A Batida do coração 2
34 O Sal da Vida e a Mesa Cheia
O casarão de praia em Angra dos Reis parecia ter recuperado a sua cor. O sol radiante de domingo refletia nas águas mansas do mar, e a brisa leve trazia o cheiro de maresia misturado ao aroma inconfundível de peixe assado e ervas finas que vinha da área da churrasqueira. A melancolia que por quase um ano pairou sobre aquelas paredes de vidro havia sido definitivamente varrida para longe.
Passava de meio-dia quando o som do motor do carro de Jace anunciou a chegada dos dois. Rebekah e Jace desceram juntos. Ela usava um vestido longo de linho verde-água, com os cabelos negros enormes soltos e balançando ao vento; ele, de bermuda clara e camisa de botão preta aberta até o peito. A sintonia entre eles era nítida no compasso dos passos: Jace trazia a mão espalmada na base das costas de Rebekah, um gesto natural de proteção e proximidade que já fazia parte da rotina deles. Eles já não conseguiam — e nem queriam — disfarçar que passavam a maior parte dos dias dividindo o mesmo teto no Rio.
Ao cruzarem o deque da piscina, foram recebidos pelo barulho caloroso das famílias. Gustavo Telles, vestindo seu clássico avental de mestre-cuca, segurava uma espátula, enquanto Anya conversava animadamente com Letícia e Derick Laurentis em volta da mesa comprida de madeira rústica, repleta de travessas de salada e taças de vinho branco gelado.
Boas-Vindas e Alfinetadas Carinhosas
— Olha só quem resolveu dar as caras na civilização! — Guga gritou do lado da grelha, abrindo um sorriso largo ao ver o filho e a nora de alma. — Eu já estava quase ligando para os bombeiros para saber se vocês tinham sido engolidos por rolos de tecido lá no loft.
Jace riu baixo, aproximando-se do pai para um abraço rápido de lado, enquanto Rebekah ia direto abraçar Letícia e Anya.
— Culpa da sua nora, pai. Ela resolveu que o linho da nova coleção precisava de um caimento místico e me fez carregar dez fardos de pano escada acima — Jace brincou, piscando para Rebekah.
— Não dê ouvidos a ele, Tio Guga — Rebekah rebateu na hora, acomodando-se na cadeira ao lado da mãe, com os olhos azuis brilhando de diversão. — O Jace reclama, mas a verdade é que ele usa o ateliê de desculpa para testar os batuques dele nas minhas mesas de corte. Eu quase perdi um molde de seda ontem porque ele achou que o tampo de vidro dava um bom efeito de caixa de bateria.
Derick Laurentis, que até então tomava seu uísque em silêncio com aquela sua postura imponente de executivo, soltou uma risada rústica, olhando para o rapaz.
— Pelo menos ele serve para o trabalho pesado, Rebekah. Se o Drake não levar jeito para a música no próximo álbum, posso contratar ele como carregador na minha importadora — Derick provocou, embora o brilho em seus olhos mostrasse o profundo afeto que nutria pelo baterista.
— Com todo o respeito, Seu Derick, mas os meus braços valem muito mais na bateria do que descarregando contêiner — Jace rebateu com um sorriso audacioso, sentando-se na cadeira imediatamente ao lado de Rebekah, puxando a travessa de petiscos para perto dela antes de servir a si mesmo.
A união dos dois transbordava nesses pequenos detalhes: na forma como Jace sabia exatamente o que ela gostava de comer, no modo como Rebekah apoiava a mão casualmente no joelho dele enquanto ria, e na facilidade com que dividiam o mesmo espaço, sem as amarras do passado.
A Mesa Posta e o Calor do Legado
Guga e Anya começaram a servir os pratos principais. O peixe na brasa estava impecável, e todos se ajeitaram nas cadeiras, preenchendo o ambiente com o som de talheres e taças brindando ao reencontro.
— Eu estava dizendo para a Letícia... — Anya começou, olhando com ternura para os dois jovens à sua frente. — Fazia tempo que eu não via essa casa tão viva. Vocês dois estão com uma energia maravilhosa. A viagem pelo mundo realmente reconstruiu vocês.
Letícia Laurentis sorriu, limpando os lábios com o guardanapo e fitando a filha com os olhos cheios de orgulho materno. — É verdade. A Rebekah recuperou aquele viço nos olhos. E eu sei que boa parte disso é culpa desse rapazinho aí ao lado dela.
Rebekah sentiu as bochechas corarem levemente sob o sol de domingo, mas não recuou. Ela olhou para Jace, que mantinha os olhos escuros fixos nela com uma intensidade madura e apaixonada.
— O Jace foi o meu porto seguro, mãe — Rebekah confessou, a voz descendo para um tom mais suave, preenchido por uma honestidade que fez as duas mães se emocionarem na mesa. — Nós passamos por muita escuridão, mas encontrar o ritmo de novo ao lado dele fez tudo fazer sentido. Nós somos muito unidos hoje porque aprendemos a segurar o tranco juntos.
Jace cobriu a mão de Rebekah com a sua por cima da mesa, apertando os dedos dela com firmeza diante dos pais, assumindo o sentimento sem hesitações.
— Nós não funcionamos bem separados, Dona Letícia — Jace completou, olhando para os sogros e depois para os próprios pais. — A música fica incompleta. A gente aprendeu a respeitar o tempo das coisas, e hoje a única certeza que eu tenho é que eu quero caminhar do lado da Bekah para o resto da vida.
Gustavo Telles limpou uma lágrima discreta do canto do olho, pigarreando para disfarçar a emoção que sempre o traía quando se tratava do orgulho pelo filho. Ele ergueu a sua taça de vinho.
— Bom, chega de sentimentalismo que o peixe vai esfriar e eu não gastei duas horas no bafo para vocês chorarem no meu prato! — Guga exclamou, quebrando o clima tenso de emoção com seu humor barulhento de sempre. — Um brinde à nova geração de Santa Bárbara. Que a música de vocês nunca perca o compasso!
— Um brinde! — as vozes ecoaram em coro, e o som dos cristais se tocando selou o momento.
O almoço seguiu pela tarde adentro, repleto de risadas, histórias inventadas por Guga sobre os velhos tempos de estrada, e alfinetadas carinhosas entre Derick e Jace sobre futebol. Sentados lado a lado, cercados pelo amor incondicional de suas famílias, Jace e Rebekah sabiam que o passado havia sido honrado e o luto, finalmente, transformado em vida. A tempestade tinha ficado para trás, e aquele domingo ensolarado era o reflexo exato do futuro brilhante que eles agora construíam juntos, nota por nota, no mesmo e definitivo acorde.
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