A Breve Historia da Humanidade

1 Capítulo Único - A Breve Historia da Humanidade


Havia uma terra cinzenta e rochosa nos idos do sudoeste europeu, ficava além da Serbia, passava tortuosamente pela Romênia, e ia muito além da Moldávia, mas parava pouco antes de colidir com a Ucrânia. Geograficamente era um território pequeno, estreito, espremido. Nesse lugar floresciam ervas rasteiras, bétulas retorcidas – que tinham uma aparência terrivelmente doente – e arbustos espinhosos que subiam as grandes encostas rochosas, formando o espetáculo mais triste da terra.

Contam que um viajante desavisado, caminhando a esmo pelas árduas planícies desoladoras, foi parar aos portões de um imenso castelo lúgubre – era este o Castelo Beaumarino, da terra de Barbacaã – e nele vivia um monarca muito orgulhoso. O viajante, munido apenas de sua túnica, verde oliva, e uma cítara – que denunciava sua origem dos Alpes Alemães – veio, por conseguinte, pedir abrigo do frio, comida para saciar a fome e vinho para saciar a sede, na fronte do suntuoso castelo; chegando a frente da muralha, foi se instalar ao sopé do portão, e quando olhou para cima, para os adarves da amurada, pode ver, entre uma ameia e outra, duas sentinelas, rígidos feito estátuas, munidos de lanças travestidas de estandartes.

— Alto forasteiro! Quem és?_ gritou o mais alto dos guardas.

— Sou apenas um pobre viajante, senhores! Um bardo infeliz que vaga a esmo por essas terras_ gritou o tocador de cítara_ Tenho frio, tenho fome e tenho sede, vim lhes pedir, encarecidamente, abrigo por uma noite.

— Bardo infeliz, apiedo-me de ti_ disse o mais robusto dos guardas, lá de cima da muralha_ Mas creio que este não seja o lugar que procuras!

O viajante ajoelhou-se.

— Por favor, senhores, eu lhes imploro!_ estava encolhido em sua túnica surrada que esvoaçava com o vento congelante do crepúsculo_ Peçam a seu monarca um dedo de gentileza, digam-lhe que posso entretê-lo com maravilhosas rapsódias até altas horas da noite, conheço tantos cânticos e epopeias.

Os guardas se entreolharam, convencidos de que o homem não arredaria o pé do portão principal.

— Muito bem!_ bradou o mais alto_ Espere ai viajante e verei o que posso fazer por ti.

E assim dito, um dos elmos prateados desapareceu atrás da amurada, e o esquálido errante esperou... Esperou até que, repentinamente, uma das descomunais folhas do portão rangeu e uma fresta se abriu, dela, uma luz trêmula emanou e saltou para fora o guarda alto – o elmo reluzia e sua espada embainhada tilintava no cinto conforme ele caminhava.

— Venha viajante miserável_ disse ele, colocando a mão sobre o ombro do bardo_ Meu rei apiedou-se e quer ouvir suas rapsódias.

Adentraram o portão principal para o pátio da guarda, era amplo, bem guarnecido e formava um pentágono ladeado por imensa cadeia de muros. Todos observavam o viajante, junto do guarda, atravessar até o segundo portão, menor, mas não menos imponente. O segundo pátio era três vezes maior que o primeiro, com direito a um jardim opulento, com carvalhos, bétulas, amoreiras e roseirais, havia estátuas de mármore e adornos de bronze espalhados pelos cantos. Tal cenário era lúdico e contrastava sordidamente com o cenário lastimável do lado de fora. Ambos seguiam.

— Viajante_ disse o guarda, enquanto caminhavam até o saguão do rei_ Antes de ver nosso rei, há coisas que precisa saber...

— Pois diga então, meu encarecido amigo.

— Nosso rei é muito orgulhoso, com suas posses, com sua linhagem e com seus títulos! Então, peço-lhe, para o seu bem que se dirija a ele exatamente assim: “Eu lhe saúdo vossa magnificência, Rei Celtos – o dourado, filho de Belamed, neto de Esamar, soberano em Beaumarino, primeiro e único em seu nome, senhor das riquezas imensuráveis, imperador do Oeste, Duque de Isóvia, Barão de Trahald e senhor de Barbacaã”, decorastes?_ terminou o soldado, com tão cruel indagação.

O viajante ouviu atentamente, mas se perdeu em meio aos títulos, mesmo assim meneou a cabeça em tom afirmativo.

Subiram um pequeno lance de escadas até o portal do edifício de pedra e entraram no saguão real.

Era deslumbrante, ainda mais que o jardim do segundo pátio. Havia tantos entalhes em bronze e ouro, que as tochas refletiam uma luz cor de cobre, pinturas romanescas estavam espalhadas pelos quatro cantos do lugar e um corredor maciço de colunas de alabastro, seguia até o trono, onde estava o rei orgulhoso.

O bardo puído sentiu as pernas trepidarem de intimidação quando seu olhar caiu sobre a visão avassaladora do rei, tanto que para não cair ao chão, o guarda o segurara pelo braço.

O saguão estava rodeado de criadagem e vassalos de todos os tipos.

Tal era o rei abastado, que até mesmo ofuscava o brilho lacerante do seu trono de ouro e aveludado. A coroa era de aço nobre, com gravuras prateadas e incrustadas de Rubis. O manto era de seda vermelha, e emplumada com penas de alguma ave tropical. Os dedos estavam abarrotados de anéis com brasões e mais brasões. Seu semblante era velho, mas vigoroso, rude, mas demonstrou enorme polidez ao chamar o viajante a sua presença.

— O que trazes a mim Menelau?_ disse retumbante o rei, coçando sua barba volumosa e castanha_ Que viajante é este que pede asilo em minha casa?

— É um Bardo vossa magnificência, Rei Celtos – o dourado, filho de Belamed, neto de Esamar, soberano em Beaumarino, primeiro e único em seu nome, senhor das riquezas imensuráveis, imperador do Oeste, Duque de Isóvia, Barão de Trahald e senhor de Barbacaã, é um viajante que julgo, pelo molde de sua cítara, vir dos Alpes enevoados a leste, disse-me este miserável errante, que em troca de sua hospitalidade meu senhor, ele lhe contara mil e uma rapsódias.

— Que deliciosa coincidência, não acham?_ disse o rei, se dirigindo a seus vassalos_ Pois não dizia eu, há instantes atrás, que ansiava por uma boa história cavaleiresca?_ estendeu a mão para o intimidado viajante_ Venha, aproxime-se andarilho, conte-me sua historia!

O guarda alto empurrou suavemente o viajante para diante do rei.

Visto que não havia maneira de evitar a saudação ao monarca, o viajante muniu-se de coragem e embriagou-se com o pouco de ousadia, que sua viagem longa ainda havia lhe deixado, na tentativa desesperada de impressionar o rei orgulhoso e revitalizar, de alguma maneira, sua memória, para garantir seu leito do dia.

— Eu lhe saúdo vossa magnificência_ começou o viajante, se curvando solenemente e atirando o cetim batido da túnica por cima do ombro_ Rei Celtos – o dourado, filho de grandes idos e tão poderosos quanto ti... Soberano em Beaumarino, primeiro e único em seu nome, senhor das riquezas imensuráveis, imperador ardiloso, maravilhoso, senhor de Barbacaã e meu salvador!

Dito isso, ele levantou sua cabeça, crente de que havia procedido com exatidão e compostura perfeita, mas para a sua surpresa, vislumbrou o terror dos vassalos e a face furiosa do Rei.

Espantou-se.

— BASTA!_ trovejou o rei, enfurecido com a deturpação de seus tão preciosos títulos_ BASTA!

Todos tremeram.

— Menelau, você trás este homem até mim, para me insultar tão descaradamente? Cortem a cabeça dele e trespassem numa estaca no alto da muralha!

Mal terminou a sentença e dois broncos enormes agarraram o viajante. O pobre homem lutou em vão, pois sua natureza esguia era fraca diante da robustez dos guardas reais.

— Rei orgulhoso! Isso é uma injustiça!_ gritou o condenado a plenos pulmões.

—Injustiça?_ bradou o Rei, inquieto em seu trono_ Injustiça? Eu é que saio injustiçado por tamanha insolência, pois o castigo mal paga crime tão hediondo!

— Como podes dizer tamanha hipocrisia?_ quis saber, certo de que morreria de qualquer maneira.

— Hipócrita é você assassino de títulos! Você dilacerou minha linhagem, sonegara meus antepassados mais ilustres, os lumiares da minha dinastia. Quase duzentos anos de linhagem heráldica apagados numa frase tão bestial! Transformou minha frondosa e magnifica árvore genealógica, num capinzal rasteiro. Omitiu meus títulos de Duque de Isóvia e Barão de Trahald, estes que são justamente minhas terras mais prósperas e descomunais, com essa sua única frase, você roubou dois terços da minha vida. E o que peço em troca? Apenas sua cabeça quadrada e desprezível. Nem um sexto de sua vida miserável de errante. Levem-no daqui agora!

Assim dito, o viajante foi arrastado, aos gritos excruciantes de um réu, até o átrio da decapitação.

Naquela mesma noite, em instantes, o aço frio do machado do carrasco manchou-se do sangue do inocente, e sua cabeça rolou escadaria abaixo com a certeza absoluta de que não existe coerência no mundo dos homens.

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