatos que o 2º capitão espalhava acerca de seu nome, jamais pensou que adquiriria o respeito deles. A moça ergue-se e pede de modo bastante educado.
– Bom... Com essa recente decisão, Rumiko percebeu que tem uma coisa importante para fazer antes de partir. E teria de fazer pessoalmente, pois diz respeito aos meus comandados. Se os senhores puderem fazer esse favor por Rumiko, estarão ajudando-a muito.
– Claro! – replicam os dois ao mesmo tempo.
– Rumiko precisa enviar um escrito para o Gen-Bu o mais rápido possível, mas precisa ser pelo correio aéreo e, como os senhores devem saber, por essas redondezas não há nenhum especializado. Rumiko poderia pedir para Nezuo-Sempai levar, mas ele só vai partir daqui há dois dias, portanto...
O soldado perante Rumiko ri por uns segundos e a moça se cala, sem entender. Então ele explica.
– Teichou! Todas as ordens que Mozu nos dá, nós a cumprimos muitas vezes sem sequer entender a razão. Vamos fazer o que a senhorita mandar, sem questionar ou reclamar. Não precisa explicar o motivo ou as dificuldades de sua ordem.
– Hai! – Rumiko sorri – Arigatou!
Ela pede alguns minutos para os homens ali presentes, pega papel e caneta em sua bolsa e vai até a sala, onde se senta diante da mesa de refeições e começa a escrever. Numa troca de olhares e gestos, os soldados se comunicam e decidem esperar do lado de fora.
Rumiko escreve duas cartas.
A primeira era endereçada ao Padre Karras, a quem ela, quando criança, dava muito trabalho quando ambos se sentavam para conversar e discutir sobre fé. Sendo um homem pertencente conglomerado especial da Santa Sé Apostólica, Karras sentia-se incomodado com o fato de que a menina acreditava até em coelhos da páscoa, mas era uma apóstata convicta. E mesmo em épocas recentes, graças à educação de dama da corte que lhe foi concedida pelos diversos tipos de professores do Gen-Bu, ela aprendeu a respeitar e entender o porquê da fé dos outros, seja de quais religiões fossem, mas isso não queria dizer que ela tenha se convertido à crença de um único deus universal. Ainda mais agora depois do Fim do Mundo, em que havia mais alguns deuses por aí, reclamando seu lugar de origem. Rumiko não tinha nada contra a religião de Karras, mas gostava de dizer que ainda estava esperando por um milagre.
Antes de escrever a outra carta, Rumiko procurou em sua bolsa um pequeno objeto, numa forma de paralelepípedo, abriu-o ao meio e, de dentro, retirou um carimbo com a base dourada. Na ponta superior, o emblema do Gen-Bu e, em seu marcador, o selo oficial de Gengetsu, com pequenos ideogramas japoneses ao redor, que significavam estar em nome de Rumiko, e que foram desenhados pessoalmente por Gengetsu. Esses objetos conferiam o poder supremo da ordem do capitão, caso o mesmo não estivesse presente. Servia como um tipo de rubrica oficial, e qualquer um que obtivesse aquele carimbo, poderia muito bem escrever qualquer tipo de documento e assinar em nome de Rumiko ou de qualquer outro capitão que tivesse seu referente carimbo usado.
Rumiko começa a escrever a segunda carta rapidamente. Tinha consciência de que se fossem os seus comandados, eles ficariam ali fora o dia todo, aguardando pacientemente e sem se queixar. Entretanto, eles eram homens de Mozu, alguém que, sabia ela, a odiava, por isso Rumiko não queria deixá-los esperando.
Nessa segunda carta, ela coloca alguns comentários e agradecimentos sobre a vida que teve até então no império de Gengetsu. E em sua posição de chefa de guarda, escreve algumas ordens finais aos poucos homens que, em respeito à Gengetsu, ficaram sob seu comando. Assim que termina, Rumiko escreve no topo da página “para o Ichigou de Egao”, e logo depois assina seu nome no fim do documento. Ao lado de sua assinatura, ela pressiona o carimbo oficial do Gen-Bu, autenticando o documento para que todos, inclusive os outros capitães, reconhecessem-no e respeitassem-no como ordem direta do 3º capitão do Gen-Bu.
Nos dois escritos, ela explica que iria se ausentar pelo prazo de no mínimo um ano, mas só na carta endereçada à Karras é que ela explicava o que pretendia fazer da vida. A moça pega um terceiro papel em branco e faz um envelope improvisado, que havia aprendido fazer na escola primária, depois dobra e coloca as duas cartinhas dentro. Jamais pensou que as aulas de educação artística que teve em seus primeiros anos de colégio lhe seriam úteis, mesmo porque ela imaginava que não tinha talento para arte nenhuma.
– Yoshi! – diz ela levantando-se e indo em direção à porta.
Foi o soldado mais cético que pegou o envelope improvisado das mãos de Rumiko. Em seguida ele olha para o companheiro antes de falar meio sem jeito.
– Milady... não precisaria fazer um envelope. Como será um transporte aéreo especial, eles irão colocar num envelope apropriado.
O medo que aqueles homens tinham do temperamento explosivo de Mozu era tanto, que eles já estavam até acostumados a receber uma resposta bruta ou grosseira por qualquer comentário que fizessem e que estivesse em desacordo com a opinião do revoltoso capitão. Tão acostumados estavam, que chegavam a acreditar que todos os capitães eram tão revoltados quando Mozu.
Rumiko, no entanto, apenas coça a cabeça, também sem jeito, e pergunta de modo penoso.
– Gomen nasai... O senhor quer que Rumiko retire as cartas?
Os soldados se entreolham e riem como se tivessem ouvido uma boa piada.
– Teichou! – diz o soldado com a carta nas mãos – iremos levar sua carta imediatamente. Pode contar conosco.
– Rumiko sabe disso, senhores. Após isso estão dispensados de meus comandos.
– Sim, milady.
– Quando voltarem, Rumiko não vai mais estar aqui. Rumiko vai imediatamente para o local onde se encontram os outros capitães e de lá irá partir em busca de Oz.
– Teichou...! Eu não sei se...
O soldado responsável pela história se mostra apreensivo, preocupado por ter colocado aquela idéia, a princípio absurda, na cabeça de um membro tão importante do Gen-Bu. Rumiko percebe sua aflição e lhe dirige um sorriso afetuoso e lhe avisa pra não se preocupar.
– Ki ni shinai! Quer esse Oz exista ou não, isso é o que Rumiko quer fazer. Além do mais, Rumiko também quer ver mais de perto esse novo mundo do qual espantou tanto nosso mestre. Rumiko só pede que essa nossa conversa não seja compartilhada.
Desta vez foi o soldado com a carta nas mãos que se mostrou apreensivo.
– Milady.... desconfia de nós?
– Não dos senhores, mas Rumiko desconfia sim, de alguém. Além do mais, Rumiko não quer ninguém do Gen-Bu perdendo tempo com os caprichos dela.
– Pode ser uma viagem perigosa e solitária. E não tem nenhum dos seus homens aqui em Vera Cruz. Não quer a companhia de um de nós?
– Pelo menos por enquanto? – completa o outro soldado.
– Arigatou... mas não precisam se preocupar quanto à isso. Rumiko gostaria de companhia sim, mas já sabe a quem vai pedir.
– Claro. Como queira.
Os homens se despedem e Rumiko os observa da porta enquanto eles se distanciam cada vez mais.
– “Esses dois anos serão os mais interessantes da história do mundo” – sussurra Rumiko.
Essa foi a frase que Gengetsu lhe disse, em meados de 2.012, alguns dias depois do seu retorno de dois anos viajando pelo mundo. Ele se referia aos anos 2.015 e 2.016, mas jamais disse à Rumiko o que isso queria dizer. E sendo um homem que conhecia o lado podre do ser humano e boa parte das falcatruas da história de vários países em que ele já tinha adicionado em sua lista de “tarefas de limpeza”, havia certos momentos em que Rumiko preferia ficar calada a arriscar perguntar sobre algum assunto misterioso e ouvir algo que ela se arrependeria pelo resto da vida. E o que Rumiko achava mais estranho era que ela e seu tutor haviam estado em Vera Cruz uma segunda vez, por volta do ano de 2.006, para ver a situação do país da afamada Flousey, e mesmo vendo uma situação perfeita para um grande golpe, Gengetsu não usou de seus recursos ou estratégias para conseguir apoio. Aliás, Rumiko nunca soube o que ele veio fazer em Vera Cruz nessa ocasião.
– Gengetsu-sama... – continua Rumiko falando sozinha – se o senhor sabia que esses anos seriam interessantes, então porque escolheu logo 2.015 para retornar à Ilha de Vera Cruz e arriscar perder tudo? Porque não esperou até 2.017?
Foi quando Rumiko voltou a si e notou que os soldados já não estavam mais à vista. No próximo ano, 2.016, aconteceriam as eleições para a 1ª etapa de escolha do Líder do mundo. A menos que acontecesse algo que novamente adiasse o evento.
Rumiko então entra na cabana, guarda rapidamente todas as suas coisas numa mochila em forma cilíndrica, joga nas costas e sai. Estava animada demais com a jornada que viria e nem pensava na possibilidade de Oz não existir.
Apesar do Brasil não ter sofrido muito com o Fim do Mundo devido à sua grande extensão de terras, ele sempre foi um país que se recolhe impostos demais para pouco retorno. E por mais que tenha se erguido num país totalmente novo chamado Ilha de Vera Cruz, as coisas por lá ainda andam devagar no quesito de reforma. Muitas ruas, edifícios e grandes centros comerciais ainda estavam em reconstrução mesmo depois dos passados 15 anos depois do acontecido. Isso acontecia, não só em Vera Cruz, mas em vários cantos do mundo em que a corrupção fizesse parte da cultura do país, porque, embora o homem tenha o dom abençoado de sobreviver em qualquer lugar desde que haja modos de sobrevivência, ele também carrega consigo o egoísmo de não querer compartilhar nada do que é seu com alguém que seja desconhecido. Isso ficou ainda mais notável agora, com uma nova moeda em circulação, criada pelos donos do mundo, os Honoráveis.
Para ajudar na reforma de todo o planeta, foi-se criada uma moeda que era aceita no mundo todo, chamada “Bedina”, que aos poucos foi tomando espaço de cada país, dominando a economia global e se tornando a moeda mundial. Só que, como sempre acontece em qualquer situação em que o dinheiro é sinônimo de prestígio, os homens de maior poder financeiro, obviamente, tiveram direito a muito mais bedinas que as pessoas de pouco poder aquisitivo. E com isso, terras que não estavam à venda, foram vendidas ou adquiridas de graça por pessoas de grande influência. E aos poucos, Vera Cruz voltou a ser como era na época de seu nome anterior, ou seja, ficou nas mãos dos barões e políticos, cujo único deus que seguiam e adoravam era o novo representante do cifrão. Com isso, o dinheiro investido na melhoria das ruas, transportes, escolas, saúde e até proteção civil era escassa.
E devido à isso, foi somente depois de 3 horas de sua partida, enfrentando ruas esburacadas e coletivos caindo aos pedaços, que Rumiko chegou ao conjunto de aluguéis onde seus companheiros estavam. Não precisou se identificar, pois já esteve ali alguns dias antes e deixou o nome de Gengetsu como garantia de que ela poderia entrar e sair a hora que bem entendesse, mesmo com o nome de seu tutor sendo divulgado na TV como um vilão que sofreu uma morte merecida.
Havia dezenas dessas cadeias de hotéis espalhadas pela cidade do amazonas e milhares por todo o mundo. Ao lado de profissões mais nefastas como o assassínio e, lógico, a prostituição, esse era o comércio mais rentável da atualidade, porque era infinito o número de pessoas que perderam suas casas para as tragédias naturais ou seus terrenos para os mais poderosos, como os homens do governo, os da máfia ou reles mercenários e tiranos que simplesmente chegavam e tomavam o que queriam. Durante a virada do milênio, o mundo sofria de uma superpopulação preocupante. Agora, há espaço para todos, mas nem todos tem dinheiro. E onde o dinheiro não é tão necessário, ainda há o problema da água potável, que também está em seus limites preocupantes e não é encontrada em qualquer lugar, e da segurança, pois uma nova e estúpida lei foi fundada, cujo principal ponto de mensagem era a de que cada um é responsável pela própria segurança. Por isso qualquer um, desde mercenários, assassinos, caçadores de recompensas e todo o tipo de criminoso, poderia alugar uma estadia sem medo de ser julgado, condenado, denunciado ou sequer proibido de entrar, contanto que pagasse pelo tempo em que passasse dentro do estabelecimento. E é por esse motivo também que aquela cadeia de aluguéis abrigou todos os homens de Gengetsu sem fazer muitas perguntas, já que foram muito bem pagos para tal.
Rumiko caminha depressa pelo corredor central, sem falar ou responder a nenhum dos soldados nos aposentos aos lados, que insistiam em se ajoelhar na porta e dizer-lhe a palavra “Teichou” em forma de respeito. Tudo o que ela fazia para cumprimenta-los era uma rápida mesura de cabeça, sem diminuir o passo. Ela sobe até o 3º andar, vai até o quarto que lhe fora indicado quando chegaram em Vera Cruz, corre até sua cama e pega um cofre cor de rosa, tipicamente feminino, de onde retira uma chave e volta apressada para o corredor. Mais um lance de escadas é vencido rapidamente e ela chega à suíte superior, onde Gengetsu passou seus primeiros dias antes de partir para o vilarejo aonde encontraria com a morte. Rumiko enfia a chave na porta, destranca e entra, com a respiração acelerada e temendo ser descoberta ali nos aposentos do Dai-Sensei. A suíte era grande, bela e luxuosa, com muitos armários e gavetas embutidas nas paredes. Levaria um tempinho até que um mero curioso encontrasse alguma coisa de interessante, mas a moça sabia o que queria e sabia onde estava. Ela vai até a cama de Gengetsu, ergue o colchão e, escondido no fundo do forro que o envolvia, ela pega um caderno pequeno e o vasculha bem depressa, até que acha uma página contendo uma anotação e alguns nomes. Igualmente rápido, Rumiko arruma tudo, sai da suíte, tranca a porta e corre para os seus aposentos.
Ali ela respira fundo e começa, devagar, a preparar suas coisas para a grande viajem que viria. E a primeira coisa que pegou e jogou dentro de sua mochila foi uma pequenina bolsa, no formato de um urso panda, em que ela guardava uma gorda quantia em dinheiro. Essa bolsinha continha 20 moedas de puro ouro 24 quilates que, na injusta cotação atual desse precioso metal, equivaleria à 20.000 bedinas. Esse dinheiro lhe foi confiado por Gengetsu assim que deixaram o Japão. Rumiko não sabia por que ele trouxe aquela quantia e nem porque ele pediu que ficasse com ela e não com Nezuo, o Shihandai, ou seja, o “mestre substituto” do Gen-Bu.
Foi quando Mozu, seguido por seu parceiro Nezuo, entraram no quarto da moça sem bater e a surpreenderam. Ou melhor, pensavam tê-la surpreendido.
– Egao-san... – Mozu senta-se na cama de Rumiko, com um diabólico sorriso no rosto – Então era você mesmo? Meus homens me disseram que tinham visto você chegar.
Rumiko também sorri para Mozu e este se enfurece, apesar de não dizer nada. Odiava aquele sorriso despreocupado da moça, porque era paranóico a ponto de imaginar que Rumiko sorria para debochar da cara dele. Um de seus maiores desejos era empunhar sua espada, convidar Rumiko para um duelo e mostrar à Gengetsu que ela não merecia o título de Teichou. E por duas vezes quase conseguiu realizar o feito, sendo que, da primeira, ele veio a descobrir que Rumiko não aceitava provocação, o que alimentou ainda mais seu desprezo e desejo de sair num combate com ela. Não demorou muito e ele percebeu a preocupação desnecessária que Rumiko tinha com seus comandados e assim descobriu que o melhor jeito de atingi-la seria atacando seus homens. Então, na rara oportunidade que conseguiu de atiçar o espírito de combate da moça, ambos foram interrompidos por Gengetsu, que deixou bem claro que capitães do Gen-Bu não deveriam brigar entre si ou ele puniria os dois. E agora que Gengetsu morreu, para mais uma surpresa sua, que esperava ver uma Rumiko melancólica e chorona, como qualquer adolescente que perdeu um ídolo adorado, Mozu vê a mesma face sorridente que ele sempre quis que sumisse do mundo.
– Mozu-sempai... – Rumiko faz uma mesura – desculpe por Rumiko não ter ido aos seus aposentos para se anunciar.
– Hunf! – Mozu vira o rosto, de bico torcido.
Nezuo se aproxima de Rumiko e põe sua mão enorme e pesada na cabeça da moça.
– Que bom que já está aqui. Pensamos que não iria mais retornar e eu já estava preparando uma equipe para lhe buscar.
– Hn! Arigatou!
– Vamos partir dentro de dois dias, mas é bom você já se preparar.
– Gomen... Mas Rumiko não vai com os senhores.
– O quê? – Nezuo se afasta e Mozu torna a encarar a mocinha, com um olhar esperançoso.
A moça olha para seus dois companheiros de capitania, depois focaliza a somente Nezuo que, assim como ela, tinha grande admiração por Gengetsu e era o capitão em que seu tutor mais confiava. Tamanha era essa confiança, que, para se ter uma idéia, as refeições de Gengetsu eram diariamente supervisionadas e só eram entregues sob a autorização do primeiro capitão em pessoa. Rumiko respira fundo e junta as mãos sobre o peito.
– Nezuo-Sempai! Rumiko descobriu um jeito de trazer o Sensei de volta.
– Sensei... Gengetsu? – Mozu arregala mais os seus finos olhos.
– Hai!
Nezuo senta-se em um banco acolchoado e entrelaça os dedos das mãos, esclarecendo:
– Não sei se você soube Egao, mas Gengetsu está morto.
– Rumiko sabe disso, senhor.
– E como pretende trazê-lo de volta?
– Rumiko tem um plano – a moça se aproxima de Nezuo, com seus olhos brilhando – Porém, Rumiko talvez vá precisar de ajuda. E gostaria muito que o senhor fosse com Rumiko.
– Ir... aonde?
Rumiko abre um largo sorriso e, radiante de tanta emoção, faz um resumo de tudo o que ouviu e revela seu ingênuo plano.
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