Kagome sentia uma mistura de agitação e tristeza. Uma semana depois do casamento, ela e Inuyasha estavam prontos para partir. Começavam juntos uma nova vida. Infelizmente, também deixava para trás tudo que amava e conhecia. Sabia que a família estaria sempre ali, mas tudo mudaria definitivamente. Era necessário. Agora seu mundo era o mundo de Inuyasha.

Quando o pai a abraçou para despedir-se, ela viu o brilho das lágrimas nos olhos dele. Vira esse mesmo brilho nos olhos dos irmãos, e a mãe chorava copiosamente. Temendo sucumbir ás lágrimas, Kagome subiu na carruagem para se unir a Sango e Kanna. As lágrimas distorceram a imagem do castelo desaparecendo ao longe. Era impossível contê-las.

O destino agora era Saitun Manor. Estava ansiosa para conhecer o lugar. Assim que tudo fosse posto em ordem ali, eles seguiriam para a pequena propriedade que ela herdara com o casamento. Era difícil não se agitar com a viagem. Viajara muito pouco na vida, e nunca para tão longe. Também era difícil não sentir um certo receio.

Olhando para os vinte homens que os acompanhavam na jornada, ela disse a si mesma que o medo era tolo. Inuyasha e Miroku eram lutadores endurecidos, bem como os outros doze homens a serviço de seu marido, muitos deles consagrados cavaleiros no campo de batalha. Seu pai cedera seis homens para o pequeno batalhão, todos guerreiros fortes e corajosos. Nenhum deles escondera a alegria por poder cavalgar ao lado do renomado Diabo Branco. Ela sabia que não precisava ter medo.

O pouco que conseguira descobrir havia confirmado tudo que Kanna tinha dito sobre Inuyasha e seus homens. Muitos eram filhos ilegítimos de nobres, como eram também os pajens e escudeiros que os serviam. De fato, muitos pajens eram meio-irmãos dos homens a quem serviam.

Um deles despertou seu interesse. Ele tinha cabelos brancos como a neve, e Kagome decidiu que faria com que o marido sobre o menino assim que tivesse uma oportunidade. O ciúme quase a dominara quando vira o garoto pela primeira vez, mas ela tratou de se conter. Ele devia ter oito ou nove anos. Kagome era uma criança quando de seu nascimento. Mesmo assim, descobriria a verdade. Só não sabia como reagiria se suas suspeitas se confirmassem.

Miroku a viu observando o menino novamente.

-# E melhor contar a ela – ele sugeriu em voz baixa a Inuyasha.

Inuyasha olhou para a esposa e suspirou.

-# Sim. Sabia que Kagome não seria reticente, por isso fiz a escolha mais covarde. Decidi esperar que ela perguntasse sobre Bek. A história é sórdida. Não tenho muita vontade de repeti-la. Especialmente para ela.

-# Ela é uma das poucas pessoas que tem o direito de saber. Porém, entendo sua relutância. A inocência de Kagome é admirável. Até sango e a criada exibem essa mesma doçura. É como se vivessem em um mundo diferente do nosso.

-#Lorde John fez de sua casa um mundo único. Quem pode culpá-lo? Há muita escuridão no mundo. Seu povo segue o que ele determina. É uma gente boa e simples que acredita que as regras foram feitas para serem cumpridas. Ele trata seu povo com bondade e compreensão, e eles pagam por esse tratamento com uma lealdade inabalável. É um exemplo claro de como a vida pode ser..... mais raramente é. Infelizmente.

-# Eu confesso que teria apreciado um ambiente menos correto. Senti falta das criadas que conheci em outras propriedades. Até os filhos dele têm de ir à cidade para se deitarem com uma mulher. — Inuyasha e Miroku riram. — Mas entendo o lado positivo disso tudo.

-# Como assim?

-#Não há nenhuma possibilidade de uma criada se colocar acima da esposa, de pensar que é melhor do que ela. A senhora do lugar não precisa lidar com situações delicadas dessa natureza.

-# Sim. — Inuyasha franziu a testa. — Talvez eu tenha de limpar minha propriedade.

-#As mulheres cuidarão disso. Não tema.

Quando pararam para dormir, o entusiasmo de Kagome pela viagem havia diminuído muito. Era tudo tão tedioso e sujo! Assim que a tenda de Inuyasha foi armada, ela pediu água e o menino chamado Bek atendeu à solicitação, obrigando-a a lembrar de algo que se esforçava para esquecer. Ela viu o garoto de cabelos brancos se afastar, depois entrou na tenda.

Sango balançou a cabeça.

-# Por que hesita em interrogá-lo sobre o menino?

-# Porque essa é uma questão difícil.

-# Nunca a vi tão hesitante antes.

-#Ah, Sango talvez eu tenha medo do que vou ouvir.

-# Melhor saber a verdade, milady – Kanna disse enquanto ajudava sua senhora com a água.

-# Por que diz isso? Todos afirmam que uma esposa é mais feliz quando se mantém ignorante.

-# Bobagem. E se a mulher ainda for viva? E se for uma fina dama? Pode encontrá-la em algum momento. E se souber toda a história por terceiros, por alguém que possa envenenar o relato a seu coração? Não, é melhor saber tudo, milady, poque assim evitará surpresas no futuro. E.... — Kanna respirou fundo. — É melhor saber se esse é um amor do passado ou uma rival a ser combatida.

Era justamente isso que kagome mais temia.

-# Tudo que diz e verdade, Kanna. Só preciso encontrar coragem para interrogá-lo.

-# Venha – Sango tocou seu braço num gesto de compreensão e solidariedade — , vamos até a área que cerca o acampamento. Vi algumas flores espalhadas pelo bosque. Traremos algumas para amenizar o cheiro dos cavalos e dos homens suados. |Colher flores vai acalmá-la.

Antes que Kagome pudesse protestar, Kanna as conduziu até a saída da tenda. Os homens davam pouca atenção a elas, e as duas atravessaram o acampamento sem que ninguém as detivesse. Sem pressa, caminharam pelo bosque tomando o cuidado de não se afastarem muito da área, mantendo-se perto o bastante para ouvirem os homens trabalhando no acampamento. Kagome logo se sentiu mais calma cercada pelo silêncio. Ela sorriu agradecida para Sango, que colhia flores.

Quando se preparavam para voltar ao acampamento, Kagome viu um campo particularmente colorido e perfumado. Ela se abaixou para colher as flores, atrasando-se vários passos atrás de Sango. Ao se levantar, viu-se diante de um homem armado.

Por um instante, o choque a paralisou. Olhou em volta, e viu que outros homens surgiam de trás das árvores frondosas, puxando seus cavalos. Era um ataque. Ela se abaixou quando o homem na sua frente tentou agarrá-la, esquivando-se com sucesso.

-# Corra, Sango – Kagome gritou, tentando chegar ao acampamento.

Sango hesitou apenas um segundo, olhando para trás para ver o que acontecia, mas obedeceu à ordem da prima e também correu para o acampamento.

-# Alerte-os, Sango – Kagome gritou enquanto corria, sentindo que o homem se aproximava.

-# Armas! Ataquem! Armas! — Sango berrava.

Os homens no bosque montaram em seus cavalos, privados do elemento-surpresa que tanto os teria beneficiado.

Inuyasha ouviu os gritos de Sango e ficou tenso. As palavras não eram claras, mas o significado era óbvio. Embora os homens já se armassem, Inuyasha vociferava suas ordens. Aflita, Kanna se aproximou dele.

-# Elas foram sozinhas para a floresta?

-# Sim, meu senhor. — Ela recuou ao ver a fúria nos olhos do novo senhor. — :Foram colher flores.

Inuyasha correu na direção das árvores no mesmo instante em que Sango surgia do meio delas.

-# Onde está Kagome?

-# Bem atrás de mim – ela respondeu sem interromper a fuga alucinada.

Na entrada do bosque, Inuyasha lutou contra o pânico que ameaçava dominá-lo.

-#Kagome!

-#Aqui, Inuyasha – ela respondeu surgindo por entre as árvores.

Olhar para o rosto do marido renovou suas forças, e ela passou por ele com a velocidade do vento, seguindo para a tenda sem argumentar ou fazer perguntas, limitando-se a acatar a ordem dada por um sinal silencioso. A fúria de Inuyasha era quase tangível. Ela ouviu o grito de seu de seu perseguidor, mas não parou para olhar para trás. Sabia que a cena era sangrenta. Na tenda, Kanna e Sango já esperavam por ela. Juntas, assistiram à batalha com um misto de horror e fascinação.

Kagome não sentia medo. Não muito. Não podia imaginar que seu marido, tão grande, forte e habilidoso, seria derrotado. Não dessa vez. Ela tentou acalmar as companheiras, argumentando que estavam protegidas pelo grupo de pajens e escudeiros reunidos diante da tenda. Entendia a preocupação de todos e admirava a coragem dos meninos, que se colocavam diante da tenda com a nítida intenção de proteger a nova senhora. Porém, não acreditava que esse inimigo em particular pudesse passar por Inuyasha e seus homens.

Passos atrás dela atraíram-lhe a atenção, e ela se virou apavorada. Um homem conseguira contornar o acampamento e invadi-lo pela parte de trás, e agora caminhava em sua direção. Kagome empurrou Sango e Kanna para fora da tenda, para longe do perigo imediato. Assustadas, as duas mulheres tropeçaram nos garotos. Antes que alguém pudesse vir em socorro, Kagome foi agarrada pelo invasor.

Apesar da luta desesperada, ele a levou para fora da tenda, colocando-a na frente do próprio corpo. Mesmo aterrorizada, ela ficou emocionada com ação dos pajens. Rápidos, eles cercaram as mulheres e, empunhando espadas, não fizeram nenhum movimento por medo de que ela sofresse as conseqüências.

Kagome já havia compreendido que não seria morta, mas aprisionada. Seria refém. O medo deu lugar à fúria, e ela lutou com vigor renovado. Os movimentos não serviram para libertá-la, mas obrigaram ao atacante a recuar desequilibrado. Ele ainda praguejava quando Kagome sentiu uma forte dor na cabeça. Depois mergulhou na escuridão.

Removendo a espada de outro corpo, Inuyasha parou para olhar para a tenda. Um grito agudo acoara no refúgio das mulheres, um grito que o encheu de apreensão. Ainda estava olhando na mesma direção quando um homem segurando Kagome a atingiu na cabeça com o cabo da espada. Um uivo furioso brotou brotou de seu peito quando ela caiu inconsciente. Sem pensar na própria retaguarda, Inuayasha correu para Kagome. A batalha chegava ao fim. Miroku corria atrás dele com a intenção de protegê-lo, tendo se sertificado de que nenhum dos atacantes em fuga tirava proveito do momento de desatenção de Inuysha. O homem que havia capturado Kagome empalideceu ao vê-lo correndo em sua direção. Sango, Kanna e os pajens também estavam muito pálidos. Qualquer pessoa normal ficaria apavorada com o avanço furioso. Mas, aliviado, Miroku viu Inuysha conter o impulso assassino.

Ele recuperou a sanidade a tempo de deter-se antes de atacar o homem que segurava Kagome. O desconhecido a mantinha diante do corpo, e foi justamente a visão da esposa desfalecida e indefesa que o fez parar. Inuyasha encarou o rival, a espada pronta para o ataque, o instinto clamava para que ele enterrasse a lâmina naquele que ousara ameaçar sua esposa.

-#Cuidado – Bek murmurou, reconhecendo a fúria que distorcia os traços do pai. — Ele fez da senhora um escudo.

-#Sim, eu sei. O covarde se esconde atrás de uma saia. Venha me enfrentar como um homem, verme rastejante.

-#Desejo me render. O homem olhou para Miroku. — Desejo me render.

Miroku segurou o braço de Inuyasha para impedir movimentos impetuosos e ordenou:

-#Jogue a espada para longe.

Depois de uma breve hesitação, ainda mantendo Kagome como refém, o homem atirou a espada aos pés de Inuyasha, que tremia sobre o forte impulso de matar, mas deixou Miroku recolher a arma e se aproximar do atacante. Sem dizer nada, Inuyasha embainhou a espada e tirou a esposa dos braços do trêmulo desconhecido. Ele a levou para sua tenda. Ainda a estava deitando sobre a cama, quando Sango e Kanna entraram correndo.

Olhando para Kagome, Kanna anunciou:

-#Vamos cuidar dos ferimentos, milorde. Foi só um golpe na cabeça.

-#Tem certeza?

-#Sim, milorde. Vê? Ela já começa a despertar. Podemos cuidar dela.

Inuyasha olhou para kagome por um momento, lutando contra o pânico diante se dua imobilidade e palidez. Kanna estava certa. Kagome já se mexia e tinha a testa franzida como se os pensamentos despertassem. Virando-se repentinamente, ele saiu da tenda e quase derrubou Miroku, que o esperava na porta.

-#Quantos perdemos? — ele perguntou, caminhando para o único prisioneiro.

-#Dois estão mortos. Três sofreram ferimentos, mas nada muito grave. Foi tolice das mulheres se afastarem daquela maneira, mas seus gritos nos salvaram. — Eles pararam diante do prisioneiro, e Miroku murmurou: — Não vai descobrir nada se matar esse homem.

-#Não vou matá-lo. — Inuyasha olhou para o homem assustado. — Seu nome?

-# Hiten Black, milorde.

-#Quem o mandou aqui, Hiten Black? — Ao perceber a hesitação antes da resposta, Inuyasha praguejou. — Vou arrancar a pele de seus ossos. Tira por tira.....

-#Fomos contratados por seu primo, milorde.

-#Hojo Taisho?

-#Sim, embora tenhamos recebido as ordens do tio dele.

Agarrando o homem pela frente da camisa, Inuyasha ordenou:

-#Você vai procurar meu querido primo Hojo e aquele cachorro vadio que o comanda. Vai aconselhá-los a desaparecer antes que eu os encontre. Não quero matar meus parentes, mas por Deus, não hesitarei em tirar a vida daqueles dois vermes, caso os veja ou sinta o cheiro deles. — Ele jogou o homem para o lado. — Cortem três dedos da mão que ele usa para empunhar a espada – ordenou aos homens que guardavam o prisioneiro — , depois mandem-no embora.

Inuysha caminhou para os barris de água, cerrando a mente para as súplicas do atacante e para seus gritos de pavor e dor quando a ordem foi cumprida.

-#A senhora? — Bek se apressou em providenciar um balde de água para o pai.

-#Kanna garantiu que ela só sofreu um golpe na cabeça.

Miroku sorriu agradecido quando Bek providenciou água para ele também.

-# Por isso sua punição foi tão branda? — ele perguntou.

-#Não. — Inuyasha suspirou enquanto o menino o ajudava a despir a metade superior do corpo. — O homem só cumpriu ordens. Ficou claro que ele controlou a própria força quando agrediu Kagome. Ele só queria contê-la. Compreendi tudo isso quando superei a cegueira da fúria.

Com a ajuda de Bek, Miroku também desnudou o tronco.

-#Acha que foi sensato prevenir Hojo ou seu tio?

Inuyasha deu os ombros e começou a se lavar.

-#Quem sabe? Acredito que esse ataque foi impensado e precipitado. Hojo queria Kagome. Vi a expressão dele quando fui nomeado noivo. Alem do mais, ele é meu único parente além de bek. Não quero matá-lo. O tio dele está por trás disso. Ele quer Hojo como herdeiro dos bens e deve estar disposto a tudo para isso. Temos de nos manter vigilantes. Não quero que a história de minha morte seja verdadeira na próxima vez em que for contada.

-#Especialmente quando há tantas razões para viver – Miroku murmurou, olhando para tenda de Inuyasha.

-#Sim. — Ele olhou na mesma direção enquanto se enxugava.

-#Foi ela quem viu o homem entrando na tenda – relatou Bek. — E empurrou as duas damas para fora, garantindo sua segurança.

-#E foi capturada – resmungou Inuyasha.

-#Quando gritar com ela procure não exagerar.

-#O que está dizendo?

-#Bem, a cabeça dela vai doer por um tempo.

Depois de olhar para o filho por um momento, Inuyasha sorriu.

-#Um cavalheiro não grita com uma dama.

Bek retribuiu o sorriso do pai antes de dizer com entusiasmo infantil:

-#Viu como correram?

-#Sim, os miseráveis foram rápidos na fuga – concordou Miroku.

-#Não me refiro aos homens, sir Miroku. Falo das damas. — Ele sorriu quando os adultos riram. — Nunca pensei que as mulheres pudessem correr tanto. Aposto que elas são mais rápidas que alguns do nosso grupo.

-#Sim elas são velozes. E isso me dá uma idéia. Talvez – Inuyasha continuou rindo — , possamos colocá-las para disputar corridas e ganhar algum dinheiro para nós. — A expressão chocada do filho o fez gargalhar. — É só uma piada, menino. Agora vá providenciar uma refeição para nós. Comerei enquanto cuido de Kagome. Acabei de ver Kanna indo buscar comida. Kagome deve ter despertado.

Enquanto Bek corria a obedecer, Inuyasha foi cuidar de uma tarefa pessoal. Precisava providenciar uma mortalha para os dois mortos. Assim que passassem por uma igreja, cuidaria do enterro em solo sagrado. Lamentava as duas mortes, mas estava aliviado por nenhum deles ser próximo ou ter passado muito tempo em sua companhia. Depois de trocar algumas palavras com os feridos, assegurando-se de que nenhum deles corriam riscos, ele se sentou com Miroku para comer.

Houve um silêncio prolongado antes de Miroku murmurar.

-#Está muito pensativo, amigo.

-#É só efeito da batalha. A calmaria que segue a tempestade. — Podia ver a dúvida no rosto de Miroku. — Como um homem pode evitar que seu coração derreta por uma bela mulher?

-#Não pode. Não se tiver de ser assim.

-# O que tinha de ser era Kagome e Sesshomaru se casarem.

-# Talvez não. Quem sabe como operam Deus e o destino?

-# Não nós, pobres mortais, isso é certo.

-# Eu não me deixaria importunar por isso. Viva esse momento. Apesar de toda a dor que esse sentimento pode causar, não existe nada que possa superá-lo.

-# Fala como se tivesse experiência.

Inuyasha não se lembrava de Miroku ter mencionado problemas semelhantes antes.

-#Sim, é verdade. Foi há muitos anos. Não havia esperança para aquele amor, porque eu era um cavaleiro destituído e pobre, como ainda sou. Mesmo tendo sido breve, foi glorioso.

-# E com isso você não aprendeu nada sobre como conter esses sentimentos?

-# Não quero aprender essa lição. O que aprendi foi perceber quando ele pode trazer alegria ou tristeza. E assim incentivar as possíveis ocorrências felizes. — Ele respirou fundo, sabendo que as palavras seguintes tocariam um ponto sensível. — Eu sabia que meu amor seria infrutífero naquelas circunstâncias, e ainda assim o ofertei. A dama não fez falsas promessas, sempre disse a verdade. Quando o pouco que tínhamos chegou ao fim, a dor foi compartilhada. Ela nunca me tratou com desdém. Seu coração não era escravo, como o meu, mas ela nunca me desprezou por isso. Nunca zombou dos meus sentimentos.

-#E aí está a diferença – Inuyasha murmurou.

Miroku assentiu.

-#Sim, aí está a diferença. Talvez possa pensar um pouco sobre isso.

Prometendo a si mesmo que pensaria, Inuyasha se retirou para sua tenda e dispensou Sango e Kanna. Por um tempo pensou que Kagome estivesse dormindo, até surpreendê-la olhando para ele. Como um criança, ela tentava se esconder fechando os olhos para evitar sua ira, uma raiva que ele já não sentia mais. Inuyasha apagou a vela, despiu-se, deitou-se e tomou o corpo tenso em seus braços.

-# Como está a cabeça? — perguntou, beijando-a na testa para ajudá-la a relaxar.

Kagome soube que ele não estava mais furioso. Sentia-se covarde por ter fingido dormir para evitar a raiva que o marido tinha todo direito de sentir, mas não se sentia preparado para o confronto. No fundo, sabia que as palavras cortantes de Inuyasha poderiam fazê-la sangrar.

-# Doí um pouco, mas não muito. — Ela o enlaçou pela cintura.

-# Foi tolice sair por aí sozinha.

-# Eu não estava sozinha.

Ele riu.

-# Kagome, isso é um sermão. Fique quieta e escute com atenção.

-# Sim, meu marido.

Ele ignorou o toque de impertinência.

-# Foi tolice deixar a segurança do acampamento. Nunca mais se afaste do grupo sem antes me dizer aonde vai e por quê. Sei que esperava me ver furioso, e eu estaria, se não tivesse me mantido afastado até meu sangue esfriar. Felizmente, você não sofreu ferimentos graves, e o aviso que me deu salvou meus homens. Um ataque-surpresa como esse teria acarretado um massacre. O nosso. Em vez disso, perdi apenas dois homens. Afinal, por que deixou o acampamento?

-# Queria colher flores para perfumar esse ambiente.

-# Na próxima vez que quiser flores, avise-me. Mandarei um homem armado para escoltá-la. Talvez dois.

-# Eles não vão gostar muito.

-# Mas farão o que eu mandar mesmo assim. Entendeu?

Ela assentiu.

-# O que aconteceu com o homem que me fez refém?

-# Perdeu três dedos da mão que usava para segurar a espada. E foi mandado de volta ao seu mestre com um aviso.

Kagome sabia que a punição era misericordiosa, comparada ao que muitos outros haviam enfrentado.

-# E quem é esse mestre?

-# Meu primo Hojo.

-# Hojo? — Ela balançou a cabeça surpresa. — Tem certeza?

-# Sim. Esse foi o nome sob o qual o ataque foi perpetrado. Porém, foi o tio dele quem planejou e comandou tudo. Deve saber disso.

-# Sim. E Hojo aceitou as ordens, mesmo não concordando com elas. É sempre assim. Mas por quê? Por que fazer tal coisa?

-# Ele quer tudo. Minhas propriedades, minha fortuna. Tudo pertenceria legalmente a Hojo, mas o tio dele comandaria os bens. Além do mais, Hojo queria você. Não – ele murmurou ao perceber que Kagome pretendia protestar. — Ele queria e ainda quer. E agora sei que esse não teria sido um casamento seguro para você.

-# Como assim?

-# Você poderia ter feito de Hojo um homem.

Ela assentiu, indicando que compreendia.

-# Se Hojo se fortalecesse, se assumisse mais responsabilidades, então ele poderia se tornar um ameaça para o tio. E aquele homem não toleraria uma ameaça.

-#Não, ele cuidaria de remover rapidamente uma ameaça como essa.

-# O que pretende fazer a respeito disso?

-# Já mandei aquele homem de volta para Hojo e seu Tio. Agora eles saberão que o plano falhou, que tenho consciência de seus esquemas. Mandarei avisá-los de que seria sensato desaparecer. Será meu único aviso.

-# Acha mesmo que eles farão como ordena?

-# Espero que sim. Não gostaria de matar alguém do meu próprio sangue.

-# É triste quando familiares brigam entre si. Acontecia muito na família de meu pai.

-# É difícil acreditar. Sua família é tão unida, tão amorosa. Qualquer um vê.

-# Meu pai aprendeu com os erros que testemunhou enquanto crescia, Inuyasha. Ele viu um marido virar a própria esposa contra ele. Viu como, em sua dor, ela jogou os próprios filhos contra o pai. Viu como bastardos, reconhecidos e criados com conforto, mas sem amor, tornaram-se amargos e gananciosos, passando a cobiçar o que lhes fora negado. Enquanto crescia, ele viu pessoas, que deviam ter permanecido unidas por laços de amor e confiança, se afastarem uma das outras. Essas pessoas tramaram, brigaram e mataram até restarem apenas meu pai e o irmão dele. Ele e emeu tio juraram que nunca deixariam esse veneno tocar-lhes o coração. — Ela balançou a cabeça. — Mas minha tia ainda tenta.

-# Por causa de Sango?

-# Sim. Minha tia tem ciúme de um erro que meu tio cometeu quando ainda era solteiro, embora eu deteste pensar em Sango nesses termos. Por causa desse ciúme, minha tia tenta envenenar a família contra o marido. Ela tenta, mas não consegue.

-# Tem certeza disso?

-#Absoluta. Logo os meninos irão para outras casas, e as meninas também. Meu tio vai mandar os filhos para a casa de meus pais. Sango está aqui comigo, como sempre foi planejado. As duas casas se unirão ainda mais. Se algum veneno for instilado, será expelido e anulado.

Inuyasha a ouvia com atenção, compreendendo que aquela era uma boa hora para falar sobre Bek. A conversa sobre Sango a fizera relaxar. Mesmo assim, ele não sabia como começar. Não estava preocupado com a possibilidade de Kagome não aceitar Bek, porque isso seria resolvido. Era a história que teria de repetir que o perturbava. Era sórdida e o fazia parecer um grande idiota. Além do quê, nenhuma esposa ficaria contente ouvindo o marido falar sobre seu amor por outra, mesmo que a mulher em questão estivesse fora de sua vida ou morta. Mesmo assim, ele engoliu todos os receios e começou a contar.

-# Falando em erros de solteiros.... — disse hesitante.

Kagome lutou contra a tensão. Não queria que nada o impedisse de falar o que ele estava prestes a relatar. Ela esperou em silêncio, orando para não sair muito magoada desse momento de revelação.

-#Preciso falar agora – Inuyasha anunciou agitado. — É mais fácil falar sobre certas coisas no escuro.

-# A sensação de estar exposto é menor.

-# Sim, é isso. Kagome, Bek é meu filho.

-# Eu já suspeitava disso. — Ela afagou os cabelos do marido. — Essa coloração é rara.

-# O que vai ouvir agora é uma confidência.

-# Não contarei nada a ninguém – ela prometeu — , exceto, talvez, Sango. E Kanna.

-# A mãe dele era Lady Kikyou Sevilliers. Seu sobrenome de nascimento era Kimura.

-# Não conheço nenhuma dessas famílias.

-# Mas vai conhecer as duas, se formos chamados à corte. Onde a corte está, lá está lady Kikyou.

-# Ela e muito bonita?

-# Sim, muito. Cabelos de ébano, pele de marfim, olhos verdes, curvas suaves. Eu era muito jovem quando a conheci. Tinha apenas vinte e um anos. Aos dezesseis, ela já dominava as técnicas de flerte empregadas na corte, e sua virtude não passava de uma recordação. Mas eu não era apenas jovem. Era tolo também. Acreditei na inocência daquela mulher e decidi que ela era dominada e usada pelo estilo corrupto e pecaminoso da corte. Tornei-me seu amante.

Um lampejo de dor a tomou de assalto. Kagome disse a si mesma que era apenas uma menina de oito anos nesse tempo. A dor desapareceu.

-# Ela correspondia a todos os meus juramentos de amor. — Inuyasha balançou a cabeça. — E me fez crer que havia uma chance de nos casarmos, embora eu fosse só um cavaleiro sem terra. Vendi minha espada para um conde na esperança de obter recompensas que amenizariam minha pobreza. Ela se comportou com dignidade quando chegou o momento da minha partida. Deu-me a certeza de que realmente me amava.

-# E você voltou para ela?

-# Sim. Seis meses depois, ainda sem terra, mas com uma bolsa cheia de dinheiro. Cheia o bastante para comprar uma pequena propriedade. Mas ela já não estava mais na corte. Levei quinze dias para encontrá-la.

-# Onde ela estava?

-# Em um convento, preparando-se para ter meu filho. Bek tinha dias de vida quando encontrei Kikyou. Ela ficou sentada ouvindo com muita calma enquanto eu contava sobre como havia obtido meus ganhos e falava sobre amor e casamento. Quando concluí meu relato, ela começou a rir

Kagome ouviu a dor e a humilhação na voz dele e o abraçou com mais força. Gostaria de poder apagar de seu coração e de suas lembranças toda essa história de dor.

Era difícil, mas Inuyasha conseguiu continuar.

-# Ela disse que nunca havia imaginado que eu fosse tão tolo. Que havia mesmo acreditado em todos os juramentos que ela tinha feito. Lembrei Kikyou sobre o filho que ela acabava de me dar, a vida era a prova de seu amor por mim. Ela riu novamente. Disse que tudo que um filho demonstrava era que seus truques para impedir minha semente de germinar não eram perfeitos. Como também não eram perfeitos os métodos que ela havia empregado para arrancar a criança de seu corpo.

-# Ela tentou matar o filho que estava esperando? — Kagome murmurou chocada.

-# Sim, mas Bek foi forte. Mais tarde eu descobri que seu primeiro sopro de vida também poderia ter sido o último. Ao ficar sozinha com o bebê, ela tentou sufocá-lo. Uma das freiras a surpreendeu, e elas ficaram com o menino. Justificaram seus atos alegando à loucura, mas eu sabia que a intenção dela era não deixar provas de sua falta de castidade. Um casamento já estava arranjado. Eu não podia acreditar. Mais uma vez, insisti para que ela se casasse comigo. Kikyou me chamou de tolo por pensar que ela aceitaria desposar um cavaleiro destituído de terras, alguém que precisava vender sua espada para sobreviver, quando se podia se casar com o rico e nobre Sevilliers. Um homem de muitas posses. Argumentei que ele deixaria de amá-la rapidamente quando a descobrisse violada. Ela riu. Haveria sangramento na cama, e os Sevilliers acreditariam que ela tinha se casado virgem e casta.

-#E você a deixou e ficou com Bek.

-# Sim, eu fiquei com Bek. Mas não consegui desistir de Kikyou, e nisso está minha vergonha. Pouco depois de ela casar com Sevilliers, tornei-me novamente seu amante. Ela sabia usar cegueira de meu coração. Julguei ser seu único amante. Havia rumores sobre seu comportamento leviano, mas eu insistia em ignorá-los.

-# Mas os rumores eram verdadeiros, não eram?

-# Sim, totalmente verdadeiros. Certa noite, eu descobri a verdade em um jardim. Ela fornicava com um cortesão como uma meretriz qualquer. Sabe, acho que era estúpido o bastante para perdoá-la mesmo depois disso. Foi o que ela disse que finalmente me libertou daquela obsessão. O homem falava como se tivesse me vencido, deitando-se com ela, e era alguém que jamais teria me superado com uma espada. Ela riu, dizendo que eu era seu amante mais persistente e duradouro. E disse que meu estado de perplexidade a divertia. O homem manifestou surpresa por ela se deitar com alguém tão grande, tão branco e tão desprovido de atrativos físicos. Ela concordou sobre eu ser bruto e feio, disse que eu merecia todas as piadas e provocações, mas alegou que eu era generosamente dotado. Desde aquele dia, nunca mais me aproximei dela. — Ele suspirou. — Bem essa é a horrível história. Agora, quero saber o que você tem a dizer sobre Bek.

Kagome sentiu um ponta de amargura ao perceber que ele não havia dito que deixara de amar a tal mulher, mas nada comentou. Nesse momento, Inuyasha precisava de uma resposta com relação ao filho. Precisava ter certeza de que ela não o desprezaria nem repeliria o menino por causa do passado.

-# Bek é seu filho. Pelo pouco que vi, ele é um bom menino. Eu jamais rejeitaria por conta das circunstâncias de seu nascimento.

-# Sou grato por isso.

-# Não precisa me agradecer. E..... você não é feio ou bruto.

-# Não sou bonito, kagome – ele respondeu, recusando-se a deixar convencer por elogios vazios. — Não sou Sesshomaru. Não sou Hojo ou Miroku.

-# Eu não disse que é bonito. — Ela o fitou sorrindo. — Porém, se continuar deixando que seu rosto seja espancado, logo poderá se tornar horroroso. — Kagome ficou séria novamente. — Sim , você e grande, mas também e forte e saudável. Tem toda a graça que o destino pode conceder a alguém. É um homem grande, mas proporcional. Nada é muito longo ou curto. Seu rosto não é belo, mas é imponente e inspira confiança. Sua voz e seu jeito de sorrir, são mais do que agradáveis. Quando você sorri, não é para debochar de alguém ou para esconder uma mentira. É adorável. — Ela o tocou na face. — Seus olhos são encantadores. O âmbar profundo e suave traz á mente coisas gentis.

-# Olhos encantadores?

-# Sim. Tive essa impressão desde o início.

Ele a estreitou entre os braços. O instinto sugeria que ela dizia a verdade, que expressava com exatidão seus sentimentos. Kagome percebera e elogiara seus pontos mais favoráveis. De repente, estava desesperado para possuí-la, mas continha essa necessidade. Depois dos eventos do dia, ela precisava descansar.

-# Chega, mulher. Vai me fazer corar. — Ele sorriu ao ouvi-la rir. — Vá dormir, minha pequena. Essa é a cura mais certa para uma dor de cabeça.

Ela se aninhou contra o marido e sentiu a evidência de seu desejo pressionada contra o ventre.

-# Que dor de cabeça?

Rindo, ele a abraçou aceitando o convite implícito.

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