A Bordo Do Titanic

6 Capítulo 5 - O Cais de Southampton - Parte III


Notas iniciais
Peço desculpa pelo tempo que demorei a postar aqui este capítulo. Quando se tem imensa coisa para fazer é um bocadinho dificil manter um ritmo para se escrever... mas eu prometo que não volto a demorar mais tempo a postar os próximos capítulos :)
Para eu escrever este capítulo recorri a algumas informações da net e claro aos meus conhecimentos de História XD
Espero que gostem ^^
Boa leitura, beijinho***

Edward

Enrijeci depois de o Carlisle ter tomado a liberdade de proferir aquelas palavras. Enquanto Emmet não parava de falar entusiasticamente, acotovelando repetidas vezes o braço de Jasper que olhava com uma verdadeira admiração para o tamanho do famoso navio, eu permanecia calado, olhando fixamente para um ponto distante do Cais de Southampton. Como é que não conseguira adivinhar que Carlisle tinha a intenção de levar a si á sua família no Navio mais falado dos últimos tempos até á América? Eu quase que me culpava por ter cometido uma distracção como aquela, pois lera tudo acerca deste navio que suscitava tantas opiniões, a maioria eram opiniões extremamente seguras mas fúteis, vindas de mentes, que no meu ponto de vista pareciam-se ser apenas mentes pseudo brilhantes, a transbordar de cultura e requinte que afinal nasciam de um egoísmo afectado e um egocentrismo arrogante. Fiz um esgar de relutância ao lembrar-me do que se escrevia nos jornais ingleses acerca do Titanic. Minuciosas descrições, cheias de floreados, no seu típico modo altamente snob de alta sociedade nas primeiras páginas de qualquer jornal… Eram humanos tolos que não conseguiam manter-se de alguma forma neutros e encarar a construção deste Navio como uma construção igual a de tantos outros, com o simples fim de transportar pessoas para um ponto mais distante numa questão de dias, que outrora levaria longos meses a alcançar.

Tudo o que sabia era que o Titanic tinha sido construído nuns estaleiros irlandeses de grande renome, os famosos estaleiros da Harland and Wolff, na cidade de Belfast. O Titanic apenas tinha nascido para um único destino, competir com os navios que alcançavam a grande reputação e daí serem os mais famosos do momento, pelo seu conforto, eficiência e tamanho. Os Navios Lusitânia e Mauritânia, que pertenciam á empresa Cunard Line, eram actualmente os Reis dos Oceanos, desde as suas primeiras aparições, tinham alcançado uma reputação inimaginável… até agora. O novo Navio que foi criado pelas mãos humanas á meses atrás tinha nascido para contrariar a fama de ambos os Navios em voga. A soberania de ambos seria posta agora em causa… O surgimento do Titanic aos olhos do Mundo, juntamente com os seus dois ‘irmãos’,Olympic e o que ainda não tinha sido terminado, conforme era descrito nas manchetes, o Britannic, originalmente chamado de Gigantic, vinham para desafiar estes dois titãs e alcançarem o pedestal de os maiores e mais luxuosos Navios a cruzar os mares.

Lorde William Pirrie, o actual director de Harland and Wolff e dono da Companhia White Star Line, Thomas Andrews, um dos mais prestigiados arquitectos navais, gerente de construção e chefe do departamento de design da Harland and Wolff e por fim Alexander Carlisle, projectista chefe e o gerente geral dos estaleiros. Foram estes os autores da construção de tamanho desafio. Pergunto-me qual terá sido o dia em que repentinamente, estas três mentes ousaram invadir-se por tamanhos sonhos e criar algo que pudesse transpor ainda mais aquilo que já se pensava ser o suficiente a ser alcançado. Sorri com a ironia de tal pensamento, é claro que para o Homem nada era suficiente, teria que haver sempre aquela necessidade quase grotesca de ir sempre em busca de mais, como se fosse uma fome impossível de ser saciada. Não havia nada que ninguém pudesse achar por terminado, independentemente da área, quer fosse nas artes, nas ciências, na política… o limite nunca seria o suficiente. Havia sempre a ocasião em que surgiam inovações, algo de extraordinário que conseguia revolucionar e transformar aos poucos, ou de uma forma completamente brusca o mundo em que nós vivíamos. No meu caso, eu nascera num mundo onde ainda se viam as carruagens puxadas por cavalos como sendo o melhor dos meios de transporte. Para muitos, até mesmo para um vampiro, ainda estava muito longe a ideia em que viria um dia e repentinamente surgisse uma revolução industrial, fazendo nascer a máquina a vapor. Os habitantes pertencentes á era dos meios de transporte movidos pela força animal e que tinham morrido muito antes desta dita revolução jamais saberiam pela descoberta destas obras. Nunca saberiam o que era um carro ou mesmo um navio, como o que tínhamos á nossa frente.

Os jornais de renome conseguiam as mais pormenorizadas informações acerca do Titanic, para aqueles que buscavam diariamente notícias deste Navio que suscitava um grande interesse e que divergia em várias opiniões. Pormenores nada mais do que fúteis mas era precisamente desse tipo de pormenores que faziam as delícias de todos. A construção do RMS Titanic tinha sido financiada pelo americano J.P. Morgan e pela sua companhia, a denominada International Mercantile Marine Co.

A formação deste sonho quase inimaginável teve início no dia 31 de Março de 1909, a sua equipagem concluída a 31 de Março de 1910 e no dia 31 de Maio de 1911 o casco foi lançado por fim ao mar. O seu comprimento total era de 296,10 metros, a sua largura era de 28 metros, com uma tonelagem bruta de 46.328 toneladas e uma altura da linha de água até ao dique de botes com cerca de 18 metros. Equipado com dois potentes motores de quatro cilindros de expansão tripla, invertido com motores a vapor e uma turbina de baixa pressão Parsons de três hélices. Fazia-se mover com cerca de 29 caldeiras alimentadas por 159 fornos a carvão, um meio de combustão que tornava possível atingir a velocidade máxima de 23 nós, ao seja, cerca de 43 km por hora. Quem poderia imaginar? Um navio daquele tamanho descomunal conseguir a proeza de atingir tal velocidade? Sabia-se que a cargo de Alexander Carlisle tinham ficado as responsabilidades das decorações, os equipamentos e os arranjos gerais como a implementação de um eficiente sistema de turcos que eram extremamente necessários para os botes de salva-vidas. As opiniões quanto a este pequeno mas não menos importante pormenor eram baseadas de uma pura zombaria. Estes humanos tolos quando queriam conseguiam ser mesmo pobres de espírito, reflecti com alguma ironia na forma que eles conseguiam desvalorizar descaradamente uma forma de segurança tão indispensável. A implementação de um sistema de turcos para os botes de salva-vidas poderia servir para um outro barco qualquer, até mesmo para o Lusitânia ou para o Mauritânia, mas dizer que era necessário para um Navio como o Titanic, era quase dizer uma blasfémia! Para quê todo aquele sistema de segurança, sendo o Titanic um Navio com fama de ser inafundavel?!


- Será mesmo possível que este navio tenha sido construído por mãos humanas? – Exclamou o Jasper ainda com uma expressão de verdadeiro espanto desenhado sobre as feições do seu rosto.

- Ainda duvidas?! Tiro o chapéu aos loucos que o decidiram fazer! É enorme! – Exclamou o Emmet com aquele sorriso imensamente familiar.


Senti que os olhares de ambos recaíam agora sobre mim, provavelmente á espera de uma opinião da minha parte. Mas o que é que poderia dizer? Não estava com espírito para lhes dizer o que quer que fosse… continuei a olhar pelo vidro da janela do carro, focando um ponto distante do cais e fingindo estar demasiado absorto na grande agitação que se movia lá fora.


- O que é que achas Edward? – Ouvi um pensamento vir de encontro a mim, não foi necessário olhar para saber que vinha da mente do Jasper.


Pareceu-se seguir-se um enorme silêncio que no entanto teve a habilidade de se conseguir sobressair no meio de tanto barulho que se fazia produzir no exterior. Os dois fizeram-se esperar pacientemente de uma resposta da minha parte mas eu no entanto continuava relutante em responder. Mais uma vez me questionava, o que é que havia para responder?


- É um navio como tantos outros… — acabei por dizer a meia voz, desviando abruptamente o olhar para ambos.


Jasper não reagiu á minha resposta, aliás como sempre era o seu hábito de fazer. O Jasper nunca demonstrava claramente o que sentia ou o que achava de algum e determinado assunto. Já o Emmet pareceu ficar bastante chocado com a resposta.


- Estás a querer dizer que este navio não é nada de especial?! – Exclamou num tom de incredulidade.


Estava pronto para abrir a boca e responder ao Emmet com sarcasmo quando vi o Carlisle sair do seu carro, colocando o chapéu na cabeça com um porte de verdadeiro nobre, seguido por Esme que deslizou para fora do carro com uma grande delicadeza e graça. Comprimi os lábios e refreei a língua de dizer o que quer que fosse. Estava na hora de fazermos a nossa parte teatral, ao comportarmo-nos como simples humanos. Emmet que se entusiasmara, pensando que me iria irritar mais uma última vez por terras inglesas, demonstrou uma cara de desilusão, mas não protestou, limitando-se a sair do carro, sendo seguido por Jasper e por mim. Assim que posemos os pés fora do nosso veículo, os sons do cais de Southampton pareceram engolir-nos automaticamente, envolvendo-nos de uma forma inevitável naquele ambiente, as vozes dispersas que se faziam ouvir, algumas em tons lamurientos, outras num tom um pouco mais alto, expressões de alegria, outras de angústia, de triste despedida e promessas de uma nova vida, carregadas de esperança. Para além daquele barulho todo do conjunto de vozes que tornavam o cais repleto de vida, apesar do já assíduo cenário de trabalho matinal que se vivia ali diariamente, havia as vozes mentais, pensamentos que jorravam das mentes de centenas de pessoas e que vinham até mim numa avalanche impiedosa, deixando-me tonto e confuso. Não consegui uma única vez concentrar-me enquanto permaneci na plataforma que dava acesso às rampas de embarque, sentindo a minha cabeça zonza. O Emmet, sorridente e bem-disposto colocou prontamente o seu chapéu na cabeça, não muito longe de si, Jasper mantinha-se em silêncio, observando apenas todo aquele cenário com um olhar cauteloso. Eu tentava manter-me alheio de tudo, eu não queria de todo estar ali…


- Não vos parece ser um barco maravilhoso?! – Exclamou solenemente Carlisle, aproximando-se com Esme, que se mantinha elegante no seu porte e de braço dado com Carlisle, exibindo um sorriso cativante e maternal.

- Nunca vi um barquinho como este Carlisle, tenho que admitir que desta vez acertaste em cheio. – Declarou Emmet, soltando logo de seguida uma das suas típicas gargalhadas.

- É um Navio, cabeça de ervilha… — Resmunguei entre dentes.

- Por favor, rapazes… sejam mais sensatos. – Pediu Carlisle. – Não vão começar agora aqui, em pleno cais de Southampton, a discutir o tamanho do Titanic.

- Lembrem-se, estamos no meio deles, não no nosso meio… — murmurou Esme cautelosa, olhando por segundos em redor. – Temos que fazer a nossa parte e fazer de conta que somos humanos.


Eu concordei com um leve aceno de cabeça, mas Emmet no entanto pareceu não ficar muito satisfeito. Ele ainda tinha esperança de por uma última e derradeira vez conseguir irritar-me… e de facto o seu ultimo desejo estava mais perto de ser concretizado do que á dois segundos atrás. Eu sabia que Carlisle de vez em quando pousava o seu olhar sobre mim, esperando encontrar finalmente algum sentimento de aceitação no que tocasse a esta viagem, mas eu infelizmente não lhe podia dar tal garantia. Eu quando queria conseguia ser firme e inabalável nas minhas convicções, acreditava fielmente que esta viagem tinha algo que não era de todo confiável. Conseguia sentir, e saber que algo de mau agoiro pairava nesta viagem, mas quem me dava ouvidos?

Carlisle pensava constantemente que eu estava mais numa das minhas fases complicadas na minha eterna vida, fases controversas e problemáticas, com um pouco de teimosia e pessimismo sem limites. Os seus pensamentos recaiam frequentemente nas minhas atitudes que chocavam com os seus planos, Carlisle queria de alguma forma convencer-me que aquela era a melhor solução para uma mudança. Pois bem, eu não podia concordar… talvez estivesse demasiado familiarizado com o comodismo, a sensação de passar os anos e as paredes continuarem a serem as mesmas, os objectos continuarem nos mesmos lugares, a paisagem prevalecer estação após estação e sentir-me em paz, em paz comigo próprio e com tudo ao redor.

Depressa os inúmeros pensamentos que chegavam até mim começaram a chamar-me á atenção, fazendo-me ignorar tudo o resto. Senti dezenas de olhares fixados sobre nós e sabia precisamente quais eram os motivos… Com alguma ironia reflecti que seria quase uma tolice, no meio de tantos humanos, não sermos notados. A nossa pele demasiado branca, a leveza que nos liderava os passos, como um deslizar subtil, quase tocando o felino, certamente a cor invulgar dos nossos olhos, tantos e tantos pormenores... Poderia dizer que, embora fossem simples, eles conseguiam deixar sempre qualquer humano desconcertado e consequentemente fascinado. Certamente uma bela arma que com certeza era mais útil para os vampiros que gostavam do sangue humano. Eu em tempos fora um mestre a manusear esta arma…

Atrevi-me a olhar em redor e a minha intuição estava de todo certa, havia inúmeros sujeitos que deslocavam os seus olhares para nos observar.


- Bem… não perca-mos mais tempo. – Declarou Carlisle. – Vamos entrar no Titanic.


Carlisle aconchegou melhor o braço de Esme, que ainda se encontrava entrelaçado no dele e começou a dirigir-se na direcção da rampa que dava acesso á entrada da 1ª classe. O motorista que tínhamos contratado para a ocasião, encontrava-se um pouco mais afastado, mesmo junto a uns dos nossos carros, dando as instruções que Carlisle lhe transmitira pormenorizadamente a um homem baixinho de chapéu da Companhia White Star Line que com certeza se encarregaria da nossa vasta bagagem e a reencaminharia para os nossos aposentos reservados na 1ª classe. Nós os três, seguimos atrás de Carlisle e Esme, solenemente, agindo consoante o papel ao qual nos tinha cabido. Eu ainda conseguia sentir os olhares sobre nós e os pensamentos agora pareciam mais intensos e numerosos do que nunca, sobrepondo-se uns aos outros.

“Quem serão eles?”, “São extraordinariamente bem-parecidos!”, “Que elegância e que porte…” Tentei ignorar, era o melhor a fazer. Mas, subitamente…


“Oh mas eu não acredito no que eu estou a ver! Parecem ser extremamente ricos… Certamente que terei que falar com eles e fazer-me o mais rapidamente possível intima amiga! Com tais relacionamentos não poderei obter outra coisa se não a total atenção de Lorde William Joseph Smith… ”

Aquele pensamento extenso e no mínimo tão efusivo fez-me desviar os olhos do chão sujo do cais e deixa-los com que fossem de encontro a um ponto não muito distante dali. Toda aquela admiração e desejo de saber quem éramos nós, ao qual eu acreditava piamente de ser fruto de uma profunda e sedenta ambição fútil, provinha de uma mulher. Certamente que provinha da mesma classe social a que a minha família pertencia pois envergava um vestido comprido de veludo verde musgo, trabalhado com pequenas pedras brilhantes, franzidos e renda, sobre os ombros trazia uma estola de pêlo grosso de raposa, sobre os seus cabelos que eu consegui ver serem castanhos, elaborados num penteado sofisticado, erguia-se um chapéu da mesma cor do vestido, com renda preta e todo emplumado, penas exuberantes, exóticas que pareciam estar pregadas apenas por uma única pregadeira cravejada de esmeraldas e diamantes. Dava certamente nas vistas, demasiado nas vistas, numa exibição de artifício quase circense… aquele seu pensamento que avaliei automaticamente como sendo algo desprovido de genuinidade e pureza, apenas sendo vazio em abundância fez-me sentir aversão instantânea. Decerto que eu não aprovaria que os meus pais começassem a socializar com aquela criatura fútil… isso com certeza não seria uma preocupação. Eu estava consciente da sensatez e perspicácia de Carlisle, o mesmo poderia dizer de Esme… eles não se deixariam encantar por uma humana com um carácter por natureza pouco credível. Mesmo atrás de si seguia duas jovens que nem me dei ao trabalho de observar, desviei o olhar, pouco interessado. Talvez fossem iguais àquela que certamente seria a sua mãe, talvez pouco inteligentes, dadas a frivolidades e a entusiasmos fúteis, deslumbradas. Os pensamentos demasiado audíveis daquela mulher extravagante aborreceram-me de todo e pela primeira vez desde que o Carlisle tomara esta decisão maluca de irmos viver para o outro lado do oceano, só desejei entrar o mais depressa que fosse possível naquele Navio.


Renée


Em tempos á muito desaparecidos, recordo-me de que detestava as viagens longas de carro, nessas ocasiões nunca conseguira descobrir o motivo de tal desconforto mas hoje arriscaria a mencionar que desvendara finalmente e encontrara a razão para isso. Era a simples presença do falecido Charlie Anthony Dewitt Bukater que tornava essas viagens tão penosas para mim. Depois do seu eterno desaparecimento tomara conta da pequena grande diferença, descobrindo um prazer outrora julgado como inexistente numa simples viagem de carro, aquele tolo apaixonado derretia-se em demonstrações de afecto e carinho nessas precisas ocasiões, com certeza que eu representava a minha fachada de boa e amada esposa, quando na verdade eu só queria apenas dele o seu dinheiro e o seu bom nome, quanto á sua presença eu queria-a bem longe de mim. Infelizmente a sua tolice fez com que arruinasse toda a sua fortuna e deixasse-me apenas preocupações desnecessárias, o desavergonhado ousou deixar o mundo numa ocasião em que as dívidas eram mais que muitas e que deveriam ser saldadas o quanto antes. A situação era precária, demasiado delicada para ser suportada por tanto tempo. Se eu queria manter o nível de vida ao qual eu estava tão familiarizada, teria que desencantar uma solução milagrosa…. E foi do nada que surgiu, arriscaria a dizer que caíra do céu em boa hora, a fortuna avantajada de Lorde William Joseph Smith. Um património que em comparação com a velha fortuna gasta do tolo e desprezível Charlie Bukater era assombrosa. A Bella apenas seria a chave para a permissão de acesso para alcançar essa fortuna infindável que para mim só poderia ser comparável ao doce e leve cantar da glória, da soberania e do poder. A Bella seria o meu instrumento, a minha marioneta… bastaria ouvir o “sim” dos seus lábios numa prometida cerimónia épica e então seria o ponto de partida para por o meu plano em prática e alcançar as delícias só pertencente á deslumbrante 1ª classe, a grande sociedade com as suas mais ilustres e altas esferas, repletas dos mais requintados nomes e importantes títulos de nobreza. Desde que saíra de casa que me sentira finalmente completa, decididamente triunfante e realizada. O primeiro passo estava dado, faríamos a nossa viagem logo justamente no barco mais prestigiado, o mais luxuoso! Isso não era um passo deveras importante? Os comentários que iriam surgir e as exclamações de agrado e assombro que iria receber quando mencionasse que tinha viajado no Titanic, justamente na sua viagem de inauguração! O casamento de Bella com o filho de Lorde William Joseph Smith seria realizado e então aí todas as portas seriam finalmente abertas e jamais alguma coisa seria-me negada. Adeus dívidas, adeus preocupação com o dinheiro! Com um leve cantar as cobiçosas promessas já se conseguiam ouvir ao longe numa distância já não muito longe, cantando as promessas de uma vida que eu tanto almejava.


As minhas duas filhas seguiram durante toda a viagem de carro em completo silêncio, nem uma palavra ou mesmo um comentário casual. Pareciam conformadas com o destino que eu lhes tinha reservado, esta enorme alegria e satisfação não me poderia ser dada de outra forma. Ambas estavam sobre os meus comandos, poderia controla-las da maneira que me conviesse. Os meus pensamentos foram interrompidos pelo súbito travar do carro, tínhamos parado. Seria possível que a viagem tivesse sido tão curta? Tínhamos por fim chegado a Southampton, tanto Bella como Alice olharam com alguma cautela para o exterior através do vidro da janela, eu segui-lhes o gesto. Naquela manhã o dia estava nublado para meu aborrecimento, mas em contra partida, o Cais de Southampton encontrava-se bastante agitado, aquelas pessoas, a maioria sendo de classe inferior percorriam toda a extensão do Cais para cá e para lá, em diferentes rotinas. Num ponto mais distante os passageiros da 1ª classe subiam calmamente a rampa de embarque, ignorando o barulho bárbaro das pessoas sem estatuto e sem a mínima consciência do quão insignificantes elas eram. Desmanchavam-se em afectos patéticos com os seus familiares que partiriam, choravam estupidamente… Perguntar-me-ia quem tinha tido a brilhante ideia de deixar esta gente sem classe comparecer aqui, justamente no dia da viagem inaugural do Titanic.

Titanic… Os pensamentos recolhidos sobre aquela gente sem importância foram subitamente substituídos pelo cantar jovial daquele nome tão… possante e maravilhoso! Atreveria-me a dizer que era nome que facilmente se tornaria sinónimo de força colossal, luxo, requinte, magnificência, sublime.


- Oh meu Deus! Eu não posso acreditar! – Exclamei com grande êxtase. – Com que então é este o Navio ao qual designam como sendo inafundavel… Titanic! Creio estar certa de que nunca houve e certamente nunca haverá um navio como este! Arrisco a dizer que é decididamente maravilhoso, o navio certo para nós viajarmos, não concordam?


Esperei por uma resposta inteligente e tão requintada quanto a minha. Mas de nenhuma forma ouvi palavras, pelo contrário, ouvi o absoluto silêncio. Olhei para ambas, Bella espelhava no seu rosto uma expressão de completa admiração, enquanto Alice parecia estar nervosa com algo que embora eu desconhecesse, o que fosse achei completamente ridículo e deselegante.


- Por favor meninas, não estejam com essas caras! – Repreendi. – Queiram comportar-te como aquilo que realmente são, duas jovens ricas e elegantes da alta sociedade.


Bella desviou o olhar na minha direcção. – Mãe, como podemos ser jovens ricas e elegantes da alta sociedade se nem um único tostão nós temos para constituir fortuna?


Não pude de deixar de sorrir, ela nem sabia o que a esperava na América.


- Minha querida, Bella, tu sabes certamente que a nossa situação económica é bastante precária mas muito em breve isso mudará.

- Não vejo como minha mãe… o pai não nos deixou nada a não ser um nome de família conceituado e dívidas amontoadas com o qual não sei até quando teremos que carregar sobre as costas.


Naquele momento o meu desejo foi esbofeteá-la só apenas pela simples nomeação do falecido Charlie mas consegui dominar o meu sentimento súbito e refreei-me.


- Minha querida, essas dívidas não nos pesarão durante muito mais tempo. – Assegurei-lhe com um sorriso que obriguei-me a colocar sobre os meus lábios. – É por isso mesmo que faremos esta viagem, para dar inicio a um novo começo…


Bella não me respondeu, ignorando a minha resposta e olhando novamente para o exterior. Alice continuava com aquele semblante nervoso, preferi não lhe dizer nada… Alice era a minha filha mais estranha, ao meu olhar era aquela jovem frágil e pateta, que eu acreditava veemente de que não teria a mesma “sorte” da irmã. Provavelmente acabaria solteira para toda a vida… Optei por tentar uma nova tentativa de aliciamento, será que era só eu que me sentia entusiasmada com aquela viagem?


- Minhas queridas, certamente que terão que concordar comigo que o Titanic é com toda a minha certeza, um Navio bastante superior ao Mauritânia, em todos os sentidos! – Exclamei completamente entusiasmada. – Informaram-me que era 100 metros mais comprido que o Mauritânia, bem, quando me informaram disso julguei que estivessem a exagerar mas… meu Deus, não estavam de todo a mentir!


Bella voltou a desprender o olhar da janela e encarou-me com aquele seu olhar de indiferença.


- Mãe, ouso dizer que este Navio em pouco ou nada me surpreende. É grande sim, mas não há uma grande diferença de comprimento se comparando o Titanic com o Mauritânia. – Respondeu Bella cepticamente. – Não se esqueça que já viajamos umas 3 vezes no Mauritânia e não consigo achar grande diferença de um para o outro.

- Oh Bella, definitivamente tens um espírito difícil de se impressionar. – respondi com algum desapontamento e irritação. – é indiscutível, o Titanic supera o Mauritânia. Certamente será muito mais luxuoso no seu interior…

- E é esse o seu argumento ao qual usa para defender a sua tese? Apenas Luxuoso? Eu diria que seria arriscado nesta altura pensar tão abertamente em Luxo quando vivemos em solo pouco seguro mãe. – Ripostou Bella, com aquele tom de voz que não me agradou de todo. Ignorei o seu comentário, definitivamente Bella era diferente de mim em muitos aspectos. Não tinha o mesmo espírito de ambição que eu possuía, o desejo de busca pelo conforto que os bens materiais tão deliciosamente ofereciam. Bella tinha a mesma personalidade patética do pai, com tantas qualidades minhas disponíveis para serem usadas e ela fora logo herdar o que havia de mais desprezível….


Olhei para a Alice, que até á data presente ainda não expressara uma única opinião.


- Então minha querida? Alice, o que achas do Titanic? – Questionei-lhe, tentando sorrir. Depois daquela observação pouco simpática de Bella, era-me difícil representar o meu papel de mãe interessada pela opinião das filhas. Depois daquele comentário maldoso de Bella apenas surgia o desejo de manter-me no meu pedestal. Alice pareceu sobressaltar-se com a minha pergunta, encarou-me com o seu olhar nervoso.

- É um belo Navio mãe… — Murmurou.


Não disse mais nada para além disto, desviando o olhar de mim e consequentemente da janela. Um interesse maior parecia estar presente nas suas mãos, pois não parava de as contemplar… filha esquisita que me havia de calhar. O nosso motorista veio abrir a porta do carro e ofereceu-me a sua mão para ajudar-me a sair. Obviamente que a aceitei, nada mais seria sensato da sua parte se não o fazer. Aliás, era claramente uma das suas obrigações… saí do interior confortável do carro, o barulho contínuo das pessoas presentes no Cais e os sons de maquinaria em funcionamento rodeou-me, deixando-me um pouco incomodada. Bella saiu, seguida de Alice que se mantiveram atrás de mim.


- Chegamos ao Cais Senhora Bukater… — Disse o Motorista.

- Muito bem Christopher, já sabes o que tens a fazer… chama os que são encarregados da bagagem e diz-lhes para colocarem tudo nas suites da 1ª classe B-52, 53 e 54. – Ordenei.

- Sim Senhora Bukater. – Anuiu Christopher, vergando-se numa vénia ao qual eu ordenara a que todos os criados ao meu serviço a fizessem na minha presença. – E quanto ao seu carro? – Perguntou, apontando para o carro onde tínhamos feito a viagem até ali.

- Leva-lo-ei comigo Christopher. – Respondi. – Ordena que o coloquem no porão do Navio.


Numa outra vénia, Christopher anuiu em afirmação que assim faria, e afastando-se depois solenemente de mim chamou um dos muitos ao serviço da Companhia White Star Line que por ali andavam a cumprir as suas tarefas.


- Vamos minhas filhas, vamos, não percamos mais tempo no meio desta gente. – Exclamei, sentindo-me afrontada com os de classe inferior a rodear-me.


Aconcheguei melhor e orgulhosamente ao redor dos meus ombros e pescoço, a minha majestosa gola de pêlo de raposa, oferecido por Charlie dias antes de cair gravemente doente sobre leito e para nunca mais de lá sair a não ser para ser colocado no caixão.

Com passo ponderado e decerto estudado para parecer aos outros um passo superior e de requinte, avancei na direcção da rampa que conduzia a uma das entradas de 1ª classe. Sentia tanto Bella como Alice atrás de mim, seguindo-me, claramente inferiorizadas comparado com o meu porte de aristocrata… mas algo me deteu.

Parei abruptamente, detendo o meu olhar e observando com alguma curiosidade. Não muito longe dali encontrava-se uma família que pertencia claramente á 1ª classe, destacava-se sem dúvida alguma do meio de todos os outros, e eu via que eu não era a única a deter-me e a observa-los. Eram realmente distintos e mesmo muito elegantes! Um Homem de cabelos claros, mesmo com aquele chapéu de feltro preto dava para ver que os seus cabelos eram alourados, sorria para a mulher de cabelos castanhos que seguia de braço dado com ele, tão encantadora e elegante na sua indumentária, certamente era a sua esposa… ou quem sabe com um pouco de sorte, apenas irmã… atrás de ambos seguiam 3 jovens rapazes, não me conseguia decidir qual deles era o mais bonito, elegante, galante, sedutor. Era uma família toda ela distinta e com certeza extravagantemente rica! A julgar pelas vestimentas…

Eu tinha que ser amiga daquela família! As vantagens que não surgiriam com tais laços de amizade?! Lorde William Joseph Smith ficaria muito agradado por os conhecer, mais uma vantagem para o meu plano de mestre…


- Mãe, afinal para onde olhas? – Perguntou Bella ligeiramente curiosa.

- Para aquela família minha querida… parecem ser extremamente simpáticos. – Comentei com um sorriso, já calibrando as vantagens que viessem com tais amizades.

- Seria sensato da sua parte que nos dirigíssemos já para a porta de embarque da 1ª classe mãe… — advertiu Bella, ignorando a família rica da 1ª classe. – Certamente que não faltará muito para o Navio partir.


Bella tinha razão, certamente que não faltaria muito para a partida do Titanic. Haveria outras ocasiões, decerto muito mais favoráveis e com a disponibilidade para se lançar algum tema agradável de conversa, começando assim um processo de estreitamento de laços de amizade. Os benefícios viriam muito em breve com a perspectiva de ao desenvolver-se um convívio entre pessoas que eram genuínas da classe mais requintada, eu considerava-me uma pessoa genuína da classe alta… Lorde William aprovaria. Sorri, a decisão estava tomada.

Notas finais
O que acharam?
Espero pelos vossos reviews ^^
Beijinho