A Boca do Silêncio
1 A Menina que Aprendeu a Não Sorrir
O primeiro aviso surgiu num espelho. Não foi um grito, nem sangue no chão, nem uma aparição nas ruas de Tóquio. Foi um espelho antigo, pendurado na parede de um apartamento banal no bairro de Suginami, que estalou sem razão aparente às 06h42 da manhã. A fenda abriu-se lentamente, como uma boca cansada de permanecer fechada, atravessando o reflexo de uma mulher de trinta e quatro anos que já não reconhecia o próprio rosto.
Mizuki Arai ficou imóvel. O apartamento era pequeno, silencioso, impregnado pelo cheiro morno de café instantâneo. Lá fora, o som distante dos comboios misturava-se com o murmúrio constante da cidade, Tóquio nunca dormia verdadeiramente. Ainda assim, naquele instante, tudo parecia suspenso, como se o mundo aguardasse que Mizuki respirasse.
Ela levou a mão ao rosto. Nenhuma ferida. Nenhuma dor. Apenas a sensação estranha de que o espelho lhe tinha devolvido algo que não queria ver.
Mizuki nunca gostara de espelhos. Desde criança que evitava olhar-se durante demasiado tempo. A mãe dizia que era timidez. O pai dizia que era falta de disciplina. Mas a verdade era outra: quando se observava em silêncio, surgiam lembranças que não tinham som, mas pesavam como pedras no estômago.
Flash.
Uma casa antiga na periferia de Niigata, rodeada de arrozais. O cheiro da humidade entranhado nas paredes de madeira. Uma menina sentada no tatami, as mãos pousadas nos joelhos, a aprender desde cedo que sorrir podia ser perigoso.
— Endireita as costas, Mizuki. — dizia a mãe, num tom suave, mas cortante.
— Uma mulher bonita não se ri assim.
O pai raramente falava. Quando falava, era para corrigir. Quando bebia, corrigia mais.
Mizuki aprendeu cedo a fechar a boca. Literalmente. O sorriso, diziam-lhe, devia ser discreto. Controlado. Um sorriso aberto era vulgar. Um sorriso largo… imperdoável.
Na escola, as outras crianças chamavam-lhe “a menina de porcelana”. Não por ser frágil, mas por parecer sempre prestes a partir. Os professores elogiavam o seu comportamento exemplar. Ninguém perguntava se ela era feliz.
No presente, Mizuki afastou-se do espelho partido.
Vestiu o casaco bege, colocou a máscara cirúrgica, hábito que manteve mesmo depois da pandemia, e saiu para a rua. O ar frio da manhã tocou-lhe o rosto como uma lâmina suave. As pessoas passavam apressadas, absortas nos seus próprios mundos. Ninguém reparou nela. Mas ela reparou neles.
Desde há semanas que algo mudara. Não era apenas cansaço. Era uma irritação surda, constante, como um zumbido dentro da cabeça. Sons tornavam-se demasiado altos. Rostos demasiado expressivos. Sorrisos demasiado largos.
Na entrada da estação, uma criança ria-se alto, puxando a manga da mãe. Mizuki sentiu o estômago revirar. Outro flash.
Um prato a partir-se no chão. Gritos. A mãe a chorar em silêncio, a boca coberta pela mão, como se o som fosse proibido. O pai de pé, furioso, a dizer palavras que nunca deviam ser ditas a uma criança.
— Se continuas assim, ninguém vai querer olhar para ti.
O comboio chegou. As portas abriram-se com um suspiro metálico. Mizuki entrou.
No vidro da carruagem, o seu reflexo misturava-se com o dos outros passageiros. Por um instante, apenas um, teve a certeza de que o seu sorriso era diferente. Mais longo. Mais tenso. Como se estivesse a ser puxado por algo invisível.
Piscou os olhos. Nada. Ainda assim, a sensação persistiu.
Naquela noite, ao regressar a casa, Mizuki encontrou outro espelho estalado. Desta vez no corredor. A fenda atravessava exactamente a zona da boca do reflexo.
Ela não dormiu. E algures, nas ruas escuras de Tóquio, uma pergunta antiga começou a ecoar outra vez baixa, quase carinhosa:
— Eu sou bonita?
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