A Beautiful Lie
34 Cap. 32 - Uma hora, tudo se desmorona
Os dias que se seguiram foram agitados. Draco e eu não falamos sobre o que havia se passado. Eu não me sentia a vontade para fazê-lo, embora quisesse. As palavras pareciam sumir ou ficarem impróprias sempre que eu tentava esboçar algo para dizer a ele. Não havia o que dizer. Deixar claro que nós nunca agiríamos diferentes por causa daquilo era idiotice. Havia mexido comigo, mas não com ele. A diferença havia aumentado mais do que nunca entre nós. Antes, Draco ao menos se esforçava para não ser rude durante todo o dia, mas agora eu mal o via, e nas raras vezes em que batíamos de frente, ele simplesmente me evitava, dizendo ter algo para resolver. Eu também não insistia muito. Não era uma característica minha deixar coisas inacabadas, mas aquilo seria o melhor por enquanto.
Ao contrário do que Draco havia dito, eu não estava arrependida por deixar aquilo acontecer. Arrependia-me simplesmente por ter me envolvido a aquele ponto. Eu mesma havia jurado, prometido a mim diversas vezes que aquilo não iria me mudar ainda mais, mas eu quebrei uma promessa comigo mesma no momento em que, quando acordei sozinha na biblioteca, senti um aperto no peito e sabia bem o motivo daquilo. Era tarde demais para voltar atrás com tudo. Já estava feito. Quando eu pensava nele, uma mistura de ódio, rancor e amor tomavam conta dos meus sentidos. E nessas horas, eu ignorava aquele sentimento bom. Eu não era nada para ele, e eu também faria dele um nada para mim. Tinha que fazer aquilo, antes que ele me machucasse mais uma vez, sem me dar chance de me reerguer.
Tudo já estava praticamente pronto para o casamento e quanto mais perto estávamos da data mais certa em me sentia com aquilo. Tudo estava caminhando para o que eu queria, enquanto Draco, muito provavelmente, pensava o mesmo.
Eu ligava para o hospital quase todos os dias, pedindo por novas notícias e sempre ouvia as mesmas coisas. Era odiosa a ideia de que me casaria sem ter minha mãe ao meu lado, mas eu entrava em um dilema quando pensava sobre isso. Não queria que ela participasse daquela farsa, pois era isso o que aquele casamento significava. Não importava o quão concretas fossem as lembranças do que havia acontecido na biblioteca ou a forma como ele me olhou ou se meus sentimentos por ele haviam mudado... Horas depois Draco havia voltado a ser o que era e eu também havia voltado com todas as minhas ideias. Ele havia tirado de mim todos os meus sonhos e sabia que a única coisa que ele queria de mim era Alicia. Eu não deixaria que ele tirasse isso também, não importa o quanto ele ronde meus sonhos à noite ou faça parte da maioria dos meus pensamentos. Alicia seria uma parte de Draco que eu manteria perto de mim e não dele.
Meus cabelos já estavam presos com pequenos rolinhos quando eu encarei o vestido branco e longo que estava cuidadosamente arrumado em um manequim enquanto Isís estava parado ao lado, parecendo feliz com sua obra. Um sorriso brilhava em seu rosto enquanto ele alisava um lenço branco entre suas mãos. Ainda não gostávamos um do outro, mas fazíamos nosso melhor para nos suportarmos.
– E então, Cinderela, não vai dizer o quão perfeito ficou? – perguntou quando alguns segundos se passaram sem que eu dissesse nada.
– Ficou lindo – eu falei sorrindo e erguendo minha mão para tocar no tecido branco que escorregou entre os meus dedos.
Ouvi Isis bufar.
-Lindo? – perguntou indignado – Ele é perfeito! Nunca fiz algo tão perfeito assim e eu espero que tenham muitos fotógrafos de várias revistas e de todo o mundo para verem. Já posso até ver as noticias: 'Isís Maleto transforma plebéia em princesa'.
Eu quase ri com sua animação. Já estava acostumada com sua forma de tratar o mundo como se ele se resumisse a moda e a status, embora odiasse seu jeito esnobe. Ele suspirou alto, parecendo cansado e então guardou o lenço branco no bolso do terno para segurar em minha mão.
– Vamos, vamos. Temos que te arrumar. O casamento será em algumas horas e você ainda está com cara de morta.
Eu mordi a língua quando uma resposta nada educada e legal estava pronta.
– Não diga isso dela, Isís – Gina falou entrando no quarto e sorrindo para ele. Diferente de mim eles haviam se tornado amigos já que ambos concordavam quando o quesito era eu. Ele até havia prometido fazer o vestido de casamento de Gina, o que a fez corar e começarmos a falar sobre Harry. Rony havia voltado para nossas conversas ali, quando Gina me confessou que seu irmão não pareceu feliz com a ideia de sua irmã namorar seu melhor amigo. Eu havia evitado falar sobre ele, pois ainda me sentia culpada pelo que ele havia feito, mas eu nunca o havia dado esperanças. Ele sabia que nós nunca daríamos certo, embora ele fosse a melhor escolha para mim.
A equipe de Isís entrou em seguida para começar a me arrumar. Depilação, sobrancelha, unhas, hidratação, cabelo... Tudo foi feito no que pareceu um piscar de olhos, mas eu sabia que era só o meu medo por saber o que estava por vir.
O vestido foi preso ao meu corpo enquanto Isís fazia os últimos ajustes nele, afirmando que havia feito o seu trabalho quando eu parecia ter engordado alguns quilos em três dias, quando o último ajuste havia sido feito. Eu nem ao menos tentei dizer que não era culpa minha se Alicia crescia mais a cada dia dentro de mim.
Recusei a me olhar no espelho quando um me foi oferecido de forma que eu não sabia como estava ficando. Quanto mais as coisas ficavam prontas, eu sentia aquele velho pânico aparecer, lentamente, e se eu me olhasse no espelho seria como uma abertura para pensar em como tudo havia mudado de forma tão rápida. Iria pensar no quê havia me feito mudar. O estupro. Draco. Alicia. Minha mãe. Eu não queria me lembrar de tudo naquele dia, já me bastavam os pesadelos constantes envolvendo minha mãe e Draco. Aquelas lembranças não deveriam ser esquecidas, mas naquele momento eu as escondi em algum lugar da minha mente para que eu não vacilasse quando estivesse ao lado de Draco.
Isís prendeu o curto véu em minha cabeça com uma tiara e eu apenas passei a mão, retirando quando ele disse que eu estava estragando o seu trabalho. Eu havia passado tanto tempo pensando no que as pessoas diriam quando vissem meu vestido totalmente branco que me esqueci que aquela havia sido minha vontade há um tempo. E de forma assustadora eu percebi que estava, mesmo que distorcidamente, realizando meu antigo desejo.
– Oh! – Isís exclamou, colocando uma mão sobre a boca e fingindo secar uma lágrima com a outra – Eu não acredito em quão bela você parece, Branca de Neve – ele falou, me fazendo perceber que ele tinha um costume em me chamar de nomes de contos de fadas. Eu preferia o de Cinderela. A ideia de que príncipes encantados que iam até sua casa era a melhor do que príncipes que te beijam quando você está indefesa.
– Ele tem razão, Mione – Gina disse com os olhos brilhando – Você é a noiva mais linda que eu já vi. Tem certeza de que não quer um espelho?
Eu mordi o lábio inferior, hesitando, mas parei quando Isís me recriminou pelo olhar, provavelmente querendo gritar comigo por retirar um pouco do batom. Eu então levantei um pouco o vestido e Isís segurou a parte de trás quando eu parei em frente ao grande espelho, perdendo um pouco do fôlego quando me vi, incapaz de acreditar que aquela era mesmo eu.
- Eu fiz um belo trabalho, isso não pode negar – Isís falou, sem esconder seu próprio sorriso de satisfação.
Eu sorri de volta, concordando com ele. Meu cabelo estava puxado para trás e quando eu me virei um pouco vi que os cachos caiam com leveza em minhas costas. Uma tiara prata prendia tanto meu cabelo quanto o véu, preso entre ele. O vestido era tradicional, com mangas longas até os pulsos e com a parte de cima toda bordada em renda. Um decote em "v" não mostrava nada, mantendo o costume. A cauda atrás não era muito longa, mas eu percebi que quando Isís diminuiu consideravelmente o véu, ele compensou no tamanho do vestido. A leve armação que havia na saia remetia a modelagem vitoriana, mas eu notei que além daquilo, também disfarçava minha barriga. Presumi que ninguém queria chamar atenção para aquele pequeno detalhe. Meus olhos foram esfumaçados com uma sombra preta, cobrindo qualquer sinal que evidenciasse as poucas horas de sono que tive. Os brincos de diamante haviam sido um presente de Blaise, e pareciam ser o desenho de folhas de roble.
- O batom é matte para contrastar, então não adianta reclamar sobre isso – ele disse seco, se lembrando de uma pequena discussão que tivemos quando ele me mostrou uma maquiagem completamente escura.
- Está tudo perfeito, Isís. – eu disse e ele sorriu para mim, pela primeira vez parecendo ser um sorriso sincero e sem significados.
- Eu te beijaria agora, mas isso provavelmente vai acabar com a maquiagem e eu não quero que o senhor Malfoy tenha um colapso por causa disso. Agora, Lia, — ele estalou os dedos para uma de suas funcionárias – desça e avise a todos para ficarem em seus lugares. Eu não quero que nada ofusque a entrada da Branca de Neve aqui. E quanto a você – uma de suas mãos se postou em baixo do meu queixo, o erguendo levemente – Não faça nada que vá te deixar menos perfeita do que está agora.
- Eu não vou – respondi, mesmo quando a ideia de me sentar em algum lugar passou pela minha cabeça juntamente com como o vestido ficaria amarrotado se eu fizesse aquilo.
Ele me entregou o buquê de peônias brancas e saiu com sua equipe do quarto, deixando apenas Gina, que insistiu em ficar até o último momento.
- Você realmente está linda Mione. – Gina disse, colocando com um cuidado excessivo seus braços ao meu redor – E eu tenho certeza que o Malfoy vai saber dar valor a mulher incrível que você é.
Eu estava tentando controlar aquela vontade absurda que eu sentia de chorar. Juro que estava. Esforcei-me para não pensar em Draco nas últimas horas e quando pensava não era de maneira tão profunda. Até mesmo quando Isís havia se referido a ele eu não tinha tido dificuldades em fechar minha mente para qualquer coisa sobre, mas quando Gina falou sobre eu e ele depois do casamento, algo realmente se quebrou dentro de mim. Uma lágrima desceu pelo meu rosto antes que eu tivesse a chance de pará-la e nesse curto intervalo veio outra.
Gina me soltou, o sorriso saindo de seu rosto quando ela percebeu.
- Ai meu Deus, não chora Mi! – seu tom era levemente desesperado quando ela abriu sua bolsinha e tirou de lá um lenço que estendeu para mim – Você não pode chorar agora. A maquiagem é a prova d'água, mas você não pode chorar. Eu sou uma péssima madrinha, sei disso.
- Não – eu disse, quando tentei inutilmente conter um soluço – Está tudo bem, Gina, não há nada com o que se preocupar.
- É claro que há! Você quer que eu chame alguém aqui? Minha mãe, ou até mesmo Draco-
- Não! – eu disse, balançando a cabeça em um gesto negativo – Não chame ele aqui. Não chame ninguém, por favor. – eu praticamente implorei, sentindo mais lágrimas caindo — Eu só preciso de alguns segundos...
Porque eu tinha que pensar em todas aquelas coisas naquela hora? Poderia ter sido mais cedo, quando eu estava completamente sozinha e ninguém me veria entrar em pânico pelo que eu faria. Ninguém me veria entrar em pânico por me lembrar do que Draco havia feito, de que agora eu gostava dele e muito menos por pensar que mesmo eu gostando dele, para Draco eu era apenas a mulher que estava grávida da filha dele.
Ouvi Gina respirar fundo.
- Eu sei que já te fiz essa pergunta antes, Mione, e não quero que pense que vou fazer outra vez para que desista disso tudo e volte a ser o que era antes, mas eu realmente preciso perguntar. Você está segura com a sua decisão sobre esse casamento? Quer dizer, se você quiser desistir agora, todos vão entender. Você está grávida e é normal que fique insegura nesses dias. O Malfoy entenderá.
Eu fiz uma tentativa de um sorriso. Ele não entenderia. Ele queria a filha, isso era tudo. E Gina não sabia do que ela estava falando. Ela não sabia.
- E então, você está segura? – pressionou, quando eu continuei calada.
Assenti rapidamente, com medo de que se pensasse muito acabasse admitindo que os motivos que me levavam a me casar naquela hora eram todos errados. Mas quando Gina soltou minha mão, dizendo que estaria na primeira fileira eu sabia que explodiria a qualquer momento. Apertei fortemente o buquê em minha mão. Eu sabia que tinha que falar sobre aquilo com alguém. Mesmo que fosse me odiar por envolver Gina naquilo, ela era minha amiga, a única com que eu poderia contar naquele momento.
- Gina! – eu gritei, quando sua mão direita já estava na maçaneta da porta. Ela se virou para mim, lançando um sorriso tentando me confortar – Eu... Eu preciso te contar algo.
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