A Boca do Silêncio

3 O Rosto por Baixo da Pele


Mizuki faltou ao trabalho no dia seguinte.

A mensagem enviada à supervisora foi curta, impessoal, escrita com mãos trémulas: “Não me sinto bem. Preciso de um dia.” Não explicou mais nada. Não conseguiria. Como explicar que o próprio rosto começara a traí-la?

O apartamento estava mergulhado numa penumbra constante. As cortinas permaneciam fechadas, e a única luz vinha da casa de banho, onde o espelho, agora coberto com um pano branco, parecia exercer uma pressão silenciosa sobre todo o espaço. Mizuki evitava passar por ele, mas sentia-o presente, como um olhar insistente nas costas.

Sentou-se no chão da sala, as costas encostadas ao sofá, e respirou fundo. Cada inspiração trazia consigo uma dor subtil ao redor da boca, uma tensão que não desaparecia. Quando passava a língua pelos lábios, sentia a pele irregular, sensível, como se tivesse sido mal cicatrizada, apesar de não se lembrar de qualquer ferida.

Flash.

Uma noite chuvosa em Niigata. Mizuki tinha dezasseis anos. O pai gritava na sala, a voz pesada de álcool e frustração. A mãe permanecia sentada, imóvel, os olhos baixos.

— Olha para ela! — disse ele, apontando para Mizuki. — Nem sabe sorrir como uma pessoa normal. Quem é que vai querer uma rapariga assim?

Mizuki recordava-se de ter levado a mão à boca nesse momento. Um gesto instintivo. De defesa. Como se pudesse impedir que algo dentro de si escapasse.

No presente, levantou-se de repente.

Não podia continuar assim. Precisava de respostas. Precisava de perceber se aquilo era uma alucinação, um colapso nervoso, ou algo muito pior. Vestiu-se devagar, colocou novamente a máscara cirúrgica, agora com uma urgência quase desesperada e saiu.

O destino surgiu-lhe na mente sem esforço: a biblioteca municipal de Suginami. Um edifício antigo, pouco frequentado, onde os livros sobre folclore japonês permaneciam quase sempre intactos, cobertos por uma fina camada de pó.

O silêncio da biblioteca era diferente do do apartamento. Ali, parecia intencional, respeitoso. Mizuki percorreu as estantes até encontrar a secção de lendas urbanas e yokai. Pegou em três livros, depois em mais dois, e sentou-se numa mesa afastada.

As descrições eram familiares. Demasiado familiares.

Kuchisake-onna: vítima de violência doméstica. Traída, castigada, mutilada. A boca rasgada de orelha a orelha para que nunca mais pudesse sorrir para outro homem. Após a morte, regressa como espírito vingativo. Usa máscara. Faz uma pergunta simples. A resposta nunca é suficiente.

Mizuki sentiu o estômago contrair-se.

— Não… — murmurou, baixinho. — Eu não vou morri.

Mas ao folhear as páginas seguintes, encontrou algo que a fez gelar.

Uma nota marginal, escrita por um investigador moderno, sugeria que a lenda poderia manifestar-se antes da morte física. Um estado intermédio. Um yokai em formação, alimentado por trauma prolongado, repressão emocional extrema e desejo inconsciente de punição, tanto dos outros como de si próprio.

Mizuki fechou o livro com força.

O reflexo do vidro da mesa devolveu-lhe uma imagem distorcida do seu rosto. Por um instante, jurou ver a máscara desaparecer, revelando algo por baixo, algo errado, demasiado aberto, demasiado humano e inumano ao mesmo tempo.

Saiu da biblioteca quase a correr.

A tarde caiu rapidamente, e com ela veio uma sensação de urgência. As ruas começaram a encher-se de sombras alongadas, e Mizuki percebeu, com um terror surdo, que não estava apenas a ser observada.

Estava a ser esperada.

Quando entrou no apartamento, encontrou o pano do espelho da casa de banho no chão.

O coração disparou.

Aproximou-se lentamente. Cada passo parecia ecoar demasiado alto. O espelho estava intacto, mas a fenda tinha desaparecido.

— Isso é bom… — sussurrou, sem convicção.

Retirou a máscara. O reflexo sorriu-lhe.

Não foi um sorriso voluntário. Os músculos moveram-se sozinhos, puxando os cantos da boca para cima e para fora. A pele esticou-se de forma dolorosa, e Mizuki gritou quando sentiu algo ceder.

Um som húmido. Um rasgar profundo.

Sangue escorreu lentamente, quente, seguindo o contorno de um sorriso impossível. De orelha a orelha.

A mulher do espelho inclinou a cabeça, repetindo o gesto que Mizuki vira no parque.

— Agora sim. — disse a voz, que já não vinha da boca de Mizuki, mas de dentro das paredes, dos espelhos, da própria carne. — Agora estás bonita.

Mizuki caiu no chão, o corpo em espasmos, enquanto a dor se misturava com algo ainda mais aterrador: alívio.

Lá fora, em Suginami, alguém caminhava sozinho na noite. E uma pergunta antiga preparava-se para ser feita outra vez.