Kagome parou de correr ao ver o castelo. Ela e Sango levaram um ou dois minutos para recuperar o fôlego. Num acordo silencioso, as duas se esforçaram para pôr alguma ordem na aparência descomposta. Kagome notou que a prima precisava de menos cuidados do que ela, e ainda se esforçava para limpar e ajeitar as roupas, quando percebeu que os cavaleiros qua haviam encontrado pouco antes, já se aproximavam.

-#Ele não é nada parecido com Sesshoumaru ou Hojo. — Kagome suspirou ao ver o homem encorpado desmontar com elegância natural. — Que olhos encantadores.

-#Eu sei. — Sango imitou o suspiro da prima ao ver o cavaleiro que acompanhava o grande homem com cabelos prateados.- É como grama nova, fresca e recém-saída da terra.

Com a testa franzida, Kagome murmurou:

-#Verde? Como pode achar que ele tem olhos verdes? — Ao compreender de quem Sango estava falando, ela riu. — Oh, não ! Então é lá que está sua atenção.

-#Quieta. Eles podem ouvir. Quem tem olhos encantadores, então?

-#Ora, o grande homem de cabelos prateados, é claro.

-#O grande homem ruivo? Está brincando!

Kagome sentiu uma forte necessidade de defender o desconhecido da perplexidade boquiaberta de Sango, mas não saberia dizer por quê.

-#Não. Ele tem olhos encantadores. A cor é linda. Um âmbar suave, doce.

-#Doce? Não se pode dizer que uma cor é doce.

Sango sentia uma estranha mistura de confusão e humor. Alguns dos mais belos cavaleiros haviam assediado Kagome sem nenhum sucesso, e agora um breve encontro com um cavaleiro grande, e um tanto castigado por marcas e cicatrizes, a deixava toda derretida.

-#Não tenho tanta certeza, realmente – Kagome respondeu. — porém, doce é a palavra que me vem á mente. — Com um suspiro, ela se dirigiu à parte posterior do castelo. — Ah, bem, de volta a Hojo.

Seguindo a prima, Sango perguntou:

-#O que achou do jovem cavaleiro de olhos verdes?

Kagome precisou de um momento para se lembrar do homem a quem Sango se referia.

-#Ele é favorecido.

As palavras ecoaram na mente de Sango até ganharem a magnitude de uma revelação. Como ela e a prima tiveram de se esgueirar pela entrada dos fundos do castelo para chegarem aos seus aposentos sem serem notadas, o silêncio de espanto não foi percebido, para seu grande alívio. Quando Kagome dizia que um homem era favorecido, estava apenas sendo polida. Não significava nada. Escolher um traço e elogiá-lo era sua verdadeira forma de louvor.

Elas entraram no quarto de Kagome, e Sango fechou a porta, olhando para prima com verdadeira perplexidade.

-#Ah – Kagome sentou-se na cama -, estamos seguras e, melhor ainda, não fomos vistas. Mamãe ficaria aborrecida se eu fosse pega nesse estado.

-#Não estamos em estado tão condenável.

-#Há barro na bainha do meu vestido.

-#Oh. Sim, isso teria aborrecido minha tia. O que faremos com as flores? — Sango deixou-as ao lado de Kagome sobre a cama. — Uma guirlanda para nossos cabelos?

-#Boa idéia. Usarei a minha esta noite, enquanto ainda estão frescas e lindas. Se ainda restarem algumas, mandaremos a criada colocá-las no aposento nupcial. Elas perfumarão o ar. — Começou a escolher as flores que queria.

Sentada na cama e dedicando-se à mesma tarefa, Sango perguntou:

-# O que tanto a impressionou no grande cavaleiro branco?

-#Que importância tem isso? Amanhã me casarei com Hojo.

Kagome não conseguia esconder a repentina tristeza que transbordava em sua voz.

-#Se quer mesmo saber, isso me intrigar. Você já teve a seus pés o coração de muitos homens jovens e belos.

-#Duvido que eles se tenham realmente posto a meus pés, embora me importunassem com poesias ruins.

-#Digamos que eles flertaram com você, então. Tudo que jamais disse sobre eles, se é que disse alguma coisa, foi que eram favorecidos. Então, surge um homem que não é nem isso. Na verdade, comparado a Sesshoumaru, esse cavaleiro é quase feio.

-#Dependendo de quando o pobre Sesshoumaru morreu, o cavaleiro poderia ser belo comparado a ele agora.

-#Kagome!

Sango não conseguia conter o riso ou disfarçar a irritação provocada pelas respostas evasivas da prima.

-#Nunca olhou para alguém e sentiu vontade de sorrir por pouca ou nenhuma razão?

-#Sim, para bebês, normalmente. Há algo em um bebê que provoca em mim uma felicidade terna.

-#Foi o que senti quando olhei para aquele homem. Senti vontade de cuidar dele, de fazê-lo sorrir.

-#Os homens cuidam das mulheres – Sango resmungou, sentindo-se um tanto surpresa. — As mulheres não podem cuidar dos homens.

-#Oh, sim...... Os homens lutam, protegem, lideram e fazem coisas dessa natureza. Eu sei. Certa vez perguntei a papai se as mulheres eram realmente postas no mundo somente para ter filhos. Ele respondeu que não. Disse que éramos criadas para não deixarmos os homens esquecerem as coisas suaves e belas da vida, para mantermos vivas as emoções mais delicadas. Ele me disse que éramos postas no mundo para suavizar os caminhos de um homem, confortá-lo e dar a ele refúgio quando o mundo lá fora se torna cruel demais.

-#E é isso que sentiu vontade de fazer por aquele homem?

-#Sim. Quis apagar as linhas de preocupação de seu rosto, fazer aquela voz rica vibrar numa gargalhada. — Ela suspirou. — Mas não cabe a mim fazer tais coisas. Em menos de um dia estarei casada com Hojo.

-#Não sente nada disso por ele?

-#Receio que não. Talvez mais tarde. Agora, quero apenas comandá-lo, como tantos outros já fazem com sua permissão.

-#Isso não e bom para o casamento.

-#Bem, um casamento é sempre o que se faz dele. — Kagome foi examinar sua guirlanda de flores fiante do espelho. — Pronto. O que acha dela?

Sango aceitou a mudança de assunto e, caminhando até a porta para deixar entrar a criada que acabara de bater, ela assentiu.

-#Muito linda. Vai usá-la esta noite?

-#Sim. Ah, Kana. — Ela sorriu para a jovem e graciosa criada. — Tem notícias de nossos hóspedes recém-chegados?

-#Sim, senhora. O maior é chamado por todos de Diabo Branco e seu bando de bastardos.

Kagome franziu a testa.

-#É um apelido cruel.

-#Mas verdadeiro. Quase sempre verdadeiro, pelo menos. Dizem que ele é o próprio demônio no campo de batalha. Muitos de seus homens são bastardos, filhos naturais de homens de origem elevada. Todos eles têm habilidade e conhecimento, mas nenhum tem dinheiro ou terra. Então, eles seguem o Diabo Branco e vendem suas espadas como ele faz com a dele. Dizem que a simples visão desse grupo é suficiente para pôr fim a uma batalha. O inimigo foge ou se rende imediatamente.

-#É um pensamento agradável, mas duvido de que o Diabo Branco tenha conquistado tantas cicatrizes com rendições em massa — comentou Kagome. — Quem é ele?

-#Um Taisho, pelo que ouvi dizer. Solteiro, sem terras, mas rico em honra. E não muito pobre em moedas, a julgar pelos rumores.

Sango balançou a cabeça.

-#Não devia incentivar toda essa fofoca.

-#A fofoca vai existir com ou sem meu incentivo. Não preciso encorajá-la. Por que não devo lucrar com ela? E quanto ao homem que cavalga à direita do Diabo Branco, Kanna?

-#Kagome! — Sango exclamou, corando.

Ao ver o rubor, Kagome piscou para prima.

-#Vamos admita que está curiosa. Kanna? Sabe alguma coisa sobre ele?

Com ar sonhador, Kanna suspirou.

-#Ah, que homem. Um belo sorriso.

-#Como se eu não soubesse – Sango resmungou para si mesma. — Chegou há poucos e já atraiu os olhares de todas as criadas.

Não foi fácil, mas Kagome conteve o riso.

-#Isso é tudo que sabe dele, Kanna? Que tem um belo sorriso?

-#Não, senhora. Ele também é solteiro. Na verdade, acho que todos são. Seu nome é Miroku. Sir Miroku. Ele é um cavaleiro.

-#Obrigada, Kanna. Vamos precisar de água para banho, por favor. — Assim que a criada saiu, Kagome olhou para prima e sorriu. — É isso, Sango. O homem é solteiro.

-#Sim, é um mestre na arte do flerte. Deve ser um patife, também.

-#Tsk, tst. — Kagome assumiu uma expressão pesarosa. — Rotular o pobre homem dessa maneira só porque ele sorriu para uma criada graciosa.... Receio que seu coração esteja endurecido, prima.

-#Bobagem. E pare de me provocar. Dessa vez não vai dar certo. Sim, ele é atraente. Sim, meu coração se comporta de um jeito estranho quando olho para ele. Porém, é melhor parar de pensar nele. O homem é destituído de terra, possivelmente pobre. Se algum dia ele procurar uma esposa, não há de querer alguém na mesma posição.

Kagome foi tomada por um repentino desânimo. Não havia argumento que pudesse utilizar contra essa triste realidade. Mesmo que pudesse pensar em algum, era melhor guardá-lo para si mesma. Não faria bem nenhum a Sango alimentar esperanças que bem poderiam ser falsas. Mesmo sem nenhuma riqueza, o cavaleiro podia obter terras e dinheiro pelo casamento, conquistando assim tudo de que fora privado pela condição de bastardo. Isso seria mais importante que qualquer laço emocional. Moeda e propriedade estariam sempre acima do amor. Era um fato da vida que ela não negaria, por mais que o deplorasse.

O desânimo tornou-se ainda maior quando ela foi forçada a admitir que esse era o fator decisivo em seu próprio casamento. Tinha certeza do amor do pai, mas, com relação ao matrimônio, ele em nenhum momento havia considerado seus sentimentos. Estudara a linhagem do marido, suas propriedades e quanto dinheiro ele tinha. Seu interesse estava em garantir que ela fosse bem situada e provida, mesmo que não fosse amada. Se tentasse sugerir outro tipo de arranjo, ele certamente a julgaria louca. E essa seria a opinião da maioria.

Embora se preocupasse com seu futuro emocional, esse não era a maior das preocupações de Kagome. Seus pais haviam encontrado o amor. Precisava acreditar que tinha chances de viver algo parecido. Se não conhecesse o amor ao menos poderia encontrar contentamento. E ela disse a si mesma que isso seria o bastante.

Arrancada das sombrias reflexões pelo retorno de Kanna, Kagome começou a se preparar para as festividades daquela noite. Muitos convidados já estavam ali para o casamento, e a ocasião prometia ser animada. Ela tentou recuperar o ânimo habitual. Os convidados esperavam uma noiva sorridente.

-#Tem medo do que está por vir? — Sango propôs a pergunta tímida quando elas se vestiam.

-#Um pouco. Meu maior receio é odiar partilhar da cama de meu marido.

-#Ninguém espera que uma dama aprecie tal obrigação.

-#É o que dizem. Porém, se isso é verdade, por que tanta gente continua fazendo a mesma coisa com tanta freqüência? Por que as mulheres tomam amantes? Penso que essas coisas nos são ditas para que nos mantenhamos castas. — Ela deu os ombros.- Pouco importa. Prazer não é necessariamente o que busco. Só não quero sentir repulsa. Se Deus me der vida linga, passarei muito tempo na cama de meu marido. Pense em como seria terrível não tolerar essa experiência.

-#O que acha que pode considerar repugnante?

-#Não sei ao certo. Já disse, mamãe não foi muito precisa.

-#Mas deve ter obtido algum conhecimento com essas conversas.

-#Bem, é algo relacionado ao que existe entre as pernas de um homem. Ele vai fazer algo comigo usando esse apêndice. Algo que tem a ver com o que existe entre as minhas pernas. É como essas duas coisas se relacionam que eu não pude discernir. — Kagome franziu a testa, surpresa com o ataque de risos da criada. — Talvez Kanna possa esclarecer a dúvida.

Sufocando o riso, a criada se dirigiu à porta.

-#Oh, não, senhora. Não cabe a mim esse papel.

Movendo-se com rapidez, Kagome bloqueou a saída do quarto.

-#Kanna, vai me mandar para o leito nupcial em total ignorância? Não contarei a ninguém que falamos sobre isso. Todos pensarão que mamãe foi mais coerente do que realmente foi.

-#Receio conhecer apenas palavras ríspidas e impróprias para seus ouvidos, senhora.

-#Meus ouvidos sobreviverão. Kanna, é melhor começar a falar, porque não vai sair daqui antes disso. Não entende que é melhor para mim se eu souber? Melhor para todos?

A criada refletiu por um momento e assentiu. Com grande agitação e seguidos rubores, ela explicou exatamente o que aconteceria na noite do casamento de Kagome. Quando terminou, um silêncio prolongado invadiu o quarto por vários segundos, até Kagome recuperar a voz. Finalmente, murmurando um agradecimento contido, ela permitiu que Kanna saísse do quarto. Depois de fechar a porta, se apoiou nela como se temesse cair.

-#Bem, não sou mais ignorante.

-#E agora tem medo?

-#Não sei ao certo, Sango. Talvez seja melhor assim. — Ela suspirou e balançou a cabeça. — Sinto-me melhor agora que sei o que me espera . Há uma coisa que receio, ao pensar nisso.

-#O que é?

-#Temo começar a pensar muito em como será com Houjo.

OoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoO

-#Pelo sangue de Cristo! Eu disse que o Diabo Branco era um cavaleiro bom demais para ser derrubado por um francês!

Detida repentinamente, Kagome tropeçou e praguejou em voz baixa, dizendo a si mesma que a culpa era dela. Se não estivesse olhando com tanto interesse para o Diabo Branco, que entrara no salão poucos passos na frente dela, certamente teria notado que seu acompanhante havia parado. Ela se encolheu ao sentir os dedos de Hojo apertando o seu braço. Séria, olhou para a mão que a segurava com brutalidade. Tentando livrar-se do doloroso contato físico, ela ergueu o olhar para o rosto de Hojo e franziu a testa.

Ele estava pálido. Os olhos cor de mel pareciam querer saltar das órbitas. Pequenas gotas de suor surgiram em sua testa. Seguindo a direção de seu olhar horrorizado, ela percebeu que Hojo olhava para o Diabo Branco. Como não havia ameaça partindo daquela direção, ela ficou intrigada e curiosa com a estranha reação do noivo.

Inuyasha olhou para o homem que acabara de falar. Encontrara-o algumas vezes e chegara a lutar a seu lado uma vez. Disposto a descobrir o que havia provocado tão estranho comentário, ele caminhou na direção desse homem.

-#Ouviu dizer que fui vencido na França?

O homem assentiu.

-#Onde ouviu isso?

-#Ouvi a notícia de nosso anfitrião, meu primo, sir John Higurashi.

Olhando para o anfitrião, que o fitava sem tentar esconder o choque, Inuyasha perguntou:

-#Quem lhe falou sobre minha morte?

-#Seu próprio parente.

-#Sesshoumau?

-#Não, sir Hojo e o tio dele. — John apontou para Kagome e Hojo, ainda parados na porta.

Virando-se, Inuyasha olhou para o primo assustado e trêmulo sem demonstrar nenhuma afeição.

-#Sua conclusão foi prematura e infundada, primo. Por quê?

Com um grito sufocado, Hojo soltou o braço de Kagome. Ele se virou para correr, mas não foi suficientemente rápido. Inuyasha o agarrou pela elegante casaca. Os pés de Hojo balançavam centímetros acima do chão, e ele começou a emitir sons estrangulados enquanto as mãos finas e alvas puxavam inutilmente a mão forte e enorme de Inuyasha, que segurava com firmeza apertando-lhe o pescoço.

Notando a dificuldade de Hojo, Kagome murmurou:

-#Creio que ele não poderá responder nessa posição.

Ela sorriu quando o Diabo Branco olhou em sua direção.

Soltando o primo prestes a ter um colapso, Inuyasha disparou:

-#Responda. Por quê?

-#Meu tio me disse – Hojo falou com dificuldade. — Ele contou que você havia sido derrotado na França.

Inuyasha empurrou Hojo, que caiu no chão sem nenhuma elegância. Pensativo, o Diabo Branco coçou o queixo.

-#Que utilidade pode ter tal mentira? Você e Naraku nada têm a lucrar com minha morte.

Com a ajuda de Kagome e Sango, Hojo levantou-se tentando recompor-se.

-#É evidente que lucro. Você não é o herdeiro de Sesshoumaru? E eu não sou seu herdeiro? — Ele gritou ao ser novamente agarrado pela gola da casaca.

Com o rosto quase tocando o de Hojo, então ainda mais pálido, Inuyasha gritou:

-#Onde está Sesshoumaru?

-#Morto – guinchou Hojo. Jogado para o lado, ele bateu a cabeça no chão com força suficiente para perder a consciência.

Virando-se para o pai de Kagome, Inuyasha perguntou em voz baixa e ameaçadora:

-#Tão morto quanto eu?

-#Não, Sesshoumaru está realmente morto.

-#Quem garante? O mentiroso que Hojo chama de parente?

-#O próprio escudeiro de Sesshoumaru nos trouxe a notícia.

-#Como foi que ele encontrou a morte?

-#Caiu do cavalo ou foi derrubado, não sabemos ao certo. Seu pescoço se partiu. Sinto muito. — Apesar das inúmeras indicações oferecidas pelo breve e ruidoso confronto, John ainda não sabia quem era o alvo da fúria do homem. — Você é sir Inuyasha Taisho?

-#Sim. — Com os pensamentos centrados na perda de Sesshoumaru, Inuyasha suportou as apresentações com grande dificuldade. — Sesshoumaru está morto, mas o casamento vai acontecer?

Kagome ajudava Sango na tentativa de reanimar Hojo, mas ergueu os olhos para responder:

-#Eu ia me casar com seu primo aqui.

Vendo a ruga na testa de Inuyasha, John se apressou em explicar.

-#Faz parte do acordo que assinei com o pai de Sesshoumaru. Acertamos o casamento quando Kagome ainda era um bebê. A Peste havia deixado sua primeira cicatriz sobre a terra, por isso o acordo foi redigido de maneira um pouco..... estranha. — Ele fez uma pausa e ordenou que a esposa fosse buscar uma cópia do documento. — O nome de Kagome consta no acordo, mas não o de Sesshoumaru. O pai dele queria a união entre as famílias. E eu também. Três de vocês poderiam chegar à maturidade e realizar esse propósito. Sesshoumaru, você e Hojo. Todos estavam sob os cuidados do pai de Sesshoumaru naquela época. O acordo decreta que Kagome se casaria com o herdeiro de Taisho, aquele que sobrevivesse, fosse ele Sesshoumaru, você ou Hojo.

Kagome sentiu o olhar de Inuyasha como um toque físico e doloroso. A cor havia desaparecido de seu rosto. Ele parecia horrorizado. Essa era uma reação que ela jamais havia causado em um homem. Sabia que não a teria incomodado se fosse outro homem, porque nunca se importara com o que pensavam dela. Era injusto que se importasse agora, exatamente com um homem que parecia considerá-la uma praga.

Lady Higurashi colocou um documento na mão de Inuyasha, arrancando-o do estupor em choque. Por um momento ele olhou aturdido para a folha de papel, a mente tomada por pensamentos fragmentados. Agora ele era um homem de posses, um homem de propriedade e título. Não seria difícil aceitar a mudança. Mas o preço a pagar por isso o enchia de pavor. Teria de se casar. E que esposa teria! Um homem como ele se casar com tamanha beldade era simplesmente uma maldição.

Finalmente, se obrigou a ler o documento que tinha na mão, mas não encontrou nenhum alívio ali. Na caligrafia firme de seu pai adotivo e tio, o documento afirmava que o proprietário do castelo Saitun Manor se casaria com Kagome Odel Higurashi quando ela completasse dezessete anos. Não era mais o casamento de Sesshoumaru que ele testemunhava, mas o próprio casamento. Seus olhos recaíram sobre Kagome quando ela e outra jovem ajudavam Hojo a se sentar. Ele ainda estava atordoado, mas não tinha tempo para ocupar-se do primo agora. Ele encarou John Higurashi.

-#Isto é legal?

-#Legal e válido. Como pode ver, o rei colocou seu selo aprovando a união entre nossas famílias.

Inuyasha viu o selo real. O documento o obrigava a se casar com Kagome. A aprovação do rei conferia ainda mais peso a essa obrigação. Na verdade, tal aprovação era quase uma ordem real. O título de lorde, barão de Saitun, agora era dele, bem como o castelo de Saitun Manor. Também era dele a riqueza da família. E também era dele Kagome Higurashi, mesmo que não a quisesse. Ele estava ali. A noiva estava ali. O casamento havia sido preparado. Não havia como escapar.

Ainda aturdido pela seqüência de eventos, Inuyasha se deixou levar para a mesa e ocupou o assento entre John e Kagome. Ele notou vagamente o olhar preocupado de Miroku, que se sentara entre Kagome e Sango, que também exibia uma expressão apreensiva. Nesse momento precisava de mais do que uma simples apreensão. Miroku estava sentado ao lado de lady Higurashi e parecia prestes a explodir em lágrimas. Inuyasha também sentia uma forte vontade de chorar e gritar. Ele mal reconheceu a qualidade indiscutível da comida e do vinho que eram servidos enquanto tentava encontrar uma forma de escapar. No entanto, não havia nenhuma.

Kagome olhou para o noivo, esvaziou sua taça de vinho e esticou o braço para que fosse servida mais uma dose. Cuidava para que sua taça fosse mantida cheia durante toda a refeição, esperando afogar a própria dor em vinho. Sabia que não era a vaidade ferida que lhe causava o desconforto. Não só a vaidade. Era verdade que os homens sempre haviam reagido de maneira favorável a sua presença. Também era verdade que nunca se importara muito com essa reação do sexo oposto. Mas agora era diferente. Pela primeira vez na vida sentia um certo interesse por um homem. Um sentimento autêntico, genuíno. E dessa vez o homem não se interessava por seus sorrisos. Esse homem reagia à notícia do iminente casamento com ela como se acabasse de ser informado de que contraíra a Peste. Sim, encharcar-se de vinho era exatamente o que ela precisava fazer nesse momento. Segurando a taça para ser cheia mais uma vez, ela ignorou as tentativas de Sango de chamar sua atenção.

Sango estava tão preocupada com Kagome que esquecia suas maneiras. Debruçando-se sobre a mesa, ela passou um braço pela frente de um espantado Miroku para cutucar a prima, conseguindo finalmente chamar sua atenção. A luminosidade nos olhos de Kagome quando ela se virou para fitá-la só alimentou sua preocupação.

-#Quer parar de beber como.......

-#Como se comemorasse? — Kagome sorriu e bebeu mais alguns goles. — É uma comemoração, não é? Minha festa de casamento, na verdade. Então, estou festejando.

-#Está se embriagando, isso sim.

Kagome olhou para Miroku e notou que ele ria.

-#Diga-me, senhor, o que as pessoas fazem em uma festa?

-#Comem, bebem e celebram – ele respondeu com um sorriso.

-#Ahá! Eu já comi. Agora estou bebendo. E estou celebrando. Vê, Sango? Não há nada com que se preocupar.

Quando Kagome se virou, Sango tentou cutucá-la novamente, mas Miroku a deteve.

-#Deixe a moça em paz, senhorita. Ela não faz mais do que todos os outros.

-#O que é muito mais do que ela jamais fez. Kagome nunca bebe mais do que uma taça de vinho com a refeição. Ela nunca se embriaga. Não imagino onde essa indulgência a levará.

-#Direto para a cama, sem dúvida.

Sango se preparava para responder quando uma voz masculina e familiar gritou:

-#Com licença! Não me deixaram nada para comer, então?

-#Souta! — Kagome exclamou, levantando-se de um salto para ir cumprimentar o irmão. Sango fez o mesmo.

Ela correu para o rapaz esguio parado na porta. Sem nenhuma dificuldade, o recém-chegado tomou nos braços as duas jovens. Todos riram enquanto Kagome e Sango cobriam o rosto do recém-chegado de beijos e o crivavam de perguntas. Por cima do ombro do irmão, ela viu lorde Edgard, seu tio, aproximando-se da porta. Logo os pais de Kagome também foram cumprimentar o filho e, depois de uma alegria acolhida mas contida, eles o convidaram a se sentar. Olhando em volta para o alegre grupo reunido momentaneamente na porta, Kagome percebeu que havia algo na festa de casamento que merecia sua gratidão. Sua família estava novamente reunida.

Observando a feliz reunião, Miroku murmurou:

-#O rapaz tem excelente aparência. John Higurashi produz herdeiros de beleza admirável.

Inuyasha concordou com um grunhido. Não podia deixar de pensar em como duas pessoas tão comuns quanto John e Bertha podiam ter produzido filhos tão belos. Quando ele se surpreendeu imaginando qual seria a aparência de seus filhos com uma mulher tão linda quanto Kagome, praguejou para si mesmo. Pensar em futuros filhos era um sinal de aceitação de seu destino, quase um sopro de esperança para o futuro. Nunca tivera intenções reais de se casar. Agora que tinha posses, esse era um passo natural. Porém, não queria uma esposa tão bela. Nesse caso, o futuro traria apenas problemas, decepção e dor.

-#Feriu profundamente os sentimentos da moça – Miroku continuou.

-#Como assim? — Inuyasha tinha dificuldades para acreditar nisso.

-#Como assim? — Roger balançou a cabeça com espanto. — E ainda pergunta, depois de ter se sentado aí como quem se prepara para prender uma ratoeira no próprio traseiro?

-#Um homem como eu é solicitado a se casar com uma mulher linda.... É como uma ratoeira. — Podia imaginar o futuro. Dias e dias chutando homens para fora de sua cama.

-#Meu amigo, pela primeira vez na vida está fazendo um julgamento sem ter conhecimento do caso. Está tirando conclusões sem fatos que possam justificá-las. Sim, a moça é linda e pode incendiar o sangue de um homem. Porém, cá estou eu, pronto para trocar sorrisos e flertar, e ela não correspondeu aos meus esforços. Não acredito que seja leviana.

-#Ela não precisa ser. Ainda assim, estarei tropeçando em homens apaixonados até o fim de meus dias. E quando envelhecer, ela vai acabar sucumbindo a um ou outro assédio mais ardiloso.

-#Então, endureça seu coração e deixe o corpo se banquetear com essa bela esposa.

Havia na voz de Miroku uma rispidez que assustou Inuyasha. Entretanto, ele não teve tempo para refletir sobre a razão disso. Estava sendo apresentado a Souta Higurashi e lorde Edgar Higurashi, irmão e tio de sua futura esposa. Alguns comentários sutis entre os membros da família revelaram quem era Sango e agora também sabia que ela era a razão pela qual esposa e filhos de Edgar não compareciam ao casamento. Os poucos comentários lamentavam apenas a ausência dos filhos de Edgar.

-#Vejo que houve outra troca de noivos? — perguntou Edgar.

-#Parece que sim. Hojo precipitou-se ao se colocar na posição de herdeiro. O relato sobre a morte de sir Inuyasha era inverídico – ela respondeu.

Enquanto o tio ria, Inuyasha olhava para a noiva. Estava certo de ter detectado sarcasmo por trás de suas palavras, mas ela parecia doce demais para esse tipo de atitude. A exagerada inocência no olhar, porém, alimentou suas suspeitas. Mais tarde, em outra ocasião.

Todos conversavam, mas ele não ouvia o que diziam, pois ponderava a situação em que se encontrava e tentava aceitar o destino que se apresentava se aviso prévio. Sango falava sobre a cerimônia de casamento na manhã seguinte, e ele queria acompanhar com atenção a reação de Kagome.

-#Veremos – ela resmungou. — Podemos acordar e descobrir que o noivo fugiu.

Inuyasha encarou-a com ar severo.

-#Eu estarei aqui. Não costumo romper acordos.

-#Perdão! — Ela pôs a mão sobre o peito num gesto dramático. — O romance está no ar esta noite.

Miroku engasgou com a bebida. Sango riu e bateu nas costas dele. Os dois pareciam se divertir muito, ao contrário do noivo. Inuyasha olhou para a taça de vinho que Kagome tinha na mão, e seus olhos excessivamente brilhantes e a cor nas faces, sugeriram que ela já havia bebido demais. Ele estendeu a mão para pegar a taça e descobriu que, além de ter uma forte tendência para o sarcasmo,sua noiva também podia ser obstinada.

Kagome agarrou a taça e se recusou a entregá-la. Ela o encarou séria, reconhecendo que já havia bebido em excesso, mas sentia a necessidade de beber ainda mais. Não desistiria de sua taça. O vinho aliviava o desconforto causado pela atitude ofensiva do noivo.

Notando como a noiva olhava para a mão de Inuyasha, Sango colocou um pedaço de carne na mão de Miroku.

-#Quando ela abrir a boca, encha-a de carne.

-#Mas por que? — Miroku não sabia se devia segui a estranha sugestão.

-#Não há tempo para explicar. Lá vai ela. Faça o que eu disse...... depressa!

Quando Kagome se preparava para cravar os dentes na mão de Inuyasha, ela se descobriu com a boca cheia de carne. Metade do pedaço ainda estava do lado de fora. Quando ouviu as gargalhadas de Sango e Miroku, ela compreendeu que a prima estava por trás de sua incapacidade de causar dano ao futuro marido. Sem deixar de encará-lo, ela mastigou lentamente e engoliu o alimento.

Era difícil, mas Inuyasha conseguiu conter o riso. Sabia que era melhor não ceder ao sorriso que ameaçava distender seus lábios. Uma coisa que devia esperar da esposa era obediência, e sentia que era necessário informá-la de sua intenção desde o início. O pai dela, porém, roubou-lhe a oportunidade.

-#Kagome, minha filha, por que não vai mostrar o jardim a sir Inuyasha? — Ele olhou para o cavaleiro, tentando transmitir sua esperança. Algum tempo sozinhos, e tudo começaria a melhorar. — Senhor, garanto que vai apreciar meu jardim.

Sentindo as intenções do homem, Inuyasha murmurou:

-#Talvez seja melhor deixarmos esse passeio para a luz do dia.

-#Não é preciso esperar. O jardim está iluminado pela lua e por muitas tochas.

Mesmo embriagada como estava, Kagome não tinha dificuldades para adivinhar a intenção do pai. Ela se preparava para dizer que não sentia nenhuma necessidade imediata de conhecer melhor o noivo, quando viu Inuyasha olhar Miroku com ar de súplica. Miroku suspirou, mas levantou-se assim que Inuyasha se pôs em pé. Ela também se levantou e chamou Sango com um gesto. Se Inuyasha insistia em ter companhia, ela não seria diferente. Com relutância semelhante a de Miroku, Sango levantou-se.

-#Pensei que iriam apenas os dois – John murmurou, olhando intrigado para a filha.

-#Se meu noivo decidiu levar um acompanhante, creio que devo fazer o mesmo.

Sentindo-se corar, Inuyasha segurou o braço da noiva e a levou para longe dali. Irritado, ele notou que Kagome levava a taça e um bom suprimento de vinho para mantê-la cheia. Miroku e Sango os seguiam, a presença dos dois o ajudou a recuperar parte da calma.

Uma vez do lado de fora, ele logo entendeu o comentário do pai de Kagome. Arbustos, árvores e flores ofereciam total privacidade a quem quisesse caminhar e apreciar a beleza natural do lugar. De início, um homem podia decidir que o uso do espaço era frívolo, tal a preciosidade com que eram tratados os canteiros de formatos geométricos e cores vibrantes. Inuyasha vira jardins parecidos em mansões da Europa, mas sabia que o estilo ainda era novidade na Inglaterra. Ali os jardins eram apenas um emaranhado de plantas ao natural ou canteiros de vegetais úteis, temperos e ervas para culinária. John também acertara ao insinuar que aquele era um excelente lugar para o romance.

Inuyasha fez uma careta ao pensar na última palavra. Romance. Sua noiva merecia um pouco de sedução. Não podia negar essa verdade. Ela não era culpada pela situação nem pela própria beleza. Infelizmente, a arte da sedução se perdera para ele. Vendo Kagome caminhar alguns passos na sua frente, e registrando o silêncio constrangido de Miroku, ele tentou pensar em alguma coisa para dizer. Qualquer coisa.

Ignorando a desaprovação de Sango, Kagome enchia novamente sua taça e a dela. Ela ofereceu vinho a Miroku, fazendo um grande esforço para se livrar da raiva que a envenenava rapidamente. No dia seguinte se casaria com o homem que marchava atrás dela. Em um lugar que sugeria romance, ele se mantinha afastado e carrancudo. De repente foi tomada por um impulso de falar diretamente, com total honestidade. Precisava descobrir exatamente por que ele se opunha com tanto fervor à idéia de desposá-la. Parando repentinamente, ela se virou para encará-lo.

Ainda pensativo, buscando as palavras com desespero crescente, Inuyasha não a viu parar e tropeçou nela, derrubando-a na grama a seus pés. Miroku e ele se moveram ao mesmo tempo, ambos com a intenção de ajudá-la a se levantar, e quase tropeçaram um no outro. Sango também correu e estendeu a mão.

-#Devia ter avisado que pretendia parar – Inuyasha disparou enquanto Kagome, já em pé, removia as folhas de grama do vestido.

-#Parei porque pretendia lhe falar, senhor.

-#Sim? O que tem a dizer?

Kagome o encarou e decidiu que sua posição ali era muito desconfortável e delicada. Com tudo que ocupava sua mente e todas as palavras que tinha para dizer, sentia que poderia sofrer um severo torcicolo antes de dar a missão por cumprida. Olhando em volta, ela localizou um banco de pedra. Segurando-o pela mão, puxou o assustado noivo até lá e, depois de colocá-lo sentado, mantendo-se ela mesma em pé, finalmente conseguiu encará-lo com um pouco mais de conforto.

-#O que o repudia tanto nessa idéia de nos casarmos? — ela perguntou.

-#Kagome..... — Sango começou num protesto hesitante.

-#É uma pergunta razoável, prima. E então, senhor? Prefere as damas loiras?

-#Não. — Não podia falar a ela sobre seus medos, sobre como temia um futuro cheio de sofrimento, vergonha e traição.

-#Sou pequena demais para o seu gosto, então?

-#Bem, é verdade que seria difícil encontrá-la, se fosse um pouco mais baixa.

-#Ah, entendo. Lamenta que eu não seja mais alta? — Ela franziu a testa ao vê-lo balançar a cabeça numa resposta negativa. — Mais magra? Mais gorda?

Apesar do esforço para resistir, os olhos de Inuyasha analisaram a figura esguia. Não havia nada nela que pudesse criticar. Seios altos e cheios, cintura estreita e quadril arredondado, enfim, proporções que despertavam nele um inegável interesse. Seu corpo manifestava sem equívoco a ânsia de começar logo a vida conjugal com Kagome.

-#Nada disso. Fiquei chocado, apenas. Vim para cá esperando testemunhar o casamento de Sesshoumaru, e de repente, descubro que Sesshoumaru está morto e eu serei o noivo. Vim com a intenção de conhecer a esposa de meu primo. Em vez disso, sou apresentado à minha futura esposa. Essa é uma situação que deixaria qualquer homem perturbado.

Ela entendia o sentimento. Mesmo assim, tinha certeza de que o noivo não estava dizendo toda a verdade. Apesar do vinho que lhe perturbava o raciocínio, ela também sabia que era inútil continuar pressionando. Felizmente já tomara a decisão de encerrar o assunto, porque vozes do outro lado de um canteiro atraíram sua atenção.

-#Não devemos – protestava arfante uma voz feminina. — Meu marido.....

-#Está encharcado de vinho e bem próximo da inconsciência.

-#Sua esposa?

-#Deitada. E ela não dá muita importância a como me entretenho. Ah, você é tão encantadora ...... Seus seios são fartos e doces como melões maduros.

Kagome olhou para Sango, que cobria o rosto vermelho com as mãos. Embora sempre houvesse escutado comentários sobre amantes e encontros fortuitos, infidelidade e adultério, nunca acreditara muito neles. Seus pais eram profundamente apaixonados, e ela considerava o casamento fiel e sólido de que era fruto, como via de regra. Agora ficava claro que os rumores tinham, sim, um fundo de verdade.

No auge da indignação, ela decidiu que tais coisas não seriam permitidas em sua casa. Depois de censurar com o olhar os dois homens que pareciam se divertir, Kagome caminhou na direção da cerca natural. Ouvindo os passos dos três companheiros atrás dela, tratou de se apressar para não se deixar deter. A visão do casal abraçado e deitado no chão a enfureceu. O homem a viu e se apressou em ficar em pé, mas ela o atingiu com um inesperado e violento chute nas nádegas. O casal tentava ajeitar as roupas sob o olhar severo de Kagome. Ela começou um duro sermão, enfatizando certas declarações com um chute ou empurrão direcionando a um ou outro. Sentia-se capaz de entender as fragilidades humanas e podia tolerar seus erros, mas isso já era demais. Encontrar alguém em flagrante adultério no jardim recém-construído por seu pai, entre as flores que eram o orgulho e a alegria de sua mãe, era mais do que podia tolerar. Inteiramente vestida e recomposta, a mulher por fim se revoltou.

-#O que sabe sobre o amor?

-#Está dizendo que ama esse patife infiel? — Se houvesse amor envolvido, poderia temperar sua condenação, embora julgasse tolice amar um homem capaz de trair a própria esposa.

A mulher hesitou e, quando respondeu, não havia convicção em sua voz.

-#Bem... é claro que sim.

-#Mentira! Agora aumenta seus pecados mentindo. Volte para seu marido. Seu lugar é ao lado dele.

-#Já viu meu marido?

-#Sim, e reconheço que ele não tem a beleza desse porco traidor. Porém, ele é limpo, saudável e ainda tem todos os dentes e cabelo. E também parece ser um homem alegre. Podia ter encontrado alguém pior. Agora sumam os dois, porque já estão me aborrecendo.

Ela se surpreendeu quando o casal se apressou em obedecer ao comando imperioso.

-#Oh, Kagome – Sango murmurou quando o casal adultero desapareceu — , não devia ter interferido.

-#Sango, meus pais passeiam por esse jardim.

Inuyasha ria sem parar. Miroku também gargalhava. Kagome olhava para o chão como se o casal houvesse deixado na relva marcas indeléveis, e ainda parecia indignada. Furiosa ela era mais linda.

Devagar, Kagome olhou para Inuyasha atraída pelo som de sua risada. Era profunda, rica, mas com uma qualidade quase juvenil. Era contagiosa. Miroku também ria. Sango estava intrigada. Kagome sentiu vontade de perguntar à prima se a risada de Miroku aquecia seu interior como a de Inuyasha a aquecia por dentro.

-#Suponho que tenha sido tolice minha interferir – ela murmurou, aproximando-se de onde ele se sentara no chão com as costas apoiadas contra uma árvore.

Miroku levantou-se, segurou a mão de Sango e a levou para longe dali. Pelo que podia ver, seu pai não era o único a acreditar que devia passar algum tempo com Inuyasha. Só ela e ele. Embora não tentasse detê-los, Kagome se sentia dividida. O ataque de riso suavizara a expressão de Inuyasha, tornando-o menos distante. No entanto, não sabia o que dizer ou o que fazer. Estava nervosa, quase tímida.

Sabia que a frieza e o distanciamento de Inuyasha podiam retornar, porque havia muitas razões para isso. O choque de descobrir-se noivo, porém, não era uma delas. E ela não sabia como chegar à verdade por trás daquele estranho comportamento.

Tentar pensar em um jeito de começar a conversa fazia sua cabeça doer. Nunca tivera um problema antes. A única dificuldade que enfrentara havia sido manter a conversa amena, evitando palavras de amor ou desejo que sempre acabavam escapando dos lábios de outros homens. Todos os outros, menos seu noivo. Ela suspirou tomada por uma súbita tristeza, reconhecendo que não teria esse problema agora. Era difícil não pensar na crueldade do destino. Essa era a primeira vez que desejava ouvir palavras doces, mas estava certa de que o homem a seu lado não as pronunciaria.

Inuyasha estudou a noiva tão próxima dele. Não havia malícia em seu rosto alvo e perfeito. Nenhum traço de vaidade ofuscava o brilho natural de sua beleza. Havia em torno dela uma aura que sugeria que havia sido uma criança protegida. Mesmo assim, ele se agarrava ao desconforto, temendo relaxar, sabendo que, se não se defendesse, nenhum ferimento sofrido em batalha poderia se igualar em dor ao sofrimento que seria resultante de tal entrega.

-#Eles só irão a outro lugar. — Inuyasha mantinha o tom gentil, evitando dar a entender que a ridicularizava de alguma maneira. — Pode ter dificultado a relação, mas não a impediu.

-#Eu já pensei nisso. Eles vão arder no inferno.

-#Kagome, essa é uma ocorrência muito comum. Mulheres tomam amantes, homens se deitam com meretrizes......

-#Meus pais não cometem tais pecados. São fiéis aos votos que fizeram perante Deus. E eu sei que a fidelidade é resultante do amor que fortalece o casamento.

-#Sim. Qualquer um que os conheça pode ver que se amam, e nisso eles são afortunados. Mas nem todos têm essa sorte, e muitos tomam amantes.

-#Amantes...... bah! Parceiros na luxúria. Não havia amor algum entre aquele casal. E é ai que o pecado realmente reside. — De repente ela pensou em algo que a atingiu com um raio. — Você vai ter amantes?

Por um momento ele se sentiu tentado a falar duramente sobre impertinência. Esse era um assunto que qualquer esposa sensata e obediente devia ignorar. Kagome era mesmo impertinente e ousada, mas também era ingênua a ponto de ainda acreditar na santidade do casamento. Além do mais, sabia que, enquanto a esposa se mantivesse fiel, ele não teria dificuldade para fazer o mesmo. Possuía um saudável apetite sexual. Mas não precisava de variedade. Se Kagome levasse algum calor a sua cama, não sentiria nenhuma necessidade de buscar outros leitos.

-#Não, a menos que você leve outro homem para sua cama.

A beleza do sorriso de Kagome o fez perder o fôlego.

-#Nesse caso, é melhor começar a escrever cartas de despedida a todas as mulheres com quem se relaciona.

-#Não tenho nenhuma amante.

A incredulidade no rosto de sua noiva era lisonjeira.

-#As mulheres que conheço se interessam antes pelo valor da minha moeda. — Ele riu diante da persistente expressão de dúvida, mas logo ficou sério. — Conheceu Sesshoumaru?

-#Não muito bem. Passamos apenas algumas poucas horas juntos. Quer saber se choro a morte de meu noivo?

Ele assentiu lentamente.

-#Não o conheci o bastante para isso. O que senti foi apenas um pesar passageiro pela perda de um homem jovem e saudável.

-#Sim, e em circunstâncias muito terríveis.

Ele falou distraído, pensando que estavam ali próximos e sozinhos. A beleza de Kagome era do tipo que inspirava os menestréis. Saber que ela logo seria sua pelas leis do rei e de Deus era inebriante. Ele tocou os cabelos brilhantes e estudou o rosto delicado e os lábios carnudos.

Kagome reconhecia aquele olhar, mas não sentia o habitual impulso de se afastar.

-#Pretende me beijar?

-#Você é sempre ousada em suas perguntas?

-#Dizem que sim. Mas creio que o vinho me torna ainda mais arrojada que de costume. Vai ou não? — ela tornou a indagar.

-#Confesso que a idéia me agrada. — Ele afagou a face corada com a ponta dos dedos. — Sesshoumau a beijou?

-#Sim, e tive de contê-lo com alguns tapas, uma ou duas vezes. Ele tinha idéias atrevidas sobre a arte de conquistar uma mulher.

Inuyasha bem podia imaginar como o primo se comportara com uma mulher de tão estonteante beleza. Ele sorriu.

-#E Hojo?

-#Eu mal havia me tornado noiva dele quando você chegou. Se quer uma lista, confesso que não tenho muitos nomes a recitar, mas já tive de aturar um dilúvio de poesias enjoativas e horríveis.

O comentário espontâneo o fez rir.

-#O vinho também a torna impertinente.

-#Receio que essa característica não seja culpa do vinho. — Ela o observou com uma expressão ansiosa, cheia de expectativa e curiosa, tentando adivinhar como seria ser beijada por esse homem.

Notando seu olhar, Inuyasha balançou a cabeça admirado e a tomou nos braços. Era um orgulho ser objeto de atenção da beldade. Firme, ele disse a si mesmo que vivia apenas um prazer passageiro, mas a idéia pouco fazia para amenizar a sensação prazerosa.

Sem mais pensar, ele a beijou. Quando Kagome o abraçou e correspondeu, o beijo ganhou ardor. Só quando Inuyasha tentou tornar o beijo ainda mais íntimo, ela recuou hesitante, encarando-o com uma mistura de curiosidade e irritação. Mas havia também uma ponta de desejo em sua expressão.

-#Foi nesse momento que esbofeteei Sesshoumaru.

As mãos deslizando por suas costas despertavam nela um delicioso calor.

-#Você o preveniu da maneira como está me prevenindo?

Inuyasha beijou-a várias vezes no rosto.

-#Não. — Estava ofegante. A voz soava rouca,o que a surpreendia.

-#Isso é só uma parte do beijo. Venha, deixe-me beijá-la. — Ela ofereceu os lábios. — Ah, que visão deliciosa.

Inuyasha beijou-a novamente, dessa vez com maior intimidade, e Kagome suspirou de satisfação. Cada instante alimentava o calor que a incendiava por dentro. Ela o abraçou com mais força, deixando-se puxar para o colo do noivo. Quando o beijo chegou ao fim, ela estava trêmula em seus braços. A paixão tornava nebulosos seus pensamentos, dominado então por estranhas sensações.

Inuyasha também estava um pouco tonto. Nunca um único beijo o excitara tanto. Talvez fosse a errante esperança alimentada pelo brilho que via nos olhos dela. Nada do que dissesse a si mesmo poderia mudar o que via nos olhos de Kagome. Excitara muitas mulheres antes, mas nenhuma como ela. Mulheres como ela nunca se aproximavam o bastante para testar sua habilidade ou a falta dela.

-#Eu me saí bem? — ela murmurou.

Ele sorriu.

-#Sim. Muito bem. Tanto, que acho melhor voltarmos para a festa. — Ajudou-a se levantar. — Não quero ser esbofeteado.

Trocando informações variadas sobre eles, Kagome e Inuyasha retornaram ao salão e se juntaram a Miroku e Sango. Embora participasse da conversa, Inuyasha estava mergulhado nos próprios pensamentos, tomado por dúvidas e medos. Kagome havia sido de Sesshoumaru um homem de beleza excepcional, e depois quase se casara com Hojo, que também era muito atraente. Agora se casaria com ele. Sentira sua reação quando a beijara, mas sabia que logo ela se ressentiria por ter se casado com o primo mais desprovido de atrativos físicos. Por mais que tentasse se livrar dos pensamentos, sempre que olhava para a noiva, ele antevia problemas.

OoOoOoOoOOOooOoOoOOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOooOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoO