A Bella Adormecida
1 A Bella Adormecida
Notas iniciais
Pov Edward Cullen
- É aqui Sr. Cullen — disse-me a enfermeira.
- Só Edward por favor — pedi enquanto abria a porta do quarto.
- Como quiser Senhor... Hum, Edward — sorri pra ela assentindo.
- Com licença — disse e se retirou.
Passei os olhos pelo quarto, primeiro para os poucos móveis, a cama, uma cômoda, uma mesinha, o pequeno armário, as paredes claras, e finalmente na garota sentada de frente pra janela. Ela estava de costas pra mim, e seus longos cabelos castanhos caiam em cascata pelo braço da cadeira simples.
Caminhei calmamente até ela e me sentei em uma cadeira próxima a sua, quase a sua frente. Levantei os olhos para fitar seu rosto e me surpreendi ao ver a beleza dela.
Seus olhos fitavam o jardim do hospital, e ela piscava e respirava calmamente, como se não notasse minha presença.
- Isabella? — falei baixo e como me disseram ela não esboçou nenhuma reação.
- Eu sei que está aí em algum lugar Isabella... Em uma prisão que não é capaz de se libertar.
Ela permaneceu igualmente quieta e olhando o jardim — aparentemente.
Seus olhos pareciam robóticos, fitavam o jardim, mas ao mesmo tempo pareciam olhar outro lugar, adiante ou nada.
Eu havia descoberto ela a pouco tempo, meu pai Carlisle, comentava sobre a "bela adormecida" do hospital, e curioso vim vê-la.
Mas ao contrário da princesa do conto de fadas, ela não estava em sono profundo, mas era como se estivesse. Ela estava em coma, em uma prisão no próprio corpo, e permanecia um silêncio desde então.
Sua respiração era ritmada, calma.
Seus olhos não focavam nada de específico.
- Bella... Posso te chamar assim? Seu nome é tão lindo, tanto como você — sorri a olhando, parecia uma boneca de porcelana. Novamente ela não esboçou nenhuma reação. Era como falar com uma parede. Meu pai havia alertado que seria sempre assim, até que um dia ela acordasse do torpor. Se acordasse. Era uma proteção do cérebro dela, pois algo que aconteceu e ela não era suficiente forte para suportar. E permanecia assim, como uma princesa adormecida até que tivesse forças para enfrentar tudo e se libertar.
Especialistas diziam que o caso dela era como o de uma pessoa em coma. Talvez despertasse um dia. Mas não se tinha certeza. Mas algo era certo, ela podia me ouvir. Talvez alguém que tivesse uma ligação forte com ela, a fizesse acordar, mas não se sabia de nenhum parente dela..
- É realmente uma pena que não fale — lamentei e segurei sua mão — Não sei o que houve contigo Bella, só sei que você precisa sair dessa prisão e logo.
Não sei se foi minha impressão, mas senti um aperto na minha mão.
- Bella faça de novo. Vamos — pedi fixando os olhos nas nossas mãos. Nada. Acho que foi um delírio da minha cabeça. Suspirei.
Foquei pela primeira vez em seus olhos, uma admiração profunda me dominou: Seus olhos eram num tom perfeito de chocolate derretido. Olhos que mostravam sua alma. Olhos lindos.
Por um instante desejei que eles me focassem, mas sabia que não era assim tão simples.
Meus olhos arderam e não senti quando uma lágrima solitária escapou do meu olho direito, só percebi quando minha visão embaçou um pouco.
Um desespero sem sentido me dominou, era como se eu desejasse ardentemente que ela despertasse e me dissesse que estava tudo bem, mas em vez disso, ela continuava ali, parada, imóvel.
Pisquei para me livrar das lágrimas, assustado demais para entender o que estava acontecendo comigo.
Apertei levemente sua mão.
Eu sempre fora sensível demais, e me emocionava com facilidade, o que levava Emmett a inventar piadinhas sem graça.
Mas não me importava, nada importava depois que adentrei o quarto dela.
- Não vou abandonar você Bella, eu juro — sussurrei — Nunca.
Imóvel. Me perguntei se ela realmente estava me ouvindo ou se eu falava com as paredes.
Não pude deixar de notar a singela cicatriz em seu pulso esquerdo, era quase imperceptível, mas nada fugia aos meus olhos, nenhum detalhe. Era uma linha fina, de mais ou menos 3 centímetros. Um arrepio percorreu minha espinha ao pensar na hipótese de suicídio.
Ela tentara se matar? E se sim, por que?
Essas perguntas eram silenciosas, e talvez nunca fossem respondidas.
Mas eu tentaria descobrir mais sobre ela, apesar de aparentemente não ter sequer um ponto de partida, ninguém viera ao hospital vê-la, apesar dos anúncios nos jornais da jovem encontrada ferida e em estado de choque. Mesmo com as fotos em cada jornal, a esperança de encontrar algum parente estava engavetada.
Carlisle estava muito sentido com ela, comentara várias vezes conosco, Esme também ficava muito emotiva quando se referiam a ela. Simplesmente pelas hipóteses sombrias que estavam rodando o mistério que a envolvia.
Ela fora encontrada com sinais de violência, marcas pelo corpo, não sabiam se ela também foi abusada, talvez sim, mas naquele dia não. As marcas nela não seriam feitas por uma mulher com certeza, era de alguém forte, muito forte.
Estremeci com a ideia. Não podia imaginar o que aquela garota tão frágil havia passado, era terrível demais.
O que ela teria passado? Sabiam o nome dela porque ela possuía uma delicada corrente com o nome dela. Ela devia ter mais de 20 anos. Era tão jovem e no entanto...
- Edward? — me virei automaticamente e me deparei com a face confusa do meu pai.
- Oi pai — cumprimentei e voltei meu olhar para a garota a minha frente.
- Como pode ainda estar aqui?
- O que tem?
- É estranho, não pensei que demoraria tanto — argumentou.
Foi então que olhei as horas e vi que já estava ali a um bom tempo.
- Foram apenas 3 horas pai.
- Não achei que ficasse tanto.
- Por que?
Vi quando ele fechou a porta e puxou uma cadeira para se sentar ao meu lado.
- Olhe para ela Edward, não é alguém que pode manter um diálogo interessante com você — poderia parecer grosseiro, mas sua voz tinha resquícios de decepção, dor e pena. Ele sempre ficava assim quando se referia a ela. Ele gostava dela.
- E no entanto, somente a presença dela me satisfaz. Me deixa inteiramente a vontade, em paz.
Ele sorriu amável.
- Sim, sei o que quer dizer. Ela é especial.
- Eu lamento não ter vindo antes. Só sei que ao lado dela eu me sinto de uma maneira tão serena, tão...
Suspirei.
- Não há como explicar.
Ele me olhou de uma maneira que eu não soube decifrar o que significava.
- Ela é incrível. Quando chegou aqui estava muito ferida, mas viva. Ela tinha tudo para ter morrido nas circunstâncias que se encontrava. Mas não, ela sobreviveu a dias a deriva. Estava bem, mas como consequência de algo que não sabemos, está assim.
Ele suspirou tristemente e depois deu um sorriso fraco.
- Mas ela é forte apesar de tudo. Ela tinha poucas chances de sobreviver e superou as expectativas.
- Como foi pai? Digo quando a encontraram... Em que condições — engoli em seco.
Ele tossiu como que para tirar o bolo da garganta.
- Ela estava jogada em um beco qualquer. Achamos que ela sofreu um acidente, os ferimentos eram parecidos ao menos — apareceu um vinco na sua testa — Ela tinha "ralados" nos braços, nas pernas e pelo corpo. Acima da testa dela tinha um hematoma grave, roxo e bem grande. O sangue ali havia parado de coagular e havia se formado um nódulo, tivemos que drenar obviamente, esse ferimento parecia resultado de uma forte batida em algo. Também tinha um corte profundo acima das sobrancelhas. Um braço e uma perna estavam fraturados, os braços dela tinham arranhões verticais, quase como se ela tivesse rastejado usando os braços. Dado como estava sua perna, é óbvio que essa hipótese era real. Mas por que ela estaria se esforçando tanto? Sair da área do acidente talvez ou tentando fugir de alguém que a ameaçava? Isso nos frustra. Ela estava com um grande corte na barriga e havia ferrugem ali, logo voltamos a cogitar um possível acidente. Mas como se não havia relato disso? Se foi um acidente foi muito grave para ela sair daquele jeito. E o pior é que ela foi encontrada num lugar onde não se tinha absolutamente nada. E as costelas... Coitada — seu rosto se retorceu de dor.
- Estavam piores que os outros ferimentos? — murmurei hesitante.
- Estavam como que se tivessem sido esmagadas — falou a olhando ternamente, segurou sua mão — Ela é forte sem dúvida.
- Estava inconsciente não é?
- Sim. Ela só veio a acordar dias depois, havia ficado em coma induzido para a recuperação ser mais rápida e indolor.
- Como ela acordou?
- Eu estava presente no dia — seus lábios se retorceram, talvez ele não quisesse presenciar seja o que for que aconteceu — Ela abriu os olhos e eu vi terror ali, muita dor e pânico. Quando me encarou e as pessoas da sala, seu coração ficou excessivamente rápido, achamos que ela teria um ataque cardíaco. Ela se irritou com aquilo, ou se assustou não sei dizer, arrancou todos os aparelhos que a monitoravam. Quando quis sair da cama as pressas não conseguiu pois estava além de ferida, imobilizada. Tentei ajudá-la, mas ela se assustou muito e começou a gritar, não aceitava meu toque, chorava compulsivamente. Dizia coisas como "me deixe", "me deixe ir", "não suporto mais"...
Notei seus olhos marejados.
- Aquela foi a única vez que a vi falar, ela tinha tanta dor na voz, no rosto, nos gestos... Fiquei com muita pena dela. Estava desesperada, como se achasse que alguém ali lhe faria mal. Tentamos acalmá-la, perguntar o que houve, mas ela não respondia. Foi então que a medicamos, mas antes do remédio fazer efeito, seu rosto parecia encoberto por sombras, se retorceu em dor e ela parou de se debater, ela chorava. Então ela dormiu, e quando acordou estava assim... Nunca mais falou, entrou em choque. As vezes flagramos lágrimas em seus olhos, mas parece involuntário, ela não reage mais. Já se passou 1 ano.
Estremeci. Parecia mais ruim do que eu pensava. Antes de cair na inconsciência ela devia ter sofrido muito, revivido seus piores pesadelos. Era um forte motivo pra ela não conseguir se recuperar, mesmo depois de tanto tempo.
- Acha que ela pode se recuperar? — meu tom de voz era quase inaudível.
- Não sei — seu tom de voz estava como o meu: baixo, medroso — Já faz 1 ano. Ela deveria esboçar reações e no entanto nada até agora.
Ele suspirou e se levantou.
- O importante é nunca perder as esperanças não é? — ele disse dando um tapinha no meu ombro, sorrindo fracamente.
- Não perderei as minhas — falei olhando fixamente para ele — Há uma chance não é? De recuperação, talvez se encontrássemos alguém da família dela...
Comecei a divagar rapidamente mas ele me interrompeu.
- Edward não é tão simples. Fizemos de tudo, não encontramos ninguém. E mesmo se encontrássemos alguém, não temos certeza de que ela "voltaria" a si, é apenas uma teoria.
- Podemos nos apegar a essa teoria, pelo menos nos agarrar a essa faísca de esperança — olhei pra ele sentindo o sangue fugir do meu rosto.
- O que há Edward? — ele perguntou andando pelo quarto gesticulando com as mãos — Parece que está se envolvendo demais.
- E estou. Eu mesmo não estou me entendendo.
Era verdade. Nem eu mesmo sabia o que estava acontecendo comigo.
- Não se apegue Edward, eu mesmo sinto por ter me apegado a ela, sinto-me inútil, impotente e terrivelmente mal a olhando assim.
- Eu entendo, é perturbador — agonizante demais olhar para ela, completei mentalmente.
- Por isso mesmo, se quiser vir, conversar com ela, pode até ajudá-la... Mas tente evitar se ligar a ela, vai ser frustrante acredite.
- Obrigada pelo conselho pai. Se não se importar, quero visitá-la mais vezes.
- Não me importo — ele sorriu vindo a mim — Me orgulho de você filho, por ser esse rapaz bom, que se importa com as pessoas.
Sorri também.
- Como meu pai — acrescentei e vi um brilho em seus olhos dourados.
- Obrigado Edward. É um grande homem.
- Não como você, quero ser metade do que é um dia pai.
- Já passou disso — ele sorriu emocionado e não perdi a oportunidade de abraçá-lo. Era sim um filhinho de papai. Mas não no pior sentido, e sim no sentido de que era muito ligado nos meus pais, os amava demais.
- Vai comigo pra casa? — ele perguntou se afastando um pouco.
- Sim, vamos.
Peguei meu casaco que sai dali, não antes dei um beijo na testa dela e disse um “até logo”.
Fechei a porta sentindo como se parte de mim ficasse ali naquele quarto, não sabia se seria capaz de ignorar o sentimento que começou a nascer em meu peito.
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