A Bela Fera
3 Aqui, a mudança
Notas iniciais
Enjoy~
A lua cheia estava encoberta por pesadas nuvens tempestuosas. As gotas caiam pesadas, os relâmpagos iluminavam o céu repetidamente e o vento assobiava e chicoteava as árvores. Em algum lugar no horizonte, o sol se preparava para nascer por detrás das nuvens. E no meio desse emaranhado de elementos em fúria, temos um pequeno e distinto grupo.
Três jovens com algo entre 16 e 18 anos, e um grande lobo negro. Dois garotos e uma garota, irmãos com laços tão fortes que nem mesmo o parentesco explica. Belos de rosto e corpo, cabelos negros como as penas de um corvo, cicatrizes das quais não gostam de lembrar. Exaustos, feridos, correndo contra o tempo e contra a fúria da natureza.
O mais velho ostentava um ar de seriedade, refletido perfeitamente em seus olhos azul petróleo, tão penetrantes que chegavam a assustar. Seu cabelo estava sempre preso em um rabo de cavalo alto, mas ainda assim chegava até a base de suas costas. Carregava uma espada longa do lado esquerdo da cintura e o irmão do meio apoiado em seu ombro direito.
Sendo praticamente carregado estava um jovem de belos olhos azuis e dóceis, fechados devido à exaustão. Cabelo curto e arrepiado, exceto por uma pequena mecha na base da nuca. Carregava ao lado do corpo um chicote de couro e uma coleira presa a uma corrente.
A caçula andava com a mão firmemente presa a coleira do lobo. Seu cabelo levemente ondulado ultrapassava a base da coluna e a franja, comprida a ponto de tapar seus olhos, escorria de tão ensopada. Seus olhos perolados encaravam o vazio a frente, indecifráveis.
O lobo possuía uma pelagem escura e olhos azuis, assustadoramente azuis. Guiava o grupo para o único abrigo que restava: um velho castelo “abandonado”. O velho castelo que eles sabiam ser amaldiçoado. Quem escolhera o destino fora a garota, e eles apenas se puseram a caminho sem questionar.
O tempo se esgotava para eles, mas todo o grupo mantinha uma fria calma. Entrar em desespero não era uma opção. Não para eles.
O castelo surgiu perante eles. Seus enormes portões estavam destruídos, provavelmente, por algum animal de grande porte furioso. O jardim estava mal cuidado e as ervas daninhas o fizeram perder a beleza original.
Não havia luzes nas janelas e o cenário como um todo parecia pertencer a um filme de terror. Mas, sem ao menos reparar, o grupo rapidamente adentrou no castelo, não sem antes parar na entrada e tirar o excesso de água do corpo. Seguiram sem muito rumo pelos corredores. O mais velho, o único apto a reaparar, analisava o ambiente. Luxuoso, mas empoeirado e mofado. Ouvia-se apenas a chuva do lado de fora, pelo menos era isso que pensava. Nisso e sobre a sensação de estar sendo observado.
A caçula ouvia o som de algo estalando e sentia o leve cheiro de queimado. Mais a frente, um quarto, que mais parecia um escritório sem janelas, tinha a lareira acessa. Tinha pouca mobília, apesar do tamanho da sala. Apenas uma mesa, uma poltrona e um tapete em frente ao fogo. Sem pensar muito, o primogênito apoiou seu irmão na tapeçaria, deitando-se logo em seguida e se entregando ao sono.
A jovem se sentou ao lado dos irmãos e o lobo se aconchegou ao seu lado, apoiando a cabeça na garota. Ela então se pôs a acariciar o animal com calma. Ela sabia o que viria a seguir e fez uma prece baixa, se preparando psicologicamente.
A porta se abriu com um estrondo e o dono do castelo apareceu. Uma fera, uma besta assustadora, com mais de dois metros, pelos castanhos por todo o corpo, um focinho de animal e chifres. Andava em volta dos visitantes inesperados de forma ameaçadora e autoritária. O lobo fez menção de se levantar e rosnar, mas parou ao sentir a mão da garota sobre sua cabeça.
A fera começou a falar, voz áspera, rouca e irritada.
-O que estão fazendo aqui?!
-Estávamos apenas fugindo da chuva...
A garota falou com calma, mas com um leve tom de desespero na voz. Sua cabeça seguia os movimentos do outro, como se ela estivesse desesperada e seguisse todos os passos da fera com medo. Agora, todas suas palavras e ações eram ensaiadas e friamente calculadas. Até mesmo o fato dos irmãos estarem inconscientes fazia parte do plano.
-Mentirosa! Vieram ver a fera, não é?
-Não, nós apenas...
-Quero vocês fora daqui! Saiam do meu castelo!
-Escute-me!
A ultima frase foi dita com mais ênfase e desespero, fazendo a fera para de circular e encarar os olhos perolados. Ela engoliu seco e respirou fundo, a garganta seca e a voz diminuindo ao falar agora.
-Desculpe-nos por... Invadir seu castelo. Estamos exaustos e não temos para onde ir... Por favor... Deixe-nos... Descansar aqui...
A voz sumiu aos poucos e as mãos seguravam firmemente o lobo que encarava tudo com seus pequenos olhos penetrantes.
A fera a encarou com surpresa e então uma repulsa que se transformara em ódio rapidamente.
-Você está com medo.
Aproximou-se lentamente, a voz parecendo um chicote de tão ásperas as palavras que pronunciava. Um chicote que não feria a garota, mas a si mesmo.
-Está fazendo pose de durona, mas por dentro está morrendo de medo do monstro, não é? Olhe bem para mim.
Ele parou com o rosto amaldiçoado a poucos centímetros do da garota, esta que tentava a todo custo impedir o lobo de atacar.
-Olhe bem para este rosto e me diga o que vê.
Ela hesitou, desviou o olhar para o lado, e então para o chão. Respirou fundo e disse em voz baixa.
-Nada. Eu não vejo... Nada.
A fera recuou surpresa e a garota, aproveitando o momento de hesitação do outro, levantou o olhar e o fez se chocar com o da fera.
-Nasci cega, não posso dizer se é um monstro ou não.
A fera se desarmou, mas não sabia o que fazer. A jovem, por outro lado, se ajoelhou e abaixou a cabeça.
-Por favor, nos deixe ficar aqui. Meus irmãos estão feridos e precisam descansar. Iremos embora assim que eles acordarem, então...
Só nesse momento o dono do castelo parou para analisar os dois jovens deitados ao lado da lareira. O que tinha uma espada ao lado parecia pálido, como se tivesse perdido muito sangue. O outro tinha uma mancha de sangue no ombro e parecia tremer levemente. E então a fera fez a ultima coisa que devia fazer neste momento: encarou uma ultima vez os olhos cegos da garota.
Tão belos, suplicantes e tristes. Por um momento, era como se as duas almas se conectassem. Olhava para dentro da vastidão perolada e se encontrava. Uma criança perdida e abandonada, solitária num mundo cheio de privilégios. Sentia-se exposto, mas confortado, compreendido. Essa hesitação, esse momento de fraqueza derrotou a fera.
Ele então deixou a sala, não sem antes deixar um alerta:
-Deixem este lugar rápido e nunca comentem sobre o que acontecer aqui.
A porta se fechou e a garota suspirou aliviada. Retirou a capa preta que a cobria e jogou-a por cima do lobo, sussurrando logo em seguida.
-E então, já está na hora...
Notas finais
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