A Batida do coração 2
31 A Cicatriz e o Som das Ondas
A noite em Angra dos Reis havia trazido uma calmaria que o peito de Rebekah não sentia há quase um ano. O desfile no Palácio de Cristal havia sido o divisor de águas; a dor excruciante da perda havia finalmente se transformado em uma saudade mansa, daquelas que permitem respirar fundo sem o medo de desabar.
Passava das onze da noite quando Rebekah e Jace decidiram descer até a praia particular em frente ao casarão. O mar estava calmo, com pequenas ondas que morriam na areia com um sussurro rítmico. O céu estava limpo, salpicado de estrelas, e a lua cheia criava um rastro de prata sobre a água escura.
Os dois sentaram-se lado a lado na areia, a poucos metros de onde a água espumava. Rebekah usava um vestido longo e leve de algodão branco, com as pernas encolhidas e os braços abraçando os joelhos. Os seus longos cabelos negros voavam suavemente com a brisa salgada. Jace, vestindo uma bermuda escura e uma camiseta de linho cinza, apoiava as mãos na areia atrás do corpo, olhando fixamente para a linha do horizonte.
Por longos minutos, nenhum dos dois disse nada. O silêncio entre eles agora era confortável, cheio de uma cumplicidade que havia sido forjada no luto, no suporte mútuo e nos milhares de quilômetros que haviam rodado juntos pelo mundo.
O Eco das Velhas Tempestades
Rebekah quebrou o silêncio, deixando a cabeça pender levemente para o lado para olhar o perfil de Jace sob a luz do luar.
— É estranho olhar para esse mar hoje, Jace... — ela começou, a voz saindo mansa, quase sumindo no barulho das ondas. — Há alguns meses, eu achei que a minha vida ia terminar nessas mesmas águas. Eu estava tão cega de dor. E hoje... hoje eu sinto uma paz que eu achava que nunca mais existiria para mim.
Jace virou o rosto para ela, os olhos escuros brilhando na penumbra. Um meio sorriso terno surgiu em seus lábios.
— O tempo é um compositor esquisito, Bekah — Jace respondeu, a voz grave e pausada. — Ele bota uns acordes pesados, faz a música parecer um caos, mas depois ele vai arrumando o arranjo. Eu sabia que você ia voltar a sorrir. Só precisava de espaço.
Rebekah sorriu de canto, olhando para os próprios pés na areia. — Nós passamos por tanta coisa, não é? Se alguém me dissesse, há dez anos, que nós estaríamos aqui hoje, sentados nessa praia como dois sobreviventes, eu nunca acreditaria. Nós brigamos tanto na adolescência, Jace. O nosso orgulho quase destruiu tudo.
Jace soltou uma risada curta, nostálgica, balançando a cabeça. Ele mudou de posição, sentando-se de pernas cruzadas de frente para ela.
— Nós éramos idiotas, Bekah. Especialmente eu — ele confessou com uma maturidade despida de defesas. — Eu achava que o mundo girava em torno da minha bateria e do meu ego. Eu queria controlar as coisas, queria forçar você a me amar, queria ser o centro de tudo. Eu precisei que a vida quebrasse as minhas baquetas no meio para eu aprender a escutar o ritmo dos outros.
A Marca do Passado
Rebekah o observou com carinho. A menção aos velhos tempos trouxe uma memória específica à sua mente. Ela estendeu a mão direita e, com a ponta dos dedos, tocou suavemente o rosto de Jace, subindo até o seu supercílio esquerdo. Ali, quase invisível sob a luz fraca, havia uma pequena linha clara na pele, uma marca antiga.
Jace fechou os olhos por um segundo ao sentir o toque suave dos dedos frios dela. Quando os abriu, o sorriso em seu rosto era maior, carregado de uma ironia terna. Ele levou a própria mão até o rosto, cobrindo os dedos de Rebekah e passando o polegar pela mesma cicatriz.
— Você lembra dessa noite, não lembra? — Jace perguntou, rindo baixo.
— Como eu poderia esquecer? — Rebekah respondeu, os olhos azuis brilhando com a lembrança. — Foi no camarim daquele festival em São Paulo, logo após o término da primeira turnê. Você estava sendo um completo idiota comigo no corredor, gritando por causa do contrato da gravadora... e o Caio apareceu do nada.
— O Caio não apareceu, ele voou na minha direção — Jace corrigiu, a risada ecoando de forma limpa pela praia. — Cara... ele não pensou duas vezes. Ele largou o baixo no sofá e me deu um soco direto no supercílio que me jogou por cima da mesa de som. Eu vi estrelas que nem existiam no mapa.
Rebekah tirou a mão do rosto dele, rindo junto, uma risada leve que limpava o ar. — Eu fiquei desesperada. Tinha sangue para todo lado, o Pedro tentando segurar o Lucas para ele não entrar na briga também, e o Caio com os punhos cerrados, dizendo que se você voltasse a levantar a voz para mim, ele te tirava da banda.
— Ele falava sério — Jace assentiu, o olhar tornando-se mais suave, focado na lembrança do amigo. Ele passou os dedos mais uma vez sobre a cicatriz. — O Caio sempre foi o cara mais calmo da banda, o porto seguro de todo mundo. Mas quando mexiam com você... o instinto dele mudava. Ele me deu essa marca aqui. E quer saber? Eu tenho orgulho dela.
— Orgulho de ter levado um soco? — ela provocou, divertida.
— Orgulho porque essa cicatriz me lembra, todos os dias, do tamanho do homem que ele era — Jace explicou, a voz descendo um tom, preenchida por uma lealdade profunda. — O Caio me deixou uma marca física na pele, Bekah. Uma marca que diz que o amor dele por você era inabalável, e que a nossa amizade era forte o suficiente para aguentar um soco e continuar de pé. Toda vez que eu olho no espelho e vejo esse risco no meu supercílio, eu lembro que eu tenho a obrigação de ser um homem melhor. Por ele. E por você.
O Próximo Compasso
As palavras de Jace flutuaram no ar, misturando-se ao som do mar. Rebekah sentiu o peito aquecer. A presença de Jace ao seu lado não apagava o passado com Caio; pelo contrário, mantinha o passado vivo de um jeito limpo, saudável e respeitoso.
Ela mudou de posição, descruzando as pernas e aproximando-se mais de Jace, até que seus ombros se tocassem. Ela olhou para o mar e, lentamente, deixou a cabeça cair sobre o ombro forte do baterista. Jace não recuou. Ele passou o braço direito por trás das costas dela, envolvendo-a pelos ombros, puxando-a para a segurança do seu abraço protetor.
— Obrigada por não ter desistido de mim, Jace — Rebekah sussurrou, fechando os olhos contra o tecido da camiseta dele.
— Eu nunca vou desistir de você, minha linda — Jace respondeu, depositando um beijo suave no topo da cabeça dela, onde o cheiro do perfume de Rebekah se misturava à maresia. — As brigas ficaram lá atrás, no camarim antigo. Daqui para a frente, o palco é novo. E o ritmo é nosso.
Sob o céu estrelado de Angra dos Reis, os dois continuaram ali, abraçados na areia molhada. As marcas do passado estavam escritas na pele e na alma, mas o futuro, pela primeira vez em muito tempo, parecia um horizonte aberto, pronto para ser navegado com a força de um amor que havia aprendido a sobreviver à pior das tempestades.
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