A Bela e a Fera - Livro 1

16 Capítulo 14: O poder libertador da palavra


[P.O.V. Bela]

Acabei vivendo na biblioteca por mais tempo ao longo dos dias após nosso momento no jardim. Queria bastante começar a escrever e cismei que entraria em treinamento. Sempre depois do almoço eu voltava para lá.

Eu não estava mais consciente do tempo que passava quando Madame Samovar veio com seu carrinho oferecendo seu chá habitual e perguntando se eu precisava de algo.

“Fera teve outro sonho, madame, e estou pensativa sobre isso. Queremos contar a vocês. Achamos que o feiticeiro está nos observando bem de perto. O que acha?” perguntei, apreensiva. Ela poderia ter notado tantas coisas de que eu não fazia ideia. “Não é como se viesse aqui todos os dias. Imagino que tenha uma vida, não é? Mas fico pensando...”

“Ah, querida... eu imagino que sim.” Ela subiu à mesa para conversar. “Lembro de algumas coisas da época e deve ser fácil para ele... poder ser qualquer um dos animais que rodeiam o castelo.”

“Sério? Eu tinha essa hipótese, mas a certeza mudaria tudo!”

“No dia em que ele veio deixar o amo aqui, disse-me que eu não precisava me preocupar... porque a maldição possuía um tempo determinado, mas que alguns não deveriam saber. Eu sabia que ‘alguns’ eram esses e não disse a ninguém com medo do castigo aumentar. Disse também que explicaria melhor em algum momento. Talvez seja nesses sonhos que o amo está tendo! Depois foi embora... como um corvo.”

“Você percebeu?” eu estava atônita.

“O quê?”

“Já conseguiu dizer tudo isso antes? Pronunciar claramente que é amaldiçoada?” Madame também ficou sem reação quando lhe falei. Sorri e saí correndo dali pedindo para ela reunir os servos.

Fui o mais rápido que pude até o quarto de Fera, batendo ansiosa antes de me ser concedida a entrada.

“Fera! Fera! Madame conseguiu falar sobre a maldição! Disse a ela para reunir todos os outros! Vamos, se não for só ela... estamos feitos!” Já puxava-o pela mão para corrermos.

***

[P.O.V. Fera]

Chevet estava comigo no quarto, tirando uma série de medidas minhas e de algumas de minhas roupas, enquanto uma caneta-tinteiro encantada anotava tudo o que Horloge dizia, ao verificar a fita. Aquilo seria para minha roupa de baile. A data que se aproximava me deixava nervoso, e o senhor-relógio, o único além de Chevet para quem contei sobre o evento, vinha me acompanhando mais vezes ao longo dos dias, informando-me dos hábitos da corte, dos padrões de etiqueta, daquilo que eu conseguiria ou não seguir.

Ouvi Bela correndo pelo corredor e fiquei um tanto alarmado com a ansiedade de suas batidas. Dei-lhe logo permissão para entrar enquanto Horloge dava passinhos nervosos em círculos.

“Ela conseguiu o quê?” levei um pouco mais de tempo para compreender o que dizia. Chevet foi mais rápido, e logo em seguida, Horloge:

“A maldição? A nossa maldição?” quase gritou, antes de se lembrar de que tinha bons modos. Mas ao perceber sobre o que falara, soltou uma imprecação em inglês.

“Parece estar mesmo acontecendo. Vocês, chamem todos que puderem, ajudem Madame Samovar a reunir todos do Castelo na cozinha.” Disse aos dois servos antes de me voltar para Bela. “Vou ajudar Madame de Garderobe a chegar lá. Encontraremos vocês em pouco tempo.” Garanti.

Pedi desculpas várias vezes por ter de despertá-la, enquanto Garderobe fingia que não estava dormindo. Quando soube do que se tratava, não precisei motivá-la a correr, e estava tão agitada que o percurso nas escadas foi mais difícil. Cadenza não precisou de minha ajuda: descobriu uma maneira de subir e descer sozinho com eficiência, e desconfiei que seu motivo fosse visitar o quarto de Bela – mas nada comentei.

A princípio, Chef Bouche não estava satisfeito com tanta balbúrdia em sua cozinha e a agitação dos servos chegou a quebrar um açucareiro encantado. Quando todos estavam reunidos, foi difícil chamar a atenção, por isso, exclamei rugindo:

“SILÊNCIO!!! Temos comunicados importantes a dar! E informações importantes a pedir! Por favor, ouçam com atenção!” Consegui a atenção desejada. Enquanto não se agitavam outra vez, achei melhor contar-lhes dos sonhos, antes que quisessem falar conosco (e entre si) sobre a própria maldição. Olhei para Bela, de repente um tanto inseguro, por estar diante do grupo e para falar sobre sonhos. Procurei seu olhar de incentivo antes de prosseguir, engolindo em seco.

“Como sabem, já descobrimos algumas informações deixadas pelo feiticeiro que fez do Castelo o que ele é. Agora, temos a ideia de que ele não partiu daqui definitivamente... e que procura manter contato.”

Narrei o primeiro sonho, dando os detalhes que venceriam as dúvidas dos mais céticos, suscitando alguns comentários nervosos e confirmações apressadas. Com o segundo sonho, todos já estavam convencidos, mas a agitação cedeu lugar a um silêncio tenso e constrangido. Não falei exatamente quem estava na cozinha na visão do sonho, nem reproduzi as palavras do diálogo que acompanhei, mas apenas sua intenção; não queria colocar ninguém como alvo das acusações ou críticas dos colegas. Imaginei que não soubessem como reagir, agora que sabiam que havia testemunhas de todas as suas ações: o feiticeiro e, agora, eu.

“Estamos todos em situação parecida. Exceto por Bela, nenhum de nós é inocente, mesmo que eu não saiba ainda do que sou acusado. Mas deve ser bom sinal se o feiticeiro se mostra disponível para algum tipo de comunicação ou explicações, mesmo que no ritmo que escolheu. Podemos ter outras respostas em breve... talvez possamos fazer nossas próprias perguntas e aguardar algum retorno. Ou dizer a ele, de alguma forma, aquilo que queríamos dizer já há muito tempo.”

“Pelo que entendi...” continuei, “... agora vocês podem falar sobre o que fizeram e o que sofreram. Porém peço... que isso seja usado como forma de alívio e libertação. Não tolerarei trocas de ofensas ou acusações referentes às ações daquela época. É passado, e vocês têm construído um presente muito melhor do que aquilo. Não é hora de jogar isso fora... o que pode ser a única esperança de reverter nossa situação.”

Fiz uma pausa, sentindo-me um tanto estranho. Nunca falei por tanto tempo seguido a alguém, exceto em algumas sessões de leitura. Quando Bela chegara ao Castelo, eu nem conseguia falar tão rápido e me articular com facilidade suficiente para tal discurso.

“Se bem entendi... o senhor... feiticeiro... Hurricane pode estar vendo qualquer coisa, a qualquer momento?” Horloge começou, procurando se focar em questões mais práticas.

“Prefiro imaginar que só veja e acompanhe o que lhe interessa.” Respondi. “E não tudo, o tempo todo.”

“Mas ele estaria... invisível? Como não o percebemos ao longo de anos?” o relógio insistiu, nervoso.

“No dia em que o amo chegou, cheguei a Vê-lo ir embora como um corvo...” Madame Samovar começou, antes de ser interrompida.

“Um corvo? Há vários!” Plumette exclamou.

“Sabemos que ele estudou a transformação de humanos em animais e objetos...” aquela frase ainda tinha um gosto amargo em minha boca. “Se consegue usar isso em si mesmo, pode se camuflar com facilidade.”

“Ele pode estar entre nós?!” perguntou uma voz que não consegui identificar. Um novo burburinho começou, com olhares desconfiados para todos os lados.

“Esperem!” elevei de novo a voz. “Sim, ele pode estar conosco com frequência, mas não mudou em nada nossa rotina! Já são anos que vivemos aqui e só agora temos algum sinal de sua presença, e talvez de sua ajuda. Provavelmente graças a Bela...” completei, sem conseguir evitar um olhar de carinho para a princesa. Mesmo assim, a calma não parecia restaurada. Passei a pata pela cabeça. “Não acho que ele esteja o tempo todo nos observando e nos julgando como se não tivesse mais nada para fazer! E mesmo que estivesse, tem feito bons julgamentos a nosso respeito, não é?”

“Houve algum outro sonho? Ele disse mais alguma coisa?” Plumette perguntou.

“Não. Se eu receber qualquer outro contato, aviso imediatamente, e peço que façam o mesmo, mas sem insegurança constante. Parece melhor continuarmos com nossas vidas, sem que fiquemos só obcecados pelo que diz respeito às nossas maldições...”

Nessa hora, Chef Bouche adiantou-se com estrondo, furioso. “É um absurdo que se coloque como estivéssemos na mesma situação!” exclamou, o fogo aparecendo em suas bocas e no forno, levando outros servos a se afastarem. “Não aja como se fosse justo você ser uma criatura imensa que não é ameaçada por nada, que circula com facilidade pelo Castelo e para além dele, e que é servida por todos nós enquanto viramos mobília falante!”

Fiquei contrariado com suas palavras, mesmo que entendesse, ou julgasse entender, seu ponto de vista. “Não fui eu que decidi o que seria justo para cada um e não é comigo que deve reclamar.” Tentei responder, controlado. “Só digo que somos todos amaldiçoados e prisioneiros aqui, porque também não posso sair para a floresta como se não houvesse alguém que fosse me matar imediatamente...”

“Matá-lo? O quê? Um logo que não bate na sua cintura? Um caçador? Já sabemos que sabe lidar com eles muito bem, e a prova disso está enterrada no quintal!” retrucou. A menção ao episódio de Gaston me tirou do sério, e comecei a rosnar para o Chef, que não me deu chance de me defender. “Perigo é ser de porcelana naquela floresta! Perigo é ser desmontável, morando com uma fera instável e furiosa sem poder fugir!”

“Basta, Bouche!” Madame tentou intervir.

“Eu digo ‘basta’, madame! Ele está vivo, vivo como não somos há anos, e se acha vítima! Queria ter o direito de virar um monstro, ter meu próprio quarto, ser obedecido e poder comer minha própria comida!”

Eu tremia, recebendo aquelas acusações, os olhos e punhos fechados, os dentes à mostra. “As únicas vítimas... estiveram naquele calabouço... e talvez o homem enterrado por minha causa...” usava meu autocontrole para falar, sem abrir os olhos. “Nós somos todos culpados. Você sabe do quê. Não sei o que é... ser frágil ou ameaçado... assim como... você não sabe o que é não ter passado. Não ter nada antes da maldição... não entender nada do futuro e só existir aqui, agora. Sem saber quem você é... mas se odiando por isso!”

Cadenza interveio, com sua voz calma e musical, a meio caminho entre mim e Bouche. “Acredito, meus caros, que comparar infortúnios não vai melhorar as circunstâncias nem aplacar os egos. Nunca tivemos uma cena dessas e não seria agora, diante de nossa nova habitante e nossa princesa, que uma briga seria necessária ou bem vinda.”

***

[P.O.V. Bela]

Fiquei quieta pela maior parte do tempo, deixando Fera narrar o que era necessário e os comentários dos objetos fomentarem. Não os culpava pelo nervosismo, era uma situação que eu não poderia imaginar, apenas observando bem a expressão de cada um, já que alguma pista poderia ser dada. O que madame Samovar havia dito estava claro em minha mente naquele momento.

Se o feiticeiro Hurricane mostrava-se satisfeito com as mudanças que estavam acontecendo, certamente contar sobre a maldição ser temporária não causaria reflexões... e sim apenas frustração e contagem impaciente dos dias. Se depois de tanto tempo alguns nervos ainda estavam endurecidos, não quis imaginar como seria com um pouco mais de conhecimento.

Imaginei até que pudessem ter esquecido por um momento que eu estava ali, já que os ânimos ficavam mais inflamados a cada minuto. Não quis pensar que não se importavam. Passava os dedos pelos cabelos algumas vezes enquanto escutava.

“Ele não seria um objeto. Todos vocês se conhecem há muitos anos. Um objeto de personalidade nova que só aparecesse vez ou outra não me parece algo inteligente para um bruxo pensar. Vocês teriam notado rápido que havia algo errado, mesmo que não percebessem a possibilidade de ser quem ele realmente é...” falei baixo e apenas os mais próximos ouviram, já que as vozes não paravam de se exaltar. “O corvo faz mais sentido mesmo, Madame... O que nos ajudaria seria saber se é transmorfo ou apenas consegue transformar-se neste animal. Afunilaria as opções e tudo ficaria mais fácil.”

“Será que podemos entrar em contato?” Lumière perguntou diretamente ao amo. “Será que o senhor consegue pedir a ele que venha até seus sonhos, monsieur? Poderia perguntar coisas por nós, ou quem sabe entender mais algumas coisas...”

“Você o quer aqui?!” o chef quase engasgou ao dizer.

“É a nossa melhor chance.” O candelabro insistiu.

“Vocês estão loucos!”

“Ele já está nos observando, Bouche! Não vou tolerar que piore a situação com certas palavras sem querer colaborar! Ele veio para nos amaldiçoar, veio para deixar o amo... deverá vir para nos tirar a maldição!” Madame Samovar dizia alto e por um instante todos pararam para ouvir a discussão.

“Quem lhe garante que ele virá tirar? Estamos presos em latas e mobílias velhas e pode ser para sempre!” Bouche quase babava.

“As coisas estão melhorando.” Lumière tentou. “Minhas juntas estão menos enferrujadas e quase consigo respirar de novo. Ele é nossa única esperança, precisamos atraí-lo!”

“Temos que fazer nosso melhor com o menino...” Horloge também tentou à sua maneira. “Estamos mesmo vendo melhorias rápidas!”

“Nosso melhor? Como ele fez conosco?” chegou a sair fogo das bocas do fogão.

“Não seja ridículo, Bouche! Sabe que fomos nós que atraímos o garoto para dentro e fizemos com que confiasse em nós e no rei! Ele se sentiu usado! E FOI!” Madame de Garderobe desabafava. “Por que acha que fomos transformados em objetos?! Não se faça de burro!”

“Não ouse falar assim, madame!”

“Espero que o menino venha e escolha de quem tirar a maldição! Você não melhorou nada!!” o burburinho voltou intenso até que Fera deu seu rugido. Eu já estava com a mão na boca, atônita, quando ele interveio.

Não fazia ideia do que ele poderia acrescentar naqueles ataques, muito menos como apaziguar. Aquilo era muito pessoal e tive medo que os direcionassem a mim e chegassem, de alguma forma, à conclusão de que eu fazia parte do problema.

Tentei me controlar do susto que levei quando o chef começou a esbravejar o que considerava um absurdo e temi que Fera reagisse. Levei a mão ao peito, tentando controlar a respiração e até um pouco das lágrimas quando o assunto de Gaston veio à tona. Respirava fundo... só conseguia prestar atenção em meus batimentos e olhar para o chão. Então Cadenza manifestou-se de certa maneira querendo poupar-me. Agradeci com um sorriso e uma pequena reverência a que ele correspondeu. Alguns bufaram, tentando relaxar ou, no mínimo, controlar um pouco mais os nervos.

“Acho...” tentava ainda falar sem tremer “...interessante a ideia de tentarmos contatá-lo. Pedir algo a ele para que tenhamos certeza de que o conteúdo dos sonhos é feito por ele... e não apenas algo enrijecido posto em sua mente.” Olhei para Fera. “Se ele responder, sabemos que ele está disponível. A certeza pode nos ajudar.”

“Será que, se tentar conversar com ele...” Madame Samovar comentou saudosa “...ele responderia? Escolheu você por algum motivo, amo... E se conseguir, oh, por favor, diga que sinto muito.” As sobrancelhas dela franziram-se e não pude deixar de corresponder com compaixão, tocando-a. Olhei Fera, comovida, mas dando a entender que eu ainda achava que seria uma boa ideia.

“Isso poderia ser uma fase de teste?” Lumière indagou. “O rapaz gostava muito de fazer isso conosco. A cada coisa que acertávamos, ele nos dava algo de valor.”

“Será que depois de tanto tempo ele faria as mesmas coisas? Já é um homem feito a esta altura...” Madame de Garderobe disse, pensativa.

“Mas pode estar fazendo para ser reconhecido.” Chip comentou e todos viraram-se para ele. Ele riu, meio nervoso, antes de continuar. “Quando eu tinha amigos da minha idade, a gente brincava de adivinhar. E para a pessoa saber o que queríamos dizer, imitávamos um comportamento para o outro reconhecer. Ele pode ser adulto agora... mas pode estar agindo como na época para vocês saberem o que ele quer dizer.” Um grande silêncio se deu. “Falei besteira?”

“Não, querido... de jeito nenhum.” Falei, pensativa. “Faz todo o sentido tudo isso. É justamente o que está acontecendo. Ele manda uma dica, acertamos... há uma recompensa. Madame Samovar! Você parecia ser um pouco mais próxima a ele. Há algo que possa ser uma pista além do que vemos?!”

“Bem... o menino dizia que queria fazer coisas grandes e fazer o que realmente importava. Era muito religioso também... Odiava qualquer coisa que achava contrariar as leis da vida...” ela respondeu.

“E cria objetos falantes!!” Bouche bufou e, vendo que todos o olhavam com cara feia, calou-se de novo, contrariado.

“Continue, madame.” Disse Lumière.

“Dizia-se abençoado com dons e acreditava que um dia serviria a Deus de alguma forma... e uma das últimas coisas que me disse quando saiu era que até pecadores mereciam clemência. E caberia a ele dar lições, mas nunca sentenças! Era papo de menino, não levei a sério... Mas seu fervor me assustava.”

Troquei um olhar preocupado com Fera.

“Bruxos não seriam pessoas que burlam as vontades do divino?” Madame de Garderobe perguntou.

“Não necessariamente. Seu poder vem, de fato, de algum lugar. Mas se ele se considerar um juiz... isso o torna perigoso.” Falei pela primeira vez amedrontada com sua figura.

“Só pode ser isso, não, chérie? Não faria tudo isso se não pensasse poder fazê-lo. Ao mesmo tempo, as recompensas estão vindo e se os pecadores merecem uma segunda chance... ele vai nos soltar, não vai?” Lumière perguntou, um pouco triste.

Segurei a vela correspondente à sua mão direita. “Vai, sim... Ele vai. Estão se saindo muito bem e não sei se estou errada, mas ao meu ver... falta pouco.”

***

[P.O.V. Fera]

Apesar de ainda estar furioso, fui grato a Cadenza por sua interrupção, principalmente quando finalmente observei a expressão de Bela. Notei que alguns objetos concordavam com Bouche, mas não ousavam se manifestar; o chef fora criticado por Garderobe e Samovar, e alguns ainda tinham medo de mim. Fizemos todos um esforço para continuar de maneira melhor.

“Sim, eu... tentarei um contato direto com ele. Se tiver alguma resposta, começamos a fazer mais perguntas.” Respondi. Depois acrescentei, mais baixo: “Também darei seu recado, madame...”

Franzi novamente o cenho quando foi levantada a possibilidade de estarmos passando por testes. Não estava no melhor humor e, mesmo vendo a lógica, achei o jogo um tanto cruel. Mas sabia que não conhecia detalhes suficientes para julgar por mim mesmo. Aquele feiticeiro realmente tinha? Não tive como não girar os olhos e concordar discretamente diante do último comentário de Chef Bouche.

Senti a tensão no olhar de Bela, sem tecer novos comentários. Era muito fácil para mim discordar do comportamento de Hurricane e isso não seria útil, logo agora que poderia ser o porta-voz do Castelo junto a ele. Tentei não deixar vir à tona o sentimento de que, mesmo tendo sido outra vítima – a única que escapou? – aquele jovem ia longe demais ao se atribuir tanta responsabilidade.

A humildade de Lumière ao se referir ao grupo como “pecadores” era ao mesmo tempo comovente e incômoda. Alguém tão animado, com um ego que sempre pareceu tão saudável... senti vontade de fazê-lo resgatar um pouco de seu orgulho e amor-próprio. Novamente, fiquei calado. Seu arrependimento sincero seria mais fácil daquela forma, e o orgulho recai muito facilmente em revolta. Eu não era digno de oferecer aquele conselho.

Com o último comentário de Bela, alguns servos trocaram olhares de esperança, outros, de dúvida. Não havia como saber, para nenhum de nós. Ainda.

“Agora que podem falar livremente, conversem entre si quando sentirem vontade de fazê-lo.” Disse, já mais calmo. “Mas, sobretudo, conversem consigo mesmos. Lembrar o que fizeram de errado e como fariam diferente hoje. Perdoem a si mesmos, porque foi o melhor que podiam fazer na época, sob o medo em que viviam. Precisavam proteger a si mesmos e aqueles que amavam. As vidas de vocês eram... são... preciosas.”

Senti algo estranho ao pronunciar esta frase, ficando confuso por um momento. Tentei continuar rápido para que não estranhassem. “Mesmo que a situação ainda não lhes pareça justa... tentem ao menos pensar naquilo que fariam melhor.”

Queria dizer-lhes que não guardassem de novo, ou por mais tempo, algum amargor pela situação, ainda mais agora, que havia alguma esperança – mesmo não confirmada, mas que não estava lá antes. Porém, precisaria dizer aquilo a mim mesmo primeiro e senti-lo no coração. Em vez disso, completei apenas: “Todos já encontraram, nesses anos, motivos para sorrir. Agora, talvez mais do que nunca. De alguma forma, esse presente tem muitas coisas melhores do que aquele passado. E vocês podem recuperar em breve a parte boa que ele tinha.” Fiz uma pausa. “Se eu tiver qualquer tipo de resposta do feiticeiro, transmito logo a todos. Estão dispensados.”

Comecei a me afastar do lugar, mas pedi que Madame Samovar, Madame de Garderobe, Plumette, Cadenza, Chip, Horloge e Lumière me acompanhassem. Estendi a pata a Bela.

Pedi que o grupo viesse comigo até o grande salão. Lá, respirei fundo, tentando me livrar dos restos da tensão acumulada; senti o corpo duro e dolorido. “Preciso de algo para relaxar...” falei baixo, mais para mim mesmo. Voltei-me para ele, todos os menores juntos sobre o carrinho de chá de Samovar.

“Aquele não era o único aviso que queria dar... mas a atmosfera não ficou mais muito adequada para isso. Por esse motivo, peço a ajuda de vocês para passar a notícia adiante, aos poucos, quando sentirem que alguém está receptivo. Eu... ofereci a Bela um baile para daqui a duas semanas.”

“Eu já sabia!” Horloge fez questão de sublinhar, interrompendo.

“...E gostaria que fizessem os preparativos. Vamos aproveitar a...invasão da primavera para que fique bem bonito.” Completei. Já estava um pouco sem graça e não olhava para a princesa bem ao meu lado, embora tampouco soltasse sua mão.

“Mas que esplêndida ideia!” Lumière exclamou, sempre fácil de ‘reacender sua luz’.

“Ora... não estou tão surpresa assim.” Madame Samovar tinha uma expressão risonha e esperta. “Acho que estamos vendo alguma coisa acontecer.”

Mesmo não tendo certeza se entendi a insinuação – ou me obrigando a não entender – senti as orelhas formigarem de vermelhas.

“Não se preocupem, cuidaremos de tudo.” Cadenza assegurou, solícito. Os demais concordaram, já confabulando no carrinho. Discretamente, toquei o cravo e a moça-armário para que não fossem.

“Estive pensando... e gostaria de lhes propor que ficassem aqui, neste salão. Os dois. Ele é no térreo, onde fazemos várias coisas, no salão de jantar, na cozinha... Há também a ampla varando em torno da porta principal, que dá sobre o jardim. Acredito que teriam mais liberdade.” Comecei. “Também poderiam praticar música juntos. Madame, a sua voz é boa demais para ser desperdiçada! E a acústica daqui não deixa a desejar à sala de música...”

“Mas, e nossa princesa?” Garderobe perguntou, indecisa.

“Tenho certeza de que ela compreende e gostaria de vê-la feliz.” Sorri para Bela. “Encontrarei um móvel para o quarto, o melhor que puder, mesmo que nenhum possa realmente substituí-la! E como ela vive mais aqui embaixo do que no quarto, a amizade de vocês em nada esfriará.”

Cadenza olhou para mim com uma expressão de gratidão. “Acho que ficarei feliz em aceitar, se a Madame também estiver de acordo.”

Mordendo o lábio, a moça-armário concordou.

“Então, estamos acertados. Vou pedir às moças que ajudem a tirar as peças de Bela para guardá-las no móvel assim que ele for decidido. Se a Madame aceitar uma nova função, guardando as toalhas de festa, os metros de linho bordado, a prataria, os guardanapos... Também vou pedir a ajuda de Chevet para descermos todas as suas partituras.” Disse a Cadenza.

“Muito obrigado, senhor.” Ele disse, e foi todo o necessário.

“Vamos escolher o que precisa...” disse a Bela, conduzindo-a até a porta. Quando passamos por ela e a fechei, parei um instante e soltei um suspiro no corredor.

“Eu... sinto muito que tenha visto aquilo. Mas agradeço que tenha estado lá. Foi uma ajuda fundamental.” Apertei de leve sua mão, enquanto falava. Depois, levei-a para os outros quartos de hóspedes, onde havia mais mobília disponível, para que escolhesse seu novo guarda-roupa. Imaginei que entenderia por que não ofereci o meu próprio, apesar de enorme: era muito escuro, e estava todo marcado de momentos ruins.

“Vamos olhar todas as opções primeiro. Se quiser mais de uma, basta dizer.” Disse-lhe, querendo ser prestativo. Depois de alguns minutos, não consegui evitar de lhe fazer a pergunta. “Acha que... fiz o melhor que poderia fazer ou... deveria ter feito diferente lá na cozinha?” estava um pouco consternado. “Acho que vou comer coisas queimadas por uma semana...” acrescentei, querendo reduzir o peso do assunto.

***

[P.O.V. Bela]

Segui calada quando os anúncios de Fera voltaram. Eu conseguia perceber o quanto se esforçava para controlar os nervos e foquei na alegria que senti com seu progresso. Tive vontade de tocar sua pata e demonstrar algum carinho, mas aquele não era o momento, então mantive a expressão como pude, sem conseguir apenas permanecer otimista. Olhava para o chão mexendo no vestido com algumas falas.

Demorei alguns segundos para perceber sua mão-pata estendida, mas assim que aconteceu, pus-me de pé em um instante, seguindo-o para onde queria, enlaçando seu braço nos meus junto aos objetos intimados.

Apenas sorri com doçura quando o baile foi anunciado. Quis perguntar como Horloge já poderia saber. Andava nos observando mais do que notávamos? Não comentei. Percebia estar até muito quieta nos últimos minutos. Estava bastante pensativa. Apertava um pouco o vestido, feliz por todos ficarem animados com a ideia, já borbulhando de vontade de começar... e por Fera não soltar minha mão. Troquei um olhar amoroso com madame após alegar “ver alguma coisa acontecer”. Se estava comentando assim tão claramente, não era apenas ilusão minha. Voltaram logo para o carrinho e dei um tchauzinho amigável.

Quando conversou com Madame de Garderobe, até ri levemente por preocupar-se comigo. Mesmo com ele respondendo por mim, fui até ela e estiquei-me para falar em seu ouvido. Ela debruçou-se de sua forma engraçada para escutar.

“Até porque eu estou tentando conquistar seu mestre... se eu vier a conseguir que viremos um casal... todo mundo fica feliz!”

“Oh, oh! Claro!!” ela riu, cúmplice, meio vermelha. “Com certeza, princesa. Agradeço muito, amo.” Ela sorriu a Fera. Despedimo-nos e eles ficaram conversando sobre tudo o que poderiam fazer a partir de então, com um amo mais atencioso. Apenas retirei a atenção da felicidade dos dois quando ouvi o suspiro de Fera.

Sorri-lhe, pondo as duas mãos em sua pata ao virar-me de frente para ele. “Você foi perfeito... Achei justo e comedido. Quis explodir algumas vezes, mas não o fez. Com certeza todos notaram que o único disposto a ser monstro hoje foi o próprio Chef Bouche. Está construindo um presente cada vez melhor... Tenho certeza de que o feiticeiro recompensará esse esforço.” Apertei-lhe a pata carinhosa, antes de irmos para os cômodos cheios de móveis diferentes e ri de seu comentário sobre comidas queimadas.

“Duvido muito que Madame Samovar deixaria isso acontecer.” Já olhava cada armário com atenção e alguns eram simplesmente esplêndidos, porém, acabei por escolher um meio parecido com a madame-armário. Um pouco menor, mas ainda branco e dourado em seus detalhes, a madeira de dentro bem clara. Gostei também de algumas coisas... as caixinhas e enfeites, desejando levar para o quarto e tirar um pouco de seu vazio.

Demorei, aparentemente, mais tempo do que imaginava por ali entre as madeiras antigas e as conversas com o senhor do castelo, pois fomos chamados para o jantar. Quando cheguei novamente no quarto, todas as minhas coisas estavam depositadas na cama e as meninas esperavam junto a Plumette para arrumarem o móvel que eu havia escolhido.

A peça foi trazida por Fera e Chevet com não muita dificuldade. Pedi delicadamente a elas que deixassem tudo na cama, já que eu desejava ter um momento comigo mesma arrumando. Insistiram algumas vezes, mas no fim permitiram. Seria bom para mim fazer algo por mim mesma depois de tanto tempo.

A noite alta já se mostrava na janela quando ficamos mais uma vez eu e Fera a sós no quarto. Agradeci a gentileza de me trazer aquele objeto pesado, respirando fundo tranquila enquanto ele já se encaminhava para a saída.

“Será uma novidade e tanto precisar de um despertador novo...” comentei com doçura e ele já sabia que eu não dormiria tão cedo me divertindo ao escolher os novos lugares das coisas. Levei-o à porta com um sorriso e um beijo na bochecha rápido. “Boa noite e até amanhã!”

***

[P.O.V. Fera]

Foi gratificante saber que Bela valorizava meu esforço para manter o controle naquela situação difícil. Mesmo sem garantia de conseguir fazê-lo sempre, era sem dúvida um incentivo para continuar tentando. Acompanhei-a na escolha dos móveis um pouco mais contente comigo mesmo.

Foi minha vez de ficar um pouco mais silencioso, olhando enquanto fazia suas escolhas. Ajudei-a a subir com os objetos menores até o quarto, antes de retornar para buscar o armário. Foi quando tive uma grata surpresa: o armário era encantado, mas só reagia se fosse ordenado a isso. Fiz a descoberta por acaso, quando murmurei mais para mim mesmo: “Vamos fazer isso... Como te levar do jeito mais fácil?”. O armário dirigiu-se para a porta. Testei outras ordens, também atendidas, e só precisei intervir no momento dos degraus. Chevet me abriu e fechou as portas.

Quando Bela me agradeceu, disse-lhe a verdade. “Não posso me exibir quanto a isso. Espero que ele lhe seja perfeito. E posso pedir que venha alguém acordá-la com mais delicadeza, à hora que quiser.”

Fiquei um tanto surpreso com sua despedida, inconsciente da hora tardia. “Boa noite. Até amanhã.” Beijei-lhe o alto da cabeça, com o focinho. Fui para o quarto, de onde não mais saí, preferindo ler e pensar.

De repente, senti algo como uma onda a percorrer o quarto e o Castelo, o que costumava acontecer quando uma nova pétala da Rosa caía. Mas isso não se deu apenas uma, mas várias vezes, o que me fez levantar às pressas para vê-la.

Cheguei a tempo de ver as últimas pétalas tocarem a superfície da mesa já murchas. Notei que várias haviam caído de uma vez, deixando a flor com uma aparência muito mais frágil do que antes. Aquilo nunca havia acontecido... e encarei, confuso, a proteção de cristal, tentando entender seu possível significado. O dia era muito excepcional para ser apenas uma coincidência. Poderia ser algum tipo de sinal positivo?

A ocorrência com a Rosa do feiticeiro me fez questionar se ele estaria por perto e seria o responsável. Como um tolo, olhei ao redor, sem nada encontrar. Fui até a varanda, inspecionando os arredores e o jardim, quase indecifrável na escuridão da noite. Mais uma vez, não avistei nada.

“Eu... não sei se pode me ouvir. Ou se estou apenas fazendo papel de bobo.” Comecei a falar em voz alta, apoiado no parapeito da varanda. “Mas é um motivo bom o bastante para arriscar. Se está mesmo nos vendo, sabe que todos estão dando o melhor de si. Acredito que não repetiriam os erros de antes, mesmo que estivessem sob o comando de outro tirano. Mesmo quando... não fui um amo louvável, mantiveram sua boa postura.” Baixei os olhos, involuntariamente.

“Confio no arrependimento deles. E cumpro a promessa que fiz a Madame Samovar de lhe transmitir seu arrependimento. Ela nem mesmo pediu que a compreendesse ou a perdoasse. Só queria que soubesse que ela entendeu e não consegue se esquecer. E que quer seu bem.”

Sentei-me no chão, olhando às vezes para o céu, às vezes para a silhueta negra das árvores enquanto continuava a falar. “Sinceramente, não sei se concordo com seus métodos. Mas sei que não posso julgar, minha ignorância e meu esquecimento não me permitem. Talvez eu ache injusto que precisemos fazer coisas que não sabemos o que são. Só você conhece as regras do jogo. Mesmo assim, eles têm insistido... Bela tem ajudado... e se posso ser útil recebendo esses sonhos e mantendo alguma forma de contato, peço que continuem. Por eles. E se estiver me ouvindo de alguma forma, peço que envie apenas um sinal. Se puder nos dar respostas, para sanar as angústias de todos. Ou dizer o que há com a Rosa. Alguma coisa.” Suspirei.

Fiquei um momento em silêncio. Nada aconteceu, mas tampouco esperava que realmente acontecesse. Acabei por me levantar, dando as costas para retornar ao quarto. Ouvi então um farfalhar de asas e o grasnido de um corvo. Virei-me bruscamente, em alerta, sem identificar a origem do som.