Era véspera de Natal; eu e minha prima não devíamos ter mais do que oito anos, estávamos correndo pelo jardim, eu fugindo e ela me perseguindo com um espeto de churrasco.

— Volta aqui, gado! – Gritava a maníaca.

Parte de mim sabia que a garota não tinha coragem de me espetar de verdade com aquela arma, mas a outra parte, provavelmente mais sensata, achava melhor não arriscar. Foi quando eu tropecei em algumas luzes de Natal que haviam caído do telhado; de cara enfiada na grama, permaneço imóvel enquanto sinto uma ponta em minhas costas.

— Para, Carol! Por favor! Eu dou os meus jogos pra você! É sério! Dou...

Ela começa a rir, percebo que a ponta não era tão afiada assim, viro o rosto e vejo-a me espetando com o cabo do espeto.

— Não tem graça. – Digo.

— O que é aquilo ali? – A garota deixa a arma cair ao chão, apontando para algo escondido atrás da churrasqueira.

Levanto-me e a acompanho até o misterioso item. Era a bicicleta mais bonita que eu já havia visto em toda a minha vida, escondida atrás de uma coisa imunda como uma churrasqueira. Foi paixão à primeira vista, obviamente. Eu podia ver os reflexos das luzes natalinas brilhando na lataria, era poético e maravilhoso. Percebo, então, um lacinho rosa, que cobria o guidão. É claro. Carolina começou a gritar de felicidade. “Achei meu presente de Natal! Achei meu presente de Natal!”. Ela saía exclamando, repetidamente, pela casa. Alguns tios riram, outros pediram pra ela parar. Meus pais pareciam cabisbaixos, os dela orgulhosos como nunca. Aproximo-me deles:

— Que legal, né? – Digo.

— Sim. – Responde meu pai.

— Nós temos um presente pra você também. – Comenta minha mãe, observando o brilho em meus olhos. – Vá buscar, está no seu quarto!

Saio correndo, mais rápido do que se fugisse de um trem. Subo as escadas como se o andar de baixo pegasse fogo e abro a porta como se precisasse arrombá-la. Sobre a minha cama, encontro uma pequena caixa de sapatos azul coberta por um lencinho roxo. Decepcionado, aproximo-me da cama e pego o presente. Abro e percebo que é apenas um graveto. Observo o pedaço de tronco, confirmando minhas suspeitas de que era apenas um pedaço de pau comum. Desço as escadas, segurando-o, e vou até os meus pais, chego ao lado deles, confuso.

— Gostou? – Pergunta minha mãe, nervosa.

— É sério? – Digo, choroso.

Ela olha para o meu pai, que passa a me encarar.

— Se não gostar, respeitar. Nós não conseguimos guardar muito dinheiro esse ano, filhão. Lembra que nós tivemos que mudar de casa? – Diz ele.

Concordo com a cabeça, segurando as lágrimas; ele continua:

— Como o papai e a mamãe estavam meio duros, tivemos que comprar o presente desse ano com mágica. – Minha mãe olha pra ele, desorientada.

— Mágica? – Questiono, incrédulo.

— Sim, quando a cegonha traz os bebês, ela sempre deixa uma poção de Amor junto com o pacote de fraldas. – Responde.

Passo a prestar atenção na história, minha mãe que continua:

— É assim que funciona, filho; quando um casal recebe o neném, permite que esse amor mágico entre em sua casa. Alguns o desperdiçam, nós guardamos pra esse momento especial.

Olho para o graveto, maravilhado.

— E esse graveto é mágico também, óbvio. – Meu pai comenta.

— Sério? – Sorrio, recheado de esperança. Meus pais me observam, abismado, e se entreolham, de olhos marejados.

— Sim, o anjo que me vendeu disse que se você desejar forte o suficiente, a vareta pode se transformar no que você quiser. Do dia pra noite. – Meu pai explica, com um sorriso bobo no rosto.

Abraço os dois bem forte.

— Vai brincar agora, vai! – Diz minha mãe.

— Mas cuidado com o graveto, não vai quebrar, hein? – Meu pai complementa.

— Nem pensar! – Exclamo, e vou correndo pra fora de casa.

Sento na grama, observando as estrelas noturnas e agradecendo mentalmente ao anjo que visitou meus pais. Vejo uma joaninha andando no chão; aproximo o graveto dela, que o escala. Carolina anda com a magnífica bicicleta até o meu lado, descendendo e sentando no chão.

— E o que que os seus pais te deram, de presente? – Pergunta, deitando seu veículo na grama, cuidadosamente.

— Um muito melhor que o seu. – Respondo, rindo.

— Que legal. E o que é?

— É segredo, não posso contar.

— Ah, fala.

— Não posso, seus pais provavelmente desperdiçaram.

— Desperdiçaram o quê? Fala logo!

— Tá bom, mas você não pode contar pra ninguém! É muito especial.

— Ok! Nossa.

— Esse graveto.

Ela ri:

— Sério?

— Sim, ele é mágico.

— Como assim? – Seu olhar irônico transforma-se em um de surpresa.

— Se eu desejar forte o suficiente, esse graveto pode virar qualquer coisa!

— De verdade?

— Sim.

— Me dá, então! – Ela pega e sai correndo, rindo.

— Não, Carol! É sério! Me devolve!

— Eu quero um castelo e um carro e uma guitarra e um elefante e um balão e uma...– Minha prima foge, gargalhando, enquanto eu a persigo, inutilmente. Ela sempre foi mais rápida.

Carolina para quando percebe que eu desisti de correr, vê as lágrimas em meus olhos.

— Ei, desculpa. Eu nem desejei de verdade. Sério, era brincadeira, não foi por mal. – Ela diz com voz serena, devolvendo-me o presente.

Eu pego:

— Tá, mas não faz mais isso. – Digo.

— Nem pensar, eu não ia estragar o seu presente.

Sorrio.

— Além do mais. – Ela continua. – Meus pais também vão me dar, mais cedo ou mais tarde. – Ri.

— Acho que sim. – Comento, secando as lágrimas com a camisa.

Observo meus primos mais velhos, Tomás e Caio, os gêmeos, se aproximando.

— Ei, eles tão dando sorvete de graça pra crianças lá na Sorveteria do Cuôte, bó? – Diz Caio, olhando para mim e Carol.

— Acho melhor não, tá muito tarde, não tá não? – Reclama ela.

— Ah, vamos lá! Essas coisas só acontecem uma vez na vida! – Tomás quase grita.

Minha prima ainda parece meio nervosa. Tento consolá-la:

— Ei, tá tudo bem! A gente vai todo mundo junto, não dá nada.

— Se algo acontecer, a gente protege vocês! Hehe. – Diz Tomás, referindo-se a ele e seu irmão.

— Tá. – Carol sorri.

Olho para o graveto:

— Só vou deixar isso aqui com os meus pais e já...

— Não dá tempo! – Caio segura meu braço. – A sorveteria fecha daqui a pouco! Vamos logo!

Concordo com a cabeça, nervoso. Nós quatro saímos pelo portão principal: os três de bicicleta e eu atrás, correndo.

— Que linda essa sua moto nova aí. – Diz Tomás, conversando com Carol.

— Sim, ainda nem tirei a fita. – Diz ela, apontando para o laço no guidão e fazendo barulhos de motor com a boca.

— As de vocês podem até ser legais, mas só a minha tem cestinho pra guardar coisas. – Caio fala, orgulhoso.

— Cestinho é coisa de menina. – Rebate Tomás, rindo.

— Não é! – Caio responde.

— É sim!

— Não é!

— Qual a diferença, gente? – Carol intervém. – Como se ser de menina fosse uma coisa ruim...

— Mas a sua nem tem! – Caio grita, olhando pra bicicleta nova da prima.

— É porque a minha é pra menino e pra menina.

— Exato, então se fosse pra menina teria o cestinho. – Diz Tomás, confiante em sua lógica.

— Nada a ver, meu! – Caio exclama.

— Ei! Vocês podem ir um pouco mais devagar, por favor? – Grito, cansado de perseguir os “motoqueiros”.

— Ah, é! Você tá aqui também. – Tomás olha pra trás.

—Sim, né? – Digo, parando um pouco pra respirar.

— Vamos logo, o Cuôte é logo ali na esquina. – Caio aponta para o fim da rua.

— Ei, quem disse isso? – Ouço uma voz, vindo de um beco próximo.

Nós quatro, primos, paralisamos de medo. Vemos alguns adolescentes saindo das sombras com algumas sacolas.

— Eles viram tudo! Agora já era! – Grita um deles, saindo correndo, os outros seguem, desesperados, apenas um permanece:

— Ei, vocês aí! Vocês não vão contar nada pra ninguém!

— Agora ferrou de vez! – Caio grita e sai pedalando a toda velocidade, seguido por Tomás.

— Voltem aqui! – O adolescente encapuzado grita.

Carol se arruma para sair pedalando também, mas acaba caindo com a bicicleta no meio-fio. Não sabendo o que fazer, observo, trêmulo.

— Você! Agora você vai ver! – Ele grita, enquanto segura Carol pelo braço, a levando para longe da bicicleta. Percebo que ele não me viu.

Minha prima grita, desesperada, sua voz aguda penetra meu coração. Saio correndo na direção dela. Ainda com o graveto na mão, desejo mais do que tudo que ele se transforme em uma faca.

— Que barulho é es... – O jovem, ainda segurando o braço da Carol, se vira para a minha direção.

Enfio a vareta em seu rosto com toda a minha força. Ele cai, gritando e sangrando. Atingi seu olho. Pulo em cima do adolescente de rosto ensanguentado, retiro o graveto cravado e enfio mais uma vez. E de novo. E de novo. Ele finalmente para de se debater. Carolina, chorando, me abraça, sendo contaminada também com o sangue que escorria em meu rosto. Ela segura minha mão com força, nós dois corremos em direção à bicicleta caída. Levanto-a. Carol sobe e o banco parece muito maior agora do que era antes, subo também. Pedalamos como se o mundo dependesse disso e alcançamos uma velocidade inacreditável, continuamos até que o veículo finalmente alça voo e nos leva para longe dali.

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